fruta verde

estou de mal do mercado que fica aqui perto de casa.
pra quem não sabe, eu não tenho carro, o que me obriga a fazer as compras emergenciais lá mesmo.

originalmente, seria um mercado de boa qualidade não vou falar que é o pão de açúcar, tá?
mas toda vez que eu deixo pra ir lá em cima da hora é sempre a mesma desgraça: todas as frutas estão verdes, com exceção da maçã, da melância e do melãocio (que são pesados demais pra carregar por dois quarteirões) e, às vezes, da uva.
o resto está sempre – SEMPRE – verde.
eu compro mesmo assim e deixo pra amadurecer em casa

isso me deixa pau da vida. especialmente porque têm semanas (seguidas) em que eu não me planejo e aí já viu: uma dúzia de maçãs semi-maduras feitas de diversas maneiras: crua, picada, raspada, cozida, amassada, assada, com ou sem casca. aí não tem cristo que não enjoe, né?
e não dá pra deixar o pequeno sem frutas também.

pra completar, quando o resto amadurece forçadamente (às vezes embrulhado num jornal ou guardado no escurinho do forno desligado), sempre fica esquisito.
a banana do nada fica com umas partes pretas. a pera fica mezzo podre, mezzo verde.
ok que eu sou muito atrasada (pra não dizer retardada) pra atentar pro tempo de maturação das frutas. mas posso botar a culpa toda no pão de açúcar? diz que eu posso…

aí hoje eu vi de longe uma manga cair de madura de uma árvore. logo pensei “vou pegar essa manga pro benjoca comer”, mas uma senhora foi mais rápida que eu.

nesse meio tempo eu divaguei a respeito das frutas amadurecidas no pé.
desejei por um momento ter um pomar próprio e só comer das frutas que amadurecessem e caíssem naturalmente.
imaginei qual seria o gosto de uma maçã madura de verdade, visto que nunca comi uma direto do pomar.
e que bom seria se fosse sempre assim, né?

mas não dá. nem sempre é possível transportar uma banana madurinha que vai viajar quilômetros de distância, chegar ao mercado e ainda ficar dias armazenada lá por dias. apodreceria antes mesmo de acabar.

e continuei o pensamento estendendo a outras situações.
muitas coisas precisam ser adaptadas ao ritmo da vida moderna.
algumas funcionam bem. outras são uma grande forçação de barra.

que bom seria se todos os bebês (os saudáveis e fora de risco de morte) tivessem ao menos a chance de entrarem em trabalho de parto antes de nascer! mas não é todo médico que espera e não é toda a família que está disposta.
(e, claro, antes um bebê nascer imaturo a não nascer, né?)

seria maravilhoso se os recém nascidos fossem respeitados por todos (não alguns) profissionais da saúde não só durante o nascimento, mas no tempo que se segue depois deste grande trauma que é chegar neste mundão de deus.

que as crianças de hoje pudessem crescer no tempo natural delas, sem algumas forçadas de barra que as fazem crescer antes da hora.

que a adolescência fosse uma transição saudável da infância para a vida adulta, sem esses exageros de que aquele é o momento único e oportuno para decidir sua vida profissional. meu deus! e quem é que tem cabeça pra fazer uma escolha tão definitiva em um momento tão turbulento?

e quando finalmente chega a vida adulta, aquele feto que foi forçado a virar bebê, aquele bebê que foi obrigado a ser criança, a criança que foi adolescente tão cedo e o adolescente que recebeu a maturidade embrulhada em jornal de cursos pré vestibulares, muitas vezes acaba por apodrecer por fora e continuar verde por dentro.

alguns continuam a tentar crescer mais e mais e até conseguem lidar com a situação (mesmo que muitas vezes isso fique atravessado na garganta por anos).

mas cansei de ver gente que não soube e continua sem saber como lidar com isso.
que quando, finalmente, chegaria o momento certo de cair naturalmente do pé como um fruto doce, maduro, prontinho para ser bem aproveitado, já está todo estragado.

e eu me pergunto: vale mesmo à pena?
pra que forçar tantas coisas que viriam de um jeito ou de outro, só que no momento próprio delas?
não seria melhor, como diz o poeta, deixar acontecer naturalmente?

qual preço nossos filhos pagarão por conta de ansiedades bobas de nós, mães e pais?

bem que seria bom comer somente fruta madura direto do pomar.
seria maravilhoso poder criar nossos filhos num mundo perfeito, longe de tantas coisas desnecessárias.
só que a gente sabe que na prática não é assim que funciona.

mas não custa tentar fazer nossa parte, né?

boa semana a todos!

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15 comments

  1. Luiza adorei a comparação que você fez! também sinto isso… na verdade, me sinto assim: fui forçada a crescer rapido demais (perdi minha mae muito cedo) e acabei atropelando muitas fases.
    posso garantir que nao é saudavel.
    daria tudo pra ter tido a oportunidade de viver tudo com calma. uma fase de cada vez…
    mas nao deu.
    enfim, adorei seu texto. acho que é a segunda ou terceira vez que comento.
    me sinto tão estranha na blogosfera materna… nao sou mae ainda =/
    mas adoro!
    um beijo pra voce e pra familia

  2. olha, eu acho a feira do pao de açucar uma merda! a pior de todos os mercados! porque eles querem deixar a prateleira bonita e as enchem de coisas que mais parecem de borracha (de cara e arrisco dizer de gosto tb). a maçã linfa, vermelha e lustrosa já vem sem gosto, farelenta, e com morronzinhos podres dentro, a banana tem casca lisa e borrachenta, um horror, só presta pra tirar foto. o negócio é se organizar pra comprar tudo na feira de rua! muito melhor! no mercado municipal é bom, mas é caro e geralmente longe!

  3. Nossa adorei esse teu texto! É verdade isso mesmo, o mundo todo está apressado demais para experimentar a vida e depois não sabe mesmo como lidar com isso. Esse fim de semana mesmo, fiquei apavorada com a filha da minha prima de 14 anos, indo para uma festa com um salto alto de 10cm. É um absurdo essa adultização, nunca, jamais permitirei isso com um filho (quando tiver), tudo tem seu tempo.
    Agora, quanto ao supermercado, aqui onde moro é ao contrário – as frutas vem quase podres, é um horror! Mas já plantei aqui em casa abacate, maçã, limão, bergamota e araçá… agora só tem que esperar crescer, daí eu tenho pressa hahhaha

    Beijo

  4. Eu e o Lorenzo passeamos todos os dias de manhã aqui por perto pra colher cereja e pitanga. Fiquei maravilhada com o sabor de uma jabuticaba colhida do pé, dia desses, quando tive a oportunidade de conhecer.
    Tem um sabor compleamente diferente!
    Além disso, tem os morangos da feira orgânica, que nem se comparam aqueles de isopor que vendem no super.
    E um mundo novo das frutas se abriu pra mim!
    Beijos

  5. Luíza…adorei o texto.
    Fiquei meditando…eu fui uma criança nascida de cesárea(estava sentadiha hehehe), que brincou de fazer comidinha de plantinhas e terra com acompanhamento de gravetinhos…brinquei de boneca até os 14, autos dramas de novela mexicana…rs..E não me arrependo.
    Quero que meus futuros filhos aproveitem tudo o que há de melhor nessa vida..mais tudo ao seu tempo..e respeitando principalmente o tempo do Senhor.
    Beijos a sua família linda.

  6. Concordo! Hoje mesmo assisti um parto normal pela tv e os procedimentos com o recém-nascido depois do parto normal são tão mais simples e naturais do que quando vi cesarianas…faz todo sentido. É realmente uma pena que TUDO hoje seja forçado a amadurecer…infelizmente vamos colher o que estamos plantando.

  7. é o bendito tempo das coisas! umas das minhas maiores crises, saber enxergá-lo e respeitá-lo.
    para tudo tem seu tempo, né? mas a gente nem sempre sabe qual é… sobre as frutas… façamos oq está ao nosso alcance.
    tem sido assim por aqui!
    bjo

  8. Nossa, e tudo isso por conta de uma banana verde!!! Heheheheeh…
    Falando sério, essa é uma coisa muito séria, o povo anda apressando demais todas as fases de tudo… triste… eu vivo me dizendo isso também, principalmente em relação à Ciça, porque é sempre uma cobrança.
    Ah, na minha quadra tem tanta fruta caindo do pé, tem manga, tem goiaba, tem amora… e tudo apodrece!!! E não era esse o fim que Lúcio Costa pensou pra árvores frutíferas da cidade …

  9. Luiza, sempre passo por aqui, mas nunca comento. Parabéns pelo texto, super verdadeiro pra tudo na vida (a analogia com a fruta foi perfeita). Seu blog é uma graça!! Adoro!! Um beijo,

  10. Oi Luiza!

    Que graça de post, foi ótima a comparação. Estou adorando essa blogosfera materna que vai de encontro a todas as ideologias equivocadas da “sociedade moderna”. Só seres sublimes como as mães pra iniciar uma revolução nessas idéias desumanas e retrógradas que nos cercam por todos os lados. Simplicidade, amor e respeito, acredito eu, serão as palavras que regerão a sociedade do futuro no nosso planeta.

    Bjs a vc e no pequerrucho gostosíssimo (eu sei q vc não me conhece e não me dá intimidade, mas o Benjamin é mt lindo mesmo, fazer o q? rsrs)

  11. Tenho um pomar em casa, fiz uma edícula no fundo, e aproveitei o restante do terreno…E concordo que hj em dia tudo, tudo é muito rápido e forçado!!! Por isso me chamo de ET, pois eu sou a única que não coloquei o meu filho na escolinha pra ir trabalhar pra comprar um carro!!! Sou a única que sento pra brincar com ele no playground. E etc, pois acho que não posso mudar o mundo, mas posso fazê-lo dentro da minha casa!!! Gosto de encontrar pessoas como vc q pensa igual!! bjs

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