espelho meu

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eu me vi num momento de vida em que tudo estava acontecendo exatamente da maneira que eu gostaria que acontecesse. vi meus filhos aproveitando o espaço novo, brincando lá fora, desenvolvendo novos vínculos como irmãos, com a natureza que os cerca, com novos amigos, consigo mesmos.
eu me vi muito animada com isso tudo e imersa numa vastidão de sentimentos e emoções.

também me vi com um filho com necessidades especiais tanto alimentares quando educacionais. a dor antiga de ver que suas alergias nunca passaram como deveriam e a surpresa da novidade de ter que lidar com um menino que é especial na sua essência e não há nada que possamos fazer para mudar essa condição, apenas aceitá-lo como ele é esperar que as pessoas consigam ser minimamente compreensivas e empáticas em relação a isso tudo.
eu descobri que muito mais difícil que ter que lidar diária, constante e eternamente com essas necessidades – que são tão peculiares dele – é ter que lidar com a ignorância e desinformação de praticamente todos ao nosso redor. saber que, enquanto meu filho não tiver um mínimo de maturidade e autonomia para se “defender” por conta própria, eu terei que intermediar muitas relações e situações, o que me esmaga o coração tantas vezes, justamente por eu prezar por sua autonomia e individualidade.

eu me vi de braços dados com a solidão justamente no momento em que mais me encontro rodeada de gente. percebi que simpatia não tem nada a ver com empatia e que, muitas vezes, até as pessoas mais empáticas podem ser as mais egoístas.
eu também me fiz de egoísta e me afastei de muita gente, mas percebi que muitas amizades já haviam esmaecido e perdido o sentido no meio deste caminho.

eu me vi cercada de culpa por não conseguir ser nem a metade da mãe que idealizei. me vi frustrada por tantas vezes perder a paciência com as pessoas mais amadas e importantes de toda a minha vida. me vi tomada por um cansaço físico e mental e afundada pela apatia e pelo conformismo de que “eu não dou conta mesmo…”.
eu me vi cobrada por não conseguir ser a mãe perfeita, mas também me vi aliviada justamente por isso.

eu precisei me reerguer e me ressignificar.
me olhar no espelho e ver uma mulher muito mais madura e diferente da menina que um dia sonhava utopicamente com a chegada do primeiro filho.
enxergar que o tempo se encarregou de me presentear com olheiras, marcas no corpo e rugas tanto de preocupação quanto de felicidade.

e aprendi a aceitar quem hoje sou.

a me achar linda com esse novo corpo, esse novo rosto, essas marcas externas e, principalmente, as internas.
a agradecer pelas dores e perdas e também pelas batalhas que são travadas diariamente e que continuarão a acontecer enquanto eu viver.
a abrir a torneira dos olhos quando precisar desafogar, mas também a abrir os braços para as muitas novas mudanças que vêm pela frente (e que estão apenas começando).
a aceitar tudo isso de peito aberto, de cara limpa.
a me atirar no ar, sentir o vento no rosto e voar, voar longe.

eu nunca me presenteei com um post de 30 anos porque simplesmente ainda não tinha sentido a dádiva que é viver essa idade tão intensa.
feliz 30 anos e (quase) meio pra mim.

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18 comments

  1. Oi Lu,
    Acho que perdi alguma coisa… me desculpa te fazer essa pergunta assim tão no seco, mas que necessidades educacionais especiais são essas pro nosso Joca?
    Poxa, quer criança mais inteligente, perspicaz, etc etc e tudo o mais que a gente sabe que ele é?

    Te pergunto, de coração, porque tenho um filhote de 4 anos, e como acompanho vocês desde o nascimento do Joca, através dos posts e dos vídeos, sempre achei o desenvolvimento do meu filho parecido com o do seu…

    Enfim, também tenho me sentido assim, costumo dizer que quando virei mãe fui despedaçada em milhares de caquinhos que nunca vou conseguir colar de novo. A ressignificação é obrigatória!

    Obrigada pelo lindo texto!

  2. Oi Luiza, também sempre acompanho seu blog, e gosto muito!
    Também estou passando por esse momento…30 anos, 2 filhos pequenos, os desafios diários, a felicidade de ser mãe…
    Só não entendi o que vc quis dizer com "necessidades especiais do Benjoca", o que aconteceu com ele? beijos, Luiza

  3. Linda, parecia que eu mesma tinha escrito isto…também tenho um filho de 5 anos e leio teu blog desde o nascimento do Benjoca. Recentemente recebemos um diagnóstico de ásperger pro nosso pequeno…era uma hipótese que já foi descartada, mas ainda sinto que ele não é igual às outras crianças da escola, ele está em tratamento psicológico, estamos buscando uma escola de pedagogia mais livre…mas o turbilhão ainda não passou…Se puder compartilhar a tua experiência com teu filho, acho que pode ajudar a mães como eu e tu a se entender melhor neste lugar. Força. Beijos

  4. Lindo! Na verdade, nada mais é do que a realidade que bate à porta, mas poucos conseguem transformá-la em poesia, como vc. Mando meu abraço e good vibes para o enfrentamento dessa nova fase. ❤️

  5. Luiza, que texto reconfortante! Minha aceitação dos 30 veio antes da maternidade. Esta sim, uma conquista diária para mim. Alguns textos teus me ajudam bastante. Muito obrigada! Grande abraço!

  6. Nossa, me vi em todo o texto. Podia ter escrito cada linha: a solidão, as amizades que se foram e, priciplamente a culpa por não ser a mãe que meus filhos merecem.
    Meu filho mais novo também tem alergias alimentares múltiplas e me dá um trabalho insano, tanto que até suspeitamos que ele estivesse no estpectro autista. Como ele só tem 1,5 anos ainda não dá pra afastar essa hipótese mas o desenvolvimento dele por enquanto está normal, tirando o sono que é um desastre total…
    Minha filha mais velha fica muito de lado e eu acabo me culpando também. Enfim, estou ainda um passo atrás de você, tentando me ressignificar e esperando conseguir em breve ser mais inteira para os dois….
    Muita força na luta pelo seu pequeno e parabéns pelo filho que vem por aí.
    Admiração total pela família!!!!!!!!!!!
    beijos,
    Fernanda

  7. Lu,
    Pelo que vi no grupo, meu filho é especial como o Benjoca e de certa forma superei a crise do medo do futuro. São tantas dúvidas que temos mas nada como o tempo (e o conhecimento) pra espantar as nuvens negras e fazer o sol brilhar de novo.
    Eles são lindos, especiais e não temos como mudar essa realidade. Apenas aceitar e fazer o melhor, como já fazemos. Eu poderia te sugerir um livro que tirou as pulgas detrás da minha orelha mas agora barrigudinha não sei se você conseguirá ler rsss mas se quiser trocar figurinhas, me escreva (midjesus@gmail.com). É bom encontrar mães que fazem parte do mesmo mundinho. Beijinhos!

    1. Vou te mandar um email pra conversarmos mais sim! Eu não quero que ele passe o que eu passei. Quero que ele seja acompanhado, que cresça e desenvolva de acordo com suas capacidades e habilidades. Morro de medo disso afetar a forma como ele se relaciona com as pessoas, sabe?

      Beijos

  8. Ei Luiza. Será que vc pode contar pra gente qual a necessidade especial do Benjamim? A gente te acompanha há muito tempo. Sou fã demais de vcs e torço por tudo. Quando vc descobriu as alergias foi ótimo te ter pra ler e nos confortar, nos informar. Certeza que seja o que for que ele tenha será muito edificante ler vc mais uma vez. Um beijo grande

    1. Oi, Renata! Ano que vem ele começará um atendimento especial atrás de um possível diagnóstico (ou não). Não se preocupe porque não é nada sério, mas como mãe acabo me preocupando, né?
      Compartilhei a angústia, mas não necessariamente ela será algo que nos acompanhará sempre. Então, quando tiver uma resposta mais clara, venho compartilhar com vocês 😉
      Obrigada pela preocupação, carinho e delicadeza. Beijão!

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