08 de janeiro

bom senso e justiça

por luíza diener

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tenho uma amiga que tem duas filhas gêmeas – idênticas – e um bebezinho caçula. conheci ela antes do menino nascer, quando as meninas ainda não tinham 1 ano de idade.
sempre achei curiosa a forma como essa amiga, apesar de ter duas crianças geneticamente iguais e muito parecidas fisicamente, sempre soube respeitar a individualidade e as diferenças de cada filha. foi a primeira vez que eu conheci irmãs gêmeas que não se vestiam de forma idêntica, com nomes parecidos ou que fossem tratadas pelos pais como “as gêmeas”. elas sempre foram chamadas pelo nome e tratadas individualmente, não como um par de gente. dentre essas coisas, uma que me chamou atenção foi a forma como elas têm suas coisas bem definidas e, por mais que muitas vezes se vistam parecidas, as roupas se distinguem quanto a cor ou estampa. também os sapatos e acessórios são individuais e várias vezes os brinquedos idem, pra não dar confusão.
“iguais, mas diferentes. assim como elas” – sempre pensei. se uma ganhava uma bola, a outra ganhava também. se uma ganhava uma boneca, a outra também.
eu, como mãe de um filho só – até então – tentava fazer associações a quando eu era criança, com minhas duas irmãs mais velhas. lembrei-me de quando meu pai comprou três bonecas – uma para cada filha – e escreveu nossos respectivos noves na sola do pé das bonecas com caneta de tinta permanente. essa caneta marcou minha infância, sempre identificando e distinguindo nossas coisas.

mas eu me questionava se realmente cada uma precisava sempre ter o que a outra tinha, afinal, crianças de idades diferentes têm necessidades diferentes e às vezes uma ganha algo que precisa, enquanto a outra não tem aquela necessidade.

lembro-me também de quando minha mãe comprou uma sandália pra minha irmã do meio e não comprou sapatos pra mim e pra mais velha. questionamos, contestamos e minha mãe explicou que tanto eu quanto minha irmã mais velha estávamos cheias de bons sapatos, mas que minha irmã do meio tinha crescido o pé de repente e estava sem ter o que calçar, motivo pelo qual ela ganhou a sandália nova.
em contrapartida, se no natal mamãe dava um presente mais caro pra uma das filhas, acabava compensando isso de outra maneira com as outras, de forma que nenhuma se sentisse injustiçada (ela faz isso até hoje).
foi assim que dei à minha mãe o título de daisy, a justa.

baseada nessas três pessoas tão queridas que mencionei acima, sempre tentei ter esse senso de justiça com meus filhos. especialmente agora, que sansa já está maiorzinha e tem mostrado clara e convictamente do que gosta e do que não gosta; o que quer e o que não quer (benjamin nem se fala. nessa escola ele é professor).
me esforço diariamente pra não tomar atitudes que façam com que eles sintam-se preferidos, preteridos ou injustiçados.
exemplo: as roupinhas da constança são, em sua maioria, heranças de outros primos e prima, amiguinhos e até mesmo da tia ou do irmão. bebês gastam pouca roupa mas, conforme eles ficam mais velhos, crescem numa velocidade menos assustadora, deslocam-se mais e fazem mais bagunça, então a roupa acaba ficando puída, manchada, velha mesmo. como suas roupinhas ficaram mais escassas decidi, numa ida ao supermercado junto com os pequenos, escolher umas novas pra ela, pra usar no dia a dia.
– e eu, mamãe? o que você vai comprar pra mim? – pergunta benjoca.
nessa hora tocam dois alarmes simultaneamente: um é o anti-consumismo, que diz que ele tem que aprender que supermercado não é a casa do papai noel, que a gente só gasta dinheiro com o que precisa e que não dá pra ele ter tudo o que deseja, que ele tem que entender que a irmã está mais necessitada que ele e, portanto, somente ela vai ganhar roupa nova.
o outro alarme é o da justiça, que não quer deixar o filho mais velho achando que a irmã caçula tem direito a todas as regalias enquanto ele apenas assiste eu terminando de fazer as minhas compras.
o terceiro alarme toca: o do bom senso. sansa está precisando urgentemente de roupas, sim, mas ele também deu uma crescida e algumas bermudas estão começando a apertar. nada urgente, mas por que não fazer um agrado a ele?
procuro uma bermuda na sessão de meninos sem sucesso. tento pelo menos uma camiseta e necas. aí explico pra ele que não encontrei nada e, surpreendentemente, ele se conforma sem nenhum problema ou auê, como imaginava que pudesse acontecer.

mas nem sempre é assim.
quando joca era bebê, eu dei a ele vários brinquedos que eram meus, entre eles, uma boneca que foi minha predileta. ele não deu muita bola. brincava alguns minutinhos e depois a deixava de lado. quando sansa tinha uns oito meses, ele encontrou essa boneca entre os brinquedos e disse que ia dar para a irmã. ela também não viu graça e até teve medo. mas recentemente descobriu o tal neném e brinca com ele todo dia. também ganhou da avó de natal uma bonequinha de plástico da emília.
de repente, os dois se interessaram. de repente eles brigam por essas bonecas praticamente todo dia. o que eu consigo fazer pra acalmar os ânimos é deixar uma com um e outra com outro.
o mesmo acontece com vários outros objetos, várias vezes por dia. se existe apenas uma bola, apenas um carrinho, uma bicicleta, este vai ser o objeto de disputa máximo.
ter dois objetos semelhantes acaba evitando algumas brigas e é nessas horas que eu me valho do que minha amiga e meu pai faziam: coisas semelhantes para os dois. geralmente não são coisas idênticas, mas há momentos em que eu gostaria que fossem.
eu sei que não dá pra ser sempre assim, até porque eu irei à falência se quiser continuar esse padrão (principalmente se quiser mais filhos), mas confesso que tem sido uma solução interessante para evitar conflitos.
os três alarmes frequentemente tocam em algumas situações, ainda que nem sempre simultaneamente: o alarme anti-consumismo, o da justiça e o do bom senso. às vezes eu atendo apenas um, às vezes dois, às vezes todos.

até que ponto justiça é agir da mesma maneira com os dois? em qual situação justiça é exatamente fazer diferente, de acordo com a necessidade de cada um?

Equality-Equity

essa ilustração rolou bastante nas redes sociais ano passado, mas até hoje passa muita coisa na minha cabeça quando a vejo. vou me ater ao que está sendo abordado aqui (e parar de me questionar por que diabos esses meninos estão assistindo a um jogo de beisebol): de uma forma literal, temos crianças de tamanhos diferentes, com necessidades diferentes. se, nessa situação, eu tentar trazer igualdade aos três (como na primeira imagem), o pequenininho não tem sua necessidade atendida. mas na segunda imagem ocorre o que eu chamo de justiça.
muitas vezes a sansa acaba sendo a pequenininha, porque ela tem muito mais demandas que joca. na idade dela, ele demandava muito também, só que ele não lembra. explicar isso pra ele é uma tentativa de minimizar o conflito, mas quase nunca resolve, porque ele ainda não desenvolveu a capacidade de assimilar tais fatos. o inverso, então, é ainda mais complicado. como explicar pra sansa que ela não pode beber o café da mamãe, comer o chocolate do irmão ou a ração do tov?
como mãe, eu vou sempre tentar fazer o que é justo para meus filhos, o que não significa que necessariamente eles se sentirão “justiçados“, se é que me entendem.
quantas vezes minha mãe disse que “não e ponto final”, o que me gerou raiva, revolta, me fez querer trocar de mãe, me fez pensar que ela era a pior mãe do mundo e que, quando crescesse, eu seria uma mãe completamente diferente. ops! aqui estou eu, agradecida por cada “não”, pelas vezes que ela disse “porque eu sou sua mãe” e por cada “assunto encerrado”.

em situações de baixo ou médio conflito eu continuo preferindo objetos semelhantes para crianças diferentes só pra me esquivar de confusões desnecessárias, mas entender que ser justa nem sempre vai gerar alegria no coração dos meus filhos ou reconhecimento da parte deles me traz um grande alívio. com certeza eles desejarão mudar de mãe muitas vezes e tantas outras dirão “eu nunca vou ser uma mãe/pai como você! eu sou ser super legal!”.

mas a verdade é que, mesmo tendo que lidar o tempo inteiro com esses intermináveis conflitos, também é uma delícia vê-los interagir cada vez mais, muitas vezes ajudando um ao outro, sendo cúmplices ou mesmo brigando por algo que ambos querem. é a delícia de ser e de ter um irmão, é algo com o qual eu sempre sonhei e hoje vejo realizado em sua totalidade, com todos os ônus e bônus e ânus 😀

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categorias: benjamin, constança, criança, irmãos, psicologia autodidata introspectiva

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3 Comments »

  1. Não é fácil mesmo! Tenho dois pequenos (2a8m e 1a4m) e meu universo é exatamente como o seu e sei de todos os desafios diários!

    Lendo seu post lembrei de uma vez que estava no shopping e vi uma moça com duas crianças na mesa. Eles tinham apenas uma banana caramelizada e as duas crianças queriam comer. Começaram a guerra: “é minha” “não, eu não comi doce hoje” “vc não gosta de banana”… A moça não falava nada. Só observava.

    Quando as crianças começaram a querer pegar a banana e comer sem dividir ela disse: Temos apenas uma banana. Vcs são duas crianças. Precisaremos dividir.

    As crianças recomeçaram a discussão sobre quem iria dividir, na certa, quem dividisse, dividiria em tamanhos diferentes e pegaria o maior para si mesmo. Novamente a moça interviu:

    “Um divide e o outro escolhe o pedaço”.

    Pronto! Ela resolveu o conflito, não favoreceu ninguém e desarmou as crianças! Quem dividiu teve que tentar dividir exatamente ao meio, porque se dividisse de forma diferente, o outro pegaria o pedaço maior… Achei a moça muito sensata, e sempre que ouço a palavra “justiça”, lembro dela.

    Que saibamos intervir em todos os conflitos com justiça e sensatez!

    Comentário by Carol — janeiro 8, 2015 @ 11:15 am

  2. gostei muito do texto luíza, e do comentário da carol também!
    ja tinha refletido muito sobre essa imagem, todas essas coisas vou guardando no coração <3
    para o da em que meus filhotes chegarem 🙂

    Comentário by Bruna Bastos — janeiro 8, 2015 @ 5:22 pm

  3. e ânus UHAUAHUA

    Comentário by Laura — janeiro 8, 2015 @ 6:10 pm

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