24 de fevereiro

benjoca na escola parte III – adaptação

por luíza diener

primeiro dia de aula. a família buscapé todinha foi prestigiar o pequeno: papai, irmã e mamãe, vendo benjoca com aquele uniforme gigantesco onde a camiseta chegava até o joelho, a bermuda até a canela e a mochila, quase do tamanho dele, fazendo-o parecer uma tartaruga. arrumei como pude: dobrei a barra da bermuda três vezes, coloquei a camiseta pra dentro, dobrei a manga da blusa.

e lá ia nosso tartaruguinho todo feliz, cheio de planos para o que ele imaginava ser uma escola.
quando chegamos, algumas crianças já estavam sentadas em fila no chão. logo encontrei os pequenininhos na sua respectiva fila e a professora, que conhecemos antes. ele ficou bonitinho na fila enquanto nós o víamos, tirávamos foto e registrávamos o momento como podíamos. cantaram uma musiquinha, fizeram uma oração (pois é. já discutimos bastante sobre isso por aqui) seguida de um “tchau papai, tchau, mamãe!”. demos um beijinho nele e saímos.
até então eu estava de boa, mas foi só pisar o primeiro pé fora dos portões da escola que senti um nó na garganta e os olhos marejados. sim, meu filho está crescendo e não há nada que eu possa fazer para desacelerar esse processo.

sempre quis ver meus filhos crescerem, mas sempre aproveitei muito bem cada fase. não chego a sentir propriamente uma saudade de quando eram menores. lembro com ternura, com as fofuras e encantos que cada idade tem, mas curto muito o momento presente. acho que talvez por isso não sinta tanta saudade do que já foi.
e aquele era o momento de curtir o presente. curti minha despedida de filho único quando ainda estava grávida, curti seu momento pré-pré-escola e sei que vou curtir muito essa nova etapa.

e daí que as primeiras semanas de aula foram de adaptação. na primeira semana a aula acabou duas horas mais cedo. na segunda semana, uma hora mais cedo. e agora, na terceira semana, as aulas finalmente estão no seu horário normal.
posso dizer que ele se adaptou muito bem nesse começo. claro que a adaptação continua, mas ele está muito feliz com a professora, os coleguinhas e tudo mais.
tanto que, no quarto dia de aula, enquanto nos dirigíamos à escola, ele virou pra mim e disse:
–  mamõe, quando você chegar na escola pode me deixar lá rapidamente e ir embora, tá?
sim, ele usou esse termo: rapidamente. até brinquei com ele e perguntei se ele sabia o que significava isso e ele disse “é ir bem rapidinho”.
combinado então. deixei meu pequeno adolescente bem rapidamente e me pirulitei.

enquanto isso, tenho aproveitado essas manhãs para resolver algumas coisas pendentes (a vida tá acumulada desde dezembro. imaginem só vocês o tanto de pepino que já apodreceu por aqui). mas o tempo ainda era muito curto então eu passei minhas manhãs meio que em função de voltar para buscá-lo, também rapidamente.

os dias se passaram (com hoje já são 18) e ele continuou a pedir que eu saísse rapidamente. e assim o fiz. sem choro, nem vela, nem chorumelas.
até que eu precisei resolver uma pendência na escola. planejei então deixá-lo e depois ir à secretaria. por conta disso, não fui embora rapidamente. fiquei ali esperando começar e acabar a musiquinha e a oração, enquanto ele me olhava com uma cara estranha como quem diz “o que você ainda tá fazendo aqui?”. foi começar a musiquinha que ele saiu da fila ao meu encontro, com os olhos cheios de lágrima: “vai embora, mamõe!”.
vi que por alguma razão a minha presença ali o incomodou, então me escondi atrás de um biombo e fiquei por lá. ele voltou ao seu estado normal, cantou a musiquinha junto e todo o resto. enquanto ele se dirigia à salinha, eu saí e fui à secretaria. mas ele resolveu olhar para trás. aí me chamou “mamõooe”, correu até mim, e começou a chorar. fiquei com muita dó. peguei ele no colo, disse que estava tudo bem. a professora veio atrás, também explicou que estava tudo bem e chamou ele para voltar pra perto dos amiguinhos. ele foi pro colo dela sem resistência alguma, me deu um beijinho e nos despedimos. desta vez eu esperei fora da escola até que começasse sua aula. resolvi o que precisava e depois dei uma espiada na sua sala: ele estava sentadinho com a turma tranquilamente, como se nada tivesse acontecido.

fiquei intrigada com a sua reação.
apesar de saber que ele me ama, assim como eu o amo, ele nunca foi de ter essas atitudes comigo. às vezes faz essas coisas quando o pai sai pra trabalhar (raramente, mas ainda faz) e costuma ter esse tipo de comportamento especialmente com o hilan. tanto ciúmes, quanto isso de pedir colo, de pedir que fique no quarto com ele até que durma, etc.
comigo o esquema é mais prático, sem muito drama.
em momentos de baixa auto estima eu até já cheguei a me questionar se meu filho realmente gostava de mim.
mas a verdade é que eu sempre estive ao lado dele. sempre fui a que fica, não a que sai. até agora, ele passou praticamente a vida inteira ao meu lado, exceto quando ia dormir na casa da avó e voltava no dia seguinte ou nas poucas vezes que viajei bate-e-volta sem ele.
mas, desde quando estava grávida da sansa, boa parte dos rituais passaram a pertencer a ele e ao pai: café da manhã, jantar, banho, dormir. eu passava o dia inteiro ao lado dele mas não necessariamente passava o dia junto com ele.
agora, quando as aulas começaram, isso mudou. eu que acordo ele de manhã, dou café, ajudo a vestir o uniforme, o sapato, pentear o cabelo, escovar os dentes. eu que passei a deixar sua mochilinha pronta de véspera e pensar nos pormenores da sua manhã fora de casa. eu que levo e busco ele.
então esse passou a ser o nosso ritual. quando acordo, deixo constança com o pai e vou dedicar atenção única e exclusiva a ele. vamos só nós dois no carro na ida e na volta a irmã vai comigo para buscá-lo.
voltamos a ter um momento só nosso (antes tão frequente e agora tão raro), por mais corrido que seja.

mas pela primeira vez eu passei a ser a que sai.
quando questionava por que ele queria que eu saísse rapidamente, ele respondia que é porque não queria que eu cantasse a musiquinha. “por quê? a mamãe canta tal mal assim?” – eu brincava.
mas é que depois da musiquinha vinha o tchau, mamãe, como ele veio a me explicar depois.
tenho visto ele voltar realmente feliz da escola (por mais que lá tenha algumas coisas que eu realmente não gosto), me contando os ocorridos do dia, falando o nome de vários amiguinhos que ele já fez.
a professora o elogiou, dizendo o quanto é independente e entrosado.
tenho visto que ele gosta mesmo de estar lá. tanto que, na sexta feira passada ele me disse:
– eu gosto muito da escolinha, mamõe! eu queria ficar o dia inteiro lá.
– é, filho? que legal! o que você gosta tanto na escolinha?
– a professora!
claro que meu coração derrete! a professora é uma querida e eu também gostei dela desde o momento que a vi. fico muito feliz por saber que ele tem esse carinho por ela.

mas depois ele falou:
– eu não gosto quando você vai embora, mamõe.
– mas você não acabou de dizer que queria ficar o dia inteiro na escola?

– é. eu não gosto quando você vai embora, mas eu não gosto de ir embora da escola. mas eu gosto de ir embora da escola também.
– como é isso, filho?
– é que você não está lá na escola.

é claro que meu coração derrete em forma e cor de arco íris e ao mesmo mesmo tempo ele fica todo apertadinho, por ver esse conflito emocional que meu pequeno está passando.
mas não, eu não me arrependo de maneira alguma. eu não quero criar meu filho numa bolha emocional, onde ele nunca terá conflitos. esse é só o começo da vida e ele está bem, porque tem recebido um bom suporte tanto em casa quanto na escola.
tudo isso faz parte do crescimento.

enquanto isso, aqui em casa, eu também tenho tentado me adaptar à nova rotina sem ele. ou melhor, tentado criar alguma rotina sem ele, como separar um tempo para arrumar a casa (que está uma zorra), cuidar do blog (que está às moscas) e dar atenção à constança (que está linda, obrigada).
minha adaptação, diferente da dele, está horrorosa. não to conseguindo conciliar nada. fico naquela euforia de ter um tempinho extra que acabo sem saber o que fazer. já perdi várias manhãs sem que tivesse realizado nada especial. algumas vezes só tentando botar constança pra dormir – sem sucesso – e em outra meio que arrumando a casa, meio que fazendo um almoço mas, no fim do dia, a casa encontra-se ainda pior que quando amanheceu.
exemplo disso também é esse post, que comecei a escrever 9h da manhã e, às 11h ainda estava sem post, sem almoço e com a casa igual que nem passou o fim de semana.

hoje será a segunda reunião de pais, dessa vez só com a professa do benjoca e nós, pais.
estou curiosa para saber o que ela dirá e também ansiosa para narrar o meu lado dos fatos. nutro igualmente a expectativa de poder conversar com ela sobre algumas coisas que tenho discordado e outras que tenho curtido.

(continua ad eternum)

leia também:

benjoca na escola – parte I – o começo de tudo

benjoca na escola – parte II – admissão

Related Posts with Thumbnails

categorias: Tags:, , , , , 3 anos, benjamin, educação, escola, marcos importantes

assine nosso feed ou receba por email


12 Comments »

  1. Essa questão da oração antes de começarem as atividade é complicada, né. Por ser uma escola pública, deveria respeitar a diversidade religiosa, uma vez que teoricamente nosso país não é católico. Se fosse particular, tudo bem, vc teria opção de ir ou não para uma escola que tenha essa prática. Mas a pública, em tese, a pessoa não tem escolha.
    Mas se tem uma coisa que aprendi nessa vida de pesquisar escolinhas (filhote com 4 meses está indo para a 4ª, me julguem!), é que existem pontos em que temos que ceder. E compensar em casa, com muita conversa, mostrando os pontos de vistas diferentes.
    Beijos e boa sorte!

    Comentário by Denise — fevereiro 24, 2014 @ 12:21 pm

  2. Curiosa pra saber quais os pontos que vcs não estão concordando!

    Comentário by jaquelline — fevereiro 24, 2014 @ 1:15 pm

  3. Eu também ficava meio perdida quando tinha um tempo maior pra mim…tudo bem que o tempo não é só seu porque tem a Constança. MAs, eu sentia uma euforia grande e no fim acabava não fazendo nada. Era até estranho, eu definitivamente não conseguia me decidir o que fazer com "tanto" tempo livre, eu queria fazer tudo ao mesmo tempo, queria dormir pra descansar, queria adiantar os serviços domésticos, queria me dar ao luxo de assistir um filme inteiro, mas tbém queria ler um pouco do livro que estava a séculos parado esperando na mesinha de cabeceira, queria ficar no computador, queria tudo e não fazia nada…rsrsrs Acho que ajuda quando a gente tbém se coloca uma rotina, pelo menos pra mim melhorou. Aí eu fazia alguma coisa pelo menos.bjos

    Comentário by Francine B — fevereiro 24, 2014 @ 1:58 pm

  4. A Sansa no fim do vídeo foi quase um pêndulo de hipnose para mim, hahaha! Estou adorando acompanhar a adaptação do primogênito, ainda que venha acompanhada da penosa azul e dos palhaços bizarros!

    Comentário by Tamara — fevereiro 24, 2014 @ 2:03 pm

  5. Lê esse texto!

    Casa Arrumada

    Casa arrumada é assim:
    Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
    Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
    Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
    Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida…
    Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
    Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
    Sofá sem mancha?
    Tapete sem fio puxado?
    Mesa sem marca de copo?
    Tá na cara que é casa sem festa.
    E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
    Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
    Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto…
    Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
    A que está sempre pronta pros amigos, filhos, netos, pros vizinhos…
    E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
    Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
    Arrume a sua casa todos os dias…
    Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
    E reconhecer nela o seu lugar.

    Aqui em casa é assim. Vive bagunçado, mas nela mora gente feliz!

    O texto está no bossamãe.com.br

    Comentário by Kênya Figueiredo — fevereiro 24, 2014 @ 8:09 pm

  6. Oi! Não sou mãe, mas por um acaso comecei a acompanhar seu blog a partir do parto que fez em casa. Lindo… Vc tem uma maneira muito peculiar de narrar essa fase da vida, uma delicia ler. Parabéns pela criatividade e sentimento em tudo o que faz!

    De modo especial, vi que relatou sobre a dificuldade com a rotina do lar, trabalho, etc. Eu acompanho um blog chamado Vida Organizada há muito tempo e ele, realmente, é muito eficaz! Tem dicas simples lá que sinto que podem te ajudar a sair do “caos”, como tirar apenas 15 minutos por dia para dar à desordem. Tenho certeza que encontrará uma saída dando uma espiadinha lá… Bjs

    Comentário by Dalila — fevereiro 24, 2014 @ 8:27 pm

  7. "é que você não está lá na escola". Chorei!

    Comentário by Viviane — fevereiro 25, 2014 @ 3:10 pm

  8. Luíza, lembrei muito de você hoje! Minha filha tem 1 ano e 8 meses e está na escola / creche desde 06 meses. Se adaptou muito bem desde o início. Nesse início de ano, tivemos uns 10 dias mais difíceis, após as férias. Nada fora do normal. Aí as coisas melhoraram, mas ainda com uns dias piorzinhos. Hoje, fui deixá-la na escola e ela praticamente pulou do meu colo. Entrou na sala, abraçou a auxiliar, voltou para pegar a mochila comigo, guardou no lugar, voltou para a porta, meu deu um abraço, deu tchau e bateu a porta na minha cara. Pronto, tchau, mamãe. Só faltou pedir para eu sair rapidamente! hehehe! Beijos.

    Comentário by Luciana — fevereiro 25, 2014 @ 4:47 pm

  9. http://samurailol.com.br/veja-a-diferenca-de-como

    Comentário by Laura — fevereiro 25, 2014 @ 5:10 pm

  10. Que delícia deve ser saber que o seu filho sente sua falta!
    Isso mostra o quanto ele te ama =)

    Comentário by Paula — fevereiro 26, 2014 @ 11:22 am

  11. Eu lembro até hoje da sensação de primeiro dia de aula. Eu tbm tinha uns 3 anos. É uma sensação de – agora é comigo – mas sem estar preparada. Parece que minha mãe ou minha avó (que no caso ia me levar mais) nunca ia voltar. Mas isso só nos primeiros dias. Depois passou.
    O Benjamin está um moço, ficou tão lindo de uniforme. Um charme com esse corte de cabelo. E John?

    Beijos

    Comentário by Mayra Muhieddine — fevereiro 26, 2014 @ 11:34 pm

  12. Oi Lu,

    estamos vivendo a mesma fase, só que o meu filhote é um ano mais novo que o seu. Estou meio perdida assim como vc em relação aos afazeres da casa. Trabalho meio periodo e chego em casa por volta das 15h, já ele fica na escolinha (que é municipal tbm) em tempo integral, qdo eu chego em casa quero fazer tudo ao mesmo tempo pra qdo for buscá-lo poder dar atenção exclusiva pra ele, mas …. tenho sido totalmente #fail num consegui ainda 🙁

    qto as emoções, meu João sempre se mostrou independente, pensei que fosse tirar a escolinha de letra, porém me enganei #failtwo apesar de se entregar nos braços das profes ele ainda chora e ontem foi o pico do emocional dele … as profes me avisaram que ele passou o dia choroso e qdo voltamos pra casa não foi diferente: muito choro, muito dengo, cheguei a pensar que ele estava com dor de ouvido de tanto que colocava as maozinhas na cabeça /0, fiquei bem intrigada, ele nunca agiu assim, mas lendo o teu post agora, vc me "alumiou" kkkkkk, realmente eu sempre procurei estar ao lado dele, voltei a trabalhar a pouco tempo, acredito então que ontem foi o pico do conflito emocional dele …

    E é isso Lu, amo esse blog, no meu hall ele é o TOP 🙂 #adorooooo

    Bjs

    Comentário by Paula de Oliveira — fevereiro 27, 2014 @ 3:55 pm

RSS feed for comments on this post.
TrackBack URL

Leave a comment

*