06 de março

50-tons-de-pele

por luíza diener

BlackSwan_Couv

esta semana fui a um dermatologista.

surgiram vários tipos de manchas na minha pele durante a gestação da sansa e eu decidi ir atrás pra tratar.
pedi indicação numa lista que eu participo no facebook e uma mãe me passou o telefone de uma médica que tratou ela. aí liguei lá e a tal doutora não atendia mais lá. com preguiça de ir atrás de outra recomendação e procurar outra clínica que aceitasse meu plano de saúde, telefonei e perguntei qual era o médico disponível para uma data próxima e ela me marcou com um tal doutor. para preservar a identidade do dito cujo, vamos chamá-lo de dr. dotô.

passaram-se duas longas semanas até que chegasse o dia da consulta e eu me preparei toda pra isso: já havia buscado benjoca na escola, dado um lanchinho para os dois, dei mamá pra sansa e deixei ela dormindo enquanto disponibilizei folhas, gizes, lápis e brinquedos pra joca brincar na minha ausência. preferi marcar a consulta num dia que a moça que me ajuda aqui em casa estivesse e deixei eles sob a supervisão dela.
bolsa pronta contendo A-PE-NAS carteira + devidos documentos e celular. sem nenhuma muda de roupa de criança, nenhuma cueca, fralda, garrafa de água desenhada vazando e molhando tudo, nenhum brinquedo mastigado, nenhum pedaço de biscoito esfarelando na bolsa. tudo tão leve, tão descomplicado.
“fica calmo e tranquilo, filho! te amo, viu? volto mais tarde.”
saí de casa, desci, entrei e saí do estacionamento em tempo recorde. nada de choro porque não achou o outro pé do sapato favorito, sem brigas para apertar o botão do elevador, sem pedir colo desesperadamente porque viu um cachorro do outro lado da rua, ninguém saindo correndo calçada afora pegando gravetos e jogando pedras no jardim, nenhum cinto de cadeirinha pra afivelar.

no carro eu pensei em ligar o som, mas aproveitei o silêncio por alguns instantes. depois liguei o rádio e mudei de estação freneticamente, afinal, eu poderia escolher a música que quisesse. e ainda melhor, eu conseguiria ouvir notícia e entender o que eles falam na notícia (você percebe que está envelhecendo quando vibra com esse tipo de coisa). mas ouvir notícia = gente falando e eu queria silêncio ou música para os meus ouvidos. assim, sintonizei na antena 1 e mais uma vez percebi que estou ficando velha visto que essa é minha estação de rádio favorita.
conforme dirigia, me perguntei por que não escolhi uma clínica mais perto de casa: 9 km de ida + 9 km de volta.
a resposta veio imediatamente quando pensei em quase 20 km dirigindo sozinha.
{nota: não é que eu odeie minha família, mas às vezes é tãããão bom ter um tempo só nosso, sem ninguém <3 }

cheguei lá e o lugar era um tormento pra estacionar. rodei, rodei, completei os 10 km da ida e arrumei um lugar meio zé ruela pra parar. desci correndo pra não me atrasar, cheguei esbaforida no elevador e aproveitei pra recuperar o fôlego. não por isso, porque a gente sempre espera trinta horas pro plano aprovar os negocinho e sei lá mais o quê.
fico imaginando o que os médicos fazem nesse meio tempo.
eu, se fosse médica, ia querer na sala do meu consultório uma parede toda de espelho de cima a baixo, com uma barra no meio e iria treinar balé entre uma consulta e outra. foi no mínimo divertido imaginar o dr. dotô de collant rosa bebê, tutu, meia calça e sapatilha fazendo um demi plié port de bras na barra, pra depois treinar alguns petit jeté seguido de pas de deux, tudo ao som da trilha sonora do cisne negro, que é pra dar um ar meio sombrio e surreal pra parada (pensando bem, se vai rolar cisne negro, melhor pensar no dr. dotô de corpete preto, tutu de penas preto e uma maquiagem maluca também preta ao redor dos olhos. não se esqueçam da coroinha).
levando em consideração tudo o que rolou no consultório, imaginar o dotô vestido de bailarina novamente, neste momento, é um tanto quanto reconfortante para mim, visto a saga que se desenrolou na sequência.

depois de beber vinte copos d’água, jogar dez partidas de candy crush, folhear sete revistas caras, atualizar meu instagram cinco vezes, ir ao banheiro três vezes, assinar duas vias de formulários do plano de saúde e ainda ficar olhando para o teto, finalmente uma mocinha me chama: “luíza? pode entrar”. pensei em fazer um doce e enrolar, mas me levantei de uma vez e fui.
chegando lá, o dr. dotô me cumprimenta e manda sentar com seu sorriso largo, cabelos nos ombros e olhos claros quase esbugalhados.
– o que te trouxe aqui?
– bem, doutor, são essas manchas aqui. apareceram na minha segunda gravidez. tem umas manchas nas costas, outras diferentes nas pernas e essa escura aqui, ó, no bigodão.
– tá bom, tira toda a sua roupa, fica só de calcinha e sutiã e deita ali que eu vou sair. quando tiver terminado de se despir, me chama.
fechou a porta e se foi.

enquanto ele falava, eu agi como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, assim, querendo bancar a hannah horvath.
porque, afinal, ele é médico, já deve ter visto de tudo, enquanto eu sou uma mulher bem resolvida de quase-trinta-anos, mãe de duas crianças e que já fiquei pelada na frente de desconhecidos em situações bem menos favoráveis que envolviam urros, gritos, sangue para todos os lados e uma criança saindo toda melecada de dentro de mim. aquilo ali era tranquilo, ainda mais que – por coincidência – minha calcinha e sutiã de amamentação estavam combinando.
bati na porta e esperei ele voltar. pra não me constranger, pensei que estava numa clínica de depilação, que é quase uma situação semelhante, visto que uma mulher de branco me atende, eu fico toda calcinhenta-sutiuda na frente dela e ainda conversamos sobre coisas muito mais constrangedoras como “é bom que depois dá pra fazer um agrado pro marido” ou “menina, tem que ver quando aparece homem pra depilar os países baixos. eu já tive até que segurar lá naquele lugar pra dar uma espichada na pele”.
aí a porta se abriu. sem vinho, sem meia luz, sem barry white tocando ao fundo, ele já chegou com uma lupinha e foi vendo todas as minhas pintas. olhou minha barriga, minhas pernas e pintas “nevo halo”, meus braços e mãos “dermatite atópica” e assim, sem mais nem menos, levantou meu sutiã e deu uma conferida nos mamilos e depois meteu a lupinha na minha virilha: “ah, pelo encravado” seguido de um “vira de costas agora”. lupinha nas costas também “tudo bem, isso é benigno” e logo em seguida “pronto. vou sair e você pode se vestir”.

coloquei minha roupa, toc toc na porta e lá vem o dr. black swan. falou, falou, explicou que tava tudo normal e quando eu questionei sobre o meu bigodão, ele responde “ah, é mesmo”, levanta de novo e apaga a luz. opa! agora vai tocar barry white! mas ele vem com uma lupona gigante que tem luz negra em volta. pensei em todas as piadas que eu poderia fazer relacionadas a csi e outros seriados que envolvem cenas de crime mas fiquei quieta, porque esse dr. dotô não parecia estar pra brincadeira, apesar de toda minha disposição de fazer chacota com tudo pra quebrar o climão. “é, você tem muitas sardas no rosto… hmmm… isso daqui é melasma” e, no mesmo ímpeto que teve quando apagou a luz, levantou, acendeu e sentou na cadeira dele.
digitou e digitou, enquanto eu ficava só de butuca na tela do computador dele, assim, tentando disfarçar de rabo de olho, tendo a plena certeza de que eu não enganava ninguém.
aí eu solto:
– só pra te avisar que eu ainda amamento, viu?
– era isso que eu ia te perguntar agora – 
ele disse – quantos meses tem seu bebê?
– não é mais tão bebê assim. ela tem 1 ano e 8 meses – 
respondo, toda orgulhosa.
– ahhh! então já tá na hora de parar! – ele finalmente fez cara de engraçadinho.
– ihh! tava só esperando você falar isso! não tá não – eu finalmente usei meu humor ao meu favor.
– nessa idade nem precisa mais. vou pesquisar aqui o que você pode usar – e digita no google o nome de algum componente + lactant – ah, tem que escrever breastfeeding.
– isso mesmo, doutor! – 
eu ironizo.
– é, não tem nada comprovado, mas também não é seguro. tem que desmamar essa menina logo, senão daqui a pouco ela vai só querer saber de colo e ficar grudada em você.
– não por isso. ela já é sUuuper grudada.

e eu fiz mais qualquer piadinha sobre amamentação enquanto explicava que ela também é aplv.
por fim ele imprime alguma coisa que, quando vou ver, é apenas uma receita de pomada: “passa nessa dermatite quando der alguma crise, mas não pode fazer uso contínuo porque tem corticoide. quando você desmamar, pode usar outra pomada que é menos agressiva”. e volta a me sorrir aquele sorriso largo do começo da consulta e esbugalhar os olhos como quem encerra nossa conversa.
dobro o papel em três partes, guardo na bolsa como quem nunca mais vai olhar pra ele a não ser que a crise da pele volte e já levanto da cadeira.
– volte quando você desmamar sua filha.
– pode deixar que isso ainda vai demorar pra acontecer.
sem abraços, sem beijinhos, sem troca de telefones. apenas um cordial tchau com cara de até nunca mais.

quando chego no carro, a polícia estava multando os veículos próximos ao meu. entrei com cara de quem não quer nada, disfarcei e me mandei.
a volta não foi tão linda quanto a ida. apenas pensava na minha imagem de calcinha de sutiã suando frio tentando agir naturalmente, a lupa do csi, as palavras nevo, melasma, pelo encravado e desmame, sorriso cínico, olhos esbugalhados, o barry white que não teve e uma vontade enorme de beber vinho tinto.
cheguei em casa me sentindo 20 km mais rodada, com uma receita de uma pomadinha qualquer na bolsa e uma possível multa que chegará aqui em casa mês que vem. mais hannah que isso, só se eu morasse em nova iorque.
contei a história toda pro hilan, que já tinha chegado pro almoço, enquanto a moça ria na cozinha e ele fingia não estar com ciúmes dizendo, em seguida, “você tem que contar isso no blog. faz um vídeo!”.
vídeo não fiz, mas aqui estou eu, narrando minha saga há mais de uma hora.

pensei na tamanha perda de tempo que quase levou minha integridade embora foi aquela manhã, mas no fim foi tão divertido que eu até cogitei a possibilidade de voltar lá daqui a alguns meses.
ééééé… não!

Related Posts with Thumbnails

categorias: saúde e esportes, um pouco de humor

assine nosso feed ou receba por email


10 Comments »

  1. HAHAHAHAHAHAHHAHHAHAH
    Aainda bem que é dermato né, pq de Pediatria não entende NADAAAAAAAAA
    kkkkkkk

    Comentário by Evelyn Costa Wolff — março 6, 2015 @ 2:45 pm

  2. e quando é o pediatra que diz que já passou da hora faz o quê?
    chora, né?
    ahahahahhaha!

    Comentário by hilan diener — março 6, 2015 @ 2:47 pm

  3. Chora e troca pra outro! Uma grande amiga escutou aos 6 meses de idade da sua filha que era pra ela parar de amamentar pq ela estava criando uma criança e não uma cobra! (isso mesmo, uma cobra…)

    Comentário by Maura — março 9, 2015 @ 12:16 pm

  4. Eu fui ao Dermatologista quando meu bebê tinha 9 meses. Tb mandou desmamar pq o bebê já era muito grande e e ainda me perguntou: "Vc não é daquelas que vai amamentar até os 2 anos não né?"
    Resposta: "Isso a gente vai decidir, né filho!"
    Ah vá! Nunca mais voltei e nem usei o remédio que me receitou….vai que seca o leite…hahaha
    Baby de 1 ano e cinco meses segue mamando!

    Comentário by Nathali — março 6, 2015 @ 3:28 pm

  5. Que coisa, tenho um filho de 1 ano e 10 meses, ainda amamento, acreditem que a padiatra dele disse que amamentar depois de 2 anos é patológico!!!! fora as pessoas que dizem que está na hora de parar, que ele não prescisa mais, porque cada um não cuida da sua vida, meu filho vai parar de mamar quando ele quiser e ponto final.

    Comentário by Andréia — março 6, 2015 @ 4:32 pm

  6. Adorei o texto! Também tive uma dermatite nas mãos que nada curava. Fui a vários médicos e nada!!! Por fim uma amiga me indicou uma pomada que eu mando manipula, funcionou em três dias de uso continuo. Pra quem sofria com dermatite por mais de um ano, foi um imenso alívio…

    Comentário by Natália — março 6, 2015 @ 5:11 pm

  7. Por isso que eu nem vou ao dermatologista! Perguntei a pediatra da Alice sobre o assunto… e ela foi bem categorica! Já que vc quer amamentar sua filha, nem perca tempo com os dermatologistas, qualquer tratamento envolve não estar amamentando! Sendo assim… eu vou continuar com a pela feia até minha menina resolver parar de mamar!

    Comentário by Maura — março 9, 2015 @ 12:15 pm

  8. kkk também já disse pra alguns "médicos" que estava amamentando (eu amamentei até os 3 anos dele) e tive que ouvir "sermão" porque eu estava sendo "egoísta", porque eu estava usando a amamentação como uma fuga, porque "para a criança é que não era bom", porque "após os 6 meses já não precisa" e "depois de 1 ano, então, é que não pode mesmo", porque… francamente, a medicina tá falida…

    Comentário by Mônica — março 9, 2015 @ 5:07 pm

  9. Putz, depois de mais de 4 torcicolos oriundos das noites mal-dormidas, fui fazer holfing, já ouviu falar? Não só fico de calcinha e soutien, como ele me apalpa e não sai da sala para eu me vestir.
    Depois deste tratamento, aguento até swing.

    Comentário by Gabi Sallit — março 30, 2015 @ 2:03 pm

  10. Sansa é aplv?? não sabia…

    Comentário by Daniele — abril 1, 2015 @ 11:44 am

RSS feed for comments on this post.
TrackBack URL

Leave a comment

*