29 de março

de testa aberta III – o curativo

por luíza diener

parte I – um grande infortúnio

parte II – três pontos

à noite, na hora de dormir, ela reclamou que não conseguia se deitar de bruços, que é como ela habitualmente dorme. deitar de lado ainda parecia desconfortável e, por fim, ela dormiu de barriga pra cima, com a cabeça um pouco mais alta, amparada por um travesseiro. eu percebia sua tensão. eu orava para que deus ajudasse a dormir bem e pra passar aquele trauma, aquele medo.

24 horas após os pontos o curativo deveria ser removido, mas eu via o tanto que ela estava sensível e assustada. aquele pedaço gigante de gaze na testa trazia algum senso de proteção a ela, como se as pessoas não conseguissem tocar na ferida em si. no dia seguinte fomos a um encontro na igreja e todo mundo perguntava o que era aquele curativo, o que tinha acontecido e eu tentava me esquivar pra não contar os detalhes sórdidos na frente dela. foi um sábado nublado e introspectivo, embora eu nem me lembre como de fato estava o tempo naquele dia.

almoçamos em um restaurante onde, volta e meia, percebíamos um ou outro olhar curioso – e compassivo – em direção a ela. um senhor e uma senhora simpáticos que sentavam-se em uma mesa próxima nos perguntaram o que acontecera e explicamos por alto. sansa não queria muito papo. lá pelas tantas, eu decidi colocar um guardanapo dobrado sobre minha testa, imitando o curativo. logo benjoca pediu também. e hilan. até lupita entrou na brincadeira. depois de um tempo, a fofa senhora da outra mesa nos chamou. fomos ver, os dois também estavam com guardanapos na testa, sorrindo para ela. foi muito, muito doce e gentil da parte deles.

em contrapartida, à tarde tivemos uma festinha de aniversário. fiquei receosa dela ficar muito grudada na gente (mais que o de costume), mas ela quis ir direto pro pula pula. depois quis andar de patinete e bicicleta sem pedal. não sei explicar o que aconteceu, mas desconfio que esse incidente despertou o seu espírito aventureiro.

terminado o sábado, eu deveria então tirar o curativo e lavar tudo normalmente. mas senti que ela ainda não estava pronta pra sequer deixar eu tocar sua testa, muito menos arrancar aquele esparadrapo. então consegui, aos poucos convencê-la de me deixar lavar seus cabelos. ela sentou no chão do box do banheiro. consegui dar um truque e começar lavando as costas, os ombros. ela exitou. consegui lavar ombros e nuca, passei para o pescoço. quando comecei a molhar seus cabelos, percebi que ela estava travada. pedi que erguesse a cabeça para cima. reclamou que a testa doía se inclinasse tanto. mas consegui molhar das pontas até – pouco a pouco – chegar à raiz. comecei a passar o shampoo e senti aquele cheiro ruim, meio de ferrugem. a espuma saía levemente amarronzada. enxaguar foi mais difícil, mas consegui. até condicionador passei. aproveitei pra limpar suas orelhas e bochechas com água e só um pouquinho na testa, ao redor do machucado. a minha menina parecia um bichinho arredio. na hora de vestir a roupa, ela só aceitou se fosse pra vestir a gola da blusa por baixo, passando pelas pernas e bumbum. passar pela cabeça, nem pensar! pouco antes de dormir, tomou o remédio para dor, pra conseguir relaxar.

no dia seguinte, antes de irmos outra vez para a igreja, sansa ainda dormia e vi que uma parte do curativo tinha se soltado. só então me toquei do tanto que aquele ferimento tava feio. aquela boquinha costurada toda espremida entre os fios pretos, parecendo que eles iam se soltar e o machucado iria abrir novamente. um sangue seco ao redor. os fios do ponto grandes e espetados para fora. gentilmente passei um óleo para soltar a cola do esparadrapo e refiz o curativo com gaze e band-aid. meu medo era que ela visse e ficasse em pânico. benjoca viu enquanto eu limpava e se assustou. pedi que não contasse nada a ela.

foi providencial continuar encobrindo o machucado um pouco mais, visto que ela não estava nada confortável com aquela situação. ela não viu o machucado em momento algum e descobrir assim, de surpresa, só pioraria as coisas. na igreja (e em todo os lugares que fomos e ~ainda~ vamos). cada pessoa que a encontrava tinha uma história parecida pra contar: teve uma que cortou o queixo. outro, a sobrancelha. ou abriu a testa “que nem você, sansa!” seguido dum “eu também precisei costurar e agora só ficou uma marquinha” e levantavam o cabelo da testa, mostravam o queixo ou qualquer outra parte do corpo pra que ela visse a cicatriz. ela nada respondia. mas percebi que essas atitudes ajudaram a aceitar aquilo como algo comum, que muita gente já passou por isso também.

continuar com o corte tampado também ajudou a não assustar outras crianças (e, por consequência, deixá-la alarmada), visto que criança adora curativo, mas um costurado daqueles não estava uma coisa muito bonita de se admirar.

naquele dia mais amigos e parentes solidarizaram com ela e brincaram “de constança”:

ao fim do dia ela me pediu: “mãe, posso ver minha citaquiz?’ e então percebi que ela já estava pronta para retirar o curativo.

[CONTINUA…]

acompanhe a saga completa aqui:

parte I – um grande infortúnio

parte II – três pontos

parte III – o curativo

parte IV (em breve)

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categorias: 3 anos, amor, constança, criança

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3 Comments »

  1. Suuuper me identifiquei Luiza!!!!! Meu pequeno que tem 3 anos, em junho do ano passado tentou descer uma escadinha de 3 degraus sozinho por uma distração nossa aí qdo viu que tinha gente "atrás" dele caiu e meteu a cara na lateral da escada que era de cimento! Resultado um corte na maçã do rosto, perto do olho! 3 pontos e um caos total!!!! Felizmente não reclamava de dor e não entendia muita coisa, mas o nosso coração fica em pedacinhos!
    Mas será uma história pra contar pros amiguinhos daqui um tempo!!!!!
    Tudo de bom para os nossos pequenos e muita força pra nós aguentarmos tudo isso! 🙂
    Beijos!

    Comentário by Ana Lúcia Carvalhal — 30 de março de 2017 @ 3:02 pm

  2. Quanta sensibilidade e delicadeza no cuidado com os filhos. Lindo de ver, inspirador. Parabéns Luiza.

    Comentário by fabiana — 2 de abril de 2017 @ 9:28 pm

  3. Luiza, estou acabada, meu menino de 3 aninhos levou 3 pontos na maça do rosto ontem! Pra quem esta lendo, parece uma besteirinha, e na vdd é, perto de tantas coisas ruins que vemos por aí, mas meu Deus, eu só csg chorar qdo olho pra ele, qdo corrj pro hospital eu só lembrava de vc e de seu texto! Como ficou q “citaquiz” da Sansa? Tirou com quantos dias os pontos? Obrigada por compartilhas esses momentos conosco, vc não imagina o qto ajuda!
    Bjos nas crias tudo!

    Comentário by Fran — 6 de maio de 2017 @ 6:36 am

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