29 de maio

amamentação: um desabafo

por luíza diener

amamentação não é um mar de rosas. os blogs, facebooks e youtubes mais recentes e realistas estão aí pra nos mostrar isso (graças a deus!). o começo da amamentação já é naturalmente difícil: o bebê está se acostumando a você e você, a ele. mas os meses (quiçá anos) seguintes podem ser igualmente desafiadores, só que em outro nível.

a primeira coisa que eu preciso dizer é: amamentar cansa pra cacete. em livre demanda (amamentar o bebê conforme a necessidade dele, sem necessariamente se prender a horários), mais ainda. existe um gasto de energia enorme em produzir leite para um serumaninho, assim como estar disponível pode ser igualmente desgastante.

segundo, amamentar exige uma mente minimamente sã, o que – em muitos casos – pode ser paradoxalmente impossível. pensa comigo: eu preciso estar tranquila e descansada para produzir direito um leite pra um bebê (ou criança) que, em muitos casos, vai acordar várias vezes durante a noite. esse acordar constante me impossibilita de descansar o suficiente para produzir o leite do meu bebê (ou criança). então, como descansar pra amamentar se amamentar me deixa tão cansada?

ao longo desses quase 7 anos de amamentação praticamente ininterrupta mesclada a 3 gravidezes, com frequência eu me pego pensando “afinal, o que é mais cansativo: amamentar ou gestar?” e confesso que até hoje não consigo dar uma resposta definitiva. quando estou grávida, tenho certeza de que é formar um bebê dentro do meu ventre; quando não, bato o pé e digo que formá-lo fora de mim (ou seja, recebendo meus nutrientes via tetas) é desesperadoramente pior.
cada momento tem sua glória e desgaste. quando se gesta um bebê, não há descanso, mas teoricamente você dorme e come mais e melhor que quando o bebê já está do lado de fora. quando se nutre um bebê por fora, dá pra aliviar aquele peso da barriga colocando ele num carrinho ou no colo de outra pessoa, mas também não se dorme mais direito, nem come, nem toma banho e é aquele constante estado de alerta que não te deixa baixar a guarda um segundo sequer. na hora que aquela mini boquinha se acopla ao meu seio, parece que metade da minha energia é sugada junto. quando não quase ela inteira. dá aquela moleza, um calafrio percorre a espinha das costas, amolece pernas, braços e pescoço. a vontade é de deitar em posição fetal e acordar somente 9 meses depois. mas não dá.
uma coisa é verdade: o que cansa mesmo é amamentar grávida. aí, fia, é morte na certa. mas vai que dá. eu sobrevivi e tu sobreviverás também.

a esta altura você deve estar pensando “nossa, que desserviço a luíza está prestando à amamentação! falando assim, desse jeito, até parece que amamentar é uma coisa horrível”. não, não é. tem também aqueles momentos incríveis de olhar no olho do bebê, de saber que – em boa parte das vezes – você será a única solução para suas dores e mágoas (do corpo e do coração).
eu não estou aqui pra prestar serviços à amamentação ou outras causas. meu compromisso é com vocês, mulheres. mães ou não. quer tenham planejado a maternidade, quer tenham caído nela de paraquedas.

eu preciso te falar que amamentação é só o começo. parto é só o começo. os primeiros meses ou anos de vida, são somente o começo. cada um deles é um tijolinho na construção daquele pequeno ser? sim! mas se algo ocorreu no meio do caminho e faltou um tijolo ou outro, dá pra compensar de outro jeito.
e, minha amiga, SEMPRE vai faltar algum tijolo! o que a gente faz é tentar evitar que percamos todos. ou, se algum se quebrar por aí, a gente emenda com mais outro quebrado e forma um inteiro.

porque se existe algo de incrível na maternidade é essa resiliência que nos torna mais fortes a cada baque que sofremos nessa longa jornada. dores e frustrações maiores virão: aquela febre que não abaixa ou virose que não passa, a dor de um braço quebrado ou de um coração partido. e as dores do coração, minha amiga, essas são as mais difíceis de cuidarmos. não tem vacina que evite que ela aconteça ou antibiótico, emplasto, unguento que a cure.

sigo amamentando: quer seja para nutrir a criança esfomeada, para curar a criança ferida, para acalentar aquela que se encontra sozinha em meio à noite escura. sigo fazendo isso por amor, por intuição, por instinto, por razão. sabendo que esse é apenas um tijolo que consegui cimentar. sabendo que muralhas gigantes ainda se erguerão. sabendo que este tempo há de passar, sem volta. venço meu cansaço e meu ego. revejo minhas motivações com frequência. e assim continuarei – de noite e de dia – fazendo isso enquanto achar que é necessário para nós duas.

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categorias: amamentação, para mães, psicologia autodidata introspectiva

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3 Comments »

  1. Lindo…..

    Comentário by marcela — 3 de junho de 2017 @ 10:10 pm

  2. muito bom seu artigo parabéns

    Comentário by sergio augusto neves — 15 de agosto de 2017 @ 1:44 am

  3. excelente texto sobre amamentação

    Comentário by como amamentar — 19 de agosto de 2017 @ 4:16 pm

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