12 de abril

a fase do por quê

por luíza diener

porque

questionada recentemente se o benjamin já havia entrado na fase do por que, refleti um pouco e achei que não.
na verdade ele entrou na fase do “que é isso?”, “de que jeito?”, “onde?”, “aonde?”, “pra onde?”, “quando?”, “pra quê?” e, eventualmente, “por quê?”.

na minha cabeça, a fase do por que se resumia a algo do tipo:
– filho, vamos sair.
– por quê?
– porque vamos encontrar a vovó.
– por quê?
– porque ela está com saudades da gente.
– por quê?
– porque ela gosta muito de você e de mim.
– por quê?
– porque ela nos ama..
e por aí vai.

mas a realidade aqui é trocentas vezes está mais para:
– filho, vamos sair.
– pra onde?
– pra algum lugar que eu ainda não sei qual é.
– com quem?
– com a vovó.
– qual vovó?
– a minha mãe.
– quem é a mãe da sua mãe?
– a sua bisavó.
– cadê ela?
– ela morreu.
– pra onde ela foi?
– pro céu.
– ficar com quem?
– com o papai do céu.
– onde o papai do céu está?
– no céu e nos nossos corações.
– ele tá no meu coração?
– tá.
– tá no coração do papai?
– tá.
– tá no coração do tov?
– acho que tá.
– tá no coração do bebê dentro da sua barriga?
– tá.
– o bebê da sua barriga vai nascer?
– vai.
– mas ele não tá vivo?
– tá.
– o que é vida, mamãe?

vejam bem, em momento algum ele perguntou por que, certo?
mas eu mereço todas essas outras perguntas?
o diálogo acima foi apenas ilustrativo. uma compilação de perguntas que volta e meia surgem em nossos diálogos.

mas esta semana aconteceu do jeitinho que vou narrar. vi uma foto do filho de uma amiga abraçando uma girafa pelo pescoço.
corri toda feliz pra mostrar para o benjoca, que adora animais:

– olha, filho, o menino abraçando a girafa!
– quem é ele?
– o filho da amiga da mamãe.
– qual amiga?
– aquela, que é irmã da nossa outra amiga. ele é primo daquele seu amiguinho..
– cadê a pata da girafa?
– tá lá embaixo.
– embaixo de onde?
– não dá pra ver na foto.
– onde que ele subiu?
– num lugar tipo uma casinha na árvore.
– cadê a escada?
– deve estar ali do lado.
–  o que a girafa come?
– acho que folhas, frutas.. (mamãe ingênua abre o google pra ver o que as girafas comem). come folhas, frutas, flores, galhos e até troncos de árvore.
– que árvore é essa? – aponta pra foto da árvore florida.
– uma acácia.
– a girafa come grama?
– ela não gosta muito de comer grama porque precisa abaixar muito e aí machuca a pata dela.
– por que machuca?
– porque ela tem que ficar agachada e aí incomoda.
– o que é incomoda?
(diálogo interminável, que só acaba se fechar a foto e mudar de assunto, tipo “vamos comer?” e aí entra em um novo tema do tipo “comer o quê?”)

nossa. como me arrependi de ter mostrado essa foto. era só pra ele ver um menino abraçando uma girafa. só. mas virou uma aula de biologia e, se eu deixasse, de geografia, história, antropologia, filosofia.

assim, que fique bem claro que eu a-mo essa curiosidade dele. e que eu dou muita corda pra isso. tanto que eu me preocupo em responder corretamente as perguntas dele de acordo com seu interesse e capacidade de compreensão (que nos surpreende a cada dia).
mas, gente, é o dia to-do! ele fala, fala, fala, pergunta, pergunta, pergunta, fala mais um pouco e – juro! – se não cortar o assunto, isso nunca chega ao fim!
quando não está falando com a gente, está falando sozinho. fala comendo. fala dormindo. dorme falando. acorda falando. narra tudo que ele faz. narra tudo o que os outros fazem.
as vantagens são inúmeras: ele mesmo se delata quando está fazendo alguma coisa errada, ele conta tudo que acontece na nossa ausência, ele exerce e enriquece seu vocabulário constantemente, se comunica com todos à sua volta e ainda serve de quebra gelo em momentos de timidez, dentre tantas outras coisas.

só que cansa! cansa de-mais! ele vai dormir e eu continuo ouvindo aquela vozinha que, quando num lapso não tem nada pra dizer, só fica repetindo “mamãe, mamãe, mamãe”. e aquilo ecoa de uma forma perturbadora.
então ele dorme e eu tento calar a voz dele e a minha. e aí descubro que a culpa é toda minha, que também falo tanto, mas tanto, que às vezes enjoo da minha própria voz.

no fim, encontrei duas soluções – uma para quando estou paciente e didática e outra para quando minhas forças chegam ao fim:

alternativa 1 (a didática): respondo a pergunta com outra pergunta.
– mamãe, o que é isso?
– o que você acha que parece?
– uma girafa?
– sim.
– onde está a pata dela?
– onde você acha que ela está?
– aqui – e responde apontando para um lugar imaginário onde, se a foto fosse maior, estaria mesmo a pata da girafa.
e aí percebo que muitas vezes suas perguntas são retóricas. mesmo sabendo a resposta ele vai lá e questiona.
melhor que dar todas as respostas prontas é instigá-lo a procurar suas próprias. mãe safa, filho satisfeito.

alternativa 2 (a impaciente):
– mamãe, o que é isso?
finjo que a pergunta não é comigo.
– mamãe? mamãe? mamãe?
– o quê?
– o que você está fazendo?
(silêncio)
– mamãe, posso brincar com essa panela?
– pode.
ganho 2 minutos de silêncio e sossego, até que ele resolva me perguntar qualquer coisa sobre a panela.
e assim a gente sobrevive.

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categorias: 2 anos, benjamin, criança, educação, marcos importantes, toddler

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19 Comments »

  1. eu ri

    Comentário by Bruna Benes — abril 12, 2013 @ 2:03 pm

  2. Muito bom Luiza, muito bom… Adorei a dica da mãe didática! Adorei mesmo e ri muito da mãe impaciente. Me vejo nas duas opções pq não sou de ferro, não somos de ferro rsrs…

    Comentário by Nilza — abril 12, 2013 @ 2:20 pm

  3. Luiza, o meu bebê também teve essa fase… exatamente da idade do Benjamin e exatamente como ele. Nada de porque, mas outras perguntas que vão muuuuuito ao infinito e além. Cansa demais mesmo!
    Tô contigo, mandando boa energias de paciência para suportar, porque como todas, essa fase também passa. :):):):)
    Hoje ainda tem várias perguntas (e cada vez mais complexas), mas são menos e eles começar a criar um bom censo de perceber que estão azucrinando. rsrsrsrs
    Beijo, amo seus textos, te acho linda!

    Comentário by Roberta — abril 12, 2013 @ 2:34 pm

  4. Eu também ficava pensando: mas que diábos esse menino não vai entrar na fase dos por quês que todo mundo fala? Até hoje ele nunca perguntou por que de nada, mas é igualzinho o Benjamim…rsrsrs

    Comentário by Francine — abril 12, 2013 @ 2:41 pm

  5. Minha cunhada tenta outra alternativa para o caso da mãe impaciente. Quando o afilhado dela pergunta muito, ela emenda com outra pergunta: Por que você quer saber? Como ele ainda não consegue expressar esse tipo de sentimento/sensação de curiosidade, ele fica pensativo, se cala e para de perguntar pela aquela quase eternidade de 2 minutos. rsrsrs

    Comentário by Gabriela — abril 12, 2013 @ 2:56 pm

  6. hahaha Linus ainda não chegou nesse nível, mas logo chega, mas acho que vai ser menos, pq eu falo mto pouco rs

    Comentário by carolina — abril 12, 2013 @ 3:27 pm

  7. Hahaha Adoro essa curiosidade dele e amei as estratégias porque tenho certeza que com duas a voz delas na minha cabeça não se calará nunca. Acho o máximo o quanto o Benjoca fala e com que rapidez ele pensa nas coisas. Me faz lembrar que estamos no caminho certo.

    Comentário by Tati — abril 12, 2013 @ 3:45 pm

  8. Ri demais! Acho ele esperto demais!

    Comentário by angela machado — abril 12, 2013 @ 3:51 pm

  9. Preciso te contar uma coisa: não acaba tão cedo! Sou mãe de um de sete anos e é desse jeito igualzinho… E eles falam o dia inteiro mesmo, sem parar! O meu ainda fica: "Olha aqui, olha, olha!" E se eu respondo "Estou ouvindo filho, pode falar", ele diz "mas eu quero que você OLHE…" É atenção integral. Mas tem como não amar?

    Comentário by Suzana — abril 12, 2013 @ 4:04 pm

  10. O meu tem três anos e é assim até hoje. fala, fala, fala, fala até eu ficar tonta, hahaha. Beijo!

    Comentário by Thalita — abril 12, 2013 @ 4:22 pm

  11. HEHHEHE A-MEY!
    adooooooooooooooooooooro vc Benjoca <3
    de onde veio tanto cacho nessa cabeleira linda?

    Comentário by tataufer — abril 12, 2013 @ 4:35 pm

  12. ahahahha que delicio

    Comentário by bianca — abril 12, 2013 @ 6:59 pm

  13. Aqui, quando as perguntas excedem o limite do meu cansaço, eu declaro que estou de férias mentais de uma hora!rs A Alice morre de rir, acha muita graça na idéia de que, por uma hora, eu não respondo nenhuma pergunta…rs

    Comentário by Mariana Perri — abril 12, 2013 @ 11:35 pm

  14. Luiza não tenho boas notícias (ou tenho, depende do ponto de vista), mas minha Sophia também pulou a fase do porquê e se tornou um ser pensante, falante, perguntante, falante, questionante, falante, instigante, falante, falante, falante, ed infinitum…ela já tem seis anos e fala sem parar, o tempo todo, sozinha, com os cachorros (reais, imaginários e até o que vem desenhado no pacote de ração)…ou seja, toda essa curiosidade se transforma e olha é muito amor, muito lindo, a razão de toda nossa existência, mas tem hora que dá uma vontade de dizer: "sei lá, minha filha, mas fica calada só 5 minutinhos pra eu poder pensar…" kkkkk…bjo no Benjamin, esse lindo que acompanho virtualmente desde a barriga (igual o segundinho, olha que beleza!)

    Comentário by Thatianne Melo — abril 13, 2013 @ 9:38 pm

  15. Lu, esse "o que vc acha?" E uma tecnica pedagogica, acho que do construtivismo, para estimular a crianca a pensar!!

    Comentário by Lolo — abril 14, 2013 @ 1:19 pm

  16. Essa fase é inesquecível….. Tenho 7 anos de diferença do meu irmão e me lembro dessa fase dele….

    "Mãe… o que é uma piranha"
    " é um peixe filho"
    Mãe….você é piranha?

    HAHAHHAHA

    anote no seu caderninho a fase de porques e questionamentos do seu segundo filho…. ela vai perguntar pra você, você vai responder e ele vai "CONFIRMAR" com o Ben.

    Pai….. quando a pilha do controle remoto acaba, tem que trocar?
    Sim….
    Porque?
    Porque senão o controle não funciona
    É verdade Vânia(eu) o que ele está dizendo????

    Sempreeeeee

    hahahahhahaa

    Prepare-se! e de certa forma…. divirta-se!

    Comentário by Vân — abril 15, 2013 @ 8:44 am

  17. adorei, minha filha é igualzinho no primeiro texto do porque e mais um pouco….

    Comentário by Kathiane Menezes — abril 15, 2013 @ 2:45 pm

  18. ai Benjoca! se eu te pego eu te mordo!
    Maria é assim:
    -to fazendo o n° 2 no banheiro e ela: mãe, pode entré?
    -pode filha.
    -pode comer papel?
    -não maria, faz mal.
    -um só?
    -não maria, faz dodói na barriga.
    -UM SÒ! – com papel na boca…

    Ai essas crianças! rsss

    Comentário by Natália Piassentini — abril 15, 2013 @ 3:01 pm

  19. hauhauhauhauhauhuauahuhua.. NOSSA é a primeira vez q vim no seu blog, site, nao sei, rs, mas to lendo tudo e ri demais c seu texto, mt bom !

    Comentário by Hingrid — abril 27, 2013 @ 7:13 pm

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