24 de outubro

mãe de segunda viagem

por luíza diener

luciana alvarez fotografia

falavam e eu não acreditava, mas ser mãe de segunda viagem realmente é diferente .

o choro não me desespera mais tanto.
essa, para mim, é uma das diferenças mais gritantes. especialmente nas primeiras semanas/meses da pequena.
quando benjamin era bebê, seu choro me deixava desesperada. me dava uma agitação, uma sensação de que eu precisava largar tudo que estava fazendo para acudi-lo imediatamente. eu ficava sempre alerta, aquele barulho agudo e incessante me deixava estressada.
por conta disso, eu não apenas ficava nervosa, mas acabava me irritando com o benjoca baby, que era apenas um bebê tentando instintivamente sobreviver.
com constança não. ela chora (agora bem menos, mas ainda chora um bocadinho) e às vezes eu até demoro a perceber.
dá pra terminar de comer o pão, de escovar os dentes, de fazer o cocô sem travar no meio.
enfim, dá pra viver razoavelmente bem sem pirar no chororô.

outra coisa, obviamente, é a experiência.
antes sempre me vinha aquela pergunta “o que será que ele tem?”
e não é que eu saiba tudo sobre a miúda desde que ela nasceu, mas parece que agora as coisas são mais simples. a gente vai na tentativa e erro e, por fim, quase tudo dá certo. chorou? olhe a fralda, veja se quer mamar, se o bebê tá quente ou frio demais e assim vamos nos virando.
a experiência gera segurança e eu não tenho medo de estragar o bebê.
quando você já tem um cobaia filho mais velho, sabe na prática que colo demais não estraga ninguém, bem como peito demais, ou qualquer demonstração sadia de cuidado ou afeto. sabe mais ou menos o que funciona ou não dentro da sua dinâmica familiar.
antes eu sempre me perguntava “será que estou fazendo o certo?” ou “essa fase não passa nunca?”.
em uma daquelas crises de birra, já cheguei a dizer a mim mesma que “queria meu filho de volta”. e ele voltou. bem como sei que se sansa está num momento difícil, o mantra é sempre verdadeiro: vai passar, vai passar.

e, embalada por esse vai passar, sei também que nunca dá pra cantar vitória ou achar que seu bebê finalmente se decidiu quanto modo de dormir, comer ou seja lá o que for.
bebês mudam o tempo inteiro.
se ele dormiu a noite inteira, bem! aproveite e torça pra que isso continue nos próximos dias, semanas, meses ou anos. mas se ele acordar no dia, semana, mês ou ano seguinte, tudo bem também. provavelmente é alguma fase de crescimento, dente nascendo, calor, fome, frio, resfriado, carência, qualquer outra coisa ou todas elas juntas.
seu bebê come mal? pode ser que ele venha a adorar comer futuramente, nem que seja um determinado tipo de comida.
aqui foi o contrário. benjamin começou a comer divinamente bem, aceitava tu-do que dávamos pra ele, comia até ficar empanturrado. o tempo passou e ele ficou extremamente exigente para comer. apesar de ainda ter um apetite generoso, às vezes ele vai dormir com fome simplesmente porque está enjoado de comer arroz, feijão, salada e carne.
ou seja, o bebê monstro de ontem pode ser o bebê anjo de amanhã. e vice versa. e versa vice.

a pediatra dos meus filhos sou eu.
antes que venham me atacar com paus e pedras, calma! eu continuo levando meus filhos ao médico, vacinando e blá blá blá. nunca negligenciei a saúde deles e nem pretendo.
mas acontece que não dá pra deixar pro pediatra todas as responsabilidades. minha filha espirrou? tranquilo. tá com uma febrinha? a gente cuida. tá com a cara toda pipocada? é brotoeja. se ficar só naquela coisa básica, não tem por que atormentar pediatra por causa disso. quem é mãe – ou pai – zelosa e tá ali todos os dias vendo e cuidando da criança, vai conhecer seus pequenos muito melhor que o médico. vai saber dizer se a criança está ou não apática, se aquela agitação ou sonolência está fora do normal, etc.
acontece que a insegurança gerada pela falta de experiência muitas vezes nos impede de ouvir nossos instintos.
quando a gente já passou por certas situações, sabe quando se alarmar e quando sossegar. se constança foi examinada por um pediatra três vezes na sua vida, foi muito. e olhe lá.
caso seja necessário, procurarei um pediatra de minha confiança para cuidar dela.
no mais, nada que muito colo, peito e boas sonecas não deem jeito.

a mudança de rotina não é tão brusca. 
claro que muda, não quero enganar ninguém. recém nascidos consomem muito mais nosso tempo que uma criança de 3 anos, por exemplo, mas acontece que quando você já tem outros filhos pequenos, sua vida não fica tão abalada quanto quando você tinha zero filhos. lembro do baque que foi de repente não poder mais ir ao cinema quando dava na veneta, sair à noite, ter uma longa conversa ao telefone sem nunca ser interrompida, me arrumar e sair de casa em menos de 10 minutos.
claro que nada disso é impossível, mas muitos movimentos nossos que antes eram quase espontâneos, agora são milimetricamente calculados para que aconteçam.
até mesmo no dia-a-dia dentro de casa. há horários que eu simplesmente não marco nada porque é hora da soneca do benjamin. agora, dos dois. soa completamente natural pra mim e eu não me sinto privada como antes.

só me chame se for fome.
como já disse, antes o choro de bebê era tão desesperador para mim que a vontade que me dava era de, ao menor grunhido emitido,  arrancá-lo do braço de quem quer que estivesse com ele só para resolver a situação. tinha aquela impressão de que eu, como mãe, era a única pessoa capaz de resolver todos os seus problemas. tolinha.
com isso eu não fazia nada direito: tomar banho era um tormento e eu sempre desligava o chuveiro e ficava em absoluto silêncio até ter a certeza de que não era meu bebê que estava em apuros.
agora, se ouço um choro de longe, penso “ah, tem menos de uma hora que ela mamou. o pai se vira”.
então, se ela está alimentada, deixo mesmo que o pai, a tia, a avó, o avô cuidem da situação.
mas aí, se ela estiver tentando mamar a blusa ou o braço de alguém, passa para cá a bola (literalmente) que esse problema de fome, por enquanto, só eu posso resolver.

tudo que eu quero é que meus filhos se amem.
quando era só benjamin, eu me pegava pensando o que ele iria falar primeiro: mamãe ou papai?
queria, sozinha, suprir todas as suas necessidades alimentares, biológicas, afetivas.
não que eu não me importe mais com nada disso, mas desde a gravidez, o que eu mais desejo é que meus filhos se amem, sejam irmãos, companheiros, cúmplices.
quando crianças, minhas irmãs e eu eu éramos cheias de segredinhos que nossa mãe só veio a descobrir depois que viramos adultas.
e é isso que eu quero. não que eles propriamente escondam as coisas de mim, mas que confiem um no outro, sabendo que terão histórias e aventuras que serão só deles.

sempre cabe mais um, mais dois, mais vinte.
não importa quantos filhos eu venha a ter. sempre haverá espaço para amar todos igualmente, cada um do seu próprio jeito.
não me vejo preferindo nenhum, muito menos gostando menos de alguém. amor não é uma coisa que se subtrai. e mais do que se multiplicar (como manda o clichê), ele eleva-se às mais altas potências. é uma progressão geométrica, uma função exponencial, um cálculo tão grande que não consigo nem medir.

 

foto: Luciana Alvarez

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21 Comments »

  1. Ai!!!!!! Um post enorme e delicioso cheio de coisas escatológicas (como cortar o cocô no meio) e sinceridades maternas, como terminar de comer o pão numa boa porque sabe que o bebê não vai morrer….
    Tava com saudade de um post desses… sei que com dois o tempo fica ainda mais curtinho, então tinha que vir agradecer!
    Olha, te admiro um monte, pela tua confiança e serenidade ao maternar, porque eu confesso que ainda me desespero com o choro da segundinha e não consigo fazer as coisas direito… mas o mantra é universal: é fase, vai passar, vai passar!!!

    Abraços,

    Comentário by Laura — outubro 24, 2013 @ 11:58 am

  2. Um amigo, pai de seis (última fofura nem era esperada, a esposa dele está com 46 anos e ela nasceu faz poucos meses) diz que os dois primeiros filhos são como um super jato cruzando a barreira do som. Aquele estardalhaço! Depois os outros vem na linha e a gente quase nem sente. O meu terceiro está no forno, mas realmente percebemos isso aqui em casa. Ocupam o tempo, sim, acordam à noite, sim, mas é totalmente diferente. E nesse diferente, cabe a palavra fácil tb. Bjo prá vcs. Essa Constança tá cada vez mais gostosinha!

    Comentário by Carolina Frîncu — outubro 24, 2013 @ 12:51 pm

  3. Chorei no "só quero que meus filhos se amem". Tô grávida demais.
    Vantagem de ter gêmeos é que fiquei assim depois dos 10 meses. 😉
    PS: Você viu meu último post? O seu foi exatamente o "depois" e me deixou bem tranquila. No fim tudo dá certo.

    Comentário by Tati — outubro 24, 2013 @ 12:55 pm

  4. Eu digo que sou mãe de primeira viagem, pela segunda vez… lógico que tem muita coisa que ficamos "escoladas", mas tem tantas diferenças entre cada experiência, que tem hora que me pergunto se eu realmente tive uma primogênita que sobreviveu a mim!rs

    Comentário by Mariana — outubro 24, 2013 @ 1:05 pm

  5. Parabéns Luiza!!! É exatamente assim que me sinto depois que fui mãe de duas…. Eu costumo dizer que se o segundo nascesse primeiro que o primeiro tudo seria mais fácil!!! É isso… Experiência é tudo…

    Comentário by Carolina Damasceno — outubro 24, 2013 @ 1:21 pm

  6. muito bom, adorei …tenho uma filha de 10 anos, agora esperando mas uma o um, ainda nao sei 18 semanas e vc esta um apoio muito grandee. bjuu

    Comentário by cristiane ereira — outubro 24, 2013 @ 1:22 pm

  7. lindooo adorei espero o proximo . abracoo

    Comentário by Cristiane Da Silva Pereira — outubro 24, 2013 @ 1:24 pm

  8. no começo eu era super desesperada com meu baby, agora se ele ta mamado dou um grito pra quem esta segurando: ele não vai chorar pra sempre! haha, só assim consigo lavar louça, banhar, lavar fraldinhas, mas ele ainda insiste em fazer as refeições comigo

    Comentário by Lysia — outubro 24, 2013 @ 10:15 pm

  9. Nossa vc resumiu super bem tudo o que eu senti com o Felipe meu primeiro e único filho.Quantas vezes desliguei o chuveiro para ouvir se ele estava quietinho ou chorando no berço. Bjs

    Comentário by Francine Barrionuevo — outubro 25, 2013 @ 9:09 am

  10. Constança Delicinha!!

    Comentário by Monique — outubro 26, 2013 @ 8:42 pm

  11. Amei, tenho uma filha de 02 anos e 8 meses e estou grávida de 3 meses, penso exatamente dessa forma.
    O que mais me recordo é que eu pensava ser capaz de resolver tudo, que se deixasse para os outros alguma atribuição minha filha iria me amar menos.
    Obrigada por compartilhar seus sentimentos com a gente.

    Comentário by Denise — outubro 27, 2013 @ 7:31 am

  12. tudo que está escrito acontece mesmo! quando se quer suprir tudo, acho que é coisa de mãe de primeira viagem! como a gente se pressiona! chegam até a pensar que a gente tá com depressão pós parto! hehehe de tão pirada que a gente fica em tentar fazer o melhor pelo pequeno!

    É bem assim mesmo! meu pequeno tem dois anos e meio… estamos pensando no próximo ou próxima! tenho certeza que vai ser completa ente diferente!

    bjos

    Comentário by Ligia Doneda — outubro 28, 2013 @ 8:46 am

  13. Bom ouvir isso, quando se é super mãe de primeira viagem ( minha Olívia tá c 40 dias) e bate uma culpa por ter medo demais, fazer demais, sofrer demais, sentir falta das coisas mundanas demais, amar demais e achar que ninguém consegue fazer o que vc faz! Pra mim, é um acalento saber que são fases, que td passa. Bj em vcs!

    Comentário by Emanuelle — outubro 28, 2013 @ 4:14 pm

  14. Ola, tenho um de 02 anos e meio e estou gravida de 27 semanas (quase), na verdade hoje o meu maior medo e como o meu primeiro filho vai reagir ao segundo…estou ansiosa para conhecer a Helena (e a que estou esperando),mais confesso que muito medo de nao saber lidar com esta situação e fazer o lheo (primeiro filho) sofrer…so peço a Deus que me ajude a fazer tudo certo…beijos e boa sorte a todas

    Comentário by Graziele — outubro 28, 2013 @ 8:47 pm

  15. Meu Deus, senti como se estivesse falando de mim…tenho dois filhos exatamente da mesma idade e tudo isso é o que acontece em minha rotina familiar.

    Comentário by Cleiza — outubro 28, 2013 @ 11:56 pm

  16. Muito bom, ser mãe é inesplicável…

    Comentário by Anny — outubro 29, 2013 @ 2:29 pm

  17. Só confirma a tese que o 2º deveria nascer antes do 1º. Percebo o quanto que minha bebê é mais independente do que o primeiro na mesma idade, ela é igualmente amada e cuidada, mas sem stress, mais solta, mais criança e moleca. Ela tem 13 meses e só levei foi ao pediatra duas vezes porque realmente estava doentinha e umas outras 2 ou 3 vezes para consultas de rotina. Se a criança está saudável pra quê tirá-la da rotina e atravessar a cidade somente para satisfazer minha curiosidade de saber o peso e a altura? Porque consulta de bebê saudável para mãe de segunda viagem não tem nenhuma novidade, vc sabe tudo que está por vir. Maravilha!!!

    Comentário by Aline — outubro 31, 2013 @ 10:25 am

  18. lindo, adorei!!!

    Comentário by Taty Ribeiro — novembro 5, 2013 @ 1:14 pm

  19. adorei. demais de verdadeiro e sincero!

    Comentário by adriana Rebicki — novembro 8, 2013 @ 2:31 pm

  20. ai que texto liiiiiindo!! tenho so o Miguel por enquanto, mas penso que nem voce em relacao ao amor..pq e gigantemente gigante o amor que a gente sente por eles né!

    Comentário by Jenifer Muller — março 19, 2014 @ 5:33 pm

  21. ai que incentivo bom pra encarar ser mãe de segunda viagem!

    Comentário by Jaqueline — agosto 29, 2014 @ 5:32 pm

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