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13 de fevereiro

mãe: um ser estressado

por luíza diener

quando eu era pequena, não entendia por que minha mãe era tão brava e estava sempre estressada ou chateada com alguma coisa.

aí era só conversar com outras amigas que elas logo falavam “sua mãe? imagina! sua mãe é ótima, super boazinha! precisa só ver a minha”. e eu ficava pensando “ahhh! como eu queria ser filha da mãe de fulana” ou “ah, duvido que na casa de beltrano as coisas sejam desse jeito”.

veja bem: minha mãe não era do tipo que proibia tudo. olhando hoje, acho que ela era maravilhosa. era criativa, inteligente, descolada. dava bastante liberdade pra fazermos as coisas, dentro dos limites da casa, já pré-estabelecidos.
mas, na época, a impressão que eu tinha era que ela vivia cansada e chateada. eu só olhava pra ela e pensava: “minha mãe é uma chata! não me deixa fazer nada! na casa das minhas amigas elas podem fazer várias coisas que na minha nem se sonha! mas ela vai ver só! quando eu tiver a minha casa e o os meus filhos, vai ser tudo diferente”!

tenho apenas uma coisa a dizer a respeito: ahahahahahahah!

é claro que eu to pagando a língua. o benjamin ainda não tem consciência de que eu sou uma chata, mas eu tenho. e como tenho!

começou na gravidez, com todos aqueles hormônios malucos, o cansaço que não passa nunca e coisa e tal.
quando ele nasceu, foi super difícil conciliar o pensamento materno-romântico com a realidade nua e crua das noites mal dormidas, as roupas sempre azedas de leite, me sentindo a eterna nega do subaco cabeludo.

na minha imaginação fértil, eu seria uma mãe diferente. nunca levantaria a voz para o meu filho, não surtaria nunca e seria sempre amável e carinhosa, como a insuperável mãe do caillou.
mas a vida real é bem diferente dos desenhos. beeeeeeeem.

em geral o benjamin dorme relativamente cedo e levanta num horário bom, mas às vezes ele pira e quer acordar no meio da noite pra brincar. aí é um sufoco.
eu acordo um bagaço, nervosa, irritada, gritando pras paredes, brigando com o marido, chutando o cachorro. ponho a culpa na diarista, que não lavou a louça direito, no vizinho, que ronca à noite inteira, toma banho às 6h30 da manhã com um sabonete muito fedido e fica assoando o nariz até expelir todo o pulmão (e acordar a casa toda).
aí passo o dia inteiro que nem um zumbi, me escorando pelos cantos, tirando uns cochilos esquisitos.

mas mesmo quando eu durmo bem, estou sempre tensa. um pouco menos, mas continuo.

eu sou muito cricri. uma legalista por natureza, presidente do crazy mamas country club.
não deixo meu filho assistir tv, não gosto que ele coma açúcar (só socialmente, e olhe lá), odeio aquelas musiquinhas infantis sintéticas e acredito que isso influencia a criança a ter um gosto musical limitado no futuro.
aliás, muitas coisas que eu estimulo ou veto aqui em casa são justamente pensando no futuro dele.

mas não quero sair convertendo ninguém a isso, pelo contrário.
se você não se importa, vá em frente.
eu é que não queria me importar tanto.

e como o benjamin é daqueles macacos meninos cheios de energia e curioso ao extremo, preciso estar sempre alerta.
ele está sempre ligado no que acontece ao seu redor. repete palavras e expressões que usamos (inclusive as ruins), observa nossos comportamentos, ações e reações. uma verdadeira esponjinha.

para a criança tudo é um aprendizado e, na minha opinião,  o melhor jeito dele acontecer é nas tarefas cotidianas: alguns biscoitos ensinam a contar, brinquedos coloridos ensinam as cores, as frutas ensinam as formas e por aí vai.
ensino o benjamin a comer, não a “papar”. a dormir, não a “mimir”. que “auau” é o barulho do cachorro, não o nome dele (e muito menos de outros bichos) e mais tantos outros exemplos que dariam um post à parte.

eu vesti o uniforme de professora 24h e não tiro nem pra tomar banho ou dormir.

sei que às vezes eu deveria ceder um pouco. e eu cedo. mas na minha cabeça, sempre o faço contrariada, geralmente em prol do social, só para não arrumar encrenca ou para fugir de uma discussão desnecessária. mas lá dentro eu fico insatisfeita.
você até pode dizer “ah, luíza, mas é porque é primeiro filho. vai ver que no segundo você vai relaxar mais”. bem que eu quero, mas não conto com isso.

porque não é uma característica nova, que eu adquiri com a maternidade.
ela apenas foi potencializada pela enorme  peso da responsabilidade de criar um filho.

pelo menos enquanto ele é pequeno, não dá pra relaxar tanto. não dá pra mudar as regras do jogo o tempo todo só pra ficar confortável em um determinado momento e botar outras coisas a perder a longo prazo.

eu sei que logo o benjamin vai crescer e perceber o tanto que eu às vezes eu encrenco, brigo, boto limites em certas situações.
ele vai querer fazer coisas que vão além de meter o dedo na tomada ou tomar banho na vasilha de água do tov.
algumas regras serão mais flexíveis e outras mais rígidas, quando um simples não não for suficiente.

nesse momento, por mais que eu endureça sin perder la ternura, a megera vai se estabelecer, a mãe alheia sempre será mais verde, legal e divertida do que eu.
mas eu não me importo. prefiro ser vista como mãe chata (por cumprir meu papel de mãe) a ser amiguinha da garotada e não ter moral nenhuma na hora do vamos ver.

certa vez eu ouvi de uma psicóloga que o confronto faz parte da maternidade (e paternidade) e é extremamente necessário, porque às vezes seu filho vai mesmo pensar diferente de você e em alguns momentos a decisão dos pais vai ter que se impor sobre a dos filhos.

educar vai além de ser legal. claro que a amizade tem que existir também mas, como sempre disse minha véia, “eu sou sua mãe, não sua coleguinha!”

a gente gera, bota no mundo, cuida e ama dessa maneira e intensidade que eles só vão entender quando forem pais/mães.

e por enquanto vai queimando um pouco o filme com eles, que são os ossos do ofício.

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07 de novembro

fruta verde

por luíza diener

estou de mal do mercado que fica aqui perto de casa.
pra quem não sabe, eu não tenho carro, o que me obriga a fazer as compras emergenciais lá mesmo.

originalmente, seria um mercado de boa qualidade não vou falar que é o pão de açúcar, tá?
mas toda vez que eu deixo pra ir lá em cima da hora é sempre a mesma desgraça: todas as frutas estão verdes, com exceção da maçã, da melância e do melãocio (que são pesados demais pra carregar por dois quarteirões) e, às vezes, da uva.
o resto está sempre – SEMPRE – verde.
eu compro mesmo assim e deixo pra amadurecer em casa

isso me deixa pau da vida. especialmente porque têm semanas (seguidas) em que eu não me planejo e aí já viu: uma dúzia de maçãs semi-maduras feitas de diversas maneiras: crua, picada, raspada, cozida, amassada, assada, com ou sem casca. aí não tem cristo que não enjoe, né?
e não dá pra deixar o pequeno sem frutas também.

pra completar, quando o resto amadurece forçadamente (às vezes embrulhado num jornal ou guardado no escurinho do forno desligado), sempre fica esquisito.
a banana do nada fica com umas partes pretas. a pera fica mezzo podre, mezzo verde.
ok que eu sou muito atrasada (pra não dizer retardada) pra atentar pro tempo de maturação das frutas. mas posso botar a culpa toda no pão de açúcar? diz que eu posso…

aí hoje eu vi de longe uma manga cair de madura de uma árvore. logo pensei “vou pegar essa manga pro benjoca comer”, mas uma senhora foi mais rápida que eu.

nesse meio tempo eu divaguei a respeito das frutas amadurecidas no pé.
desejei por um momento ter um pomar próprio e só comer das frutas que amadurecessem e caíssem naturalmente.
imaginei qual seria o gosto de uma maçã madura de verdade, visto que nunca comi uma direto do pomar.
e que bom seria se fosse sempre assim, né?

mas não dá. nem sempre é possível transportar uma banana madurinha que vai viajar quilômetros de distância, chegar ao mercado e ainda ficar dias armazenada lá por dias. apodreceria antes mesmo de acabar.

e continuei o pensamento estendendo a outras situações.
muitas coisas precisam ser adaptadas ao ritmo da vida moderna.
algumas funcionam bem. outras são uma grande forçação de barra.

que bom seria se todos os bebês (os saudáveis e fora de risco de morte) tivessem ao menos a chance de entrarem em trabalho de parto antes de nascer! mas não é todo médico que espera e não é toda a família que está disposta.
(e, claro, antes um bebê nascer imaturo a não nascer, né?)

seria maravilhoso se os recém nascidos fossem respeitados por todos (não alguns) profissionais da saúde não só durante o nascimento, mas no tempo que se segue depois deste grande trauma que é chegar neste mundão de deus.

que as crianças de hoje pudessem crescer no tempo natural delas, sem algumas forçadas de barra que as fazem crescer antes da hora.

que a adolescência fosse uma transição saudável da infância para a vida adulta, sem esses exageros de que aquele é o momento único e oportuno para decidir sua vida profissional. meu deus! e quem é que tem cabeça pra fazer uma escolha tão definitiva em um momento tão turbulento?

e quando finalmente chega a vida adulta, aquele feto que foi forçado a virar bebê, aquele bebê que foi obrigado a ser criança, a criança que foi adolescente tão cedo e o adolescente que recebeu a maturidade embrulhada em jornal de cursos pré vestibulares, muitas vezes acaba por apodrecer por fora e continuar verde por dentro.

alguns continuam a tentar crescer mais e mais e até conseguem lidar com a situação (mesmo que muitas vezes isso fique atravessado na garganta por anos).

mas cansei de ver gente que não soube e continua sem saber como lidar com isso.
que quando, finalmente, chegaria o momento certo de cair naturalmente do pé como um fruto doce, maduro, prontinho para ser bem aproveitado, já está todo estragado.

e eu me pergunto: vale mesmo à pena?
pra que forçar tantas coisas que viriam de um jeito ou de outro, só que no momento próprio delas?
não seria melhor, como diz o poeta, deixar acontecer naturalmente?

qual preço nossos filhos pagarão por conta de ansiedades bobas de nós, mães e pais?

bem que seria bom comer somente fruta madura direto do pomar.
seria maravilhoso poder criar nossos filhos num mundo perfeito, longe de tantas coisas desnecessárias.
só que a gente sabe que na prática não é assim que funciona.

mas não custa tentar fazer nossa parte, né?

boa semana a todos!

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13 de outubro

ganhar $$ com blog? existe isso?

por luíza diener

há um tempo eu escrevi o post quando você crescer falando de todas as minhas aventuras pseudo profissionais nas quais já me meti. e também falei de como a maioria delas não funcionou como eu imaginava.

pois bem, minha última tramoia foi diferente. aconteceu por acaso. do tipo foi indo e acabou fondo e quando vi, já estava metida no negócio.

pois é, menina, resolvi ser blogueira.

aquele sonho besta que mãe tem de trabalhar em casa e não precisar deixar os filhos sob supervisão de terceiros, sabe?
eu sei.

engraçado que o blog começou muito pequeno (como deve ser, afinal). a primeira agência que entrou em contato comigo – há pouco mais de 2 anos – foi uma piada. eles disseram que o blog tinha um perfil legal e tal e queriam saber a quantidade de acessos diários.
eu enchi a boca pra dizer que nos dias de pico eu tinha 30 acessos diários (mas não contei que no fim de semana variava entre 1 e 4 visitantes). claro que ele desconversou e a coisa ficou por isso mesmo.
apenas dois anos mais tarde fechamos algumas campanhas.

aliás, de uns tempos pra cá as agências têm mesmo me procurado e isso faz um bem danado muito mais pro ego que  pro bolso.
quem costuma acompanhar o blog já viu que volta e meia aparecem uns posts publieditoriais. eles são meu trabalho, o ganha pão das quiança. ou pelo menos seria, né? sabe por quê?

é raro eu ver a cor do dinheiro!

na hora de pedir pra fazer o trabalho, as agências querem pra ontem. mas, na hora de pagar, eles demoram meeeeses e ficam sempre desconversando quando eu cobro!

volta e meia eu recebo emails de amigos e até mesmo desconhecidos perguntando como fazer pra trabalhar com isso.
primeiro, gente, deixa eu te contar uma coisa: você pode até se esforçar, mas se você cria um blog com a intenção de ganhar dinheiro, pode até ser que dê sorte (e eu torço por você), mas eu acho forçar a barra demais!
e outra:

prepare-se para trabalhar de graça!

eu não vou começar a citar nomes porque acho que ainda tá muito cedo pra isso (mas enrolem mais um pouco que eu coloco a boca no trombone), mas eu já cansei de fazer coisas pra ganhar uma merreca e ver agência enrolar 3, 4, 5 meses pra pagar.
achei que era só comigo e comecei a conversar com outros blogueiros e blogueiras e vi que acontece com todo mundo.
um amigo demorou quase um ano pra receber por um post publieditorial que ele fez.
quando querem que você faça um post hoje pra ser aprovado e ir ao ar no mesmo dia todo mundo é lindo e maravilhoso. mas me pergunta se alguém paga adiantado? jamé!

e pior: agora tão numas de pegar seu endereço pra te mandar brindezinhos. ok. quem não gosta de ganhar presentes?
mas é só você acusar o recebimento que começa uma de “ah, já que você gostou, divulga lá no seu blog”.
oi? quanto custou isso pra você? cinco, dez reais? isso mal paga meu almoço!
e quando o tal brinde é feio, ruim ou qualquer coisa de mal gosto?
e eu ainda fico me sentindo em dívida com eles, tolinha. golpe de marketing violento do cão.
uma agência uma vez teve a cara de pau de dizer que não pagaria pra eu divulgar a marca porque trabalha com “mídia espontânea”. vem cá, o que há de espontâneo nisso mesmo?
ah, parei com isso!

também têm os sorteios que às vezes acham que tanto a blogueira quanto as leitoras são um bando de otárias. tem loja que tem a cara de pau de querer sortear vale compras de R$ 50,00 no blog. aí a mãe que ganha vai lá toda feliz e a peça mais barata que tem no site é oitenta barão. e ainda tem que pagar o frete. quem é que saiu ganhando no final?
é cada sorteiozinho mequetrefe que me aparece que resolvi boicotar tanto os blogs que fazem quanto os clientes que oferecem (porque também já cansei de ganhar sorteio que nunca me entregou o prêmio). agora só quero prêmio de gente rhyka!

isso sem falar nas propostas de parceria. uns sites mambembes com um pouco mais de acesso que eu tinha quando me iludi com a agência citada lá em cima vêm com aquela de mostra a sua que eu mostro a minha. eles querem colocar banner de graça no meu blog e, em troca, olha que maravilha: eles divulgam meu blog! viva! era tudo que eu precisava!

mas pra mim pior que isso – porque as agências atrasam, mas uma hora ou outra acabam pagando, nos sorteios você não tem nada a perder e nas propostas de parceria eu ainda dou umas boas risadas – é a tal da

sugestão de pauta.

só de ler essas três palavrinhas dá vontade de soltar pelo menos três palavrões. ou melhor, dá vontade de proferir umas palavras tão absurdas que ainda nem foram inventadas!

uma ou duas vezes a gente ainda perdoa, releva e segue adiante.

mas tem nego que é muito cara de pau

e te manda aquela p@#$% de email com um release tão completo que agência nenhuma nunca me entregou. eles explicam tudo tim tim por tim tim, mandam fotos em alta qualidade e sempre trocam seu nome e/ou o nome do seu blog. uma beleza. aí minha pergunta com isso é o que que eu ganho com isso mesmo?
e dar a bunda de graça, quem quer?
vá se lascar.

portanto, meus caros amigos, não se iludam, porque vida de blogueiro não é um mar de rosas.
a gente faz porque gosta e se surgir uma oportunidade interessante, abraça, mas sem se endividar nem fazer planinhos com a grana, ok?

* post publideseditorial em homenagem às minhas queridas agências de publicidade que estão me devendo o mundo. amo todas vocês.

** blogueiras revoltadas, uni-vos!

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26 de julho

quando você crescer

por luíza diener

quem, quando pequeno, nunca ouviu a famosa pergunta “o que você quer ser quando crescer”?

eu já tinha a resposta na ponta da língua.

pra mim sempre foi uma resposta muito óbvia que me acompanhou por anos, até chegar a época do vestibular.
na hora de selecionar a opção de curso eu marquei sem pensar duas vezes: veterinária.

bicho sempre foi minha praia. sempre amei, adorei, venerei.
sonhava em ter cachorro, mas meus pais conseguiram me driblar com peixes, hamsters, coelho, periquitos, chinchila, pintinhos de feira. peguei cachorros e gatos na rua inúmeras vezes, mas eles nunca ficaram.
por volta dos oito anos ganhei uma poodle que não durou nem dez meses.
aos quinze finalmente tive um cachorro que foi meu caso sério de amor. ficou comigo até meus vinte e quatro anos, quando ele nos deixou, literalmente.

mas voltando à veterinária, sempre tive plena e absoluta convicção da minha escolha.

tentei o vestibular uma, duas vezes. não passei.
escolhi um curso mais fácil de passar: engenharia florestal.
ok, combinava comigo, visto que envolvia prantas, minha opção secundária por ordem de gostância.

não deu certo.
pensei em fazer biologia, zoologia, biologia marinha.
não?
então vamos pensar nas ciências humanas e afins.
que tal comunicação social? posso ir pra área da publicidade, ou até mesmo jornalismo.
por que não pedagogia? eu podia vira tia daquelas quiança remelenta tudo.
ah, posso fazer administração e abrir uma empresa.
se bem que eu gosto da área de exatas. acho que vou voltar pra engenharia.

esquece faculdade. vou tentar os caminhos alternativos.

virei adestradora. treinei cachorros de todos os tipos, temperamentos e tamanhos.

pastor alemão, mastim napolitano, labrador, golden, dálmata, dobermann, pit bull, stafordshire, weimaraner, rotweiller, buldogue, yorkshire.
praticamente uma cesar millan fêmea brasileira.
tomei a minha primeira mordida. de quem? do york, claro.
e eu adorava, pirava, chegava em casa exausta e feliz. dormia e acordava pensando em cachorro.

ok, vou montar minha própria empresa de adestramento. não deu certo.

mas vou me embrenhar pro mundo dos negócios.

que tal confeccionar roupinhas pra cachorro?
não durou nem dois meses.

e um esquema de distribuição de frutas, legumes e verduras em domicílio?
nem seis meses.

ah, então eu vou virar barista. adoro fazer café, tenho um olfato apuradíssimo e habilidade com a coisa. mas eu não gosto de café.
nem um ano.

então vou voltar pra engenharia florestal!
“olha, você pode voltar, mas só se não trancar mais nenhum semestre e se suas notas forem ótimas” – disse o coordenador de curso.
“combinado”
no dia seguinte me descobri grávida.

pois é, grávida. daquelas com concentração zero. imagina eu. não conseguia nem decorar um número de telefone. fazia uma coisa de manhã e à tarde já tinha esquecido.
cheguei ao ponto de começar a almoçar, me perdi no labirinto dos pensamentos poluídos por excesso de amor, e esqueci que estava comendo, esqueci que estava no restaurante e de repente me perguntei: por que e o que é que eu estou mastigando?

agora magina eu, a grávida louca, fazendo cinco a seis matérias por dia, numa faculdade que costumava me ocupar o dia inteiro, tendo que tirar notas ótimas sem poder repetir uma matéria sequer e não poder trancar o semestre. se eu não conseguia isso antes de engravidar, té parece que ia dar conta grávida.

vou não, posso não, quero não, meu bebê não deixa não.

então tá decidido. esquece faculdade de novo.
vou ser mãe em tempo integral. vou ser mulher, mãe, dona de casa e esposa feliz.
aham tá bom, cráudia. senta bem ali.

e eu sentei no trono da gonorância jurando que ia dar conta.

no quinto mês de gravidez a louca pediu demissão.
“agora vou cuidar da minha casa! em uma semana ela vai estar tinindo”.

passou um, dois meses, doze, quinze meses e hoje a casa está o caos completo.

agora to aqui, pedindo arrego, procurando uma empregada e preparando o tema pra parte 2 do post, que com certeza levará outro título.

(se isso fosse uma redação de vestibular eu negativaria a nota, com certeza)

mas já adianto que, se te consola, tô bem feliz.

besas

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28 de junho

o pinto do meu pai

por luíza diener

quando eu tinha nove anos aprendi na escola sobre os sistemas reprodutores masculino e feminino.
fiquei fascinada por finalmente saber a verdade sobre de onde vêm e por onde saem os bebês.

na época eu tinha um amigo, o dudu, que era o meu melhor amigo. acontece que eu estava uma série adiante dele. ou seja, ele não sabia necas (literalmente) sobre o assunto.

eu chegava empolgada da escola e perguntava: “dudu, você tem ovários?”.
ele me olhava com aquela cara de desconfiado e desentendido, como quem esperava uma dica minha para saber o que responder.
eu, gaiata, completava: “eu não sei você, mas eu tenho ovários”.
ele caía no meu truque e prontamente respondia: “tenho, claro que tenho”.
e eu morria de rir.

depois de outra aula de ciências eu abordava meu amigo-vítima outra vez: “dudu, você tem próstata? eu não tenho”.
e ele: “não, não tenho não” e eu ganhava o dia sacaneando meu amiguinho.

nisso eu, no auge dos meus nove anos, jurava que sabia tudo sobre sexo e reprodução.

até o dia em que eu caí na besteira resolvi conversar sobre o assunto com minha mãe.
conta ela que eu rodeei, rodeei, até que ela disse:
- você quer saber se eu e seu pai transamos? – palavras dela, tá? porque eu acho transar uma palavra horrível.
e eu, me achando:
- ah, sim, eu sei que vocês tiveram que transar pra gente (eu e minhas irmãs) nascer, mas vocês não fazem mais isso… ?? (tenso)
e minha mãe, a sinceridade em pessoa:
- olha, filha, a gente não fez sexo só pra ter filho (distorci o diálogo porque transar é cafona). a gente continua fazendo sexo.
juro. naquele momento meu mundo desabou. meus pais não podiam fazer sexo. fiquei indignada:
- não! vocês não podem! promete pra mim que vocês nunca mais vão fazer sexo?
- não, filha, eu não posso prometer isso a você. mas posso prometer que hoje nós não vamos fazer.
o sangue ferveu:
- então eu vou costurar o seu pijama pro papai não conseguir fazer sexo com você! eu vou lá na cozinha, pegar uma faca, cortar o pinto do meu pai e vocês nunca mais vão fazer isso!

conta a minha mãe que na hora ela precisou se controlar pra não rir e tentar entender o meu lado.
agora imagine você: uma criança, um cotoco desses, chegar cheia de questões e, por fim, ameaças. se o benjamin me saísse com uma dessas eu não sei se me aguentaria.

pra minha mãe a história terminou por aí.
pra mim, era só o começo da maluquice.

desde então – até os meus pais se separarem, seis anos depois – eu nunca mais dormi direito.
pra mim eu precisava ser a primeira a dormir e acordar somente no dia seguinte.
meu maior medo era meus pais acharem que eu estava dormindo e decidirem fazer sexo ali, debaixo do mesmo teto que eu, no quarto logo ao lado.

mas a verdade é que eu realmente não conseguia dormir até ter absoluta certeza de que os dois estavam dormindo. vestidos.
por várias vezes, ao perceber que eles iam para o quarto, eu ia na ponta do pé e encostava o ouvido na porta, a fim de me assegurar de que eu poderia dormir tranquila.

graças a deus eu nunca ouvi nada.

e mais graças ainda por não ter arrancado o dito cujo na faca. do contrário, não existiriam mais essas duas belezinhas:

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14 de junho

das coisas que eu sinto falta

por luíza diener

a maternidade é linda, maravilhosa, tchurururu e eu ainda planejo ter mais dois filhos.

mas estaria mentindo se não assumisse que sinto falta:

  • de ir a uma locadora, alugar vários filmes e vê-los no fim de semana, de preferência um na sequência do outro
    hoje em dia, quando consigo ver uma hora seguida é porque ele está dormindo. se estiver acordado, não vejo nem 10 minutos
  • de dormir mais de 5 horas seguidas
    se alguma vez eu consegui esta façanha nos últimos 9 meses, o crédito é do marido, que conseguiu tapear o bebê até ele descobrir que o pai não é a mamãe
  • de passar um dia inteiro na internet vasculhando um milhão de sites e blogs variados
    aí à noite eu tento tirar o atraso e não consigo. já são mais de 80 emails pessoais não lidos. achei uns atrasados de quase 2 meses atrás.
  • de achar roupa limpa no armário
    juro que deve ter roupa suja aqui comemorando quase 1 ano de imundície
  • de abrir a geladeira e ter comida pronta
    mesmo que tivesse, teria que comer correndo em 10 minutos
  • de comer em mais de 10 minutos
    ok. exagero meu. eu consigo tal façanha uma vez ao mês, nos fins de semana, quando estou na casa dosparente.
  • de dormir sem sutiã
    já contei que minhas peita vaza até hoji?
  • de ter a casa limpinha
    ok, dessa vez a culpa é do tov
  • de conseguir arrumar a casa
    isso eu já não consigo há mais de ano, porque a barriga não me tomava tempo, mas energia
  • de conseguir curtir minha casa
    quem aguenta casa suja e bagunçada todo santo dia? o jeito é curtir a casa dos outros
  • de consumir cafeína sem sentir culpa
    não é que eu não beba mais coca cola ou não coma mais chocolate. mas to sempre maneirando. não quero um bebê mais elétrico que o que eu já tenho
  • de fazer sexo
    prontofalei

beijo nas linda

ps: não to conseguindo passar as fotos novas pro pc. então fiquem com esse gif velho:


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06 de junho

convulsões

por luíza diener

já faz duas semanas que aconteceu, mas eu lembro como se fosse agora.

ele estava com febre desde o dia anterior.
era segunda feira, e nos preparávamos para a consulta de rotina da pediatra, a consulta dos 9 meses.

passou a manhã inteira quentinho, dengoso, sem dar o menor papo pra comida e bola somente pra mim. mamava por 40 minutos, largava o peito por uns 20 e depois pedia pra mamar outra vez.

tomou um tylenol pela manhã pra abaixar a febre e, pouco antes de sairmos para a consulta, dei um banho nele pra abaixar a temperatura, que estava na casa dos 38,5º C.
não liguei para a pediatra porque a consulta seria em menos de uma hora.
no trocador ele deu uns dois espasmos parecendo aquele reflexo de moro que acontece em recém nascido. ele assustou-se, mas eu não.

combinei com o marido para almoçarmos juntos e depois irmos à consulta. mandei mensagem dizendo que atrasaria um pouco por conta do mamaço que tava rolando em casa.
mamou, dormiu e aproveitei pra deixá-lo no berço enquanto eu me arrumava. mal deu tempo de fazer isso e ele acordou chorando, pedindo colo. terminei de me arrumar com ele a tiracolo.
quando estava quase saindo de casa, ele teve mais um espasmo.
aí aconteceu.
e de alguma forma eu já sabia o que viria depois.

ele deu um grito alto e foi ficando vermelho, jogando o corpo para trás.
os olhinhos viraram e a língua mexia-se rapidamente na boca. o corpo tremia.
era convulsão.
como um flash, tudo o que eu sabia sobre convulsão passou na minha mente: 1ª coisa: ela não mata; 2ª: ela passa; 3ª: não segure a língua, 4º: proteja a cabeça, 5º: agora espera.
eu travei.
andava para um lado e para o outro na casa, sozinha, com ele no colo: “ai meu deus, ai meu deus”.
não consegui fazer nada, só orar. orei, orei, orei, pedi misericórida a Deus. “salva nosso filho, papai! em nome de Jesus!” e só.

em questão de um minuto ele foi acalmando e ficou pálido. a boca ficou roxa e a respiração bem escassa.
“meu filho vai morrer nos meus braços”.
mas logo voltou a respirar bem lentamente.
“vou ao hospital! ele pode ter outra convulsão”.
liguei para o marido e não conseguia falar nada, só hilan, hilan, hilan, hilan, em looping.
e consegui avisar “o benjamin teve convulsões. te ligo depois”.

tive que parar pra pensar em qual atitude tomar.
não tive coragem de pedir socorro no meu prédio.
pensei em ligar para uma ambulância, mas tive medo de demorar demais (se acontecesse outra vez, com certeza ligaria para a ambulância).
liguei para um táxi.
no caminho ele olhava distante, catatônico, sem responder quando o chamava.

no hospital encontrei o marido que já tinha deixado de sobreaviso a situação do filho.
chegamos e já entramos direto.
ele foi encaminhado para o banho morno. depois tentaram achar sua veia mas não conseguiram.
um, dois, três furos e eu estressei: “meu filho não é um boneco pra vocês brincarem de furá-lo. arrumem outro jeito de dar a medicação!”
foi na bunda.
nisso ele já estava bastante consciente e chorava, chorava, só não gritava porque não tinha tanta força.
a temperatura estava na casa dos 38º C.

ele ficou melhor, já estava observando as coisas, apontando para a luz.
vamos fazer o raio-x. nem chegamos a sair e ele deu outro espasmo: “ele vai convulsionar”, avisei.
na mesma hora começou tudo outra vez.
pedi pro marido não olhar (mas ele não me ouviu, claro. eu não ouviria).
a pediatra já chegou, deitou ele na cama e ele ficou ali, de ladinho, todo encolhidinho.
não quis ver seu rosto. deixei ele aos cuidados da médica e equipe.
oxigênio nele. desta vez demorou por volta de cinco minutos.
ela injetou um antiespasmódico e aos poucos ele foi cedendo.

ele chorava baixinho, como no dia do seu nascimento.
ele respirava com dificuldade.
meu coração ficou do tamanho de uma semente de uva.
por dentro eu estava desabando. por fora, tinha que permanecer forte.
“será que eu dou conta disso?”.
quando lembro de tudo, vejo que só Deus pra me dar força em uma hora dessas.

passamos a tarde toda, até o começo da noite no hospital.

raio-x, hemograma completo. tudo ok.

ele passou a tarde com compressas de álcool na testa e na barriga. ficou peladinho (e aquele ar condicionado gelado).

a pediatra explicou algumas coisas sobre as convulsões febris:

  • qualquer bebê ou criança de até 5 anos pode ter convulsões em caso de febre. o sistema neurológico deles ainda é imaturo, então essa é a forma de reagir do corpo;
  • a convulsão febril pode ocorrer ou em picos de febre ou em quedas bruscas de temperatura. no caso dele, as duas ocorreram depois do banho (e em uma delas ele até estava medicado);
  • ele não precisa tomar remédio controlado nem nada do tipo. apenas temos que ficar de olho toda vez que ele ameaçar ter outra febre;
  • agora, deu 37º C a 37,5ºC  a gente já tem que entrar com o antitérmico, visto que ele tem propensão a convulsionar. eu é que não vou arriscar chegar no 38.
  • um antitérmico sozinho não pode ser tomado antes de 4h desde a última ministração, mas eles podem ser utilizados alternados. quando ele estiver com febre, a temperatura deve ser medida constantemente e os antitérmicos pode ser usados alternados de 2h em 2h;
  • a ordem de uso dos remédios para controlar a febre foi: 1º a novalgina (dipirona), depois o alivium (ibuprofeno) e por último o tylenol (paracetamol). mas ele vomitou nas últimas vezes que tomou alivium e eu inverti a ordem com o tylenol. cada um desses pode ser dado alternado de 2h em 2h caso a febre persista;
  • banhos mornos quase frios e compressas com álcool na cabeça e barriga (axilas tb) são bem vindos e ajudam muito a baixar a febre mais branda (e a não subir a mais alta);
  • a convulsão não costuma durar mais de 10 ou 15 minutos. passado disso, corra pro hospital. na verdade, corra pro hospital de qualquer jeito;
  • durante a convulsão, não tente colocar a mão na boca da criança. deite-a, de preferência de lado (para não engasgar) e não tente imobilizá-la. apenas mantenha ela longe de coisas que possam machucá-la e proteja a cabeça com um travesseiro ou almofada;
  • é feio, mas tente observar tudo para depois narrar ao médico, especialmente a duração;
  • passada a convulsão, corra para o pronto socorro mais próximo (a pediatra disse que os hospitais públicos de brasília atendem emergência mais prontamente que os particulares);
  • ele não lembra-se do ocorrido. é como se a memória apagasse o feito (queria que acontecesse comigo também). em geral também não há sequelas;
  • ela disse que não é necessário ir a um neuropediatra, apenas se os pais desejarem como desencargo de consciência.

passados três dias (todos com febre controlada), apareceram vários pontinhos vermelhos por todo o corpo, semelhante a uma assadura. o diagnóstico: roséola.
uma virose chata, mas inofensiva (ofensiva foi a febre), que passou rapidinho.
mas nisso a imunidade dele deu uma abaixada e ele ficou gripado. também pudera: mudança de tempo e 6h seguidas no ar gelado do hospital. não poderia dar em outra.

ele ficou esgotado e traumatizado com todo o desgaste das convulsões os procedimentos hospitalares. passou dias molengo, só dormindo e mamando. parecia um recém nascido com tamanho de menino de 1 ano.
aos poucos conseguiu ficar mais tempo acordado, sentar-se, engatinhar e, ao fim da semana, ficar em pé.

hoje ele está ótimo. ótimo até demais. “fala”, grita, rosna, engatinha na velocidade da luz, escala todos os móveis, não me dá sossego um segundo sequer.
nisso ele está hiper grudento, só quer saber de colo o tempo todo. à noite acorda o tempo inteiro, vem pro meu colo e sossega. passamos uns dias de cama compartilhada mas eu que não dei conta.

dou graças a Deus por ele estar bem, mas tenho pedido ajuda pra que eu consiga lidar com a lembrança.
foi a experiência mais traumática de toda a minha vida.
foi a cena mais horrorosa de todos os tempos (nunca mais assisto o exorcista).
qualquer movimento brusco que ele faz, eu me assusto. qualquer gritinho que ele dá, meu coração acerela e quase sai pela boca.
estou tomando um floral de bach chamado rescue e orando sempre, porque só Deus pra me arrancar essa agonia.

sei que basta a cada dia o seu próprio mal.
os dias que se passaram nas duas últimas semanas foram me ajudando a me recuperar.

mas escrever esse post doeu. foi como jogar vinagre na ferida.
as memórias foram retomadas e passei um dia ansiosa.

eu não gosto de falar de doenças e coisas ruins no blog.
mas pensei em todos os pais que já passaram por isso (tenho descoberto que não são poucos) e vi que é um assunto velado.
é feio, mas não é um bicho de sete cabeças.
não deixou sequelas no meu bebê. apenas em mim e no meu marido.

de repente você já passou por isso. foi pensando exatamente em você que escrevi este post.

ATENÇÃO, PATRULHINHA BLOGUEIRA!
você, que se considera um médico vitual de plantão, que acha que entende mais de tudo do que todo mundo, que tem sempre uma crítica ridícula para fazer.
se você não tem nada para edificar, guarde seu comentário para si.
eu acabo de abrir meu coração e rasgar minha alma pra compartilhar o que passei na esperança de ajudar outras pessoas.
se você não tem um mínimo de bom senso, VAZA DAQUI.

grata!

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20 de abril

birra ou ansiedade de separação?

por luíza diener

porque o benjamin tá super nessa fase e esse texto veio bem a calhar

Tradução de um trecho do capítulo O Choro e as Separações do livro The Science of Parenting de Margot Sunderland. Esse livro foi premiado em 2007 pela Academia Britânica de Medicina como o melhor livro de medicina popular. Não é um simples livro de conselhos para pais, mas sim um livro que, baseado em mais de 800 experimentos científicos, explica o que a ciência nos diz sobre como os diferentes tipos de criação afetam os nossos filhos.

Quando o bebê chega aos seis ou oito meses de idade, começa a operar a angústia da separação que, geralmente, continua a se manifestar de uma forma ou outra até os cinco anos. Em breve o bebê começa a sentir pânico quando não vê sua mãe. É preciso levar a sério a intensidade dos seus sentimentos. A mãe é o seu mundo, é tudo para o bebê, representa sua segurança.

Um pouco de compreensão

O bebê não está “chatinho” nem “grudento”. O sistema de angústia da separação, localizado no cérebro inferior está geneticamente programado para ser hipersensível. Nos primeiros estágios da evolução era muito perigoso que o bebê estivesse longe da sua mãe e, se não chorasse para alertar seus pais do seu paradeiro, não conseguiria sobreviver. O desenvolvimento dos lóbulos frontais inibe naturalmente esse sistema e, como adultos, aprendemos a controlá-lo com distrações cognitivas.

Se você não está, como ele sabe que você não foi embora para sempre?

Você não pode explicar que vai voltar logo, porque os centros verbais do seu cérebro ainda não funcionam. Quando ele aprender a engatinhar, deixe-o segui-la por todas as partes. Sim, até ao banheiro.
Livrar-se dele ou deixá-lo no cercadinho não só é muito cruel, também pode produzir efeitos adversos permanentes. Ele pode sentir pânico, o que significa um aumento importante e perigoso das substâncias estressantes no seu cérebro.

Isso pode resultar em uma hipersensibilização do seu sistema de medo, o que lhe afetará na sua vida adulta, causando fobias, obsessões ou comportamentos de isolamento temeroso. Pouco a pouco, ele vai sentir-se mais seguro da sua presença na casa, principalmente quando comece a falar.

A separação aflige as crianças tanto quanto a dor física

Quando o bebê sofre pela ausência dos seus pais, no seu cérebro ativam-se as mesmas zonas que quando sofre uma dor física. Ou seja, a linguagem da perda é idêntica à linguagem da dor. Não tem sentido aliviar as dores físicas, como um corte no joelho e não consolar as dores emocionais, como a angústia da separação. Mas, tristemente, é isso o que fazem muitos pais. Não conseguem aceitar que a dor emocional de seu filho é tão real como a física. Essa é uma verdade neurobiológica que todos deveríamos respeitar.

Às vezes, impulsamos nossos filhos a ser independentes antes do tempo

Nossas decisões como pais podem empurrar nossos filhos a uma separação prematura. Um exemplo seria enviá-los a um internato (1) pequenos demais. As crianças de oito anos ainda podem ser hipersensíveis à angústia da separação e ter muita dificuldade em passar longos períodos de tempo longe dos seus pais. Sua dor emocional deve ser levada a sério. O Sistema GABA do cérebro é sensível às mais sensíveis mudanças do seu entorno, como a separação de seus pais. Estudos relacionam a separação a pouca idade com alterações desse sistema anti-ansiedade.

As separações de curto prazo são prejudiciais

Alguns estudos detectaram alterações a longo prazo do eixo HPA do cérebro infantil devido a separações curtas, quando a criança fica aos cuidados de uma pessoa desconhecida. Esse sistema de resposta ao estresse é fundamental para nossa capacidade de enfrentar bem o estresse na vida adulta. É muito vulnerável aos efeitos adversos do estresse prematuro. Os estudos com mamíferos superiores revelam que os bebês separados de suas mães deixam de chorar para entrar num estado depressivo.

Param de brincar com os amigos e ignoram os objetos do quarto. À hora de dormir há mais choro e agitação. Se a separação continuava, o estado de auto-absorção do filho se agravava e lhe conduzia à letargia e a uma depressão mais profunda.
Pesquisas realizadas nos anos setenta demonstraram que alguns bebês cuidados por pessoas desconhecidas durante vários dias entravam em um estado de luto sofriam de um trauma que continuava a afligir-lhes anos depois. Os bebês estudados estavam sob os cuidados de adultos bem intencionados ou em creches residenciais durante alguns dias. Seus pais iam visitá-los, mas basicamente, estavam em mãos de adultos que eles não conheciam.
Um menino que se viu separado de sua mãe durante onze dias deixou de comer, chorava sem parar e se jogava ao chão desesperado. Passados seis anos, ele ainda estava ressentido com sua mãe. Os pesquisadores observaram a inúmeras crianças que haviam sido separadas de seus pais durante vários dias e se encontravam em estado de ansiedade permanente. Muitos passavam horas imóveis, olhando a porta pela qual havia saído sua mãe. Aquele estudo, em grande parte gravado em filme, mudou no mundo inteiro a atitude em relação às crianças que visitam suas mães no hospital.

Mas, não é bom o estresse?

Algumas pessoas justificam sua decisão de deixar o bebê desconsolado como uma forma de “inoculação de estresse”. O que significa apresentar ao bebê situações moderadamente estressantes para que aprenda a lidar com a tensão. Aqueles que afirmam que os bebês que choram por um prolongado período de tempo só sofre um estresse moderado estão enganando a si mesmos.

(1) Nota da tradutora: a autora é inglesa e o sistema de internato é muito comum no Reino Unido.

li este texto no blog da rapha, o maternar consciente. recomendo fortemente. tem muitos textos incríveis!

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13 de abril

como reinventar o casamento quando os filhos nascem

por luíza diener

“a criação de filhos é um empreendimento conjunto que exige comunicação, compreensão, amor e disposição de assumir um compromisso. casais que não desenvolvem essas atitudes e habilidades antes do nascimento dos filhos não podem acreditar que as assimilarão de uma hora para outra, assim que o primeiro bebê nascer.
como lidar com problemas comuns e como manter a solidez de seu casamento após a chegada das crianças?
os primeiros meses do casamento são necessários para adaptação de ambos. estilos de vida, gostos, manias e idiossincrasias precisam ser acomodados para que seja possível viver a dois. não é necessariamente um processo fácil, mas pelo menos é possível dedicar-se exclusivamente ao outro, afinando a sintonia da relação.

mas, ainda que o casamento já esteja razoavelmente consolidado, quando o primeiro filho chega, parece que o casal precisa começar do zero, novamente. novos papéis e novas prioridades são um duro teste para a solidez do relacionamento. compreensivelmente, a atenção de ambos passa a voltar-se para o bebê, e, aos poucos, um já não dá atenção ao outro.

como um serzinho tão especial é capaz de trazer tantos desafios à relação conjugal? veja algumas dicas que irão ajudá-lo a reinventar o casamento, para que todos desfrutem da alegria que é fazer parte de uma família.

  1. organize a sua agenda
    isso significa determinar que a pessoa certa realizará a tarefa certa na hora certa; eliminar todas as tarefas desnecessárias que você está realizando no momento; regular o horário de seus filhos de acordo com a rotina que combina com a sua e encontrar tempo para você e o cônjuge.
  2. dinheiro e prioridades
    falando em dinheiro, há um principio bem simples – quando colocado em prática – que ajuda a preservar o casamento vivo, seja qual for a renda do casal: invista seu dinheiro em suas prioridades, ou seja, em seu casamento! presentes, viagens, jantares e etc…
    não esqueça que as melhores coisas da vida são gratuitas, ou pelo menos não são caras, como ver o por-do-sol, colher uma flor para esposa, tomar um sorvete, alugar um vídeo etc
  3. reclamações frequentes
    olhe para trás, para os anos de convivência , e pergunte-se: “qual foi a reclamação recorrente do meu marido/esposa ao longo do tempo”? inverta o jogo. que tal tentar fazer essas reclamações sumirem?
  4. frase de ouro
    descubra as coisas que que fazem seu cônjuge se sentir amado. use a frase de ouro: “o que eu poderia fazer para te ajudar esta noite?” ou “o que eu poderia fazer para ser um marido/esposa melhor?”
    pode doer ouvir a resposta mas, se for humilde e atencioso com as queixas, isso pode mudar seu casamento de verdade.
  5. coerência nas regras
    quando o casal está trabalhando junto na criação dos filhos e está sendo coerente na aplicação das regras, vocês se sentem bem consigo e em relação aos filhos. essa atmosfera potencializa, e muito, o relacionamento conjugal. por isso, conversem e entre em acordo sobre como criar suas crias.

trecho extraído do livro “como reinventar o casamento quando os filhos nascem”, do autor gary chapman, editora mundo cristão.

para ler a introdução do livro, entre aqui e clique em “ler trecho do livro”.

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12 de abril

papinha do mal

por hilan diener

e você, que é mulher, mãe empenhada, emprenhada, empedrada, empoderada, você que sonhou com o dia em que seu filhote começaria a comer papinha salgada.
você foi à feira de produtos orgânicos, inseriu um alimento novo por mês, esperando passar alguns dias e observando.
deu arroz integral, deixou a lentilha de molho por hoooooras.
amassou tudo no garfo, não bateu nada no liquidificador e nem passou na peneira. deixou uns pedacinhos pra estimular a mastigação.
não botou nem uma poeirinha de sal e sempre finalizou os pratos com azeite de oliva extra virgem da melhor qualidade.
na hora de esquentar a papinha, nada de microondas. era banho maria.

você teve paciência e começou com algumas poucas colheradas e muito escândalo.
devagarzinho o seu bebê foi aceitando mais e mais a cada dia. sim! de repente ele já comia duas colheres de sopa de comidinha por refeição! um grande avanço!

chegou um domingo maravilhoso que você passou o dia inteiro fora de casa, atrasou todos os horários quase inexistentes das refeições, fez seu filho almoçar leite materno e comer frutas o dia inteiro.
mas na hora do jantar – ainda fora de casa – resolveu que ele precisava comer, mesmo que você não tivesse preparado nada.
vai até o mercado mais próximo decidida a comprar uma papinha industrializada.
tem de frango? tem só uma! ho, de hortaliças e peito de frango, diz a embalagem. frango, batata, cebola, couve, espinafre e, claro, sal!
ele nunca comeu essas hortaliças, muito menos sal. mas no desespero, vai essa mesmo.

mais tarde você abre o pote e cheira aquela papa verde: o mesmo cheiro das de frango, de carne, de feijão, de tudo! todas as salgadas tem o mesmo cheiro e gosto, é isso?
[pausa: confesso que adoro essas porcarias. já provei de praticamente todos os sabores salgados. as doces são eca. antes eu achava sem sal. mas depois que comecei a fazer papinha em casa, achei praticamente uma sopa de mar morto. fim]
sei lá, não arrisca: coloca só uma colher de sopa no pires. se ele gostar, você dá mais. se ele gostar médio, mas só quiser a metade, você guarda pra depois. se ele não gostar mesmo, você come o resto.
e lá vai aquela coisa totalmente verde, pastosa quase líquida, uniforme e padronizada do pote pro pires, do pires pra colher, da colher pra boca e o bebê mal engole e já abre aquela boca de passarinho faminto, obra de deus mesmo, pedindo mais. e mais. e mais. e mais. você demora um pouco a dar mais (só o tempo da colher voltar ao pote) e ele já começa a fazer escândalo. nisso vai o potinho inteiro e ele pede mais ainda.

como você, mãe dedicada, sente-se após essa saga?:

a. aliviada. nunca mais eu vou precisar cozinhar outra vez.
b. traída. como é que ele faz isso comigo, enquanto que e gasto quase metade do meu dia empenhando-me em fazer uma comida que preste?

eu senti uma mistura de b com a. ba, de banana!

primeiro, fiquei indignada. depois, aliviada. nunca mais vou passar perrengue nos fins de semana! até que a tal papinha industrializada não é tão má assim.

no meio da semana eu resolvi simular uma comida parecida com a do fim de semana anterior.
empolgada, introduzi a couve no ao cardápio dele. fiquei com medo, mas ele aceitou bem.
era a hora de tentar uma papinha batida, pra dar aquela variada liberada pela pediatra.
tinha frango e hortaliças, como aquela. bati tudo no mixer pra ficar um treco mais homogêneo. tinha até cenoura, que ele curte bastante. só nao tinha sal.
na primeira colherada, um careta bem horrorosa.
na segunda, botou tudo pra fora.
na terceira, fez cara de vômito.
na quarta, começou a se contrair, parecia que ia ter uma convulsão por indigestão.
na quinta, ele chorou.
na sexta, não teve sexta. eu parei na quinta.
frustrada, né?

passou uma semana da papinha ho, de hortaliça e mais uma vez passei o domingo fora de casa.
não preparei papinha orgânicaintegralcompedacinhoseazeite. preparei a papinha vouaomercadoescolhopagoetápronta. desta vez escolhi a ga, de galinha com legumes e macarrão. tinha cheiro e gosto de quê? da mesma, sabor ho.
tudo bem, se ele gostou da de ho, vai gostar da de ga, com certeza.
desta vez a avó que deu e mais uma vez ele comeu um potinho inteiro na hora do almoço.

aí aconteceu. ao voltarmos à casa, chegamos e arrumamos algumas coisas, pois nosso lar estava caótico. o bebê continuou no carrinho.
de repente, começou a reclamar. normal. deu uns gritinhos. normal, deve estar cansado daquele bebê desconforto. peraí que eu já te tiro!
daqui a pouco eu olho de canto de olho e vi ele vomitar. mas não foi um vomitinho qualquer. foi um no estilo aretuza de ser.
antes eu brincava de dizer que ele vomitava. na verdade eu sabia que ele estava era golfando. mas como há pessoas que dizem golfar, outras gorfar e outras ainda dizem gofar, eu sempre dizia que ele vomitava, pra ficar mais fácil.
cruzes. aquilo sim foi um vômito.

adivinha do que aquilo tinha cheiro? tinha cor de quê?
isso mesmo, de ga, de galinha, legumes e macarrão.
era como se ele tivesse acabado de abrir o pote e jogado a papinha sobre si. e depois tacado um pouquinho de vinagre, porque o cheiro já estava azedo.
sério, já tinha pelo menos umas duas horas que ele tinha comido aquele treco e a coisa ainda tava lá, praticamente intacta.

corri com ele para o banheiro. tinha vômito até na cabeça.
fomos pra debaixo do chuveiro, ele e eu.
no banho ele simplesmente apagou no meu colo (coisa que ele NUNCA faz). deu umas belas cochiladas no meu colo. saiu do banho extremamente mole e sonolento. nem fez aquela algazarra de me enlouquecer no trocador.
ficou hiper dengoso e eu não sabia se curtia aquilo ou se ficava preocupada, afinal ele nunca foi assim, nem quando recém nascido.
vesti a roupinha, sentei ele na minha cama-trocador e ele começou a ameaçar vomitar. foi só o tempo de pegar a fraldinha e ele vomitou mais ga. desta vez com cheiro de vômito mesmo.
limpei ele e a boca fedida. tentei dar água, mas não aceitou.
encostei ele no meu peito e ele chapou. simples assim.

depois de uns dez minutos ele acordou, pediu pra mamar, mamou uns 5 minutos e rejeitou o peito. pediu de novo. rejeitou. concluí que ele estava sentindo-se enjoado. dei a chupeta e ele dormiu de vez.

depois disso eu não sabia dizer qual foi a causa real daquilo tudo.
se foi o fato dele passar o dia sendo cuidado por outras pessoas e me vendo somente à distância (mas a hipótese não pareceu tão coerente assim), se foi a mudança de ambiente (mas ele só foi a ambientes conhecidos), se foi a mania de botar tudo na boca e nisso ele pegou algo que o fez mal ou se foi mesmo a tal papinha industrializada.

claro que decidi botar a culpa na papinha. mais especificamente no sal. aquela porcaria tinha 71 mg de sódio!

mas se tem uma coisa que eu aprendi com o michael foi: don’t blame it on sunshine, don’t blame it on moonlight, don’t blame it on good times, blame it on the boogie.

mesmo assim, minha conclusão nisso tudo foi: continua com a sua papinha fresca (em todos os sentidos) e deixa essas industrializadas pra lá.

papinha nestlé, nunca mais (prontofalei)!

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