01 de dezembro

como se perdesse um filho

por luíza diener

ringo e eu, 2007

quando o inevitável acontece mais cedo do que a gente espera é como se tirassem o nosso chão. porque a gente sabe que mais dia, menos dia ele chega. só não espera que seja hoje. é sempre amanhã. e aí fica a esperança de que haja uma procrastinação da parte do destino, mas ele é sempre obstinado e pontual. quando mete na cabeça que chegou a hora vai lá e pronto.

dessa vez chegou a vez do meu ringo. eu sempre imaginei que um dia entraria em casa e ele estaria na caminha dele, todo durinho e gelado (afinal, com 15 anos, né?). eu procuraria um taxidermista e ele seria empalhado ficando, assim, imortalizado na história da família e até se tornaria o ícone pop da casa (esquisitices à parte).

mas antes de chegar ao fim, me deixa contar como aconteceu. decidi levá-lo de viagem comigo e com o marido. sempre sonhei em fazer isso, só que nunca tive a oportunidade certa.
aí ele veio conosco a cavalcante – go (um lugar lindíssimo, sobre o qual falarei em outra oportunidade) e tão logo chegamos, o ringo já pirou, correu para todos os lados e até entrou no rio sem medo, apesar de ter ficado apreensivo na hora de sair. enquanto fazíamos a trilha ele ia solto, volta e meia se perdia no caminho e eu tinha que encontrá-lo. mas não queria privá-lo de talvez sua única oportunidade de liberdade assim.

curtimos bastante o dia, ele ficou solto na pousada sem problemas. explorava tudo o que via pela frente, mas sempre voltava pra ficar pertinho de mim. fui tomar banho e deixei o marido de olho. quando estava quase saindo, recebo a notícia: o ringo sumiu!
até aí, normal. ele fez isso antes, certo? quem dera.
procuramos loucamente por toda a parte, refizemos as trilhas, olhamos no rio, na fazenda ao lado (por conhecer sua loucura por caçar galinhas) e nada. apesar de quase surdo, gritamos por ele e o procuramos por dois dias.

ah! quantos donos eu chamei de irresponsáveis por perderem seus cachorrinhos e agora cá estou eu, pagando a língua com força!

o tempo há de passar e a dúvida vai sempre permanecer.
alguns podem acreditar que ele se perdeu na floresta, voltou às suas origens e virou um legítimo cão selvagem, que caça sua própria comida e nunca deixa que outro animal lhe roube a presa.
outros dirão que ele foi encontrado na beira da estrada por um fazendeiro tão velho quanto ele. este o alimentou, cuidou e hoje o trata como rei, cheio de regalias e dormindo sempre na cama do velhinho.
mas eu prefiro acreditar que, enquanto desbravava a mata, reconheceu de longe o som do rio e correu em direção a ele como se não lhe apresentasse mal algum. não tendo quem o salvasse da forte correnteza, resolveu improvisar: substituiu alguns pêlos por escamas, deixou a cauda crescer para ajudar no nado, desenvolveu membranas entre as patas e hoje vive ora na terra, ora na água. parte cão, parte peixe, parte anfíbio.

é realmente óbvio que esta seja a história mais coerente de todas e eu posso provar: toda vez que vou para o mato e fico perto de algum rio, ouço nitidamente seu latido agudo juntamente com o coaxar dos sapos-cachorro.

para ringo, o meu beatle favorito.

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categorias: Tags:, , amor, ringo

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19 Comentários »

  1. ringo deixa saudades, mesmo quando estava fedidinho era uma graça. era um cão muito peculiar que não abanava o toco de rabo a toa. talvez ele tenha entrado na mata e deitado em baixo de uma arvore, sentindo a brisa e morrido assim. seja lá qual for a verdade esse é um jeito mais animal de morrer, mais romântico. sem várias idas ao veterinário e remédios e tal. minhas condolências.

    Comentário por marina guimarães — dezembro 1, 2009 @ 1:18 pm

  2. engolindo seco no trabalho. Dói. tá doendo mt

    Comentário por Hilan — dezembro 1, 2009 @ 1:23 pm

  3. tb prefiro assim, ninas.
    apesar de ainda doer um bocado, confesso que até acho graça do jeito como ele escolheu para dar adeus.
    não tinha como ser mais a cara dele.

    Comentário por luíza diener — dezembro 1, 2009 @ 1:23 pm

  4. Lu!! que coisa triste! Não sei nem o que dizer. Claro que estou aliviada porque agora ele não vai mais ser empalhado. Mas realmente não era assim que eu esperava que ele fosse se despedir…

    Comentário por lia — dezembro 1, 2009 @ 1:34 pm

  5. engolindo molhado em casa

    Comentário por luíza diener — dezembro 1, 2009 @ 1:36 pm

  6. ah, a parte do empalhado é que era a mais legal!
    ahahah!

    Comentário por luíza diener — dezembro 1, 2009 @ 1:36 pm

  7. Imagino a tristeza de vcs, mas não deixo de achar bonita a forma com que ele se despediu e os últimos dias que passou com vcs, em liberdade. Melhor, muito melhor, que sofrer num hospital veterinário.
    Beijos

    Comentário por Paloma — dezembro 1, 2009 @ 4:03 pm

  8. Poxa, que triste!!! Nem tem o que escrever nessas horas..cão é como gente, é da família….

    Beijosss pra vc e pro Hilán.

    Comentário por Tathy — dezembro 1, 2009 @ 8:10 pm

  9. que post triste, poético e lindo, Lulu….
    eu chorei aqui, fiquei emocionada de verdade.
    ele viveu uma enorme vida contigo, era um xodózão né…eu sinto a dor daqui. ;-/

    Isso mesmo, como a história de peixe-grande, sapo-cachorro!
    Me inspirou para ilustrar o eterno ringo, viu?

    Comentário por Luda — dezembro 1, 2009 @ 11:15 pm

  10. Oii…poxa vida nem sei o que dizer ,mas sei bem o que é isto,doi demais sem saber o que aconteceu,mas é a vida ,como saber ,só o tempo pra tristeza diminuir.bju

    Comentário por Rita — dezembro 2, 2009 @ 5:29 pm

  11. o post do ringo me fez usar todos os lencinhos da casa…
    Sobre dieta marido/mulher, alem do emocional que conta apenas 100%, existem certos tipo de comida que também ajudam a acabar com sonho de maternidade. batata branca é uma dessas, sabiam?
    e tem OUTRA que vcs tb podiam pesquisar: eu ganhei 20 kg na gravdez, e meu ex marido tb, pois dividiamos tortas inteiras na cama. mas EU amamentei, e perdi 23. e ele sofre até hoje, pois ainda faltaram 5kg que esqueceram de ir embora. amo esse blog!!

    Comentário por Flora — dezembro 2, 2009 @ 10:41 pm

  12. ele sempre foi poético

    Comentário por luíza diener — dezembro 3, 2009 @ 12:55 pm

  13. nem precisa. já sinto o seu carinho assim mesmo

    Comentário por luíza diener — dezembro 3, 2009 @ 12:55 pm

  14. ai seria tão lindo, lud!

    Comentário por luíza diener — dezembro 3, 2009 @ 12:56 pm

  15. com certeza hoje já tá melhor que ontem :)

    Comentário por luíza diener — dezembro 3, 2009 @ 12:56 pm

  16. valeu, flora!

    Comentário por luíza diener — dezembro 3, 2009 @ 12:56 pm

  17. Luuu, que triste!!! O Ringo era tão simpático e especial… vou sentir saudades! Fique bem vc tb. beijos

    Comentário por nanda — dezembro 3, 2009 @ 1:24 pm

  18. meeus sentimentos :( '

    Comentário por MIIh — dezembro 12, 2009 @ 7:32 pm

  19. nossa, ele é igualzinho ao meu bóris… :(

    Comentário por Letícia — julho 29, 2010 @ 7:52 pm

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