09 de abril

educando em casa

por luíza diener

dia após dia eu fico mais feliz e mais orgulhosa de poder ficar em casa com meu filho.
foi uma decisão nossa, planejada muito antes dele existir.
graças a deus tivemos (e ainda temos) condições de fazer isso, pois entendo que existem famílias em que isso não chega nem a ser uma opção.

mesmo assim nunca li muito sobre educar em casa.
a forma como cuido do pequeno é muito mais intuitiva e baseada no que minha mãe fazia comigo e com minhas irmãs.
lembro que ela – que ficou conosco até eu completar 7 anos – sempre tinha alguma coisa interessante pra apresentar pra gente: um piquenique na varanda em dias de calor, papéis gigantescos para desenharmos, poucos brinquedos comprados e muita coisa inventada.
tudo isso ficou encucado em mim.

uma ou outra coisa eu também vi na internet ou copiei de algum lugar que eu achei interessante.

então resolvi compartilhar com vocês algumas coisas que eu faço/não faço e o porque de cada coisa:

acessibilidade

o benjamin tem acesso a todos os cômodos da casa. uns ele pode acessar livremente e outros, acompanhado (banheiro e, especialmente, cozinha/área de serviço).

aqui a casa não é só do casal. é também dos filhos (futuros included). então fazemos assim: parte da estante na sala é dele, parte nossa. nas prateleiras inferiores a gente dispõe brinquedos e livrinhos dele. também deixamos um tapetinho no chão e ele sempre senta lá pra ler e brincar. mas claro que ele prefere mesmo é catar qualquer coisa e ir sentar-se conosco no sofá ou subir nas cadeiras de adulto.

o quarto é todo dele e para ele. tiramos o berço e deixamos o colchão no chão mesmo. assim, quando ele acorda, pode brincar um pouco antes de nos solicitar. e olha que isso funciona. ele já chegou a ficar quase uma hora brincando sozinho sem reclamar.
e tudo é acessível: os quadros e espelho são na altura dele, os livros e brinquedos ficam dispostos de forma que ele possa tirar e guardar quando quiser.

o que não queremos que ele pegue de jeito nenhum a gente tira da vista e do alcance.
claro que volta e meia têm coisas nossas espalhadas pela casa toda e ele quer mexer e brincar. mas aí ensinamos que existem coisas que são do coletivo e outras não, o que nos leva ao próximo tópico:

coletividade/individualidade

como falei acima, muitas coisas na casa são de livre acesso. são as coisas do coletivo.
as que oferecem verdadeiro risco, como produtos de limpeza, fogão, facas, etc, ficam fora da área de circulação.
as que não queremos que ele mexa, mas não podem sair de circulação (tv, tomadas, telefone, bla bla bla), a gente ensina a não mexer.
aliás, protetor de tomada é algo novo aqui em casa. só colocamos alguns lá no quarto dele – quando ele passou a dormir no chão – pois não o vigiamos 24h pra dizer “não pode” toda vez que ele resolver cutucar por lá. e também não quero arriscar, né?
no mais, a gente ensina que certas coisas não devem ser nem tocadas (a tomada) e outras podem com moderação (ligar o som ou brincar de falar ao telefone) .

aqui em casa eu também tento ao máximo coletivizar as coisas que posso: os pratos e talheres em geral são de todos. as coisas de comer exclusivas do benjamin são mais pra gente sair, por questão de praticidade.
geralmente a comida é feita pra todos sem leite e sem glúten de maneira que ele não fique passando vontade por causa das alergias.
por outro lado, se a gente quer tomar um refri ou comer alguma coisa que ele ainda não pode, ele entende que esse ou aquele é do papai e da mamãe e a gente arruma alguma água, suco ou biscoitinho pra ele matar a sede ou a fome.

ele tem uma brincadeira bem fofa que é tentar adivinhar quem tem o que ou o que é de quem.
exemplo: papai tem pinto. benben tem. mamãe não tem. tov tem. boneca não tem e por aí vai.
ou: mamãe pode mexer no fogo. papai pode. benben não pode. tov não pode. vovó pode. etc.
outra coisa: o benben tem chupeta. papai não. amiguinha sim. mamãe não. tov não.

ele aprende com a própria curiosidade e depois fica repetindo pra gente, como quem está recapitulando.
e com isso ele percebe também que têm muitas coisas que ele pode fazer e a gente não (minha tentativa de mostrar como o mundo dele é muito mais interessante que o nosso).

tudo é um aprendizado

confesso que, se a mãe/pai tem disponibilidade e disposição pra fazer certas coisas com os filhos, algumas aulas passam a tornar-se dispensáveis.
um dia ouvi uma amiga dizer que existe uma aula de musicalização diferente que, ao invés de ensinar o som dos instrumentos, ensina o som das coisas: o carro faz brrruuuum (e aí as crianças ouvem o som do carro); a máquina de lavar faz tchuc tchuc tchuc (e todos escutam o som da máquina de lavar).
ah, eu sei fazer isso aqui também, até porque o que não falta é máquina de lavar funcionando, telefone e campainha tocando, carro passando e coisa e tal. o pequeno sabe diferenciar entre o som da moto, do carro ou do caminhão. do avião e do helicóptero. tudo por observação.

acredito que não existe melhor estímulo que o do dia a dia.
por aqui tudo é tudo. um pote de sorvete pode guardar sorvete, mas também pode guardar brinquedos, pode virar uma micro piscina, pode ser um tambor, um chapéu, uma forma de bolo de areia ou o que mais a imaginação permitir.

quando vamos ao parquinho eu deixo que ele explore tudo. tira o sapato, sente a textura da terra, da grama, da areia, da pedra. coloca um pouco na boca, percebe que o gosto é ruim. senta no brinquedo quente e vê que machuca. percebe que o escorregador está gelado, o balanço está molhado. sobe e desce pela escada. desce e sobe pelo escorregador. sobe, pendura e balança em tudo. e acha graça. se mete na brincadeira dos grandes. fica admirado com eles. e logo tenta imitar tudo.

às vezes saímos de casa sem rumo e eu aproveito pra contar-lhe sobre as coisas, desde as mais simples até as mais complexas: olha como o passarinho voa alto! escuta ele cantar. que bonito, né?! pega essa folha verde. ela é lisa? é macia? sente o toco áspero da árvore grande. começou a chover. tá sentindo o cheiro da terra molhada? tá sentindo a água cair na sua cabeça? abre a mão pra ver a gota que cai lá do céu. é a chuva. o céu tava azul e agora está cinza, cheio de nuvens.
aquele moço colocou o capacete e vai andar na moto. aquela moça carrega uma bolsa e vai embora. dá tchau pra ela.
vamos conversar com o porteiro? pergunta o nome dele…

em casa, nos dias de chuva ou em dias em que não dá pra sair, muitas coisas podem virar brinquedo: apoie o colchão no sofá e você tem um escorregador ou uma rampa. pode fazer corrida com obstáculos usando almofadas para pular e cadeiras para passar debaixo. com duas cadeiras e um lençol você tem uma cabaninha. o armário vira esconderijo. a cortina também.

e tantas milhares de coisas que eles podem aprender ao experimentar, observar,conversar.
aliás, o diálogo:

diálogo, conversas e um falatório sem fim

acredito que um ótimo jeito de ensinar as coisas a uma criança seja através do diálogo.
claro que tem essas outras experiências sensoriais mencionadas acima, mas acho extremamente importante conversar com os pequenos, desde que eles estão na barriga.

conversava muito com o benjamin desde o momento em que soube que ele estava lá, mesmo antes dele ter um nome ou um pênis. contava história, cantava música. obviamente isso continuou depois que ele nasceu.
quando ele nasceu eu me apresentei pra ele, apresentei o pai também.
quando chegamos em casa eu mostrei tudo pra ele. depois veio o tov e expliquei que aquele seria seu companheiro de aventuras pelos próximos anos ou décadas.

desde cedo leio livrinhos pra ele. antes o tempo de concentração era mínimo: no máximo 2 ou 3 minutinhos.
agora ele para mais um pouco pra ouvir (só um pouquinho a mais) e escolhe as historinhas que quer.
é muito fofo quando, do nada, ele me aparece com um livro e já chega sentando no nosso colo, falando qual história quer.

se vamos sair, sempre aviso aonde vamos.
nunca o pego de surpresa. conto que a gente vai visitar a vovó e para isso ele vai precisar colocar uma blusa, um short, dois sapatos.
quando o pai vai trabalhar eu mostro que primeiro o papai acorda, toma banho, se veste, come e da tchau pra gente. depois disso ele entra no ônibus e vai pro trabalho.
ao final do dia, o caminho reverso. contamos pro papai com quem estivemos, o que ele fez, se machucou, se brincou muito, se fez sol ou chuva.

quando ele fica chateado eu procuro sempre olhá-lo nos olhos e perguntar o que foi. tentar entender seus motivos e também explicar os meus.
na maioria das vezes eu explico por que é que ele não pode fazer tal e tal coisa e tudo isso costuma acalmá-lo.

a rotina funciona bem para os pequenos, mas quando eles crescem a gente pode acrescentar o diálogo a tudo. isso sim faz com que as coisas tornem-se previsíveis.

mas não apenas falar, acho importante que saibamos ouvir.
por enquanto eu não consigo entender nem metade das palavras que saem daquela pequenina boca, mas me esforço, tento entender os gestos, buscar com meus olhos o que ele está fitando. tentar traduzir aquele vocabulário maluco.
e a gente se impressiona ao perceber o tanto que eles já falam, mesmo que com palavras ininteligíveis.

televisão

ele não vê. não vou dizer que nunca viu, mas também não me valho desse recurso pra conseguir fazer outras coisas.

tenho vários argumentos para ele não assistir (o que rende um post à parte), mas o ponto central é: o tempo que seu filho passa em frente à tv é um tempo que ele perde de aprender, crescer e relacionar-se. isso pra mim já é suficiente.

o convívio com as outras crianças

já ouvi muito de pessoas diversas o levantamento da questão: mas e o convívio com as outras crianças?

ué. ele tem. como já disse, todos os dias nós vamos ao parquinho, por exemplo. lá ele convive não apenas com crianças da idade dele (como costuma ser nas escolinhas normais), mas com meninos e meninas mais novos e mais velhos.
ele até vê graça nos pequenos, mas sempre quer saber mais dos maiores. já sabe o nome de vários deles. tem até uma amiguinha – com 4 ou 5 anos a mais – que só de vê-la ele já sai correndo (às vezes para ela, às vezes dela, pra brincar de pega pega).
num dia ele é o bonequinho das meninas, que o carregam no colo pra cá e pra lá, colocam no balanço, no gira gira, ajudam a descer no escorregador.
no outro, é o macaquinho de circo dos meninos: fica fazendo palhaçada enquanto todos riem.
noutras vezes ele é o líder da turma do fundão. é só se juntar com os pequenos da idade dele que o terror instala-se e ele sempre arrasta os amiguinhos pro mau caminho dos sobes e desces infindáveis dos brinquedos mais perigosos, ou num rally no meio da terra vermelha, típica de brasília.

além do parquinho, tem os filhos de amigas, que sempre faço questão de encontrar.

e além do parquinho e dazamiga, tem a igreja.
todo domingo nós vamos à igreja e lá tem programação especial para as crianças também. agora ele está indo numa salinha que é uma graça: primeiro tem musiquinha com crianças de diversas idades. depois ele vai pra turminha da idade dele (alguns mais velhos também) e lá tem hora da historinha, da atividade, da brincadeira. é a hora em que ele é o benjamin, sem a mamãe nem o papai. isso também é ótimo pra ele.

querem mais ou tá bom?

porque se sujar (e bagunçar, e comer o que não deve) faz bem

se eu quero que meu filho tenha suas próprias experiências, preciso permitir que certas coisas aconteçam: comer sozinho faz uma lambreca danada. deixar o filho beber num copo comum é correr o risco dele ficar com a blusa molhada. permitir o livre acesso aos brinquedos é ter a certeza de que sempre terá algum (ou vários) fora do lugar.

as roupas vão sujar (algumas vão manchar pra sempre), você corre o risco de ganhar um risco na parede da sua sala ou naquele sofá novinho, seu filho vai viver com algum roxo na testa, na perna, no braço e pode até ter uma eventual dor de barriga porque comeu areia ou lambeu a sola do sapato.

mas não é assim que se aprende? experimentando?

claro que não é pra criar os filhos descontrolados no meio da selva de pedra! mas também não dá pra metê-los numa redoma, arredondar o canto de tudo que é pontudo, eliminar 99,9% dos germes e bactérias e isolá-los do mundo.
muito menos querer que eles sejam mini adultos hiper comportados, que dormem super bem, nunca dão trabalho, não fazem birra, não têm catarro, não se sujam e nunca quebraram nada na vida. daqueles que têm um quarto-berçário hiper bem decorado, mas não podem mexer em nada. e a sala é dos adultos e nem pensar em tocar o terror por lá.

ser mãe e pai é meter a mão no cocô na massa e deixar que eles metam a mão também (não no cocô, mas na massa, na massinha).

lembre-se: você também já foi criança

é um belo de um clichê. mas fazer o que se é a mais pura verdade?

me entristeço quando vejo alguns pais repressores que estão sempre dando bronca nos filhos e tolindo eles a cada segundo: “não mexa aí!”, “não faça isso!”, “fala baixo!”, “não corre!”, “não pula!”, “não mexe!”, “não respira!”.
que às vezes não deixam que eles façam algumas coisas porque vai sujar, porque vai cair, porque vai sair correndo e alguém vai ter que ir buscar, porque porque porque.
enfim, porque vai dar trabalho para eles, os pais.

lembra de quando você era criança e tudo era tão mais simples e divertido?
as coisas eram tão mais fáceis do que hoje, não é mesmo?
então por que não deixar que seja assim para seus filhos também, ao invés de enchê-los de preocupações e regras bobas?
eles terão a vida inteira para serem adultos, mas pouquíssimo tempo para curtir essa infância que a cada dia termina mais cedo.

concluindo

se você aparecer na minha casa de surpresa num dia qualquer, tenho certeza quase que absoluta de que ela não vai estar muito arrumada. com certeza terá louça suja na pia, alguma roupa jogada no chão do banheiro e muitos brinquedos espalhados casa afora. eu não estarei toda linda e deslumbrante e meu filho com certeza estará sujo de alguma maneira: um pouquinho de comida na bochecha ou na orelha, o pé encardido e a blusa manchada.

ele vai te olhar sério e mudo por um bom tempo até que pegue alguma intimidade com você.
mas se isso acontecer,  é bem provável de ele começar a tagarelar que nem um doido, trazer brinquedos pra que você conheça, subir no sofá pra ficar ao seu lado. quando você for embora ele pode voltar a ficar sério, mas com certeza, depois que você sair, ele vai dizer “tau” e acenar para a porta. e é até capaz dele se entristecer com a sua partida e chorar.

mas não dá pra prever, porque ele é uma criança. como todas as outras.
não é bicho do mato, não morde (geralmente) e não é melhor nem pior que nenhuma criança por ficar em casa com a mãe. é apenas agnaldo timóteo benjamin.

Related Posts with Thumbnails

categorias: Tags:, , , , , , , , , , , , , , , , educação

assine nosso feed ou receba por email


70 Comments »

  1. É um tema que não é fácil.

    Comentário by ketina — setembro 24, 2014 @ 12:46 pm

RSS feed for comments on this post.
TrackBack URL

Leave a comment