05 de outubro

deixe a mulher livre pra ter quantos filhos quiser – ou não – ter

por luíza diener

192h

vai passando na rua uma mulher com sua única filha. logo vem alguém e pergunta:
– tem só essa?
– sim – responde a mãe.
– e pretende ter mais outro quando?
– não quero ter mais outro.
– mas vai ser filha única? isso é muito egoísta da sua parte. ela vai ficar sozinha. vai ficar mimada. vai crescer no meio de adultos e ser precoce. e quando você morrer? você precisa parar de pensar só em você e pensar na sua criança.
seguido de uma outra enxurrada de comentários maldosos e sem noção que deveriam ficar guardadinhos para si.

já a mãe com duas crianças se não ouviu, vai ouvir em algum momento da vida:
– vai parar por aí?
– ahn? parar onde?
– nos filhos, você já tem dois. dois é um número bom, né?
– olha, não pensei nisso ainda. ou melhor, não é da sua conta e…
– mas você já tem um casal – ela interrompe – tá ótimo!
– senhora, acho que essa decisão cabe a mim…
– se bem que se fossem dois meninos, era bom tentar uma menininha, né? ou se fossem duas meninas, era bom tentar um garoto. mas um casalzinho.. ah! um casalzinho é perfeito!

enquanto isso, não muito longe dali, uma mulher e seus três filhos fazem compras no mercado:
– nossa! corajosa, ein?
– quem? eu??!
– é, você. que coragem ter esse tanto de filhos hoje em dia. são todos do mesmo pai?
– são todos meus filhos, serve?
– ah, com esse tanto de criança você deve ser rica, né?
– bem, pra falar a verdade, vivemos uma vida bem modesta e…
– e ele ajuda?
– quem?
– o pai das crianças? ele deve ajudar um pouco, né? com esse tanto de filho…
– senhora, nem casada eu sou.
**choque!**

numa roda em um bar alguém levanta a questão:
– e você, fulana? quando vai ter filhos? já passou dos trinta, ein? tá na hora!
– pra falar a verdade, eu não pretendo ter filhos.
– como não? você não pode ter filhos? é estéril ou algo do tipo?
– não, foi escolha minha.
– ah, já sei. tá solteira, né? ainda não achou o pai ideal.
– pra falar a verdade, já sou casada há uns bons anos. mas o ponto não é esse…
– então seu marido que não quer?
– tanto ele quanto eu não queremos. foi uma decisão conjunta.
– mas por quê? você trabalha muito e não vai poder cuidar da criança?
– não é isso, é porque eu não quero ter filhos mesmo. não quero e essa é uma decisão minha, que em nada afeta sua vida.
– grossa.. era só falar desde o começo que não queria ter filhos.
– e não foi o que eu disse?

se tem duas coisas que às vezes me pergunto é por que cargas d’água as pessoas se importam tanto com a quantidade de filhos que uma mulher tem ou deixa de ter. lembro que quando engravidei pela segunda vez alguém me disse: “agora sim você vai descobrir o que é ser mãe”. peralá! quando eu tinha um filho só eu não era mãe de verdade? era só café com leite? não sabia que a quantidade de filhos que uma mulher tem define o quanto ela é mãe ou não. sempre achei que mãe era mãe independente de com qual idade ela teve sua criança, quantos filhos teve, se aquela criança parece fisicamente ou não com a mãe. e pior: já cansei de ouvir da boca de próprias mulheres que “uma mulher só é completa quando se tem filhos”.
rapidão, pera aí! me explica uma coisa: agora você distribui certificado de feminilidade? alguém te constituiu juíza em uma competição imaginária de quem é mais mulher e quem é menos? é isso, produção?

nós, mulheres, temos o direito de termos quantos filhos nós quisermos, assim como temos o direito de optar por não tê-los. uma mulher não é mais completa se encontra um par pra dividir a vida ou uma criança para criar e amar incondicionalmente pelo resto de seus dias.
somos quem somos em nossa plenitude e não podemos exigir que outras pessoas sejam responsáveis por completar nossa felicidade.
por isso, se você encontrar uma mulher com seus vinte bilhões de filhos ou sem nenhum deles, não ache que essa precisa ser a pauta inicial da conversa de vocês. existem outros inúmeros assuntos para se conversar.
e, se não tiver nada de bom a dizer ou acrescentar, pode ser também o caso de ficar calado mesmo. ninguém vai morrer se passar um dia sem ter uma conversa esquisita com um estranho na rua. juro.

 

{photo by ryan mcguire}

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categorias: Tags:, , , , coisas que não se dizem, empoderamento, erros comuns, feminismo

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7 Comments »

  1. PERFEITO! É exatamente isso. Sem tirar nem por. Assino embaixo.

    Comentário by Talita Rodrigues — outubro 6, 2016 @ 9:32 am

  2. Adorei esse texto… Eu sou mãe de quatro meninos, e o que mais ouço é:

    Comentário by Rita Salgado — outubro 7, 2016 @ 2:00 pm

  3. Adorei esse texto…Eu sou mãe de quatro meninos e o que mais ouço é: Você já fez a laqueadura, né?
    Kkkk…povo mais preocupado com a minha vida e com o possível aumento da minha família que eu.

    Comentário by Rita Salgado — outubro 7, 2016 @ 2:03 pm

  4. Adorei o texto e é bem por ai mesmo. Quando minha primeira filha nasceu todo mundo perguntava quando eu ia ter outro… Depois de 6 anos, tive outra menina. A primeira coosa que falam é: Pena que não veio um menino. Mas vc não vai tentar não né? As coisas como estão, seria loucura!!! Outros já logo vem falando: Ligou, né? Dois filhos ta muito bom!
    Aff, deixa a gente decidir… Ninguém tem nada com a nossa vida. E, sim, eu penso em tentar um menininho… Kkkkk

    Comentário by Carol — outubro 7, 2016 @ 3:24 pm

  5. O nome disso é falta do que fazer. E como diz meu marido "vai lavar um tanque de roupa pra ver se passa…" preguiça ficar dando satisfação pra quem não paga nossas contas…

    Comentário by Vanessa — outubro 10, 2016 @ 5:05 pm

  6. Sou do time dos que não quer. Decisão conjunta com o marido desde os tempos de namoro (tínhamos 18, agora 30)

    Podemos mudar de opinião? Sim

    Podemos não mudar? Claro

    Independentemente… tudo é válido!

    Cada um, cada um! Vamos ser livres e felizes minha gente!!!

    Comentário by Thais — outubro 10, 2016 @ 5:29 pm

  7. Hahaha adorei. Sou mãe de 3 tb, um menino e duas meninas. Tb ouço bastante “corajosa” aff….ou pior “animada hein”. O povo que cuida da vida alheia….

    Comentário by Natalia — outubro 22, 2016 @ 6:47 am

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