20 de novembro

definida pelo útero

por luíza diener

how run the world

se a mulher está nervosa, é porque tá de TPM.
se está enjoada, é porque está grávida.
se está encalorada, é porque está na menopausa.
por favor, apenas parem de achar que somos definidas pelo nosso útero e hormônios! pior, como se isso fosse depreciativo.

se eu estou nervosa, é porque algo diferente aconteceu. porque estou incomodada com alguma coisa e – em muitas das vezes – porque existe uma forte intuição gritando ali, bem alto. mas acabo lutando contra aquilo, o que me deixa repleta de sentimentos contraditórios.
se estou enjoada, posso até estar grávida, mas posso ter comido algo que não me fez bem ou mesmo estar doente.
se estou encalorada, já pensou na possibilidade de o ambiente estar com uma janela fechada, ar condicionado/ventilador desligado ou, simplesmente, pelo dia estar quente?

curioso é pensar que homens também ficam nervosos, enjoados e encalorados e, no caso deles, o motivo só pode ser legítimo, não é mesmo? afinal, não têm úteros ou hormônios femininos que façam isso por eles.

lembro-me de que, quando tinha meus vinte e poucos anos, eu ficava bastante alterada quando chegava no período que antecipava minha menstruação. era quase como se eu virasse bicho, como se tudo que me incomodou no último mês viesse à tona com força. lembro de ficar altamente questionadora, cheia de uma vontade de fazer as coisas diferentes, de quebrar regras. era um misto de sensações, como se eu fosse capaz de, ao mesmo tempo, destruir o mundo e revolucioná-lo.
chamei aquilo de tpm como se esse período pré menstrual fosse realmente tenso, perigoso. eu não queria entrar em contato real com meus sentimentos. me sentia uma péssima mulher por ficar assim, tão subversiva e questionadora. na verdade era isso que me fazia chorar, tamanho o conflito e turbilhão de emoções que entrar em contato comigo mesma – na minha mais pura essência – me causava.

um dia essa tal tpm não passava. durou um mês, quase dois. reclamei com meu acupunturista, que levantou a suspeita: “você não está grávida?”. me passou um exame de sangue e, qual a minha surpresa, descobri que um pequeno ser estava sendo gerado dentro de mim. meses depois, nascia benjamin.
passada a gravidez, veio a amamentação, que logo emendou numa segunda gravidez, que virou amamentação de novo e emendou numa terceira gravidez.

desde então, nunca mais deixei de ser bicho. isso já tem quase seis anos.
um bicho bravo, doce, sensível na sua mais pura essência e com toda a amplitude que a palavra sensibilidade possa apresentar.
esta gravidez agora me trouxe tudo isso que nunca foi embora direito, mas dessa vez numa intensidade enorme. e desta vez veio sem culpa, sem medo de sentir quem sou de verdade.
tenho experimentado uma plenitude ma-ra-vi-lho-sa de ser eu mesma. de não ter medo de dizer não, de expressar meus sentimentos, de demonstrar amor, paixão, raiva, indignação.
por muito tempo nós, mulheres, fomos diminuídas ao mostrar realmente quem somos. taxadas de loucas quando mostramos nossas verdadeiras garras. uma característica tão desejada num homem que, culturalmente, é visto como o elo forte, o guerreiro, o provedor. enquanto isso nós somos o sexo frágil, a voz da calma e da sabedoria. uma “verdadeira” mulher nunca está feia, irada, nunca se descontrola, nunca se esquece e jamais perde a paciência. isso é visto como desequilíbrio.
mas o guerreiro provedor pode, porque ele precisa lutar, precisa mostrar seu lado selvagem e instintivo. homem é forte, não chora, não leva desaforo pra casa, não apanha, não perde uma luta sequer. nós? bem… se somos assim, deve ter algo conosco, né?

ouvi certas bobagens enquanto gestava benjamin. uma delas era que, finalmente, eu poderia ter um pinto dentro de mim por nove meses consecutivos. só que, mais ridículo que isso, foi ouvir que eu me sentia forte daquela maneira porque levava um homem comigo e ele me fazia mais poderosa.
aquela pequena e frágil criatura tinha toda aquela capacidade de me tornar mais forte. única e exclusivamente porque carregava um cromossomo Y consigo e, junto com ele, todos os hormônios que apenas um homem é capaz de ter.
faça-me rir.

giphy

não. foi a gestação que despertou meu lado selvagem e instintivo. foi gerar uma vida, independente de quem fosse e do potencial que todos os bebês carregam dentro de si. independente de seus cromossomos.
tornar-me mãe (e tantas vezes chorar por meus filhos) tornou-me mais forte. descobrir o poder de parir, tornou-me mais guerreira. gerar filhos e nutri-los do meu próprio ser me fez sentir na pele como é uma verdadeira provedora. ter que ouvir há tantos anos comentários preconceituosos e, tantas vezes, abusivos, me ensinaram a não levar desaforo pra casa. rever praticamente todos os conceitos construídos em duas décadas e meia me fizeram erguer meus punhos para, ao invés de apanhar, enfrentar tudo aquilo que pudesse comprometer a integridade dos meus filhos e família. mas, por ser humana como qualquer um, perdi muitas lutas. no entanto, aprendi a escolher minhas batalhas e não desistir delas.

foi isso que me levou a apaixonar-me pela luíza dos últimos seis anos. a parar de suprimir meus sentimentos como se eles não fossem válidos e aprender com eles, ouvi-los.
a entender que não é meu útero ou meu estado hormonal que me definem, mas que devo ter muito orgulho deles, saber deixar-me envolver pelo poder que eles carregam.
a agradecer a dádiva que é ser mulher e que não existe nada de depreciativo nisso. pelo contrário: é um privilégio sem tamanho.

giphy (1)

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categorias: amor, estou grávida, eu gestante, guadalupe, para gestantes

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2 Comments »

  1. Parabéns!!! Alguém precisava dizer isso 🙂

    Comentário by Bruna — novembro 20, 2015 @ 8:04 pm

  2. Isso aí, Luísa! Falou tudo!

    Obs: Meu texto era grande, mas a atualização da página apagou tudo e fiquei com preguiça de escrever de novo. :/

    Comentário by Amanda Barreto — novembro 25, 2015 @ 1:06 pm

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