11 de março

a classificação indicativa é suficiente?

por luíza diener

na  semana passada aconteceu aqui em brasília o seminário internacional sobre infância e comunicação:
“O evento reuniu 250 especialistas de vários países para debater o respeito à liberdade de expressão e a atuação de empresas de comunicação na formação de crianças e adolescentes. Segundo dados apresentados pela ANDI, a criança brasileira passa cerca de 5 horas por dia assistindo televisão
(pasmem!). O que é recomendado pelo especialista é que os pais fiquem atentos a classificação indicativa e manter um constante diálogo com seus filhos.”

bem, a informação acima veio da descrição do vídeo aí do começo do post, apresentado pela TV NBR.
mas gostaria de aproveitar o gancho para perguntar: vocês acreditam que apenas ficar atento à classificação indicativa e manter diálogo com os filhos seja suficiente?

aproveito para expor um pouco meu ponto de vista, já que entrevista é assim: a gente passa mais de uma hora falando e falando (pelo menos eu, que tagarelo pelos cotovelos), mas sabe que no fim só 30 segundos da nossa opinião aparecerá, com cortes.
acredito que a classificação indicativa seja apenas uma base, mínima e irrisória, para dar uma mini orientação aos pais.

exemplo: imagine que por acaso estou mudando os canais de tv com o benjamin por perto (o que nunca acontece, mas ok), à procura de algo para assistir. caio em um programa que parece interessante, mas logo vejo que a classificação indicativa é de 14 anos. automaticamente mudo de canal, porque sei que será um conteúdo impróprio para meu pequeno, de 2,5 anos.
mas figure o contrário: o programa em questão interessou a nós dois e tem classificação livre. um desenho, por exemplo. mesmo assim observo que ele tem cenas relativamente violentas onde os personagens dão pauladas uns nos outros, ou o filho responde o pai com malcriação. devo deixar meu filho ver somente porque a classificação diz que é recomendada a todos os públicos, mesmo que eu discorde da forma como o desenho se desenvolve?

então, alguns pontos que quero levantar baseados na minha opinião pessoal são:

  1. cabe aos pais filtrar o que seus filhos assistem, pelo menos enquanto eles são pequenos.
    como os filhos em questão aqui são as crianças, então sim. os pais devem filtrar tudo que eles veem.
  2. 5 horas de tv por dia? que é isso, brasil?
    vamos fazer os cálculos: 5 horas na escola, 1 hora fazendo dever de casa, 5 horas assistindo tv… só aqui eu já contei 11 horas. em que momento essas crianças brincam mesmo? e não venha me dizer que é no recreio de 15 minutos da escola!
  3. diálogo, sim! mas se uma criança brasileira passa, em média, 5 horas diárias na frente de uma tv (e eu acredito que a maioria dos pais brasileiros trabalhe fora), creio que os pais não estão cientes de tudo que o filho consome na frente da tela.
    então você pode até conversar muito com o seu filho, mas não seria melhor apresentar outras atividades para entretê-lo?
  4. a classificação indicativa é só um parâmetro.
    claro que não estou dizendo que uma criança de, por exemplo 9 anos, não possa assistir algum programa recomendado para 10 anos. acho que nessas horas o que conta mesmo é a maturidade da criança e a base que ela recebeu da família. e realmente gostaria de acreditar que todas as crianças têm uma base familiar e emocional sólidas o suficiente para saberem filtrar o que assistem quando estão sozinhas.
    mas elas são crianças e estão formando opinião. e se a criança passa praticamente metade do dia vendo televisão, você acredita que em nada ela será influenciada?
  5. menos mundo virtual, mais mundo real.
    primeira coisa: é quase hipócrita da minha parte  falar que meu filho não assiste nada de tv. porque – realmente – a tv aqui de casa está desligada há séculos, mas às vezes ele vê um ou outro vídeo no youtube, um filminho no computador… até ao cinema eu o levei semana passada.
    a questão é que não apenas tv, mas computadores, jogos virtuais em geral (videogames, jogos portáteis, jogos online, em celulares, tablets, etc) cada vez mais têm feito parte da vida dos nossos pequenos desde muito, muito pequenos! e com isso eles perdem muito do mundo real!
    por mais que o “virtual” seja dito “educativo”, nada substitui a experiência prática da vida.

antes que as discussões se inflamem, calma!
não estou dizendo que tudo que passa na tv seja porcaria e tudo que está no mundo real seja lindo e maravilhoso. poderia indicar aqui uns bons programas para toda a família. a questão não é essa.

também muita gente que discorda ou estranha a forma como crio o benjamin pode dizer: “mas você também não pode criar seu filho em redoma”. desculpa. nessas horas eu tenho que me segurar para não rir. gente, e tv apresenta o mundo real, exatamente como ele é, né?
é só ver as novelas da globo, os desenhos animados, as milhares de propagandas que passam nos intervalos. tudo aquilo é o mundo real. aham.
segundo ponto sobre a redoma: e qual criança de 2 anos não é criada em uma? os pais podem criar diferentes redomas para seus pequenos (inclusive com a tv) mas, pelo bem da inocência de uma criança, ela não pode – nem deve – ser apresentada à realidade nua e crua que às vezes é amarga até para nós, adultos. graças a deus pela redoma em que eu cresci!

e mesmo que a criança só assista programas maravilhosos, super instrutivos, sem nenhum apelo comercial, mesmo que os pais deixem a programação toda agendada e gravada apenas para eles darem o play e assistirem, como fica o resto? o desenvolvimento físico, motor, social da criança? a criança que vai pra escola já passa metade do dia sendo estimulada intelectualmente. isso quando não passa esse tempo inteiro com a bunda sentada em uma cadeira (com pausa para o lanche, para o banheiro e para a educação física, quando tem).
criança tem que gastar energia, tem que brincar, tem que cair no chão. tem que ter diálogos e conflitos com outras crianças – e que não seja somente via chat, que fique claro. viver situações reais e aprender a solucioná-las por conta própria, não através de um programa educativo, que costuma apresentar o problema e a solução em um único pacotão.

para concluir o post (apesar do assunto ser inesgotável), gostaria de responder minha opinião sobre a questão levantada logo no  título: não. a classificação indicativa nunca será suficiente.

o buraco é muito mais embaixo que filtrar um conteúdo por idade. cada criança é uma. cada família é uma. e existem programas e programas, filmes e filmes.
acho que é tarefa dos pais conhecer melhor o que seus filhos estão vendo, dialogar com eles (claro), mas também reduzir o tempo que eles passam na frente das telas e apresentar outra forma de diversão/aprendizado saudável para eles.

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categorias: educação, erros comuns, filosofia de boteco, questões, vídeos

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6 Comments »

  1. Muito bom e sabios seus pontos!!
    Concordo plenamente!

    Comentário by Damaris — março 11, 2013 @ 10:14 am

  2. Nossa! 5 horas?? É realmente muito tempo!
    Concordo plenamente, a responsabilidade é dos pais em filtrar o conteúdo e determinar a quantidade de tv que crianças podem assistir ( e não importa se os canais passam desenhos "educativos" 24h por dia).
    Vão brincar, desenhar, correr – Ser crianças!

    Comentário by Marina — março 11, 2013 @ 10:41 am

  3. Assunto muito polêmico e que merece sim discussões claras e coerentes como a sua. Adoro a sua "redoma" rsrs… 5 horas vendo TV é realmente muito tempo. Todos nós perdemos com isso. A criança mais ainda. Adultos mais instruidos não passam horas vendo TV porque o conteúdo produzido para o telespectador é na maioria alienante, vazios, cheios de cenas fortes e vulgares… Triste…

    Comentário by Nilza — março 11, 2013 @ 2:23 pm

  4. no vídeo aparece recomendado para menores de 10, 12, 14 ,16, 18
    nao seria maiores de 10 anos e coisa do tipo?

    Comentário by marilia — março 11, 2013 @ 3:20 pm

  5. E pensa: 5 horas é a média. E se tem pais que deixam o filho no máximo 1 hora na tv, devem ter pais que deixam sei lá, 8, 9 horas. É muito louco! Eu amo tv, mas não deixo passar tudo isso em frente a ela, o Miguel assiste, mas tem limites né. Precisamos exercitar todas as inteligências das crianças.

    Sobre classificação indicativa, bem, apenas que o Miguel assiste comigo filmes thrash de terror. Sei lá, eu cresci vendo filmes de monstros, jogando games violentos (Mortal Kombat <3), acho que o mais importante é ter alguém pra conversar, orientar, onde começa o virtual, onde o real, o que pode na tela, o que pode na vida.

    Comentário by Rafael — março 12, 2013 @ 10:31 am

  6. Lá em casa sempre temos atividades e passeios, então a TV fica só na hora que estamos todos juntos na sala…então minha pequena olha no máximo dos máximo 1h de TV, isso é, quando ela pára para olhar, pq ela tem 2 anos enunca se ligou mt em ficar muito tempo na frente da TV…e qd ela olha é canal de desenhos – Discovery Kids, Cultura, DVD´s infantis.

    Comentário by Juliana — março 14, 2013 @ 9:45 am

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