“nem parece que é mãe de 3”

bebê minion roxo, foto juliana caribé, dupla exposição fotografia

“nossa! você está tão linda, tão magra… nem parece que é mãe de 3!”
obrigada, mas… isso era pra ser um elogio?
entendo que muitas pessoas falem isso com a melhor das intenções, como se fosse algo bom, positivo e tal. mas precisamos rever nossos conceitos sobre beleza e, principalmente, questionar os padrões estéticos que são impostos a nós, mulheres, desde cedo.
de que a gente tem que ser linda, educada, tem que estar sempre arrumada, com tudo em cima e um largo sorriso na cara, independente de como nos sentimos por dentro.
o puerpério não é um momento pra isso. aliás, momento algum de nossas vidas deveria girar em função de ficar bonita pros outros.
não, não sou contra a mulher se arrumar, independente do momento de vida dela. e muito menos acho que a maternidade deva vir com um atestado de baranguice junto.
ela se arruma se assim ela desejar fazer.
existe algo que vem junto com a maternidade que se chama entrega, doação, abnegação. as prioridades mudam, ou pelo menos deveriam mudar.
há meses eu gostaria de me depilar e não consigo parar para ir a um salão. também queria dar um pulo no cabeleireiro e aparar a juba, mas não dá. existem outras milhares de coisas na minha lista de desejos que vão ter que esperar, porque enquanto isso eu tenho uma recém nascida pra cuidar e amamentar e outros dois filhos que eu pus no mundo e devo zelar por eles mais do que nunca.

se você me ver na rua, existe mesmo uma grande chance de me encontrar arrumada, maquiada, cabelos penteados, roupa bonita, dentes escovados, cheirosa e com o tal do sorriso no rosto. isso porque eu me planejei praquilo, me arrumei enquanto meu marido cuidava dos nossos filhos. provavelmente briguei com todo mundo pra se apressarem, pro mais velho parar de encrencar com o sapato que está usando, pra do meio parar de aporrinhar o irmão. provavelmente parei pra amamentar uma ou duas vezes a caçula e trocar sua fralda e posso até ter precisado mudar minha roupa depois de tomar uma bela vomitada de leite ou depois do meu peito vazar e molhar todo o sutiã e uma parte da blusa. eu vou me esforçar pra fazer aquilo valer a pena porque, afinal, depois de tanto tempo trancafiada dentro de casa, vivendo em função de todos (e pouquíssimo em função de mim mesma) eu vou sair.
vou pedir pro meu marido dirigir enquanto eu me maquio em frente ao espelhinho da pala de sol do carro. posso me irritar com alguma criança chorando ou reclamando da música, do sol na cara, do calor, do frio, do irmão ou da irmã. ainda assim, quando eu chegar no local de destino, vou botar um sorriso na cara. não pra agradar aos outros, mas pra agradar a mim mesma, porque aquele é meu momento.

porém, se você me ver em casa, encontrará um cena diferente. não uma cena ruim, mas a do meu cotidiano. a da mãe que acordou cedo pra amamentar seu bebê (após fazer isso algumas vezes durante a noite) e já correu pra providenciar o café da manhã dos outros filhos. que na sequência se ocupa dos afazeres domésticos e tenta, nesse meio tempo, resolver pendências do trabalho (que é feito em home office). quando vou ver, já é meio dia e ainda não fiz xixi. muito menos escovei os dentes. comi em pé entre uma tarefa e outra. quando vou ver, minha blusa está do avesso e com uma rodela de leite molhado bem na altura do peito. lembro de pentear o cabelo somente à noite, antes do banho, quando todos já dormem.
vou me olhar no espelho e vai brotar um largo sorriso na minha cara. não pra agradar aos outros, mas pra agradar a mim mesma, porque essa é a minha vida.
a que sonhei. a que escolhi pra mim. a que me traz satisfação, realização, plenitude. a que me traz alegria todo santo dia. eu não trocaria isso por nada no mundo.

essa é a beleza da vida. a estética é um mero detalhe e nenhuma mulher deveria se sentir cobrada a ficar bonita só pra agradar os outros. eu olho pra minha barriga, perna, seios, olho pra minha pele e noto o tanto que a maternidade os modificou. já sofri com isso, já quis mudar algumas coisas (e talvez até o faça, no tempo certo), só que hoje aprendi a me aceitar como sou.
as cobranças só atrapalham e alguns elogios apenas pioram a situação.

se realmente quiser conversar com uma mulher que acabou de ter bebê, pergunte como ela está se sentindo, pergunte o que ela tem notado de diferente e aprendido desde que o bebê nasceu, pergunte sobre o bebê. pergunte se ela quer conversar.
e escute. muitas vezes, melhor que falar é apenas ouvir <3

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10 comments

    1. Voce nao entendeu nada no post, releia. Uma coisa é falar: nossa, voce esta linda, radiante. Outra e falar nossa, ser mãe de um acaba com a mulher, de tres então, no meu imaginario, é ser feia e gorda. É humilhar a mulher que é mãe. É taxar todas as mães de "acabadas" esse tipo ridículo de comparativo. Aprenda a elogiar sem comparar.
      Luíza, parabéns pelo post tão sensivel. Bjo

  1. Minha querida,
    Como é bom ler o que você escreve, e o faz tão bem, e nos faz tão bem.
    A cada dia constato mais um pouco da verdade das palavras que me foram ditas uma vez por uma das profissionais que participaram da sua formação:
    – Essa menina vai fazer muito bem qualquer coisa que resolver fazer nesta vida.
    Beijinhos

  2. Gosto muito de muuuitos posts da Luíza, sempre tô por aqui lendo! Mas achei um certo exagero nesse de hoje. Acho que nesse caso é apenas um elogio porque, convenhamos…. uma mulher no pós parto do seu terceiro filho dificilmente terá um corpo com tudo no lugar, isso é fato, então nada mais comum do que as pessoas se admirarem e elogiarem por alguém retornar à sua forma física em tão pouco tempo. So isso! Hoje em dia tudo está sendo motivo para um protesto, uma ofensa… Isso tbm é um tipo de pré-julgamento! Menos, né gente!

  3. É isso!! Hoje estou com um bebê de 11 dias, primeiro filho… a camisola molhada de leite… cabelo num coque… bicos dos seios doloridos… mas um bom humor maravilhoso toda manhã quando me lembro que ele nasceu! Esta aqui… e temos uma vida para viver… juntos! Agradecida a Deus por isso! E por tudo que vier…

  4. Dois meses depois de parida, 4 quilos mais magra do meu peso original, ralando e definhando com a amamentação, enfrentando uma depressão pós parto, escuto: “parabéns, já está magrinha de novo”.

    O.o

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