21 de fevereiro

de testa aberta II – três pontos

por luíza diener

para ler a primeira parte, clique aqui.

a salinha de cirurgia ficava dentro de uma espécie de consultório. eu já havia conversado e explicado pra sansa o que tinha acontecido com ela, por que estávamos no hospital e o que aconteceria dali em diante. de forma simplificada, claro: “sabe quando uma roupa rasga ? a mamãe vai lá e costura, pra não ficar um buraco no meio da roupa, né?! é isso que o médico vai fazer com você. ele vai costurar sua testa pra que não fique um buraco nela”. ela me perguntou se ele ia costurar com agulha e eu disse que sim, mas com uma agulha e linha especiais para pessoas, não para roupas. quando ela perguntou se ia doer, eu falei que sim (a vontade que dá é dizer que não é nada, que não vai doer, que vai passar rápido, mas a mentira dói muito mais do que isso).  mas expliquei que o médico ia passar um remédio e que, depois disso, não doeria mais. que ela era uma menina muito forte, corajosa, valente. que eu estaria ali do lado dela o tempo inteiro, segurando sua mão. e foi o que eu fiz.

ela foi deitada numa espécie de maca. eu via a tensão nos seus olhos, o medo do que via pela frente. o medo dela era o meu medo também, mas eu sorria, beijava ela, contava histórias e cantava músicas. o médico começou a limpar o ferimento e ela se manteve forte. até o momento em que ele deu a injeção de anestesia em sua testa. sabe aquele ditado “de graça…”? então, não queria ver ela tomando aquela injeção na testa nem se me pagassem. ela começou a chorar. a pedir pra ir embora. eu segurava sua mão com firmeza enquanto tentava fazer ela olhar nos meus olhos. logo logo a anestesia faria efeito. ela lutava bravamente contra aquilo tudo, pedindo que o doutor parasse. falei pra ela continuar sendo forte, pra que aguentasse mais um pouco.

aquele dotô não levava jeito algum com criança. a médica ao lado fazia um curativo no braço de um menino mais velho, que havia sido mordido pelo próprio cachorro. quando terminou, ela veio ajudar. conversava com sansa, perguntava se ela gostava de frozen. ao dizer que sim, ela perguntou se ela gostava da música do let it go e eu aproveitei pra cantarmos juntas tanto o lerigou quanto o você quer brincar na neve. provavelmente naquele dia eu cantei todas as músicas do meu repertório e ainda repeti algumas. aí ela perguntou se a sansa queria ganhar uma capa da elsa. ela não se animou muito não. enquanto isso o médico se certificava de que a anestesia já tivesse feito efeito.
sem a menor cerimônia, ele veio com uma agulha enorme – mais parecia de costurar sofá – na frente dela. ela desgrudou seus olhos dos meus e entrou em pânico. adeus doçura. ele começou a costurar e ela gritava, gritava. o sangue ia escorrendo pela testa, caindo nos olhos, escorrendo para os cabelos, ela gritando e aquele cheiro forte de sangue pra todo lado. eu tentando desviar a atenção dela pra mim. pedi que ele tentasse despistar um pouco a agulha e ele veio com um pano, com apenas um quadradinho vazado no meio. colocou na cara dela, para tampar sua visão e voltou a costurar. então ela desatou a berrar de pânico. berrava dum tanto que eu acho que tov ouviu lá de casa. “EU NÃO CONSIGO RESPIRAR! MAMÃE, CADÊ VOCÊ?”. levantei a pontinha do pano pra continuarmos nos olhando por baixo dele. “respira fundo, filha. assim, junto comigo. inspira. expira. inspira. expira. isso, você tá indo muito bem”. mas às vezes ela desviava o olhar pra ver através do quadradinho. via a agulha, o médico e gritava, gritava. “SEGURA ELA DIREITO, MÃEZINHA!”. eu fazia o melhor que pudia, mas era inevitável que constança reclamasse. ela levantava as mãos e tentava puxar as mãos do médico. ela lutava bravamente com todas as forças que tinha.

a outra médica sugeriu que parasse um pouco e perguntou “você quer botar a capa de elsa, linda? ela é bem comprida, vai até o chão!”, mas sansa não estava nem aí: “eu quero ir embora! eu quero ir embora!” – dizia, chorando. achando eu que a tal capa da elsa era uma distração para ela se sentir mais motivada a continuar, convenci de colocar a tal capa. inocente! naquela hora a médica amarrou seus braços para baixo, fazendo tipo uma capa-de-força. sansa aceitava aquilo também sem saber do que se tratava. quando ele voltou a costurá-la, ela berrou ainda mais forte. seu rosto ficou completamente vermelho e ela fez uma expressão de raiva mortal que eu jamais imaginei que uma criança fosse capaz de fazer, enquanto de seus olhos franzidos rolavam intermitentemente grossas lágrimas enfurecidas. jamais me esquecerei desse olhar. “EU NÃO QUERO MAIS A CAPA DA ELSA! NÃO QUERO!” e eu só orava pra que o segundo ato do espetáculo de horrores terminasse logo.

o médico – cujas mãos tremiam – quase terminava os pontos, enquanto eu dizia que faltava pouco agora e perguntava o que ela queria fazer depois que saísse de lá. que faltava pouco agora. perguntei se ela queria sorvete e ela se animou, dizendo que sim. perguntei de qual sabor e ela disse quer queria de chocolate, com balinhas em cima. então ficou assim combinado: quando saíssemos daquele hospital ela iria ganhar um montão de sorvete com balinhas. ele finalizou o curativo com ela sentada, abraçada a mim, e ela apenas lançou um olhar de desprezo quando os médicos se despediram dela. mas foi só virarmos as costas que aquela menina de cabelos empapados de sangue e um curativo gigante virou pra mim e disse “que médico chato, né?” e deu um leve sorrisinho subversivo ao “ofender” o doutor. aproveitei pra dizer “muito chato! e esse hospital fede a vômito” e ela começou a rir e fazer piada: “médico chatão e hospital fedidão”. 
eu só queria abraçar ela com toda força e não largar nunca mais na minha vida.

o pior já havia passado e dentro de mim eu sentia uma vontade louca de chorar compulsivamente, mas logo encontramos hilan, guadalupe e benjamin do lado de fora. “SANSA!” – benjoca correu e abraçou a irmã, que continuou repetindo o tanto que o médico era chato e o hospital, fedido.
minha mãe chegou na sequência, abraçou todo mundo e perguntou: “quantos pontos ela levou?”, mas a verdade é que eu não fazia ideia. eu não desgrudava o olho dela. não queria que ela se apavorasse, não queria que ela se sentisse desamparada. essa resposta eu só pude dar dias depois, ao tirar o curativo. apesar de parecerem uns vinte ali na hora, foram apenas três. três pontos.

conversamos rapidamente e minha mãe soube da promessa que eu havia feito. então ela sugeriu que fossemos tomar o tal sorvete na casa dela. as crianças decidiram ir no carro com a vovó e eu aproveitei pra ficar com hilan (e lupe) no nosso carro. jurei que naquele momento eu desabaria a chorar, mas lupita começou a chorar no carro e todo o estado de alerta voltou à tona. eu precisava fazer um esforço gigante pra explicar pra mim mesma que aquele era somente o choro da lupita, que a situação de tensão já havia acabado. mas meus sentido estavam super aguçados, num estado máximo de alerta e aquele choro (ainda que inofensivo) não me deixava desligar.

pedi que hilan me deixasse sozinha no mercado perto da casa da minha mãe, pra comprar sorvete. dali eu seguiria a pé. eu precisava de um tempo, de um respiro pros meus pensamentos e emoções. o choro continuava ecoando na minha cabeça e aquele cheiro de sangue estava impregnado no meu nariz. mas nenhuma lágrima vinha aos meus olhos. eu estava com aquilo atravessado e precisava botar pra fora, mas não saía. até hoje não saiu.

chegando à casa da minha mãe com sorvete e balinhas, sansa parecia relativamente bem, diante de tudo que havia acontecido. estava brincando com o irmão na sala e fomos todos nos deliciar. ela, que até então estava de castigo de doces junto com benjoca (por causa de uma aprontação prévia deles), foi liberada do castigo e estava feliz da vida.
mas continuava meio arisca, sem deixar que ninguém beijasse seu rosto, alisasse seus cabelos ou qualquer coisa que se aproximasse de sua cabeça.

quando ela reclamou de dor, dei o remédio habitual, visto que o médico não se deu ao trabalho de prescrever nada em caso de dor ou febre nem nenhum outro tipo de orientação quanto aos pontos (apenas mandou deixar o curativo por mais 24 horas e ir ao posto em 7 dias para retirar os pontos).

minha mãe quis dar banho nela (ritual clássico que eles amam e que sempre se repete quando vão à casa da vovó), mas sansa ficou extremamente amuada e não queria de jeito nenhum. por fim, convenci de que a vovó só lavaria ela do pescoço para baixo e foi o que aconteceu. o cheiro de sangue continuaria impregnado nos seus cabelos por mais um dia.

 

***

leia também a primeira parte:

parte I – um grande infortúnio

 

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categorias: 3 anos, amor, constança, criança

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5 Comments »

  1. Nossa….que desespero!!!
    A Manu com 2 anos e pouquinho levou 2 pontos no queixo….e imagino que assim como com a sua pequena a anestesia não pegou como deveria….

    Que sofrimento….achei que vomitaria em cima dela….o suor, o sangue escorrendo…o desespero em seus olhos….esse mesmo horror que você descreveu….

    Um médico tremulo….tbm prometi sorvete depois…Mas a Manu saiu do hospital e dormiu em 2s….de tão exausta que ela ficou!!!

    Não desejo isso para ninguém!!! Como é dificil!!!

    Comentário by Amanda — 21 de fevereiro de 2017 @ 5:28 pm

  2. Nossa, sofri com as duas partes do relato, mas essa me deu uma misto de raiva e tensão…me peguei encolhendo is ombros no meio da leitura e com o rosto totalmente contraído.
    Imagino seu desespero no momento com médicos tão despreparados para o trato com crianças num momento desses.

    Comentário by Jeane — 21 de fevereiro de 2017 @ 10:09 pm

  3. Gente, o auge pra mim foi a maldita capa da Elsa. Achei que essa médica fosse boazinha, e no fim ela sacaneou mto!
    Espero que isso não fala a Sansa ter medo de Frozen… mas acho que agora isso é inevitável, né?

    Comentário by Sabrina — 23 de fevereiro de 2017 @ 12:42 pm

  4. Que situação difícil, só quem é mãe é capaz de entender… Cadê a parte III? Em que vocês foram felizes para sempre?

    Comentário by Samia — 2 de março de 2017 @ 10:55 pm

  5. Tem parte 3?
    Acho que me perdi.

    Comentário by Carina — 16 de março de 2017 @ 9:58 pm

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