20 de setembro

chamaram meu filho de viado

por hilan diener

dia desses, voltando da escola, meu filho veio com uma conversa assim:

– pai, meu amigo falou aquela palavra pra mim.
– qual palavra? pode falar. (fiz como se tivesse liberado dizer o palavrão)
– viado. ele me chamou de viado.
– poxa, isso não tá certo.
– o que é viado, pai?
– viado é um jeito ofensivo e errado de chamar homosexuais ou gays.

outro dia aconteceu basicamente a mesma coisa. mas, ao invés de chamarem de viado, foi de mulherzinha.

filho, mulherzinha não é xingamento! mulheres não são fracas! veja sua mãe, suas irmãs, suas avós! elas são mulheres e não são nada fracotes. são fortes, corajosas, muito espertas e especiais.

há alguns meses fizeram uma foto do principezinho george numa pose dita “afeminada” e muitas pessoas estão chamado uma criança de 4 anos de “reizinho gay”! pelo amor! ele não é gay, ele é uma criança! ainda que fosse, isso não poderia ser bostejado como ofensa ou de forma depreciativa! até quando ser o que somos virou xingamento? até quando crianças – como foi o caso dos amiguinhos da escola do benjoca – vão continuar reproduzindo falas e ofensas de um universo machista particular? isso é ou não é um sintoma de uma sociedade doente que exige uma masculinidade agressiva e cheia de demonstrações de poder?

lembro que na faculdade li um livro do Paulo Freire e uma frase que me marcou: “ninguém pode ser autenticamente humano, enquanto impede outros de serem também.”
se tem uma coisa que me daria a total sensação de dever cumprido seria deixar para o mundo pessoas humanas de verdade. pessoas empáticas e que conseguem entender que, ainda que o mundo seja mau e que existam coisas más (como machismo e preconceito), o sonho de um mundo melhor é possível.
nos empenhamos muito em tentar fazer as crianças pensarem criticamente procurando conciliar essa tensão da realidade cruel do mundo, mas sem aceitar essas como imutáveis e inevitáveis

eu morreria feliz se luíza e eu conseguíssemos deixar esse legado para o mundo. onde a palavra “gay” signifique “feliz”, não uma ofensa e muito menos uma doença. onde “gordo” não seja um xingamento e ser mulherzinha seja sinônimo de ter muita força!
claro, somos humanos. erramos – e muito – mas cabe a nós fornecer as ferramentas para que as crianças construam suas próprias armas para combater os preconceitos e retrocessos desse mundo. deve partir da gente a atitude de não tolerar homofobia, racismo, machismo e qualquer outro tipo de preconceito que venha embutido em nossas falas e no nosso cotidiano. assim, criaremos pessoas com uma chance muito maior de acertar mais do que a gente.

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categorias: amor, pai feito, para mães, para papais

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3 Comments »

  1. Numa época em estamos retrocedendo (infelizmente) na velocidade, é muito fortalecedor ver pais engajados em criar os filhos sem preconceito.

    Fé que conseguiremos!

    Abraços na família linda, lambida nos dogs!

    Comentário by Imira — 20 de setembro de 2017 @ 4:36 pm

  2. D+!!!

    Comentário by Franciele — 20 de setembro de 2017 @ 5:09 pm

  3. Seria ignorância não enxergar o que a própria natureza expressa: a diversidade. Todos somos diferentes… cada um com sua característica física e opinião. Não é errado pensar diferente do outro. Aliás, esse princípio meu pai e minha mãe me ensinou ainda pequeno: respeito! Eu não concordar com a homossexualidade não me faz deixar de amar o homossexual! Quem sou eu para julgar alguém! Estamos vivendo um mundo de muita intolerância. TODOS (homossexuais ou não) devemos respeitar a diversidade de opiniões! Ter uma posição sobre algum assunto é muito valoroso. Ruim é ser imparcial. Sigamos vivendo nossas vidas com posicionamentos que nos tragam felicidade e amor ao próximo! Um abraço!

    Comentário by Giovani Patareli — 21 de setembro de 2017 @ 6:36 am

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