10 de setembro

amor que não se mede

por luíza diener

confort03

eu nunca havia visto aquele olhar no rosto da minha mãe. ela, que sempre soube lidar tão bem com as situações da vida, sempre tão otimista mesmo em momentos tão difíceis, dessa vez trazia um semblante triste e preocupado.
na época eu não sabia do que se tratava e acabei me esquecendo. mas, 3 anos depois, ela me contou que o médico havia me diagnosticado com agenesia uterina, ou seja, ausência de útero fértil.
essa história é longa e eu já narrei aqui e aqui no blog. ela só me contou do que se tratava quando – por algo que eu chamo de milagre divino – o médico mostrou em ecografia que meu útero estava perfeitamente normal. dessa vez a cara dela foi de alívio e nossos corações se alegraram juntos.
ela me confessou que, caso eu não pudesse ter filhos de fato, ela gostaria de emprestar seu ventre para gerar o neto/neta, por mais difícil que isso pudesse ser.
mesmo assim, só vim a entender seu sentimento mais de dez anos depois, quando finalmente engravidei pela primeira vez e experimentei o incrível amor de mãe.

então benjamin nasceu e o tempo passou.
ele ainda era um bebê e estava prontinho para ir à consulta de rotina com a pediatra, no dia que completou nove meses de vida. estava com febre, mas aparentava boa saúde, apenas um pouco dengoso e, por isso, só queria meu colo. o jeito foi terminar de me arrumar com ele a tiracolo mas, antes que conseguisse terminar de me arrumar ele gritou bem alto, deu um espasmo de braços abertos, se jogou para trás e começou a revirar os olhos. seu corpo travou, ele começou a tremer. era convulsão. depois de mais ou menos um minuto, a convulsão passou. ele ficou desmaiado no meu colo, pálido, depois roxo, completamente mole e aparentemente sem ar. naquele momento eu tinha certeza de que ele iria morrer em meus braços. a única coisa que fiz foi orar, orar, pedir ajuda a Deus. aos poucos ele recobrou o fôlego e a cor, apesar de parecer estar ainda inconsciente. falei com o marido, corri para o hospital e nos encontramos lá.
depois de examinado e medicado, benjoca convulsionou outra vez. dessa vez durou mais – por volta de cinco minutos – e os médicos precisaram intervir com medicação e oxigênio. quando voltou, ele respirava com dificuldades e chorava baixinho. foi o dia mais tenso da minha vida. até aí eu estava firme como uma rocha.
quando a tempestade pareceu acalmar eu saí da ala pediátrica e liguei para a minha irmã para contar o ocorrido. a voz não saiu, a garganta enodou e de repente eu desabei. chorei um choro dolorido. eu me senti fracassada como mãe, pois não tinha controle algum sobre aquela situação. me senti totalmente impotente. depois que o furacão passou eu tentei me recompor. engoli o resto do choro e voltei para perto do meu filho, afinal, ele precisava de mim. e aí senti que meu rosto fazia aquela mesma expressão da minha mãe, enquanto eu tentava disfarçar e me revestir de força para continuar.
expressão essa que ela passou a fazer com mais frequência na época que me tornei adolescente, fosse quando eu ia a uma festa a contragosto dela ou quando dormi pela primeira vez na casa do meu namorado (hoje marido). as preocupações se tornaram outras, mas hoje – mais que nunca – eu entendo aquele olhar da minha mãe, de quem se preocupa por querer o bem de seus filhos, mas tenta mostrar que “vai ficar tudo bem”, por mais que naquele momento tudo pareça escuro e nebuloso.

assim como minha mãe, que se dispôs de coração para ter um filho por mim, tudo que eu queria naquele momento das convulsões era estar no lugar do meu filho, para que ele não sofresse. eu enfrentaria tudo – dores, medicações e até a morte, se necessário – para evitar que ele passasse por aquilo.
meu coração finalmente entendeu a grandeza e plenitude de um amor totalmente abnegado e incondicional.
muitas vezes as mães nos olham com aquela cara que pode parecer exagerada e até repressora em certas ocasiões, quando por trás daquilo tudo existe um desejo legítimo de nos ver sempre seguros e felizes.

sou extremamente grata por ser mãe e, finalmente, conseguir compreender todo esse amor que parece não caber na gente.

* * *

esse post faz parte da ação #AmoComoVocêAma, um movimento de Comfort para mostrar que não importa as falhas e defeitos de nossas mães; a gente ama o jeito que elas nos amam.
também apoiam essa causa as mães Shirley (www.macetesdemae.com), Camila, Mariana e Patrícia (www.mundoovo.com.br). 

faça parte você também do nosso movimento e celebre o amor à sua mãe, que é perfeito mesmo com suas imperfeições. conte uma história marcante usando #AmoComoVocêAma nas redes sociais, compartilhe esse texto ou homenageie sua mãe clicando aqui: www.amocomovoceama.com.br

Related Posts with Thumbnails

categorias: publicidade

assine nosso feed ou receba por email


3 Comments »

  1. Que texto lindo. Emocionante.!

    Comentário by fabrinadutra — setembro 10, 2014 @ 9:49 am

  2. Querida Luiza: eu sei bem o que você diz. Tenho uma super mãe. Mesmo. Que me deu a vida e dá todos os dias, apesar de meus 31 anos. E agora, gerando meu primeiro filho, meu Heitor, eu entendo minha mãe, em tudo, tudo, tudo…amo tanto este pequeno, quero um bem tão maior que eu, que choro às vezes só em ver uma foto de uma criança sofrendo, um bebê prematuro, e imaginar que podia ser ali o meu filho. Não dá, não tem como ser diferente. E saiba: hoje amo a minha mãe muito mais do que sempre amei, e fico feliz por ter sido sempre boa filha, e tentarei ser cada vez mais. Obrigada por seus maravilhosos textos! saúde e muito amor para sua família, Deus esteja com vcs sempre.

    Comentário by Cris — setembro 10, 2014 @ 5:35 pm

  3. Lindo texto!

    Comentário by Dani — setembro 10, 2014 @ 7:53 pm

RSS feed for comments on this post.
TrackBack URL

Leave a comment

*