de testa aberta I – um grande infortúnio

era uma sexta feira tranquila de férias coletivas aqui em casa. benjamin e constança brincavam em algum lugar no andar de cima enquanto eu dava mamá pra lupita no sofá da sala. hilan estava por perto também. de repente… POW! AI! aquele típico barulho que vem na sequência acompanhado de choro e uma criança descendo as escadas relatando o ocorrido. mas depois daquele ai veio um silêncio. das duas uma: ou um silêncio de que não foi nada ou aquele silêncio de quem tá tomando fôlego pra começar o chororô a plenos pulmões. o silêncio durou um pouco além da conta e o chororô e a gritaria que se seguiram foram intensos: “CORRE, HILAN”. 
com o tempo nós – mães e pais – aprendemos a distinguir o choro pra não ficarmos em cima dos nossos filhos a cada ai ou ui. mas esse era um daqueles choros que exigia urgência.

numa questão de segundos ouço hilan e benjamin descendo as escadas correndo, aos berros. eles gritavam e choravam e a cena era assustadora: constança, no colo do hilan, só de calcinha e toda ensanguentada – da cabeça aos pés, literalmente. eles estavam apavorados e chorando e naquela hora me veio o sangue mais frio do mundo, de quem já havia experimentado essa sensação anteriormente, anos antes. o coração a mil, o estômago revirado, mas a última coisa que eu podia fazer naquele momento era entrar em pânico.

pedi para hilan se sentar e acomodar sansa no colo dele. eles ficaram no chão, a cabeça dela mais elevada.
respirei fundo.
a gente sempre precisa saber respirar o mais fundo possível. sempre.
peguei um pano limpo e comecei a enxugar o sangue. eu precisava saber exatamente de onde aquele sangue todo vinha. claramente a maior parte vinha de sua testa, que havia aberto como um risco reto de 3 a 4 centímetros de comprimento e 1 centímetro de profundidade. dava para ver nitidamente a camada de gordura e aparentemente o osso do crânio. do machucado minava sangue sem parar, então limpei com o paninho, juntei as duas partes com a mão e pedi pra hilan segurar o ferimento, “fechando-o” e fazer uma leve pressão, a fim de que o sangue parasse de jorrar. então limpei seus olhos, nariz, orelha, boca ensanguentados. examinei os dentes: todos perfeitos. orelhas, bochecha, queixo, pescoço, nuca, mãos. tudo intacto. ia olhando e enxugando. limpei barriga, braços e pernas. estava tudo ok.

– como você está se sentindo, minha filha?
– tá doendo!
– você tá sentindo cansaço, tá enjoada, tá com vontade de dormir?
– não!
– onde dói?
– na cabeça!
– só na cabeça?
– sim.
– ok, filha. fica aqui com o papai que ele vai cuidar de você e segurar seu machucado. eu vou arrumar as coisas para ir para o hospital.
– hospital nãaaao! – constança protestou e benjamin endossou o coro.
– mãe, você não vai deixar costurar a sansa, né? – benjamin argumentou. vi que não adiantava discutir naquele momento, mas também fui sincera:
– precisamos ir ao hospital, mas vamos nos arrumar primeiro, ok? – e vi que naquele momento – apesar de querer parar tudo para consolá-los – eu precisava manter a frieza e agilizar para sairmos o quanto antes.

era nítido que ela precisava de pontos. um mero esparadrapo microporoso não daria conta de juntar aquele machucado, que mais parecia uma boquinha aberta. mas, apesar de todo o sangue e da parada estar feia para caramba, ela aparentava estar relativamente bem, como se apenas tivesse ralado um joelho ou machucado um dedo do pé. olhei pra hilan: ele chorava calado. a cara de angústia e uma lágrima descendo atrás da outra, enquanto ele se mantinha firme com a filha no colo.
benjamin estava agitado, andando de um lado para o outro, falando um monte de coisas sem parar: “mãe! tem que limpar lá em cima! tem que limpar lá em cima! tá tudo sujo de sangue! tem sangue na cama, tem sangue na roupa da lupe, tem sangue no chão e na escada!” “mãe, não deixa costurar a sansa, mãe! leva ela num médico especialista que ele não vai costurar ela!”

enquanto isso, lupita mamava tranquilamente, alheia a tudo aquilo (geralmente ela chora junto com os irmãos, mas naquele momento estava num planeta à parte). e eu com ela no colo, pra cima e pra baixo.
subi as escadas, seguindo o rastro de sangue. ele levava à cama da lupita, um colchão que fica no chão do nosso quarto, colado entre minha cama e a parede. uma poça enorme de sangue vermelho no lençol branco. o rastro do teu sangue no chão. juntando os relatos e a cena do crime, aparentemente o que aconteceu foi: sansa estava brincando de pular da nossa cama, em cima, pro colchão da lupe, no chão (brincadeira que até então eles faziam com frequência. e está terminantemente proibida). ela calculou mal o pulo e bateu a cabeça ou na parede ou na quina da parede com a janela, que é feita de pedra. e o caos se instalou daí em diante.

percebi que eu precisava de todos calmos antes de irmos ao hospital. incluindo eu. a situação era feia, mas dava pra esperar mais alguns minutinhos até que os ânimos sossegassem um pouco mais.
veja bem: já é naturalmente difícil e enlouquecedor sair com todo mundo saudável de casa. porque cada um quer vestir uma roupa específica, tem que dar mamá, levar comida, fraldas, muda de roupa. sempre fica alguma coisa pra trás. em pelo menos 60% das vezes que saímos, rola briga no carro: nossa com as crianças, minha com hilan e vice versa. a última coisa que precisávamos era de mais uma situação de tensão. eu precisava de clareza para dirigir. e sansa precisava claramente de alguém ao seu lado no banco de trás, segurando seu machucado para não abrir e sangrar mais e de um apoio emocional (além de precisar de alguém de olho em caso de desmaio, vômito ou algo mais sério que pudesse indicar um trauma).

enquanto benjamin contemplava novamente a cena sangrenta, gritava “que horrível! parece filme de terror! que horror!” e também argumentava “você não pode levar ela para o hospital! não pode deixar que costurem ela!’. agachei em frente a ele e, com uma voz firme e mansa, tentei explicar sem muitos detalhes, mas sem esconder a verdade dele: “filho, ela vai precisar mesmo ir ao hospital. e ela vai precisar que a gente fique tranquilo e calmo, senão ela vai ficar assustada. então não fica falando essas coisas na frente da sansa pra ela não sofrer ainda mais, tá?“. por outro lado, eu via que ele precisava de tanto suporte emocional quanto ela. quer dizer, sansa precisava mais de suporte físico, mas nem ela tinha consciência da feiúra que aquilo estava. ela estava amparada nos braços de papai, lupita acolhida no peito da mãe e benjoca pra cá e pra lá, mais perdido que cego em tiroteio. meu coração apertou. ele também precisava da gente. abracei ele bem forte e então sugeri: “vamos fazer um presente pra sansa? acho que ela vai gostar de algo pra consolar!”. ele, que não gosta de emprestar nada pra ela, prontamente disse “já sei! vou emprestar meu caminhão pra ela! vou dar meu caminhão pra ela de presente! ela vai ficar muito feliz!”. gostei da ideia e também sugeri que ele fizesse um desenho bem bonito pra ela, porque ela adora seus desenhos. pronto. ele se encarregou de preparar um presente da irmã e esqueceu um pouco do tal filme de terror.

catei a caderneta de saúde dela, uma muda de roupas (ela estava só de calcinha) e aproveitei pra escovar os dentes e respirar fundo mais uma vez. e lá fomos nós.

claro que benjamin quis surtar ao entrar no carro porque não tinha conseguido terminar o presente da irmã. acho que não tem uma única vez que ele não surte na hora de sair. mas consegui conversar e contornar a situação. lupita, por incrível que pareça, não chorou ao ser colocada na cadeirinha – como de costume – e sansa tava de boa na lagoa.

tentei visualizar todo o trajeto de casa ao hospital na minha mente, a fim de não fazer besteira e me confundir pelo caminho. mantive a velocidade, sem ir nem rápido demais nem devagar demais. a última coisa que eu precisava era de um acidente de verdade naquele momento. liguei uma música e dirigi, calada, até o hospital de costume, a mais de 20 km da nossa casa. chegando lá, já avisei pro marido: “eu que vou com ela”. nervoso, ele quis tretar: “por quê? você acha que eu não dou conta de levar ela?” e eu apenas respondi “porque eu que vou”.
eu era uma leoa com minha cria e ninguém ia tirar ela de mim.

com a pequena no colo, fui informada de que eles não atendiam mais aquele tipo de emergência. tive que ir a outro hospital. comecei a ficar ansiosa. por sorte era perto, por sorte não teve nenhum trânsito. mas o hospital era uma bagunça, ninguém sabia direito para onde eu deveria ir.

por fim consegui chegar na emergência certa. um monte de gente apinhada esperando. uma única pessoa atendendo, com a cara mais passada do mundo. a cena era a seguinte: eu, carregando uma menina de quase 16 kg só de calcinha, deitada nos meus braços. eu segurava um paninho em sua testa para não sangrar mais.. ela não chorava, não reclamava, ficava apenas ali, quietinha, nos meus braços. o sangue do seu corpo estava relativamente limpo, então não parecia nada muito urgente. esperei na fila para ser atendida. um menino chegou na sequência na emergência, vomitando, e já foi logo atendido. ao ver que, se eu não fizesse nada, teria que esperar uma eternidade, passei na frente, tirei o pano da testa e mostrei o ferimento pro atendente: “moço, POR FAVOR, eu preciso ser atendida AGORA“. na mesma hora todos deixaram eu passar na frente. ele fez minha ficha e lá fui eu esperar, sentadinha.

eu sou muito yin e yang nessa vida. meu lado treteiro convive bem com o lado da paz. até então eu estava sendo regida predominantemente pelo lado da luz – mantendo a paz pelo bem da minha filha. se eu não surtei ou pirei foi por causa dela, pra que ela não ficasse estressada, pra passar calma e tranquilidade pra ela. mas naquele momento eu soube que, se não botasse as trevas pra fora, ia ficar a tarde inteira com a bunda coçando naquele banco. então fui entrando na emergência sem ser chamada. o menino lá dentro vomitava por causa de uma moeda que tinha engolido e o pai tentava fazer ele vomitar, pra botar a dita cuja pra fora. obviamente ela não iria sair. não por cima. um monte de gente ao redor, aquele cheiro horrível de vômito pairando no ar. catei a enfermeira e disse: “você PRECISA atender minha filha. ela precisa ir pra cirurgia AGORA”. e levantei o paninho outra vez. parecia que toda vez que eu levantava aquele paninho um portal mágico de atendimento maravilhoso se abria. mas nisso um curioso que parecia estar ali só pra ver um menino vomitar moeda encontrou uma atração mais interessante: AHHHH! – ele gritou, com cara de espanto. eu mandei um olhar fulminante pra ele, como quem diz recomponha-se, homem e disse “por favor, né?“. e ele, assustado, me pediu desculpas e olhou pro outro lado.
a enfermeira foi abrir o prontuário dela quando o sistema travou. claro que travou. pressionei, pressionei, me controlei, conversei com constança mais um pouco. destravou! fui encaminhada para a cirurgia, em outro bloco do hospital.

pra quem conhece o hospital regional da asa norte (hran) sabe que aquilo ali parece um hospital de guerrilha. o negócio velho, mal ajambrado, gente apinhada em todo canto. a tal da cirurgia mais parecia um ambulatório. minhas costas já doíam de tanto carregar aquele chumbinho pra cima e para baixo (hilan estava com lupita dormindo no carro e mantendo benjoca longe daquilo tudo) então me sentei.
a primeira coisa que uma senhora ao meu lado disse foi:

– ela não está com frio?
– minha senhora, eu acabei de sair de casa com uma menina com a testa aberta, sangrando. a última coisa que eu ia fazer era tentar vestir uma roupa nela.
– mas nem uma flanelinha por cima? ela parece que está com frio, toda encolhida.
devia fazer uns 30 graus lá fora. quisera eu estar de calcinha também.
– senhora, por favor, FICA QUIETA! – e levantei o tal paninho.
silêncio.
– desculpa, é que eu sou muito friorenta. aí vi ela assim e achei que ela estava com frio também.
– sem querer ser grossa, mas eu estou mantendo a calma pela minha filha, ok? então, por favor, não fala mais nada.

CONSTANÇA! – alguém chamou. e nós fomos.

essa saga se divide em 3 ou 4 atos e aqui se encerrou o primeiro. o próximo foi, de longe, muito pior que o primeiro.

[CONTINUA…]

***

acompanhe a saga completa aqui:

parte I – um grande infortúnio

parte II – três pontos

parte III – o curativo

parte IV (em breve)

Related Posts with Thumbnails

10 comments

  1. E a Sansa está bem?!
    Muito aflita fiquei!
    Minha segunda filha (a do meio tb) quando estava com 11 meses, tinha acabado de aprender a andar, bateu a cabeça na quina de um móvel e abriu a testa. Me surpreendi com meu sangue frio e controle da situação na época, tomou alguns pontos, mas no seu aniversário tinha apenas a cicatriz. Hj, mais de dois anos depois nem a cicatriz aparece.

    Nossa se a “primeira trilogia” já foi ruim, vc falou que a outra foi pior!!!!!! Será que aguento? Rs

    1. a parte dos pontos foi a mais traumática. espero que a cicatriz da sansa também não apareça.
      benjamin cortou a testa na véspera do aniversário de 1 ano, mas foi um furinho de nada e no dia da festa (alguns dias depois) não aparecia quase nada também

  2. Luiza, nossas filhas tem uma conexão espiritual! A Mona também caiu e se machucou de um jeito bem parecido na mesma semana que a Sansa, e acho que já comentei com você que elas tem só dois dias de diferença de idade né? Bem, eu sei como você se sente, eu estava aqui sozinha, deu vontade de desesperar mas eu me contive, peguei ela, levei pra cozinha, lavei, limpei e vi onde era o machucado, que parou de sangrar até rápido… mas no caso da Mona o machucado foi no queixo, e nós achamos que dava pra passar sem ponto, e passou mesmo (deixou cicatriz). Foi um baita susto, nos rendeu mais de uma semana de curativos meticulosos e a pequena wolverine aqui se recuperou bem.

  3. Qdo eu tinha 7anos eu abri a minha testa tbm, e imagino o que vem depois…Li o post com lágrimas nos olhos pq imagino exatamente como foi aí.. Espero que esteja tudo bem com vcs. Bjs, Milene.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *