28 de outubro

fala pra ela que não pode, mãe

por luíza diener

IMG_2305

sansa tá numa fase de fofura extrema. dessas que a gente acaba parando tudo que está fazendo só pra observar o jeitinho dela.
prova disso foi que comecei a escrever este post e de repente me pego contemplando ela pegando um monte de roupa em cima do sofá, botando na cabeça, jogando no chão, pegando de novo, jogando de novo, em looping, enquanto fala algo numa língua própria.

durante a manhã – enquanto benjoca está na escola – ela reina absoluta como filha única. nessas horas eu ajo com ela da mesma forma que agia quando joca era pequenininho: deixo ela explorar a casa em segurança. como é muito curiosa e pra ela tudo é novidade, a consequência é estar sempre a mexer em algo.
um dia desses, na ausência do irmão, ela chegou toda faceira, com aquele andar despretensioso que é só dela, um pedaço de massinha na mão e sorrindo de boca fechada. fui ver, estava cheia daquela meleca na boca. tentei fazer cara de brava mas, quando ela riu pra mim com aqueles dentes cor-de-burro-quando-foge que só as massinhas misturadas têm, eu caí na gargalhada. e ela também, claro.

mas aí benjoca chega e eu preciso adotar uma postura mais “rígida” diante da irmã pra validar meus argumentos diante dele.
por exemplo, quando ele chega da escola a regra é tirar o tênis cheio de areia na área de serviço e pendurar a mochila no lugar certo. mas se ela chega junto com a gente de sapato eu nem tento tirar o dela. primeiro, porque o dela não tem areia e segundo, porque ela faz um escândalo mortal se tirarmos qualquer coisa dela. a consequência é que, mais cedo ou mais tarde, ela vai tirar o sapato e deixar espalhado.
benjoca quando percebe já manda: “mãe, a sansa não guardou o sapato no lugar. briga com ela!”.

outra coisa frequente é quando, durante o almoço, benjamin mete a mão no prato pra pegar a comida. eu peço: “filho, pega com a colher” ou “espeta com o garfo, por favor”. enquanto isso a irmã – que está aprendendo a comer de colher agora e não aceita de jeito nenhum se dermos na boca dela – dá umas colheradas, mete a mão no prato, esfrega comida no cabelo.
benjamin? já manda um “olha a sansa, mãe! fala pra ela que não pode fazer essa bagunça!” 

confesso que meu impulso é só falar que ela faz isso porque é bebê, ele é criança e fim de papo. mas, como tudo nessa minha vida, eu tento colocar um diálogo, meter um jogo de cintura e fazer a coisa não ficar feia pra nenhum dos dois.
não quero que meu filho mais velho cresça pensando que tem que tolerar tudo da irmã simplesmente por ela ser mais nova e nem quero que ela pense que pode tudo por ser a caçula, como já cansei de ver por aí.
e mais, quando ele reclama dela, eu tento fazer um exercício de introspecção e descobrir por que é que as artes dela são tão engraçadas enquanto que as bagunças dele me tiram do sério. é super gostoso observar as descobertas de um bebê, mas benjamin tem apenas 4 anos e ele é igualmente deslumbrado pelo mundo. olhando sob a ótica dele, com certeza deve ser muito legal encher a pia de espuma e lavar todos os objetos que se encontram na bancada do banheiro, incluindo minha escova de dentes e meus pincéis de maquiagem. é muito legal misturar todas as cores de massinha pra ver o que vira, usar os livros pra montar uma casa ou uma pista de carros, trocar de roupa toda vez que ele quer virar um personagem diferente. mas quatro anos de relação já são suficientes pra gerar alguns desgastes, alguns “quantas vezes eu tenho que falar a mesma coisa?” “quando você vai aprender?”.
comparado com a irmã ele é um menino grande, crescido, tantas vezes forçado a amadurecer diante das nossas cobranças.
mas olhando para a sua individualidade, ele é totalmente novo nesse mundo, que está só começando pra ele. não dá pra exigir muito. ele não perdeu sua essência só porque ganhou uma irmã. e eu não posso mudar minha forma de enxergá-lo por causa disso, por mais que haja – sim – mudanças na forma como eu trato os dois quando estão juntos.
tento fazer com que nenhum dos dois se sinta preterido nem preferido. se sansa faz alguma coisa que é natural de sua idade mas benjamin está junto e está chateado porque acabou de tomar uma bronca por algo real, às vezes eu simulo uma bronquinha pra ela também. mas num geral, quando está tudo bem, aproveito pra explicar que ele também fazia aquilo, que com o tempo ele aprendeu a fazer diferente, que às vezes a gente tem que ter paciência com os bebês.
ele também tem aprendido a achar a irmã fofa em certas situações tensas, por mais que algumas vezes tente imitá-la também, o que pode implicar num mini caos.

sei que a forma como eu trato eles pode afetar na relação dos dois, por isso tenho sempre essa preocupação de amá-los igualmente e ser justa e igualitária na educação dos dois, por mais que isso seja um tanto quanto difícil e muitas vezes cansativo.
mas se tem uma coisa que eu aprendi nesses poucos anos de maternidade é que, por mais que façamos tudo certinho (o que é humanamente impossível), isso não significa que teremos filhos ótimos e maravilhosos, do jeitinho que sonhamos. primeiro porque cada um é cada um; segundo porque educação é apenas uma base, mas a vida toma rumos desconhecidos; e terceiro porque meu conceito de ótimo maravilhoso pode ser diferente do seu e também do conceito dos meus filhos.

o jeito é fazer a minha parte, sem nunca desistir, mas também sem aquela expectativa boba de que se alguma coisa dá certo o mérito é exclusivamente meu e se alguma coisa dá errado, a culpa é toda minha.

Related Posts with Thumbnails

categorias: benjamin, constança, psicologia autodidata introspectiva

assine nosso feed ou receba por email


6 Comments »

  1. Lindos.!

    Comentário by fabrinadutra — outubro 29, 2014 @ 11:22 am

  2. Ai, como esses dois são gostosos gente! 🙂

    Luíza, realmente vc vai ter que rebolar pra contornar esses mini conflitos! entendo demais o Benjoca, sou a mais velha de 3 meninas. Quando eramos crianças eu não entendia (mesmo) quando eu levava bronca e elas não, e sentia uma vingancinha quando meus pais chamavam atenção delas. Mas sei lá, fica atenta, eu sentia culpa por isso. O Benjamin, mesmo dando um sorrisinho satisfeito quando vc briga com Constança, pode estar sentindo culpa por ter incriminado a irmã, e não entender esse sentimento. Talvez tentar ir la no coraçãozinho dele, que é bom, pode ajudar a amenizar pra ele e pra vcs esses sentimentos confusos, e poupar bronquinhas fake na Sansa!

    Beijos pra vcs, eu amo esse blog, aprendo e reflito muito a partir dele!

    Comentário by Bruna Bastos — outubro 29, 2014 @ 5:10 pm

  3. Excelente texto, me pensar ….

    Comentário by The — outubro 31, 2014 @ 9:53 pm

  4. Tenho o Miguel de 6 anos e espero a Maria Laura para janeiro, com esse post pude visualizar meu futuro, rs. Parabéns pelos pimpolhos!

    Comentário by Elisa nela Menezes — novembro 3, 2014 @ 8:12 pm

  5. Excelente texto, sensível, reflexivo, sincero.
    Muito obrigada pelas palavras! Eu também tenho dois, e é muito engraçado que falo sobre isso com outras mães, ou com a minha, chegando a conclusões muito parecidas com as suas. A maioria me acha frouxa, mas não sei ser diferente, pensar pensar e pensar sobre tuuudo que envolve a educação dois meus dois pequenos, de 3 e 2 anos…

    boa sorte pra nós, bjão Lu

    Comentário by Laura — janeiro 8, 2015 @ 3:28 pm

  6. Obrigada, Laura!
    É muito difícil lidar com certas situações quando se tem mais de um filho, coisa que seria bem mais fácil se tivéssemos apenas um filho.
    Também acho que é complicado para as pessoas aceitarem mães que educam seus filhos diferente do “padrão”. O negócio é procurarmos fazer o que é bom e justo para nossos filhos e ficarmos seguras com nossas escolhas.
    Beijão!

    Comentário by luíza diener — janeiro 20, 2015 @ 10:56 am

RSS feed for comments on this post.
TrackBack URL

Leave a comment

*