04 de janeiro

eu perdi a formatura do meu filho

por luíza diener

mês passado foi a despedida do benjamin do jardim de infância. eu mal consigo acreditar que aquele bebê bolucha e careca de olhos esbugalhados que eu pari ontem se tornou esse menino falante, magrelo, esperto, cheio de sacadas hilárias (além de lindo, claro). e vai pro primeiro ano mês que vem. é só isso. não tem mais jeito. acabou. boa sorte.

então foi a formatura dele. nada demais, teoricamente, mas um rito de passagem importante, que eu fiz questão que ele participasse.
mas a cerimônia estava atrasada, um pouco desorganizada e, por causa do atraso e das apresentações intermináveis e sem pé nem cabeça (tinha uma turma de crianças cantando molejo: “aquela brincadeira de beijar (…) brincadeira de criança.. como é bom, como é bom”), minhas meninas começaram a ficar impacientes no auditório.
decidi sair com elas quando começaram a chamar criança por criança numa enrolação interminável (desculpa, mundo, minha paciência não é muito grande quando, além de tudo enrolado, ainda tenho duas meninas buzinando no meu ouvido incessantemente). ainda estavam chamando as turmas do matutino e a turma dele era a penúltima do vespertino:
– beatriz ferreira dos santos! quando crescer, a beatriz quer ser veterinária!
– bernardo joaquim salles neto! o bernardo quer ser policial quando crescer.

quase caí pra trás quando um menino disse que queria ser atirador de elite: “não sou a favor de armas, mas usarei armas se preciso for, para defender a nação”. rindo pra não chorar, aproveitei pra sair dali, dar um lanchinho pra sansa e deixar lupita se aventurar pelo chão, engatinhando, pegando formigas e canudos caídos. o lanche tinha acabado de ser liberado mas já tinha fila, o que atrasou o processo. quando sansa terminou seu crepe de queijo e presunto e filou metade do meu churros, corremos pra entrar. mas eu estava terminando minha bebida quando fui barrada: “senhora, não pode entrar com bebidas nem comidas”. ah, é mesmo. era por aquela razão que eu estava do lado de fora com elas até então. foi aí que eu vi um amiguinho do benjamin saindo do auditório. um coleguinha da sala dele que começava com a letra E, sendo que estavam chamando por ordem alfabética. senti um frio na barriga. ainda da porta vi o auditório já quase vazio enquanto poucos gatos pingados ainda esperavam terminar de chamar as crianças da última turma. lá estava benjamin na plateia, junto à minha mãe, padrasto, irmã, cunhado… um soco no estômago: CACETEEUPERDIAFORMATURADOMEUFILHO!! meu coração se desfez em mil pedaços! lá estava ele, feliz da vida com aquele cabelo lambido pra trás e um diploma mal enrolado em suas mãos. larguei o refri do lado de fora, corri pra dentro e abracei benjoca com força: “me perdoa, filho! me perdoa!” ele, sem entender: “perdoa por que, mamãe?” “eu perdi a sua formatura! perdi a hora que você subiu lá e pegou seu diploma. o que você quer ser quando crescer?” abracei ele de novo e comecei a chorar. “quero ser espião”. “ai, que lindo! espião!” e chorava. não conseguia me conter de raiva de mim mesma, frustração, decepção. só de lembrar ainda me engasgo. eu assisti um monte de crianças que nunca vi na vida subirem lá e pegarem seus diplomas. ouvi um milhão de meninas querendo ser bailarinas, veterinárias ou princesas. meninos querendo ser bombeiros ou policiais. mas não vi o meu menino. o meu espião. meu skatista profissional. meu artista secreto.
“não precisa chorar, mãe, tá tudo bem”. 
minha família tentou mostrar que haviam filmado e tirado foto, mas eu queria estar lá. e eu perdi. e nada vai fazer o tempo voltar. nenhum “se” vai fazer o tempo voltar e sentar minha bunda ali: “se não tivesse demorado tanto pra começar”, “se as meninas não estivessem tão impacientes” “se eu não tivesse saído dali” “se eu tivesse deixado o churros pra depois”… simplesmente eu perdi.

olhando de longe não parece grande coisa, mas é que esse ano letivo do benjoca foi bastante simbólico.
guadalupe nasceu justamente no primeiro dia de aula do irmão. ele começaria numa escola nova, muito diferente da antiga. quando ele saiu do período matutino pra estudar no vespertino. nova professora, novos colegas. ele perdeu seu primeiro dia de aula porque, na hora que eu deveria começar a preparar o almoço pra ele ir de barriguinha cheia pra escola, eu acabava de esvaziar minha barrigona, trazendo uma vida completamente nova a esse mundão. sabendo que era o momento de focar nela, mas com o coração divido por aquele que já estava comigo há mais de 5 anos.
aquela culpa materna de saber que, como mãe, fiz o melhor que pude, mas sabendo que eu poderia muito além daquilo.

ele deu muita alteração na escola no período de adaptação. mas eu não estava lá. eu perdi a primeira reunião com a professora nova, perdi pelo menos um mês de trabalhinhos no mural do lado de fora da salinha dele. e depois só ia uma vez por semana e olhe lá. eu não me envolvi com nada na escola dele este ano, diferente dos anos anteriores.
não apenas porque eu estava com um bebê novinho em folha, mas porque já tinha outra menina no meio pra cuidar, uma casa a quase 30 km de distância da escola, um carro apenas, que ficava com o meu marido. e lupita chorava (ainda chora) toda vez que fica muito tempo presa naquele maldito bebê conforto.

eu queria ter participado mais. eu queria saber o nome de todos os coleguinhas, mas até hoje confundo o davi cacaes com o davi ribeiro. o arthur com o victor. e só no finalzinho do ano parei de chamar o yan de enzo. justo eu que, até ano passado, sabia o nome de todas as 25 crianças da sala, além do nome dos seus pais, das professoras, diretora e vice diretora.
eu não fiz os deveres de casa com ele, perdi vários recados importantes na agenda porque passava dias sem ler. ele foi sem uniforme quase metade do ano porque eu simplesmente não estava dando conta de lavar os uniformes toda semana. atrasei pagamentos da escola por meses e mais meses (ainda bem que não pagamos mensalidade, mas ainda assim atrasei no pagamento de eventos extras).
mas eu precisei deixar isso de lado pra cuidar das minhas meninas, que ficavam comigo em casa enquanto o irmão e o pai saíam.

foram os nove meses mais intensos da minha vida (e ainda vou falar mais sobre eles). e justamente quando senti que estava saindo do olho do furacão e que poderia participar um pouquinho mais, ali, na reta final, falhei com ele de novo. ou será que falhei comigo mesma?
ele não pareceu nem um pouco chateado, mas pra mim foi como se eu recebesse o diploma de pior mãe do ano.

por outro lado, vem agora a certeza de que o pior já passou. de que as coisas aqui em casa finalmente começaram a se ajeitar. de que ontem foi caótico, mas que amanhã… amanhã será um lindo dia. da mais louca alegria. que se possa imaginar.

nunca desejei tanto que um ano acabasse justamente porque sei que as coisas não se ajeitam magicamente de 31 de dezembro pra 1º de janeiro. mas agora eu digo de boca cheia: seja bem vindo, 2017! vai ser diferente! tem que ser.

***

pra se identificar, leia: bingo da culpa materna

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categorias: benjamin, erros comuns, erros comuns, mães extraterrestres, psicologia autodidata introspectiva

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16 Comments »

  1. Me emociono e me identifico demais com seus posts!! Tb estou estou na torcida por 2017… Pq 2016 não foi nada fácil!! Tive o nascimento de minha segunda filha é meu Benjamin tb sofreu um tanto com minhas ausências… Às vezes me sinto a pior mãe do mundo, pelo motivo que julguei nobre de dar-lhe uma irmã… Ah, maldita culpa materna!! Como nos livrar dela??

    Comentário by Thaize — janeiro 4, 2017 @ 9:51 pm

  2. Sei não… Hora de repensar a escola…

    Comentário by Bernardo Beirão — janeiro 4, 2017 @ 10:08 pm

  3. a escola é incrível. falhou um pouco na organização do evento, assim como eu falhei tb. não dá pra tacar tudo num balaio só e sair criticando assim, né?
    além do mais, último ano lá. quando chegar a vez das meninas, estudarão lá também, se tudo der certo

    Comentário by luíza diener — janeiro 4, 2017 @ 11:14 pm

  4. menina, tô charando aqui, como ser mãe é inacreditável, meu deus!!!!! sinta-se abraçada!

    Comentário by ana — janeiro 4, 2017 @ 10:40 pm

  5. e pensar que esse é só o comecinho

    Comentário by luíza diener — janeiro 4, 2017 @ 11:14 pm

  6. Bah. Chorei…. pq q tem q ser assim….

    Comentário by Carla Simon — janeiro 4, 2017 @ 10:48 pm

  7. Te entendo mto tb perdi vários eventos na escola do mais velho.triste o texto mais esse ano vai ser bem melho!!

    Como VC esta fazendo com a roupa\casa ainda nao desapeguei de tentar arrumar tudo sozinha to hiper cansada filhotes com 6anos,2 anos e caçula de 8 meses

    Comentário by Luana — janeiro 4, 2017 @ 10:59 pm

  8. então, tá tudo bem caótico ainda. aos poucos vai melhorando. comecei a tirar o atraso das roupas agora, nas férias, mas as chuvas não colaboram. além disso, as roupas não saem do varal e vão andando sozinhas pras gavetas, então tenho bolos e bolos de roupas limpas entulhados em vários cantos dos armários e a roupa suja ainda transborda, mas bem menos que dois meses atrás, por exemplo. ahahahahha!
    é de matar qualquer uma de cansaço. tem muito tempo que não faço um almoço decente, a gente come marmita quase todo dia e eu quase tenho que enfiar comida goela abaixo neles. quando faço uma comidinha mais caprichada eles comem como se estivessem sem almoçar há tipo um mês. mas, né? é a vida de mãe de três. a sorte é que logo passa (torcendo pra não vir um 4o nos próximos anos. ahahahha)

    Comentário by luíza diener — janeiro 4, 2017 @ 11:18 pm

  9. Super me indentifico, isso que meu mais velho tem 9 anos e me ajuda horrores, mais tbm n fui ao colégio em reuniões pq a baixinha dorme as 3 da manhã e ele estuda de manhã e ela se for acordada da piti no começo o problema eram colicas… muito difícil mais ele entende. Nossa nunca quis q um ano acabasse logo como esse igual vc disse n q c mudar de um dia p o outro mais vai melhorando. .. e é isso aí força na peruca galera hehehe

    Comentário by Aline — janeiro 5, 2017 @ 12:04 am

  10. Oi Luíza… Faz um bom tempo que leio seu blog mas nunca comentei nada pelo que me lembro. Não se sinta culpada por tentar distrair suas garotas durante o evento, como fazer com duas menininhas precisando de atenção e distração… Você disse que sua família estava presente, então concluo que havia mais alguém além do seu marido. Onde tava esse povo que não te ajudou com elas para que VOCÊ VISSE SEU FILHO SE FORMAR ! Tenho um lindo de dois anos e sei que a responsabilidade com ele é minha e do meu marido, mas numa situação igual a sua eu esperaria um pouco mais de empatia dos parentes num momento desses…

    Comentário by Janaina Szykman — janeiro 5, 2017 @ 7:33 am

  11. Mulher, ninguém imaginava que isso ia acontecer. se imaginasse, eu mesma faria um esforço maior pra ficar com elas mais uns minutos dentro do auditório. tanto que meu padrasto foi LÁ FORA comigo pra dar uma força :/

    (ass: Luíza. ehehehhe)

    Comentário by Luíza Diener — janeiro 11, 2017 @ 4:44 pm

  12. já ouvi a seguinte frase: nasce uma mãe e nasce a culpa. rs
    ainda estou gestando mas já entendi direitinho o lande da culpa.
    força aí que dizem que uma melhora! rs

    Comentário by anneblima — janeiro 5, 2017 @ 5:38 pm

  13. Olha, conheci seu blog nas andanças pela Internet eu ainda grávida, hoje minha pequena tem 3 anos e claro que não venho mais aqui como eu gostaria, mas agora eu senti que preciso, preciso voltar a te ler sempre pq você sempre tem algo bom para nos passar. Não se culpe, vc sempre da conta, mãe dá!

    Comentário by Dinahir — janeiro 6, 2017 @ 10:53 pm

  14. Puxa Luíza… sempre tão maravilhoso ler seus relatos e os do seu esposo.
    Esse, em especial, me emocionou muito..
    O bom é que sabemos que teremos o amanhã pra contar, um dia de cada vez!
    Eu agradeço imensamente pela oportunidade de poder ler o que escreve.
    Aqui é sempre um bálsamo pra mim!

    Comentário by Carol Brito — janeiro 11, 2017 @ 1:33 pm

  15. Se com dois filhos eu nem lembro mais meu nome, com três, se tiver todo mundo vivo já tá bom demais.

    Comentário by deborh — janeiro 11, 2017 @ 7:26 pm

  16. Luiza, e se for possível escolher uma escola não tão longe? Pq com 30 km realmente eh difícil conseguir acompanhar mais de perto a vidq escolar.

    Comentário by Juliana — janeiro 30, 2017 @ 12:53 am

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