08 de setembro

filho, não seja homem, seja você mesmo!

por hilan diener

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quando eu escrevi o post pai e pró-feminista, ele tinha outro nome, era “pai e feminista?” com interrogação e tudo. gosto de títulos que geram curiosidade ou um certo incômodo. tanto que também fiz outro post que chamava “empoderamento paterno”, usando uma palavra muito associada às mulheres e ao parto. gosto destes paradoxos. aí você me pergunta: por que, então, você mudou o título do post? acho que vale a pena explicar.

assim que eu postei, uma leitora no facebook me alertou que não existiam homens feministas e sim homens pró-feminismo. esse argumento não é totalmente consenso entre feministas e teóricos no assunto (veja aqui e aqui). respondi a ela que entendia e respeitava sua posição, mas que não mudaria o título por causa do apelo (paradoxo) que citei acima. mais tarde, quando postamos novamente, voltaram os comentários sobre o título do post e também vi que uma fanpage feminista estava criticando o título (não o texto). depois de tudo que eu li e conversei com as leitoras, percebi que eu estava errado. e errado duas vezes se não as ouvisse e se não mudasse o título. afinal, que tipo de homem pró-feminista é esse que não quer ouvir a opinião das mulheres que ficaram incomodadas? e também quero deixar bem claro que longe de mim querer protagonizar um movimento que é das mulheres e não meu. como homem  eu nunca entenderei completamente o que é ser uma mulher. nunca estarei na pele de uma para saber exatamente  o que passam todos os dias.

depois que eu mudei, uma leitora comentou no post “ué…homem não pode ser classificado como feminista, mas mulher pode ser chamada de machista?“ expliquei a ela que uma mulher não pode ser machista por que não é homem. quando uma mulher é chamada de machista na verdade é uma simplificação para alguém que está reproduzindo comportamentos machistas. neste cenário a mulher se torna duplamente vítima. é como se um rato que além de transmitir leptospirose pudesse também morrer por isso.

o machismo faz vítimas de todos os lados.

obviamente o machismo é infinitamente mais danoso para as meninas/mulheres direta e indiretamente, mas não só isso, para os meninos/homens também. por isso, além de toda a minha preocupação com a sansa relatada no último post, também não pude deixar de pensar no quanto o machismo pode afetar o benjoca. e não é preciso ir muito longe para constatar o machismo nosso de cada dia. a memória mais antiga que tenho foi ouvir meu avô paterno falar para o meu pai: “vocês mimam demais este menino. vai virar viado desse jeito…” na época do meu avô – e acontece até hoje, infelizmente – o pai levava o filho para um puteiro para ter a sua primeira relação. graças a deus isso não aconteceu comigo, mas que merda de obrigação é essa? pense em quantos meninos foram coagidos a transarem com uma prostituta simplesmente para cumprir um requisito machista e abusivo desses. por que um pai faria um ato assim? subjugar uma mulher para provar para ele e para sociedade que o seu filho é macho de verdade?

quantas vezes me senti inadequado por que eu gostava de ficar em casa, brincando com os meus bonecos, inventando histórias ou desenhando e não tinha muito interesse em futebol e nem sabia andar de bicicleta. por anos fui chamado de viadinho, gay, qualira, xibungo por que tinha um cabelo grande e era emotivo/sensível e quase sempre chorava quando algo me emocionava.

na pré-adolescência sofri por que a minha namoradinha não gostava mais de mim porque fui muito bonzinho com ela. tive que ouvir de sua boca que mulher gostava de sofrer e por isso preferia ficar com o fulano, que era um exemplo de macho. um pouco mais velho lembro da vez que na casa de um amigo meu vi forçadamente “pela amizade” uma fita inteira de filme pornô. eram horas e mais horas daquela porcaria. foi tanta informação despejada de uma vez que eu nem sabia o que fazer com aquilo tudo. me senti sujo.

quando eu entrei na faculdade, ainda era virgem, mas quantas histórias eu já tinha ouvido de fulano e sicrano que fizeram sexo por pressão dos amigos. afinal, pegava muito mal ter mais de 18 anos e não ter transado. lembro que quando conheci a luíza era ela que dirigia pra tudo quanto era canto. eu me sentia péssimo por não saber nem onde ficava a embreagem do carro. hoje tenho orgulho de dizer que foi a luíza que me ensinou a dirigir e me ensina até hoje, mas isso não deveria ser vergonha pra nenhum homem. são inúmeros exemplos de como é cruel a forma que os meninos desde a infância são treinados para verem as mulheres como objeto e serem machões insensíveis. para muita gente isso é ser homem. se isso é ser homem, eu não queria e nem quero ser. eu quero ser eu mesmo e se depender de mim vou fazer de tudo para livrar o benjamin dessas situações. sei que não é possível controlar tudo, mas posso desde cedo ensiná-lo a respeitar o seu tempo, seu corpo e a integridade dos outros.

para você ver como são as coisas: outro dia benjoca estava na cozinha brincando de lavar louça junto com um amiguinho e uma amiguinha quando um conhecido nosso enxotou somente os meninos do trabalho dizendo que isso não era coisa de homem. me segurei e quase perguntei pra ele qual era o problema. afinal, é preciso o que para lavar uma louça: uma bucha ou uma vagina? eu, ein?

eu espero sinceramente que ele nunca seja exposto a pornografia precocemente  (ou nunca) e que se tiver a oferta ou pressão dos amigos, que tenha confiança e autoestima suficiente para dizer não e nem se sinta obrigado a fazer sexo apenas para não ser excluído ou menos homem. que possa chorar quando se sentir emocionado. se não souber jogar bola e for melhor na dança ou no teatro, que ele possa fazer isso livremente e que aprenda que a cozinha e as tarefas domésticas não são coisas só das mulheres. e se um dia ele precisar ficar em casa com os filhos enquanto a mulher trabalha, que não se sinta menor por isso e nem menos importante (aliás, se ele optar por não se casar e/ou não ter filhos, que também seja respeitado por isso), assim como irei amá-lo e respeitá-lo da mesma maneira caso ele prefira meninos ao invés de meninas. que seja gentil e educado com todas as pessoas, independente de serem homem ou mulher. sei que todo discurso é bem mais fácil que a prática e que ainda não me livrei totalmente de atitudes e pensamentos machistas: é um processo longo de releitura e reconstrução, mas meu esforço não é para que o benjoca e sansa sejam felizes e, sim, que eles tenham todo direito de serem eles mesmos.

 

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categorias: erros comuns, pai feito, para mães, para papais, por definir, sexualidade

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22 Comments »

  1. Lindo depoimento. Que tenham cada vez mais homens que entendam que feminismo não é coisa de mulher mal amada.

    Comentário by Gizelle Mageste — setembro 8, 2014 @ 3:28 pm

  2. Adorei o post, realmente é muito mais fácil perceber quando está sendo machista com uma menina do que com um menino. Também tenho tentado prestar atenção para não mudar as atitudes e pensamentos machistas que estão enraizados na gente desde pequenos 🙁

    Comentário by Camila — setembro 8, 2014 @ 3:30 pm

  3. Me emocionei.!

    Comentário by Fabrina Dutra — setembro 8, 2014 @ 4:31 pm

  4. Ótimo texto, na verdade odeio os rótulos feminista e machista, não gosto mesmo, não sei se é um ideal um principio, não quero desrespeitar quem é um dos dois, só não gosto. Mas adorei o "Seja você mesmo!" , graças a Deus tenho um marido que pensa igual a mim, quando tiver filhos, sendo menino ou menina gostaria de colocar no balé e no judô, os dois para os dois, para que ele ou ela se identifique, ela ou ele se encontre. Isso é uma das coisas, quero um filho que ajude a arrumar a casa, para que não fique perdido conforme vai amadurecendo.Adorei o vídeo que vocês postaram, para incentivar as meninas a gostarem de ciências e coisas assim, não bloqueá-las,foi perfeito.

    Comentário by Julia Gomes — setembro 8, 2014 @ 4:54 pm

  5. Oi julia, tudo bem?

    Feminismo é a busca por direitos iguais para as mulheres.
    Machismo é a dominação do homem sobre a mulher.

    Os dois termos não são, nunca serão, não podem ser análogos. É uma falsa simetria. é como reclamar de não haver um dia da Consciência Branca.

    (Explicando rapidamente a diferença: uma camisa “100% branco” é de profundo mau-gosto, ao mostrar quem está por cima celebrando sua hegemonia. “100% negro”, por outro lado, é a celebração de uma identidade marginalizada tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.)

    deu pra entender?

    Existe um teste bem simples, dá uma olhada:

    Você concorda que:

    Mulheres devem receber o mesmo valor que homens para realizar o mesmo trabalho?
    Mulheres devem ter direito a votar e ser votadas?
    Mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha de suas profissões, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família?
    Mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?
    Cuidar das crianças deve ser uma obrigação de ambos o pai e a mãe?
    Mulheres devem ter autonomia para gerir seus próprios bens?
    Mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?
    Mulheres não devem sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou por desobedecer o pai ou marido?
    Tarefas domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres?
    Mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo?
    Se marcou sim em todas ou quase todas… Sinto afirmar mas… Você é feminista!

    Obrigado pelo comentário.

    Comentário by HilanDiener — setembro 8, 2014 @ 5:43 pm

  6. Leio o blog há muito tempo e nunca comentei, mas fiquei emocionada e feliz com este texto. Parabéns para toda essa família que está sendo construída de forma tão bacana 🙂

    Comentário by Renata — setembro 8, 2014 @ 5:29 pm

  7. Lindo depoimento, e muito corajoso também! Parabéns pela linda família que vcs formam!

    Comentário by Dani — setembro 8, 2014 @ 6:51 pm

  8. Fico feliz em saber que existem homens que pensam assim. Também espero que meu filho não seja machista e esteja livre destes exemplos maléficos que você bem descreveu. Gostaria muito de ser um pai exemplar nesse sentido. Infelizmente, não tive liberdade de ser eu mesmo ou não tive coragem, e cresci em um meio super machista, com alguns comportamentos indecorosos. Hoje eu percebo o trabalho que tenho para buscar ter atitudes positivas, pois existe um referencial anterior que preciso sempre desconstruir. O esforço não é o problema, na verdade, ele é gratificante quando consigo fazer aquilo que minha consciência manda. O pior é quando não estou atento e acabo não me incomodando quando observo outras pessoas com atitudes machistas ou de repente me vejo tendo algum comportamento desse tipo, acabo me sentido muito mal e arrependido. Obrigado pelo texto. Espero educar meu filho para que ele não seja mais uma vítima, como eu fui. Parabéns, siga em frente. É muito bonito ver homens honestos que podem ter uma família íntegra e feliz. Espero que a minha também possa ser assim um dia…

    Comentário by Biu — setembro 8, 2014 @ 9:10 pm

  9. Lamento informar, apesar de existirem pessoas que ACHAM que feminismo é movimento pela "igualdade", mas não é não!!! É pela SUPREMACIA feminina, tornando o homem DESCARTÁVEL. E pior, ignoram quaisquer conquistas, como aposentadoria bem mais cedo, sendo que vivem BEM MAIS QUE OS HOMENS, ganham MAIS QUE OS HOMENS EM CARGOS DE CHEFIA (PROCLAMADO AOS QUATRO VENTOS PELAS AMERICANAS), tem LEIS ESPECÍFICAS PARA ELAS, COMO A LEI MARIA DA PENHA, TEM DELEGACIAS ESPECIALIZADAS PARA ELAS, e ad infinitum. Além de penas mais brandas, mais anuência da LEI. Apesar de todas as conquistas, NUNCA FICARÃO SATISFEITAS, PORQUE TODA MULHER FEMINISTA TEM UM PARAFUSO A MENOS. Sem mais.

    Comentário by Runnerba — setembro 8, 2014 @ 10:16 pm

  10. cara, quanto rancorzinho maldisfarçado de mulher. Uma coisa digna de 8, 9 anos de idade. Uma coisa de quem levou beliscão da mãe e ainda tem raiva, de quem não agrada mulher, de quem mulher se afasta, e tem rancor recalcado.

    Dica: É *exatamente* por falar esse monte de bobagem de recalque e raiva que não consegue que mulher se interesse

    Comentário by Eurico — setembro 11, 2014 @ 2:40 pm

  11. tá doido, meu filho?

    Comentário by danielle — setembro 30, 2014 @ 1:37 pm

  12. Cara, é muito bom saber que existem pais que fazem um esforço para não reproduzir essa logica machista e patriarcal na criação de seus filhos, tenho um filho de 2 meses e me preocupo muito em tentar conseguir educar ele evitando ao máximo os modelos e estereótipos do patriarcalismo, mas um grande problema que hoje já sinto é que as pessoas em volta reproduzem esse modelo a todo tempo a nossa volta, no condomínio, na rua, será assim na escola, e não há como colocar filtros na cabeça dos pequenos para que ouçam e vejam apenas o que nos interessa, e ai o que fazer ? fica minha preocupação…

    Comentário by Audrei Camargo — setembro 9, 2014 @ 8:50 am

  13. oi audrei.
    eu não quero criar todos os filtros. quero que eles aprendam a reagir quando uma situação machista ou excludente apareça.
    eles aprendem rápido, tanto coisas ruins como as boas.

    abs

    Comentário by HilanDiener — setembro 9, 2014 @ 9:04 am

  14. Uma leitura interessante
    Importante ensinar aos nossos filhos e filhas que o ser humano deve ser tratado com respeito, independente do sexo ou escolha sexual!!

    Comentário by Alcilene — setembro 12, 2014 @ 11:19 am

  15. Linda história.

    Comentário by ketina — setembro 12, 2014 @ 1:04 pm

  16. Que bacana esse texto! Me identifiquei bastante! Como eu sofri como o machismo durante toda minha vida, sempre me vi em situações que fui cobrado a ter atitudes "de homem" que hoje sei que nada representam a masculinidade de uma pessoa e sim o preconceito no sentido mais puro da palavra. Eu falo sobre isso no último texto que publiquei no meu blog (http://patternidade.blogspot.com.br/2014/09/18-semanas.html). Imagine uma pessoa que cresce numa família de advogados e engenheiros, demonstrando gosto por outras coisas como arte, poesia, literatura. Sofri muito com isso, fui forçado a situações tão constrangedoras quanto às que você citou aqui. São marcas que vou carregar pro resto da minha vida, coisas que eu trato na terapia hoje para que não me prejudiquem mais. Eu sei o quanto eu, que sou homem, já sofri por machismo, imagino as mulheres, o quanto sofrem. Estou contigo, meu querido, vou criar meus filhos para que sejam o que são e o que quiserem ser. Respeito e amor acima de tudo.

    Comentário by Leonardo de Paula — setembro 18, 2014 @ 10:40 am

  17. sensacional seu comentário. obrigado e parabéns pelo site. achei demais!

    Comentário by luíza diener — setembro 18, 2014 @ 8:44 pm

  18. Hilan falando: obrigado pelo comentário e parabéns pelo site. achei demais.

    Comentário by luíza diener — setembro 18, 2014 @ 8:45 pm

  19. Valeu, Hilan! 🙂

    Comentário by Leonardo de Paula — setembro 23, 2014 @ 4:29 pm

  20. […] 15. filho, nao seja homem, seja voce mesmo!  […]

    Pingback by potencial gestante – 15 posts mais acessados em 2014 — fevereiro 24, 2015 @ 4:00 pm

  21. […] 15. filho, nao seja homem, seja voce mesmo!  […]

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  22. OLÁ BOA TARDE! SOU ESTUDANTE DE PSICOLOGIA…. E ESTAMOS ESTUDANDO SOBRE MACHISMO, FEMINISMO E HETERONORMATIVIDADE, ENTÃO EM MINHAS BUSCAS NA INTERNET ENCONTREI SEU TEXTO, E ACHEI MUITO LEGAL, QUERIA TE PARABENIZAR!! MUITO BOM MESMO, GOSTARIA QUE SE POSSÍVEL ME ENVIASSE UMA VERSÃO EM PDF, PARA PODER IMPRIMIR E USAR EM UM DEBATE NA MINHA TURMA. SE FOR POSSÍVEL AGRADEÇO. O MEU E-MAIL É lisi.bulsing@gmail.com
    obrigada!!

    Comentário by elisiane — junho 3, 2015 @ 1:36 pm

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