a cigarra

fez parte da minha infância, da infância das minhas irmãs, dos meus amigos e provavelmente dos meus pais.
ela passa o ano inteiro calada e ninguém lembra da sua existência até que as chuvas comecem a chegar.

o inverno de brasília é seco. pode ficar meses sem que caia uma gota de água.
com o tempo, a grama – tão abundante e verde – vai murchando e descolorindo até adquirir um tom pálido e desidratado.
mas nem tudo é morte nesta época semi-árida do ano. ipês roxos, rosas, brancos e amarelos florescem alternados e enchem a cidade de cor.

mas da varanda do meu apartamento tudo que eu vejo é uma vastidão cor de palha.

todo ano é assim: um delicioso inverno quase frio e  bem seco, mas que nunca dura muito tempo. aí chega setembro e começa um calor insuportável. a umidade relativa do ar cai ainda mais e fica difícil respirar. quem é daqui geralmente acostuma-se, mas quem vem de fora sofre. para os mais tradicionais, bacias de água dentro do quarto ou toalhas molhadas. para os mais modernos, umidificadores de ar ultrassônicos.
em alguns dias de baixa umidade, as aulas escolares são suspensas. o nariz sangra. bebe-se água o tempo inteiro.

mas depois de três meses a chuva volta. começa tímida. os moradores da cidade comemoram.
da chuva benjamin lembra-se bem e corre para ficar debaixo.
poucos dias depois de um pouquinho de água e a grama já começa a retomar sua cor original.
mais uns bons dias sem água.
em outros dias ela volta.
e começa a ser um pouco mais frequente.

junto com as primeiras chuvas chega ela: a cigarra.
um bichinho curioso, que sai de dentro da terra e deixa-a cheia de furinhos. sobe no tronco da árvore e sofre uma metamorfose, deixando uma casquinha grudada ao tronco.
e aí ela começa a berrar: pé pé pépé pééééééééé.
há quem odeie com todas as forças. há quem já esteja acostumado.

mas a verdade é que nas quadras mais arborizadas de brasília é impossível que ela passe desapercebida, tamanha a gritaria que esse bichinho tão pequeno faz. e quando juntam várias, a barulheira é certa.

o macho canta para atrair a fêmea, mas a verdade é que atrai também os mais curiosos, especialmente as crianças.

o começo das primaveras da minha infância foi sempre marcado por essa mistura de coisas: cheiro de terra molhada (e esburacada), gritaria de inseto, broche de esqueleto de cigarra, a invasão delas nos nossos apartamentos, o “xixi” que não perdoa quem fica embaixo das árvores em que elas se encontram.

gostava de pegá-la com a mão, segurar pelas asas e vê-la gritar estridentemente, ou segurar pelo corpo para sentir sua vibração ao cantar. capturava, colocava em uma caixa de sapatos toda furadinha e nutria a esperança de mantê-la como bichinho de estimação, mas ela sempre morria rápido demais.
até amarrar uma linha nela eu já fiz, como se fosse uma coleira, para vê-la voar enquanto eu segurava a cordinha. na minha cabeça eu poderia adestrá-la para voar junto comigo.

sim, pode parecer estranho, nojento e até um pouco cruel, mas faz parte da história da minha vida.

e aí que na semana passada benjoca teve seu primeiro contato imediato com a dona cigarra.
quis pegar na mão, quis fazer carinho, ouviu ela cantar, viu subir na árvore e foi literalmente batizado por algumas delas.
também ganhou alguns broches de esqueleto de cigarra para enfeitar sua roupa.

de quebra, retomou uma amizade antiga (na medida do possível dentro da sua idade) e muito linda com sua amiguinha, a tetê.
os dois adoraram conhecer (e perseguir) os bichinhos. mas a lidia, mamãe dela (que, por sinal, não é daqui), não se mostrou muito à vontade com a situação. mesmo assim se fez de forte para que a filhinha, nativa da cidade, pudesse exercer toda a sua brasiliensice. 
esses dois juntos são tão fofos que merecem um post à parte.

por mais que a cigarra assuste alguns, desperte nojo ou raiva em outros, em mim o sentimento é nostálgico e lúdico.
por isso fiquei muito feliz pelo meu pequeno – que já é um amante inveterado dos vertebrados e invertebrados – ter curtido essa novidade, que logo também fará parte da história de infância dele.

 

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13 comments

  1. Amo Brasília!!! quando eu era criança, costuma juntar cascas de cigarra e levar pra escola… a gente fazia competição pra ver que pegava mais!! kkkk Hoje eu não moro mais no Plano Piloto, moro em Taguatinga, mas eu tenho saudade da época das cigarras catando (por incrível que pareça) Aqui em Taguá elas são mais tímidas!

  2. Taí uma coisa que não sinto MENOR falta: As malditas cigarras!!!
    Pra mim elas são o barulho da minha infância e a cara da cidade (Só vi cigarras em Bsb), mas não tenho saudade disso não. rsrsrsrsr

  3. Amo cigarras! Em Porto Alegre, mais na Zona Sul, a gente encontra elas! Adoro! E faz parte da minha infãncia o conto "a cigarra e a formiga". Já ensinei a cantiga para minha filha "sou feliz cigarra cantadeira, canto a vida, canto a luz…." e "1,2,3 saco de farinha, 4,5,6 saco de feijão, trabalhando dona formiguinhaaa vai enchendo aos poucos seu porão" hahaha ela adora! Fez parte da minha infância lesmas, minhocas, besouros, fedefede, entre demais bichanos! Ahhh infância boa é em contato com a natureza!
    beijos

  4. Brasília nessa época do ano é linda ! As cigarras fazem parte e eu acho o barulho até relaxante ! Não consigo ter nojo e me traz uma sensação tão boa quando elas começam a cantoria…parece um aviso que o ano esta acabando.

  5. Também tenho as melhores lembranças delas e desta maravilhosa época do ano.
    Quando era adolescente, na mesma quadra em que moro hoje e onde acabei de criar minhas meninas, costumava deitar na grama, ficar ouvindo o canto das cigarras, curtindo a natureza, lavada pelas primeiras chuvas que tinham chegado e trazido o verde de volta, juntamente com o ar fresco e úmido – o ar condicionado de Deus, o melhor de todos.
    Adorei o texto Lu. Lindo ver esta tradição "braziliense" ser passada adiante.
    Bless you e seu filhote lindo !
    Mamy

  6. Peguei muitas cigarras na minha infância quando morei em Brasília nos anos 80 na SQS 209. Como adulto, ainda vou reviver essa experiência maravilhosa, lógico, sem maltratá-las. Abs

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