22 de fevereiro

dar o melhor para o seu filho não é gastar. é gastar-se

por hilan diener

o dinheiro dos outros é o dinheiro dos outros! eu não tenho nada a ver com ele. as pessoas podem gastar como quiserem e como bem entenderem. ok! mas também não sou cego e nem desavisado. quando uma luzinha vermelha acende aqui na cuca é porque algo ao meu ver está errado e eu acabo refletindo e questionando ao perceber como algumas pessoas estão pirando – literalmente surtando – quando se trata de DAR O MELHOR PARA SEUS FILHOS.

quando eu ouço essa frase geralmente me dá um certo arrepio. eu realmente não acho que como pais somos capazes dar o melhor para os nossos filhos, seja comprando coisas ou usufruindo dos melhores serviços que o dinheiro pode comprar. o ser humano não tem limites. nunca está bom! se pudéssemos, teríamos todo dinheiro do mundo e ainda sim quereríamos mais. sempre tem algo “melhor” que o mercado inventa e que você não pode dar ou comprar.  então, sempre estaremos aquém de suprir o afã do ser humano por querer mais e pelo melhor.

dia desses recebi uma imagem pelo whatsapp que era de uma empresa de aluguel de limousine: pela bagatela de R$ 800, você poderia sair da maternidade de forma triunfal, dizia o anúncio com um desenho de uma cegonha levando um bebê e a frase “você e seu filho merecem”. a última coisa que um bebê que acabou de nascer merece é uma limousine, pelo amor! mães merecem descanso e empatia. bebês merecem muito amor, peito e presença.

a publicidade e a sociedade de consumo são mestres em tornar o supérfluo em essencial.

onde vai parar um negócio desses? qual é a expectativa dos pais em relação aos seus filhos ao saírem da maternidade em uma limusine? que ele seja o próximo ganhador do oscar? que seja o presidente do mundo? será que eles não sabem que, ao chegar em casa, lidarão com fraldas de mecônio, noites mal dormidas, angústias e ansiedades? ou será que eles também já têm um pelotão de prontidão para lidar com todas essas questões para que eles não precisem se deparar com aquilo que é a realidade para a maioria das mães nesse mundão afora?

e como será a relação de uma criança com o mundo e as coisas no futuro cujos pais decidem gastar 500 mil – QUINHENTOS FUCKING MIL REAIS – na festinha de PRIMEIRO ANO de aniversário?

esse fenômeno tem nome: chama-se “escalada”, que me fez lembrar do último diálogo do filme batman begins, com o então tenente gordon e batman, ao lado do bat sinal:

batman – gotham voltará ao normal.

gordon – vai? e a escalada?

batman – escalada?

gordon – começamos a carregar semiautomáticas, eles compram automáticas… começamos a usar kevlar, ele compram balas perfurantes…

a escalada, então é o movimento que a publicidade e o consumismo fazem ao dar um passo sempre à frente para que nunca – JAMAIS – o que você tem (ou que dá para o seu filho) seja, de fato, o melhor.

voltando à festinha de 500 mil e fazendo um exercício de imaginação sobre essa criança, como será a sua festa de formatura da faculdade? como será sua festa de casamento?? não imagino algo menor que um passeio de foguete espacial à lua ou algo do tipo. menos que isso, não tem graça.

acha que eu to exagerando? dia desses numa conversa com um grupo de pessoas, uma amiga estava se queixando que sua prima (uma CRIANÇA) disse que não aguentava mais ir ao havaí todo ano. “ai, havaí de novo? ninguém merece, né?”  

obviamente ninguém consegue manter essa sandice. não é à toa que vemos cada vez mais pessoas frustradas e insatisfeitas porque nada pode saciá-las, porque tudo já foi feito e não há desafio nem surpresa no mundo. tudo parece chato, enfadonho demais. a vida é um filme que já sabemos o final.

é claro que você pode querer e tem todo o direito de dar conforto para o seus filhos. todo mundo gosta de conforto! a pergunta é: o que nós – pais e mães – estamos querendo compensar ao oferecer certos exageros às nossas crianças?

cada família tem uma história por trás. cada mãe ou cada pai traz consigo suas próprias questões que vêm desde a infância. mas é preciso entender que você não é sua filha ou seu filho. e seu filho ou filha não é você. vivemos um tempo diferente, com questões diferentes. claro, usamos nossa própria experiência como pano de fundo para sabermos o que queremos ou não repetir a partir de nossas próprias vivências. mas não podemos usar a infância das nossas crianças para compensar nossa própria infância. ou nosso tempo presente, nossa falta de tempo, de atenção, nossas próprias inseguranças.

não é porque você não ganhou um lango lango na sua infância que, ao ver que o tal lango lango foi relançado, você precisa ir correndo à loja de brinquedos mais próxima e comprar pro seu filho. provavelmente ele não vai dar a menor bola. ou vai brincar um pouco e depois vai deixar aquele brinquedo velho horroroso largado num canto qualquer.

como pai de 3 crianças, percebi que elas não estão nem aí se o seu carro é o último tipo ou se aquela roupa é da marca x ou y. seus filhos querem mesmo você! no universo delas, você é a pessoa que elas mais amam e veneram. dar o melhor para o seu filho não é gastar; é gastar-se. é gastar seu corpo, sua mente, seu tempo, seu sono, seu ouvido, sua atenção, seu amor… é algo que não se compra. repetindo: dar o melhor para o seu filho não é gastar. é gastar-se.

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4 Comments »

  1. Parabéns, texto excelente!

    Comentário by Ellen — 22 de fevereiro de 2017 @ 7:05 pm

  2. Perfeito, Hilan! Parabéns

    Comentário by Débora — 22 de fevereiro de 2017 @ 8:10 pm

  3. Excelente texto! Concordo 100%

    Dica: para com esse negócio de bloquear o clique com o botão direito.. É a melhor forma de abrir um link em uma nova guia.

    Comentário by mtenreiro — 23 de fevereiro de 2017 @ 4:00 pm

  4. Se seu mouse tiver a rodinha de rolagem no meio dos botões, você pode clicar com ela e já abre na nova guia automático!

    Comentário by Adriana — 17 de março de 2017 @ 11:06 am

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