11 de agosto

existe sexo depois dos filhos?

por luíza diener

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depois que meu primeiro filho, benjamin, nasceu, muitas leitoras me procuraram para perguntar como ficava o sexo depois do parto. na verdade aquilo tudo já estava esquisito para mim desde a gravidez. alguma coisa mudou e não foi apenas o meu corpo ou os meus hormônios, mas a minha percepção sobre mim. quando ele nasceu, um turbilhão de emoções, pensamentos, hormônios e mais percepções me tomaram de uma forma que eu não conseguia nem dar nome aos bois. mas a verdade é que: ficou estranho. bem estranho. era como se eu não me reconhecesse mais. era como se eu estivesse fazendo algo proibido. pior: era como se eu estivesse traindo o meu bebê. meu corpo tinha mudado e sido moldado para gerar ele. meus seios eram seu único alimento. Como dividir aquilo com outra pessoa?
coincidência ou não, nos meses que sucederam o parto, toda vez que meu marido me procurava, o bebê chorava (e eu suspirava aliviada). Demorou um bocado para esse estranhamento passar. era como se eu precisasse me recompor pra conseguir voltar a fazer sexo como antes. eu tentava lembrar como era nos primeiros anos de casamento, tentava lembrar da época em que éramos apenas namorados, dois lindos jovenzinhos magrelos, curiosos e sempre fogosos. será que aquela era a mesma luíza? onde ela foi parar?

aos poucos fomos nos reencontrando, não no mesmo lugar onde paramos, mas num caminho diferente, mais tranquilo, porém muito mais gostoso, tão gostoso que.. puf! engravidei outra vez. constança foi tão planejada quanto o irmão mas, como ela teve ele por desbravador, muitos caminhos se tornaram mais fáceis tanto pra miúda quanto para nós. então era de se esperar que tanto o sexo durante a gravidez quanto após o período de resguardo fosse menos “amarrado” e mais desinibido. acontece que eu não contava com outro fator: o cansaço. cuidar de um recém nascido é cansativo, mas você dorme nas horas vagas. cuidar de um recém nascido quando se tem outro(s) filho(s) é pedir pra viver e agir constantemente como um zumbi!

se antes eu olhava para a minha cama toda arrumadinha à noite e pensava: “hummmm! ninho do amor!” (ahahahah! essa expressão soa meio ridícula quando dita assim, publicamente, mas é uma piada que já fez muito parte do nosso vocabulário cotidiano), hoje em dia eu olho pra ela e penso: “oba! não acredito que finalmente vou descansar”, por mais que eu não saiba há mais de um ano o que é dormir quatro horas seguidas.

“mas Luíza, se você não transar todos os dias com o seu marido ele vai te botar um belo par de chifres na testa!”

me perdoa se eu ofendo alguma leitora aqui, mas esse é um dos conceitos mais ridículos que eu já ouvi não apenas uma, mas inúmeras vezes de homens e mulheres. não sempre ligados diretamente a mim, mas como se um casamento sempre dependesse unicamente do sexo para ter sucesso.

vamos lá, não estou dizendo que filhos vieram para arruinar a vida sexual de um casal, desestruturar o relacionamento de seus pais e fazer todo mundo infeliz. credo! longe de mim! mas é assim que muita gente que ainda não teve o privilégio de ser pai ou mãe encara a chegada de um filho.

muito menos afirmo que dá pra manter o casamento de um jeito lindo se antes vocês faziam sexo com uma boa frequência e de repente passaram a se encontrar uma vez na vida e outra na morte.
li um dia desses na internet que uma mulher se lançou o desafio de fazer sexo todos os dias com o marido dela, durante um mês, da mesma maneira que uma pessoa ingressa para a academia e precisa se manter constante ou faz uma dieta e precisa mantê-la para ver resultados. ela disse que aquilo aproximou o casal e enquanto eu lia o texto tudo pareceu um emaranhado de blá blá blás onde eu finalmente pude constatar o óbvio: esse casal não tinha filhos.

conversei com outras mães de filhos pequenos e todas riram da ingenuidade daquele casal. “nem se eu tivesse vontade” – seria a frase que eu usaria para resumir todos os comentários que surgiram quase que instantaneamente após o compartilhamento da notícia.

meu ponto é: a vida sexual muda depois da chegada dos filhos. ouço algumas mulheres dizerem que o bebê aproximou o casal, fez ela se reapaixonar pelo marido e ver um lado sensível dele, antes desconhecido. ouço outras dizerem que a frequência diminuiu, mas a qualidade aumentou consideravelmente e, infelizmente, ouço algumas dizerem que o relacionamento esfriou completamente.

o que determina como essa mudança acontecerá eu não tenho conhecimento suficiente para dizer, mas posso dizer que duas coisas influenciam: o relacionamento que a mulher tinha com seu parceiro antes de engravidar e a nova relação que é construída com esse pequeno serzinho que acabou de chegar e que depende totalmente de sua mãe. se o homem é uma pessoa segura e confiante em si e em sua parceira, se eles mantém um diálogo franco e aberto, metade do caminho está andado. mas acontece que involuntariamente e instintivamente a mulher submerge naquele momento de puerpério e todas as suas atenções e energias estão voltadas para o bebê. a missão é simplesmente uma: mantê-lo vivo. nada mais importa. acontece que o mundo lá fora não para um instante e cobra que a mulher volte a trabalhar, retome rapidamente a forma física de antes, socialize… enfim! as mulheres são cobradas a agir como se nada tivesse acontecido, como se só tivessem ido ali tomar um café e voltassem logo. no meio desse turbilhão de coisas ainda tem uma pessoa: o marido, o companheiro, o pai da criança. nesse momento muitos homens sentem ciúmes, ainda que de forma inconsciente.

o homem pode adotar basicamente duas posturas: deixar-se abraçar pelo ciúme – o que provavelmente desencadeará num processo de rejeição e solidão – ou deixar-se abraçar pela paternidade, apoiar sua parceira e dar o suporte necessário para propiciar um ambiente saudável para que aquela pequena criança se desenvolva física e emocionalmente bem.

se o casal permanecer lado a lado, andando com o mesmo foco (e não em direções opostas, como às vezes é a tendência a se acontecer), conseguirão atravessar juntos esse momento e, no tempo certo, desfrutar da delícia de um sexo mais maduro, livre de medos e amarras e cheio de cumplicidade.

agora, se não estiver nos planos, cuidado pra não engravidar de novo que é assim que acontece um terceirinho, ein?

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categorias: casamento, filosofia de boteco, mães extraterrestres, para mães, para papais, psicologia autodidata introspectiva, sexualidade

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10 Comments »

  1. Luiza, muito obrigada por seu desprendimento, carinho e coragem de compartilhar textos como esse com a gente. Suas experiências me mostram que eu sou uma mulher como as outras e que o caminho pode sim ser guiado pelo amor sempre. Mesmo que a gente tropece, que venham milhares de dúvidas, é possível. Um grande beijo. Em você e em toda essa família linda que tb me atrevo a achar que é um pouco nossa.

    Comentário by Aline Tamiozo — agosto 11, 2014 @ 10:49 am

  2. Ainda não sou mãe, mas já li "A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra" – Laura Gutman, e posso dizer que é super indicado! Obviamente, vou ler de novo quando estiver passando pelo "turbilhão" do puerpério. Há um capítulo inteirinho dedicado à relação com o companheiro e é demais. Aliás, ambos devem ler, não só a mulher.

    Comentário by Natália — agosto 11, 2014 @ 3:46 pm

  3. Oi, prazer. Sou a tecla Shift. Não tenha vergonha em me usar.

    Comentário by Gabriel — agosto 12, 2014 @ 12:19 am

  4. Bem se vê que você só deu uma passadinha por aqui e não conhece nada das características pessoais dos textos da Luíza e do Hilan. Mesmo assim, você está mais no lucro lendo eles, do que eles lendo você. Carpe diem!

    Comentário by Elaine Eller — agosto 12, 2014 @ 11:17 am

  5. tadiiiinho de vc…

    Comentário by Sirley Carvalho — agosto 12, 2014 @ 12:45 pm

  6. kkkkkkkkkkkkkkk sempre penso isso. Me dá muita agonia!!!

    Comentário by Priscila — abril 5, 2016 @ 9:49 am

  7. Acompanho sempre seu blog e posso dizer que me identifico muito com as diversas situações apresentadas. Tenho um menino de 3 anos ( alérgico à proteína isolada do leite) e agora uma bonequinha de 3 meses. Quando ela nasceu me enchi de medos e receios, embora ambos planejados, me peguei na insegurança de que: seria mesmo o momento certo para o segundo filho? Agora estou bem mais tranquila e me adaptando bem a nova rotina, e seu blog tem me ajudado muito vendo que muitas das questões que rondam minha cabeça também fazem parte do cotidiano de muita gente.

    Comentário by Kelly Oliveira — agosto 12, 2014 @ 7:55 am

  8. Nossa me senti extremamente aliviada com esse texto , pensei seriamente que era única a sentir isso. Faz 9 meses que a minha filha nasceu e a minha vida sexual mudou completamente , na gravidez transava quase todos os dias e antes da gravidez tbm , após o nascimento dela tudo mudou o sexo melhor MUITO mas a freqüência diminuiu drasticamente , as vezes me sinto culpada por não estar presente na vida do meu marido de não dar atenção a ele já conversamos sobre isso e acho que ele entendeu. Para um bom relacionamento o diálogo é essencial. Beijos e Obg

    Comentário by Camila — agosto 15, 2014 @ 1:22 am

  9. estou passando por isso, tenho menino de 4 anos ele eh hiperativo, e tenho a menina de 40 dias, o tipo de companheiro conta muito, ajudando a cuidar das criancas e das tarefas de casa, a vida sexual realmente fica em segundo plano, mas como queremos o terceiro, logo vamos nos adaptar… Bjo e Parabens…

    Comentário by franciele — agosto 15, 2014 @ 9:41 am

  10. adorei o texto, Luiza. Super me identifiquei.

    Comentário by Allyne — agosto 20, 2014 @ 4:42 pm

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