confissões de um pai sem paciência

ragemuitomenor

AVISO: escrevi esse texto há um tempo. conversando com alguns pais e mães, descobri que surtos de raiva ou falta de paciência são um tabu. pouca gente fala, mas todo mundo passa e é uma das coisas que mais geram culpa e inércia na busca de ser um pai ou uma mãe melhor. a paciência nunca é conquistada. a paciência é um exercício diário. desculpe a comparação, mas nos alcoólicos anônimos eles usam a expressão “só por hoje”, que prega resumidamente a evolução diária e tenta ficar “só por hoje” longe do que faz mal a si e aos outros.

eu já perdi as contas de quantas vezes me senti um pai de merda nos mais de seis anos nessa jornada. quando eu digo pai de merda eu digo sem eufemismos ou panos quentes pra uma deslize aqui ou acolá. foram inúmeras vezes que tive vontade de pegar meu filho e, sei lá… nem sei o que dizer…
tem dias que o sangue ferve e perco a cabeça quando ele ri na minha cara, faz deboche da minha pseudo autoridade e consegue ser incrivelmente sem empatia em alguns momentos. as crianças, muitas vezes, não conseguem ter empatia e nem compaixão. elas não querem saber se você está com fome, com sono, cansado ou teve um dia difícil no trabalho, elas querem tudo e querem agora. são mini tiranos que você ama com todo o seu coração.  

eu não sei como as crianças sobrevivem até os seis anos de idade. só podem ser anjos especialistas em apaziguar a ira divina de um armagedon que surge dentro da gente. esses seres celestiais são o oposto do anjo destruidor das pragas do egito que matou todos os primogênitos na história bíblica. esses anjos vão passando pelas casas e segurando aquela raiva destruidora que às vezes pode acometer um pai ou mãe desesperado, liberando uns gritos raivosos, batendo porta por aí, enxotando todo mundo da sua frente, até acabar com você depois chorando no chão em posição fetal pela merda de pai que você é.

recentemente aconteceu isso comigo. perdi totalmente a razão com todos os integrantes da família. já vou explicar o que aconteceu, mas antes tenho que contextualizar a situação:


desde que mudamos pra esta casa (30 min distante de tudo) minha rotina mudou bastante. antes eu gastava 10 minutos de ônibus de casa para o trabalho, sem trânsito e sem engarrafamento.

agora eu passo mais de cinco horas todos os dias dentro do carro enfrentando o trânsito da hora do rush, sendo cobrado pra chegar pontualmente no trabalho, na escola e arrumar esse menino pra sair. isso, MEUDEUSDOCÉU, é uma guerra à parte. a terceira guerra mundial to.do.san.to.di.a.

além de dormir tarde, acordar vinte vezes à noite, acordar cedo sempre com uma criança chorando em situação emergencial.
isso tem me deixado bem loco. uma pilha de nervos.

e me frustra bastante quando eu vejo que logicamente as crianças não estão nem aí pra isso.

voltando à situação, meu filho mais velho estava totalmente distraído e enrolando em todo o processo de ~arrumação, almoço e preparação pra sair de casa ~ quando resolveu soltar a ideia que filha do meio também iria para escola junto com a gente. a baixinha se escondeu dentro do carro e não saia de jeito nenhum. vendo o tempo passar rapidamente igual um timer de bomba relógio e que a situação não se resolvia, eu comecei a gritar e urrar com todo mundo. um grito que com provavelmente assustou o condomínio inteiro, explodi: ELA NÃO VAIIIIIIIIIIIIIIII!  
decidi sair de perto e me afastar (acho que nessa hora passou o anjo apaziguador), não funcionou 100% porque ainda sentia uma raiva absurda dentro de mim e tinha decidido desistir de sair de casa.  decidi de alguma forma punir o mais velho tirando tudo que dava pra tirar: NÃO VOU LEVAR MAIS NINGUÉM PRA LUGAR NENHUM!!! TAMBÉM NÃO TEM MAIS DESENHO! NÃO TEM MAIS IPAD, NEM COMIDA, NEM ÁGUA! NEM BANHO! NEM NADAAA!  ARGGGGGHHH!!! e nada funcionou… ele continuou berrando e chorando e tudo que eu fiz só ficou pior. tão pior que comecei a esbravejar com a luíza ao ponto dela levantar o dedo do meio pra mim de tão escroto que eu estava sendo naquele momento (nota: a luíza só dá o dedo ou xinga em momentos de raiva ou afronta absurda. dar o dedo é tipo o máximo da expressão subversiva revolucionária anarquista de guerrilha que ela pode ter).

entrei dentro do carro novamente e decidi levá-lo pra escola. fui o caminho inteiro chorando e escondendo meu rosto do retrovisor para que meu filho não me visse. doeu.

no caminho fiquei pensando: que merda que tá acontecendo comigo? como que eu virei essa merda de pai, de marido, de homem? eu era um cara legal, engraçado e muito divertido. eu era um tio legal, gostava de brincar/ouvir as crianças, eu sempre tentei evitar brigar com as pessoas e hoje eu sou esse pato donald do demônio que sai gritando e bufando fogo pelas ventas! o que aconteceu comigo? porra! eu era tão legal, gentil e doce com vocês…
só conseguia chorar e pedir pra deus dar um jeito de não ser mais esse estorvo. um estorvo com as melhores intenções do mundo. eu juro que queria ser melhor, mas não tô conseguindo. a vida tá no modo hard eu eu não to conseguindo jogar sem morrer todas as vezes na primeira fase.

ser pai de crianças pequenas é FODA. muito FODA. não tem um dia que eu não me veja perdendo a cabeça ou sendo levado ao limite da minha paciência. é briga de irmão contra irmão, é desperdício de comida, falta de empatia com o sono da caçula… tanta coisa que só sendo um buda para não surtar.

mas o olho do furacão passou (escrevi esse texto há alguns meses), passei a trabalhar em casa, sem aquela rotina maluca de bater cartão todo dia e consegui respirar um pouco mais.
coincidência ou não, as crianças também estão mais calmas. tudo longe da perfeição, mas como é bom poder ver a situação de fora e deixar a poeira baixar!

agora eu percebo que não é que as crianças sejam mini tiranas sem empatia nem coração. eu é que estava num momento foda de vida, desesperado por ajuda e queria que as crianças entendessem isso. mas elas são crianças. o adulto sou eu. de repente o que me faltou foi empatia com elas, olhar pelos olhos delas e compreender que eu levei uma vida inteira pra chegar em algum nível de maturidade (?) e, ainda assim, passo por umas fases onde que tudo que dá vontade é de tacar o foda-se e sumir.
imagina elas, que começaram a descobrir a vida agora, que mal sabem nomear sentimentos… é uma cobrança louca esperar que elas me entendam, certo?

então pare e repita este mantra: “só hoje. só hoje…”

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12 comments

  1. Mto bommmmm. Me identifico 1000 x ao dia com estas situações. Muitas x fui dormir me sentindo um lixo por ter gritado, brigado com uma criança que nem falar sabe direito. Aff…

  2. Li esse texto em meio as lágrimas e sorrisos, entendo exatamente como é se sentir além do limite da paciência. Foi um alívio saber que não sou apenas eu que em muitas situações me sinto uma mãe horrível. Obrigado por compartilhar.!

  3. A gente percebe que tem algo errado com nossos conceitos quando lê um texto assim e imagina que seja uma mãe que trabalha fora falando. Quando a gente assumi a criação de um ser e tem mil responsabilidades juntas, é bem louco. Acho que SEMPRE passaremos por isso. E tomara que mais pais queiram participar e mais mães permitam que os pais participem, não se achando o ser máximo da perfeição que é a única que sabe cuidar da criança(e essas ultimas palavras leio alto ,pois são para mim mesma)

  4. Me sinto assim todo dia! O meu esposo trabalha em outra cidade, é perto de onde a gente mora, mas mesmo assim ele passa o dia longe e eu que fico em casa cuidando de tudo e ainda tendo que ir pro meu trabalho… tem dia que da vontade de jogar tudo pro espaço e sumir!! A partir de hoje vou usar o "só hoje".

  5. rsrsrs só muda o endereço…

    …estou aproveitando a soneca da pequena e lendo esse texto' mas pra comentar tá f%$#@ com esse site atualizando de 2 em dois minutos tendo q digitar e segurar o celular com uma mão só 🙂

  6. Pai de merda. Tenho me saído um belo dum exemplar. Perdendo a paciência por um não querer comer e só ficar colocando a mão inteira na boca, pelo outro não parar quieto um minuto quando já deveria estar dormindo há horas… A agressividade às vezes brota como uma rio de lava, outras como uma erupção. E é grito. E é palmada. E é essa velha educação à base de medo que eu não consigo cortar o cordão umbilical. E isso vem arrebentando meu casamento, porque ela, que aguenta bem mais o tranco e dá todos os cuidados que as crianças precisam, também está esgotada sob o manto de supermãe que ostenta, culpa em parte de uma mídia perversa ainda vende um ideal irreal para as mulheres. Estou pensando em procurar ajuda. Mas é inestimável para o meu coração, para a minha alma ler um depoimento sincero como o teu, escrito por um ser humano que enfrenta situações emocionalmente extremas criando os filhos, os quais ama mais do que tudo no mundo, e não por um “papai é pop” da vida de propagandas de margarina. Obrigado. Grande abraço.

  7. olha, também sinto isso, é difícil educar e vivenciar o dia a dia dos filhos e trabalhar o dia inteiro. quando li seu texto me identifiquei e senti vontade de comentar. nossos filhos se tornam tiramos fazendo uso do que passamos para eles. temos que ter cuidado para não tornar nossos príncipes e princesas em tiranos. o livro pais brilhantes e professores fascinantes de augusto cury nos ensina muito sobre a educação dos filhos.

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