26 de agosto

o começo do desfralde

por luíza diener

penico, desfralde, potty training

eu não planejei. não tinha intenção de começar o desfralde enquanto o inverno não fosse embora. tava frio aqui em casa, de querer passar o dia de calça, casaco e meia.
mas ela via o irmão indo ao banheiro, via o pai indo ao banheiro, via a mãe indo ao banheiro. logo, ela quis ir ao banheiro também. já tínhamos um penico da época do benjamin, uns tapa fraldas e, coincidentemente, tão logo ela começou a querer tirar as fraldas, chegou da china uma encomenda de calcinhas que eu tinha feito no aliexpress, semanas antes.

no começo ela não fazia a menor ideia do que fazer, apenas queria ficar pelada e imitar o irmão, sentada na privada.
primeiro fez uns xixis no chão mas, como ela tem medo de pisar no chão molhado, ficou meio traumatizada e, então, passou a segurar o xixi o tempo todo. chegou a ficar quase 3 horas sem fralda, sem deixar escapar uma gotinha sequer.
tempos depois, percebeu que conseguia controlar o xixi e, assim que dava uma escapadinha, pedia pra ir correndo ao banheiro. mas já estava tão acostumada a segurar que não conseguia mais soltar.

esse processo demorou algumas semanas (estimo que mais ou menos três).
no meio desse caminho ela também deu umas escapadas de cocô na calcinha e ficou apavorada. chorava, gritava e a gente via que tinha sido totalmente acidental. também passou a segurar o cocô e ficar alguns dias com o intestino preso.
então decidi que o melhor seria deixar ela sem calcinha somente um período da manhã e colocar a fralda na hora da soneca, antes do almoço. depois disso, fralda até perto da hora de tomar banho, quando ela poderia zanzar pelada por aí e tentar uma eventual ida ao banheiro.
pude perceber que ela tem horários meio previsíveis de ida ao banheiro: 1) ela acorda de dia com a fralda quase seca então, assim que desperta, faz um mundaréu de xixi; 2) ela segura bastante entre um xixi e outro, então isso teoricamente nos ajudaria nas idas não tão frequentes ao banheiro; 3) ela costuma fazer cocô no final da manhã, pouco antes da hora do almoço.

esta semana parece que, por fim, a coisa tá encontrando seu equilíbrio. claro que eu sempre digo que não dá pra cantar vitória antecipada e eu nem pretendo fazer isso por enquanto.
segunda feira finalmente ela conseguiu pedir antes de se molhar e, quando sentou na privada, fez todo o xixi de uma vez só. depois, quando o pai chegou do trabalho e eu contei sobre a façanha, ela falou: “qué vê, papai?”, foi com ele ao vaso e fez mais uma enxurrada. também já fez cocô no trono umas duas vezes, sem eu forçar a barra nem nada. ela me pediu, fomos ao banheiro, levamos um livrinho junto (me valho de livros e conversas para distraí-la) e ela conseguiu! vibrei e me deliciei com o êxtase de cada conquista.
vamos seguindo com o desfralde só dentro de casa, aumentando gradativamente o tempo sem fralda. depois passaremos a fazer pequenos passeios sem e, quem sabe, a lugares mais tranquilos de ficar só de calcinha, como casa da vovó ou de amigos íntimos.

eu não sou muito de dar dicas, especialmente porque acredito que o desfralde seja algo íntimo e pessoal, até porque cada família tem sua dinâmica e nem todo mundo tem disponibilidade e paciência pra fazer um desfralde tão lento e gradual, mas posso me arriscar e dar alguns toques pessoais sobre desfralde:

  • respeite o tempo da criança. não é porque muitas crianças desfraldam perto dos 2 anos que essa seja a única idade em que isso acontece. algumas desfraldam antes, mas isso é exceção à regra (não se deixe impressionar pela história da filha da sua amiga-  de apenas 1 ano e meio de idade – que abandonou as fraldas sozinha! cada caso é um caso e isso não precisa – e provavelmente nem vai – acontecer na sua casa). outras desfraldam depois – bem depois – e isso é mais comum do que se imagina. então não projete suas cobranças pessoais (muito menos a dos outros) em cima da sua filha ou filho.
  • consciência corporal é tudo. permita que a criança conheça seu próprio corpo. ajude-a a nomear suas partes íntimas de forma distinta (pênis é pênis, vagina é vagina, ânus é ânus. cada coisa tem seu nome), não reprima se ela quiser tocá-las (pra ela é tão natural quanto tocar o olho, o nariz, o umbigo). deixe que ela se divirta com assuntos de cocô, xixi, pum. tudo isso faz parte do auto conhecimento. ajude-a também a saber a diferença entre os tais cocô, xixi e pum, assim fica mais fácil dela perceber o que está fazendo ou com vontade de fazer (e por onde está fazendo).
  • observe sua criança atentamente. não precisa fazer tabela com os horários das evacuações e urinas. menas, por favor! mas atente quando que ela fica com a fralda mais cheia e se existe um momento ou local preferido pra fazer cocô.
  • cuidado com cobranças e frustrações! não é porque sua filha ou filho mostrou que sabe quando faz xixi ou cocô na fralda que ela esteja prontinha pra fazer suas necessidades num penico ou privada. eles usaram fralda desde o dia em que nasceram e isso de aprender a fazer fora dela pode ser difícil e bastante frustrante, levando a regressões e até traumas. não faça comparações em hipótese alguma. não compare com os primos, os amiguinhos, os irmãos mais velhos. não compare com experiências que compartilharam com você ou que você leu em blogs (rá!). nunca verbalize essa comparação para seu pequeno e tente não fazê-las mentalmente também. entoe sempre o mantra: cada criança é uma. respeite seu tempo.
  • faça do desfralde um exercício diário. nem que seja por uma horinha, tire a fralda e deixe a criança ficar livre por um momento. ofereça com frequência para ir ao banheiro (eu, particularmente, gosto de ensinar a fazer as necessidades somente no banheiro, mas há quem leve o penico pra todo canto da casa. acho isso bastante pessoal e não condeno quem o faça). tudo bem se ela não fizer nada nos primeiro dias (ou semanas), mas enquanto for interessante pra ela, ofereça. enquanto ela pedir pra ir, leve. não force. mais cedo ou mais tarde vai acontecer.
  • aja com naturalidade. deixe que seus filhos vejam vocês irem ao banheiro. não precisa ser toda santa vez (porque, né? a gente também curte uma privacidade), mas é bom saber que mamãe, papai, irmão, irmã, seja lá quem for, também vai ao banheiro. converse sobre isso, sobre seu cocô, sobre o cocô e xixi do cachorro, do passarinho, do gato, o que seja. mas deixe que esse assunto seja natural. quanto mais tabu, mais repressão. e quanto mais repressão, maior a dificuldade de deixar que coisas naturais sejam assim: naturais!
  • seja constante, mas não tenha medo de voltar atrás. derrube o mito de que, uma vez iniciado o desfralde, é um caminho sem volta. benjoca mesmo se mostrou ultra interessado no seu desfralde e desistiu completamente quando não conseguiu sentar no penico (que, mais tarde, trocamos por outro). precisamos esperar quase um mês pra dar o restart.
    muitas coisas podem acontecer no meio do caminho: doença, mudança de ambiente, viagem, problemas pessoais (inclusive dos pais) e tantas coisas. e também a criança pode simplesmente se desinteressar. daí não dá pra forçar. simplesmente não dá. também não desanime se demorar para ver alguma diferença. ela já está acontecendo, ainda que pareça imperceptível.
  • prepare o kit desfralde. panos de chão, calcinhas ou cuecas, penico ou redutor de assento (o que for mais confortável e prático para a criança), um livrinho ou brinquedo que prenda a atenção do pequeno por um bom tempo. você até vai precisar comprar algumas coisinhas mas, por favor, não faça desse um momento de consumismo. vá com calma, não se preocupe em gastar rios de dinheiro no troninho musical que pisca, canta e bate palma quando cai alguma coisa dentro dele. não precisa comprar a super calcinha ultra absorvente impermeável com estampa de princesa, o livrinho pop up do cocô na privada. você é livre pra adquirir essas coisas, claro, mas não se iluda achando que precisa delas. ensiná-la a ter consciência corporal, conversar, cantar musiquinhas, mantê-la entretida enquanto sentada até que ela relaxe e saia alguma coisa se mostram igualmente (ou até mais) eficientes e não deixam a criança dependente daqueles artifícios, o que ajuda ela a fazer suas necessidades em diferentes locais e situações.
  • para cada conquista, uma festa! seja você o troninho musical! elogie qualquer gotinha ou bolinha que sair, incentive-a a tentar fazer novamente, invente uma música, uma dança, o que for. não tenha medo de parecer um bobo da corte, desde que seus pequenos curtam a farra. é bom pra criança ver que os pais se orgulham dela.
  • lembre-se: desfralde é aprendizadoalguns pegam o jeito da coisa mais rápido e outros demoram mais. só que, cedo ou tarde, eles aprendem por fim. vai dar tudo certo : )

 

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11 Comments »

  1. Lembro do processo de desfralde dos meus irmaos mais novos, minha madrasta fez com tudo fosse traumatizante tanto para eles quanto para mim que assistia tudo… moramos no sul e aqui o frio é severo em determinadas épocas do ano, ela escolheu justo essa época (não sei se escolheu, eu tenho para mim que sim), quem molhasse a cama tinha que segurar o choro, ficar em pé ao lado da cama, com a roupa molhada, no frio, esperando até que ela viesse trocar o lençol, virar o colchão e por fim trocar a roupa deles… todo escape deles era um tormento, eles entravam em panico , choradeira, berros dela e as vezes ate uns tapas (tudo dependia do humor dela). Por muitas vezes escondi as cuequinhas molhadas deles e pedia quase implorando que eles não chorassem.. não sei dizer quanto tempo essa tortura durou… mas graças a Deus crescemos, saudaveis e sem grandes traumas, mas sempre comentavamos que quando tivessemos filhos fariamos diferente (não só o desfralde como outras coisas tambem) e assim temos feito. Tenho dois filhos ( um de 4 anos e outro de 8 meses e uma sobrinha de 2 anos). Hoje posso dizer que perdoei minha madrasta (não foi facil, perdoar quem te fez muito mal nunca é facil), nos revezamos para cuidar dela que esta com a saude bem debilitada… apesar de tudo nunca a deixamos desamparada, afinal, cada um dá o que tem, né? Me desculpe por usar seu blog para esse desabafo! Mas acredito que tivemos sorte, os traumas poderiam ter sido enormes, afinal o desfralde é um momento delicado na vida de uma criança e requer muito amor, cuidado, carinho e atenção!! Obrigada por dividir suas experiencias conosco, sua familia é linda!! Um beijo cheio de admiração!

    Comentário by Mariah — 27 de agosto de 2015 @ 2:26 am

  2. Oi, Mariah!
    Nossa, que história cruel! Ainda bem que mesmo assim vocês permanecem ligadas de alguma maneira e ela não foi desamparada no momento da necessidade.
    Agora, posso questionar a sua fala quando você disse “crescemos, saudaveis e sem grandes traumas”? porque me pareceu que esse foi um baita dum trauma, não somente para seus irmãos quanto para você, tanto que você usou termos como “não sei dizer quanto tempo essa tortura durou”, “quando tivessemos filhos fariamos diferente (não só o desfralde como outras coisas tambem)” e “(não foi facil, perdoar quem te fez muito mal nunca é facil”.
    Apenas para dizer que, se houve o perdão, que coisa maravilhosa! Porque o perdão é um verdadeiro milagre!
    Mas para trazer essa luz de que houve trauma sim, mas ele foi superado 😉

    Muito obrigada pelo comentário e também por dividir sua intimidade comigo (espero que não tenha sido muito invasiva em minhas reflexões. se quiser, apago meu comentário)

    Beijinhos!

    Comentário by luíza diener — 27 de agosto de 2015 @ 2:53 am

  3. O unico problema do seu comentário é que ele faz com que meu marido tenha razão, droga! (Kkkkkkkkk) ele tambem acha que sim, houveram traumas… feridas na alma é o termo que ele usa, mas sim foram superados e ele diz isso sempre que vê o nosso cuidado com ela…

    O que me faz pensar que sim, esses traumas existiram e no fundo eu ate sei disso, mas assumir assim falando e ouvindo minha propria fala ainda soava esquisito ( não sei se você me entende…)

    O que posso te dizer é que mais uma vez seu comentário veio acalhar, liguei para o marido, que ao final da conversa disse que estava esperando minha ligação, pq ele leu seu comentario aqui(tem coisas que eu nao aguento esperar ele voltar do trabalho. Que o chefe dele nao leia isso!! Hehehe) enfim, liguei p ele e consegui falar de coração, que as feridas existiram e foram fechadas… acredito que ao falar essas coisas dessa foram encerro de vez o que passou! É como se essa reflexão fosse o ajuste na tampa do pote dessas lembranças, que sempre vão existir mas que hoje não machucam mais!! Obrigada pela reflexão e pelo carinho com as palavras… sigo te admirando ainda mais!! Beijo

    PS: E a reação dos meus irmãos ao saberem que eu comentei aqui? Falaram: “isso, conta p todo mundo que a gente fazia xixi na calça kkkkkkk” “mas conta tambem que hoje não fazemos mais e somos lindos kkkkkkk”

    Comentário by Mariah — 27 de agosto de 2015 @ 3:31 pm

  4. Eita, Mariah!
    Que maravilha ler seu feedback! Fiquei morrendo de medo de ser invasiva, mas achei que valia a pena bancar a psicóloga. Ahahahah!
    Achei mais maravilhoso ainda ver que isso te ajudou a ajustar a tampa e ter a certeza de que, graças a deus, você conseguiu superar isso. Me admirei muito da sua atitude, tanto de reconhecer isso quanto de cuidar dela. Muitas pessoas passariam a vida inteira guardando mágoa e vendo nessa situação uma oportunidade de vingança. Que isso sirva de exemplo para muitos, especialmente para os seus filhos. Que eles vejam o amor que flui através das suas atitudes 😉
    E fala pros seus irmãos que tá sussa. Eu fiz xixi na cama há poucos anos, depois mesmo de ser casada (se bobear, acho que já tinha o Benjamin). ahahahahahahahha!!!

    Beijão a todos!

    Comentário by luíza diener — 2 de setembro de 2015 @ 1:18 am

  5. Boa tarde Luiza! Como sempre eu estou aqui me deliciando com o seu blog.
    Meu filho tem 1 ano e 9 meses e ando pensando bastante no desfralde, tenho tbm uma filha de 5 anos e com ela o desfralde na época foi tranquilo, mas como vc mesmo disse não podemos comparar e nem esperar o mesmo pois eles são bem diferentes um do outro rs.
    Mas ler seu post hoje foi maravilhoso me encorajou ainda mais!
    Obrigada por sempre compartilhar!
    Sua família é linda!Beijos

    Comentário by Sabrina — 27 de agosto de 2015 @ 3:37 pm

  6. Oi, querida! Obrigada pelo comentário!
    Bem, você disse que tem pensado bastante no desfralde. E sua filha? Também tem pensado nisso? ehehehehhe!
    Observe como ela tem se comportado em relação a isso tudo antes de tomar alguma decisão. O ideal é que o movimento comece nela e que só então você dê continuidade ao processo.
    E sem comparações, claro! Ehehehhee

    Um grande beijo pra você e pra família <3

    Comentário by luíza diener — 2 de setembro de 2015 @ 1:13 am

  7. Tão bom ler esse texto <3

    Comentário by fabrinadutra — 27 de agosto de 2015 @ 8:43 pm

  8. Meu filho está em processo de desfralde, e isso requer bastante paciência, ele já pede pra ir ao banheiro fazer xixi, e o côco ele só conseguiu fazer uma vez, não sei o que acontece mas ele não conseguiu mas fazer o côco no vaso e tampouco quer usar o troninho, enfim, e eu super respeito o tempo dele, está sendo uma experiência para nossa pequena família, estamos evoluindo no processo com sucesso.

    Comentário by Karla — 31 de agosto de 2015 @ 7:34 pm

  9. Oi, Karla, tudo bem?
    Posso te fazer algumas perguntinhas pra poder te ajudar melhor?
    Lá vão: Há quanto tempo vocês começaram o desfralde? Com que idade está seu filho? Vocês estão vivenciando algum tipo de mudança de rotina ultimamente?

    Aguardo sua resposta! Beijos

    Comentário by luíza diener — 2 de setembro de 2015 @ 1:08 am

  10. Minga bebe de 1 ano e 1 mes de uns tempos pra cá tem detestado a fralda, quando ve q vai trocar chora e nao quer de jeito nenhum tenta arrancar puxando e sempre q eu tiro e um alivio pra ela,ela coça o bumbum ate ficar vermelho ja troquei a marca diversas vezes passei todas as pomadas pra assadura alergia e afins mais sempre parece q algo na fralda encomoda… realmente não sei se a fralda a encomoda ou e algum tipo de “intolerância a fralda”…

    Comentário by Ângela — 10 de setembro de 2015 @ 12:04 am

  11. Amei o texto!! Parabéns Luíza! Tenho uma pequena que nasceu um dia antes da sua, e agora ela grita em qualquer lugar: Mamaaaaaae cooocoooo! Desculpa a ênfase, mas é assim. No começo fiquei envergonhada, pois foi na hora do culto, mas percebi que ela está demonstrando sua vontade de ir ao banheiro. Ainda estou pensando no desfralde, em Sp tá muito frio, mas já é um grande passo. Bj

    Comentário by Izabella — 11 de setembro de 2015 @ 2:53 pm

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