30 de setembro

mas você sempre quis 3??

por luíza diener

mãe de três(arte de katie m. berggren)

quem me acompanha há mais tempo no blog, sabe que a resposta é sim! sempre quis ter três filhos. ou mais, por que não?
sempre sonhei com família grande, a casa cheia, as festas sempre animadas.
lembro que os momentos mais gostosos da minha infância e adolescência eram quando minhas irmãs e eu íamos pra cama da minha mãe e ficávamos de papo pro ar, lendo e ouvindo histórias e, quando mais velhas, fofocando sobre a vida. aquela cama cheia de filha, com a mãe no meio.
até mesmo quando viajávamos de carro e nos espremíamos no banco de trás, brigando: “ela invadiu o meu espaço!” “ela bebeu minha água!” “ela tá rindo de mim e me imitando!” eu sempre soube que queria isso pra mim.

mas esse desejo mudou drasticamente depois que tive a segundinha.
ainda grávida pela segunda vez – com sansa na barriga sem nem ao menos saber da doce e sapeca menininha que viria para nós – eu já sonhava com mais um filho ou filha.
mas a gravidez foi chata, eu enjoei muito, me sentia muito cansada e culpada ao mesmo tempo: culpada por não conseguir dar a atenção que meu filho estava acostumado a ter, culpada por não conseguir descansar na gravidez dela o tanto que eu consegui descansar e parar na gravidez dele.

a primeira gravidez foi um mar de rosas. enjoei pouco, me sentia bonita, me sentia importante, com o rei na barriga. é fato que também me sentia bastante cansada. nisso as três gravidezes foram bem parecidas, porque é algo que consome minha energia para caramba.
mas com um só eu conseguia deitar e tirar um, dois, vários cochilos. me alimentei super bem, fiz natação, ioga, passava cremes hidratantes diariamente, a fim de evitar estrias. fiz chá de bebê, cantava músicas pra ele e mais uma pá de coisas.

na segunda gravidez a coisa foi acontecendo conforme dava. eu tinha um menino de 2 anos ativo e extremamente perguntador, que não aceitava não como resposta (se era assim aos 2 anos, imagine hoje, aos 5!). ele estava acostumado a ter a atenção exclusiva da mãe 24h por dia (e à noite), além de sempre ter sido o tipo de criança que demanda um bocado.
então a gravidez da sansa foi como dava pra ser. por muitas e muitas vezes eu esquecia que estava grávida. não lembrava de cantar, de passar creme, muito menos tinha tempo (ou dinheiro, ou gente pra ficar com o filho mais velho) pra fazer qualquer tipo de exercício. a gestação passou voando e, se não fossem pelas fotos (dessa vez eu documentei bem) e os registros no blog, eu não lembraria de quase nada.

tudo isso ficou ali, pesando um pouco no coração.
mas sansa nasceu e eu fui arrebatada por um amor enorme. me descobri apaixonada pelo papel de mãe de recém nascido, coisa que não consegui aproveitar direito com o benjamin, porque me sentia insegura e também tinha pressa de vê-lo crescer.
e, com ela, eu simplesmente curti o momento, aproveitei cada cheirinho, cada chorinho, cada fralda, cada roupinha minúscula. se com o benjoca eu sentia que sempre tinha que mostrar o tanto que, apesar de “nova”, eu sabia cuidar do meu filho, com constança toquei que eu não tinha que provar nada a ninguém.
exceto para o meu filho.

ninguém me contou que, quando nasce o segundo filho, vem também o luto pelo primogênito, que perdeu o posto de filho único.
sempre falam sobre o mais velho destronado, sobre ciúme de irmão mais velho e várias outras coisas, mas pouco – ou nada – se fala sobre o luto da mãe. 
eu, que não costumava sentir-me culpada por praticamente nada, de repente me vi inevitavelmente girando na ciranda da culpa materna.
enquanto escrevo esse post, paro um minuto pra reler um texto de mais de dois anos atrás, que fala da saudadinha que tenho do meu filho. li um trecho que narrava que, certa noite, quando todos dormiam, fui checar benjoca na sua cama e a saudade bateu com força enquanto afagava seus cabelos, então enchi ele de beijos e chorei.
até hoje faço isso. até hoje tenho que lidar com essa perda, ainda que em menor intensidade e com menos frequência.

fico me perguntando se passarei por isso com constança. provavelmente sim.
mas ela, que já nasceu com essa atenção dividida, muitas vezes prefere a companhia do irmão à nossa e isso me dá tanta alegria (apesar do tanto que eles brigam), que eu tenho certeza ABSOLUTA de que o melhor presente que eu poderia dar a eles seria justamente esse: ter irmãos.

os primeiros meses como mãe de 2 pareceram até fáceis.
claro que eu precisei adaptar nossa rotina, me reinventar como mãe e, especialmente, me reestruturar emocionalmente. mas, como gosto de dizer, ser mãe é um eterno jogo de vídeo game e, involuntariamente, cada fase é sempre mais difícil que a anterior. tem vezes que você jura que não vai dar conta de vencer aquele chefão. você passa horas, dias, semanas e até meses tentando e de repente – como que por uma cagada do destino – puf! passa aquela fase (e nunca mais quer voltar nela com medo de ficar empacada de novo).

MAS… percebi, com a experiência dos dois, que os 2 primeiros anos de um bebê podem ser apavorantes.
sim! apavorantes, aterrorizantes, medonhos, pesadeleiros!
é uma doação muito intensa, carnal, visceral, onde também depositamos toda nossa alma e disposição.
não é raro eu ver mães de bebês – no auge de suas fofuras, sorrisos, descobertas do mundo – desesperadas diante da ideia de ter mais um filho. não que cuidar de bebês seja mais difícil que cuidar de crianças (não se esqueça que os chefões vão ficando cada vez mais sinistros conforme os anos passam – muito medo da adolescência!), mas é que esse começo acontece muito à base de sangue leite, suor e lágrimas. o bebê depende totalmente da mãe, ele é puro instinto e não adianta conversar e racionalizar nada naquele momento por motivos de: o bebê não está nem aí para a razão. bebês são pura emoção. 
e nós, mães, acabamos nos tornando um pouco como eles, a fim de falar a mesma língua, submergir no mesmo mundo e conseguir nos conectar com nossas crias. nos vemos envoltas também em leite, suor, lágrimas, instinto e emoção.

MAS, DE REPENTE, você olha pro lado e ali está também uma pequena criança. seu outro filho ou filha que já anda, se comunica, se alimenta e começa a viver um mundo mais racional. uma criança que não se acalma simplesmente com uma canção de ninar ou um peito. aquele pequeno ser humano tem necessidades diferentes de um bebê e nós, mães, temos que falar a linguagem dela também. além, claro, da linguagem dos adultos.
rola uma esquizofrenia sinistra e requer muito jogo de cintura, muita maturidade, muita clareza das ideias pra conseguir transitar entre esses mundos sem pirar o cabeção.
e olha, vou dizer que, juntando privação de sono, sentimento de culpa, hormônios a mil por hora, é praticamente impossível não pirar.
eu já pirei. E COMO EU PIREI!
e ainda piro, mas hoje por outros motivos. acho que mãe é mesmo um ser estressado.

quando constança tinha 1 ano e meio eu adoeci.
arrumei uma virose intensa que me deixou esquisita por quase uma semana. fiquei enjoada, vomitava várias vezes por dia, além de uma diarreia incessante que só me permitia me locomover da cama pra privada, da privada pra cama. mas eu não conseguia cuidar de mim mesma porque tinha duas minúsculas crianças pra cuidar, sendo que sansa era ainda muito bebê, mal andava, mal comia (ela sempre foi mais descansada no seu desenvolvimento), usava fraldas e mamava pra caramba.
fui ao médico, que me passou vários exames de sangue, e implorei por um beta hcg, também conhecido como teste de gravidez. foram horas tensas até sair o resultado: negativo. eu nunca celebrei tanto um teste de gravidez negativo quanto aquele e olha que eu sou a louca do teste de gravidez.
ter que cuidar daqueles dois enquanto eu me sentia mal, ficar enjoada, fraca de fome e minha vida não parar porque eu tinha dois pequenos seres dependendo de mim, lembrar como foi minha gravidez da sansa, todos os incômodos e sentimentos de culpa, tudo isso me deixou apavorada de pensar numa terceira gravidez.

(parêntese: também pensava no tanto que seria impossível ter um terceiro filho naquele minúsculo apartamento.
eu já tinha que me virar em mil pra entretê-los sem abusar da tv, sem incomodar os vizinhos de baixo e dos lados e sem pirar. nós praticamente vivíamos debaixo do bloco, que era a única opção viável, mas sansa morria de medo de cachorro, então era sempre uma saga permanecer com ela por lá sem ser no colo.
cheguei a dizer pra hilan “se um dia você quiser mais um filho, pode ter certeza absoluta de que nesse mini apartamento não vai rolar. eu não dou conta!”)

assim que melhorei, procurei minha ginecologista para pensar em um método contraceptivo de longo prazo. 
pesquisei bastante e já estava decidida por um DIU. só precisava escolher entre o diu de cobre ou o diu de hormônio (o tal mirena). mas minha médica estava viajando de férias e só voltaria no outro mês. além do que, eu não estava preparada financeiramente. mesmo assim, era um esforço que valeria a pena e eu estava disposta àquilo.
conversei com o marido e ele super concordou.
na época cheguei a escrever um post imaginário contando a todo mundo sobre a nossa decisão de não ter filhos nos próximos 3 ou 4 anos – quiçá, nunca mais. mas decidi esperar colocar o diu pra comunicar essa decisão pra geral.

só que eu fui relaxando e esquecendo do pavor, até porque esqueci de ligar de novo na médica, esqueci dos enjoos bizarros, esqueci do DIU, esqueci de tudo que eu escrevi nesse post.

e sansa foi crescendo. e benjoca foi amadurecendo. e aos poucos a vida foi voltando aos eixos.
como disse uma amiga certa vez: parece que, quando os filhos chegam perto dos 2 anos, nós começamos a recolher nossos cacos. começamos a nos enxergar como mulher, não apenas como mãe – aquele papel tão intenso que nos acompanhou solitariamente por um tempo que pareceu uma eternidade.
nessa fase eu começo a me sentir mais bonita, mais disposta, mais trabalhedeira, mais feliz, mais sexy (por que não?). aquela libido que pareceu que tinha dado adeus e ido embora pra sempre do casamento voltou fazendo entrada triunfal, se sentindo poderosa.

por mais dramático que isso possa parecer, depois dos 2 anos a vida parece voltar a fazer sentido.
e foi justamente aí que começamos uma conversinha mais ou menos assim:

eu: nossa, como foi difícil ter o segundo filho, né? acho que eu não fazia ideia de que seria assim.
ele: nem me fale. que loucura!
eu: se me perguntarem quantos filhos eu desejo ter racionalmente, com certeza respondo dois. muito trabalho e com certeza eles darão muita despesa no futuro.
ele: com certeza. mas será que a gente vai parar no segundo?
eu: pois é. eu não consigo me imaginar mãe de só dois filhos. nada contra quem o faça, mas eu sou meio kamikaze e não consigo me enxergar tranquilona parando por aqui. acho que eu gosto do caos e da aventura.
ele: pois é. eu duvido que tenhamos só dois filhos. mas vai saber quando virá o terceiro.

algumas semanas depois (talvez um pouco mais), hilan cantou a pedra: “acho que tô pronto pra ter mais um filho!” no que eu automaticamente empolguei. na mesma hora ele disse “então vamos ali no quarto tentar” e eu opa! pera! deixa eu tomar ácido fólico, deixa eu ir na médica fazer exames, deixa eu me exercitar um pouco mais e bláblábláblá… engravidei no mesmo mês.

e aí, minha gente, esquece desespero, esquece um trilhão de motivos racionais pra parar no segundinho e se joga no “O QUE É UM PEIDO PRA QUEM TÁ CAGADO?” porque esse é o melhor jeito de encarar isso.

sempre soube que a maternidade é um caminho sem volta e que, quer tenhamos um, três ou treze filhos, esse papel de mãe será pra sempre nosso, até morrermos. este ano em especial me fez encarar isso com todas as suas nuances e verdades e me fez abraçar esse estado de graça e mergulhar de cabeça. claro que às vezes a gente tem que vir à tona pra respirar (mais que necessário), mas aceitar isso é muito melhor que nadar contra essa eterna correnteza.

me pergunta se eu quero ter mais filhos depois que te dou uma resposta certeira: eu não faço a menor ideia. tenho plena convicção de que ainda vou me desesperar, ainda vou jurar que “filhos nunca mais” ou ainda posso voltar a recolher os cacos e pensar em começar tudo outra vez.
mas, pela primeira vez, não posso nem quero garantir nada.
vamos apenas viver o momento.

 

 

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14 Comments »

  1. Adoro a forma como você escreve !!!! Maternidade é isto, dias de loucura e amor extremo, tudo ao mesmo tempo !!! Parabéns .

    Comentário by Thais — setembro 30, 2015 @ 12:02 pm

  2. Só existe um unico motivo que me fez parar no primeiro: grana. Meu Deus como é caro! E olha que meu filho não tem plano de saúde e estuda na escolinha da prefeitura. Mas ele vai crescer e vai precisar de uma escola decente, uma faculdade… Eu me pergunto até onde vão as reais necessidades de um filho. Pq muita coisa a gente vê com o tempo qué é puro status como o protetor de berço bordado à mão, o carrinho de última geração, a babá eletrônica com touch screen… Mas sei lá, talvez eu nunca encontre essas respostas. Me contem depois!

    Comentário by Rebeca — setembro 30, 2015 @ 1:13 pm

  3. Eu me sinto aliviada quando leio seus posts, tipo: relaxa Jenifer, você é normal. Tudo isso é normal e não acontece só com voce. Hahaha parabéns Luiza, você arrasa!

    Comentário by Jenifer Muller de Oliveira — setembro 30, 2015 @ 1:26 pm

  4. nossa como eu amo esse blog! sempre leio mas quase nunca comento… mas me identifico demais!!
    tenho um filho só ainda, que está fazendo 2 anos hj! e adivinha? to louca pra tentar o segundo! e eu nao entendia o pq do nada essa ideia estar tão latente na minha cabeça assim… de repente…
    mas agora depois desse post eu entendi!! são os incríveis 2 anos q chegaram!! to mais relaxada.. me sentindo mais bonita..mais sexy… tudo isso aí q vc disse!! voltando a ser eu mesma e não só mãe em tempo integral! kkkk
    eu to maravilhada em ver como ele ficou tão independente tão rápido! ele pára para brincar agora, prefere dormir no berço do q na minha cama agora (a gente nunca forçou ele a dormir no berço não.. claro q é bem mais confortável dormir só o casal na cama, mas tb não ficavamos forçando sabe..era melhor dormir a noite toda a 3 do q acordar milhões de vzs a noite pq ele tava no berço!haha) e agora ele quer ficar no berço… ta certo q o berço dele ta no nosso quarto… mas tudo bem! quem sabe uma hora ele peça pra ir pro quarto dele né?! kkkkkkkkk
    enfim, obrigada por tantos posts decifrando meus pensamentos e meus momentos de mãe! #tamojunto
    muito feliz com a nova gravidez d vcs!! e ansiosa por mais posts!! beijos

    Comentário by Natasha — setembro 30, 2015 @ 2:30 pm

  5. Assim como a Jenifer, agradeço por não me deixar aqui me sentindo maluca sozinha!

    Comentário by Renée — setembro 30, 2015 @ 3:03 pm

  6. Seu relato da gestação n2 e da chegada,, do luto do primogênito e etc, vivi tudo isso assim mesmo! É muito louco! To no meio do turbilhão ainda, com uma segundinho de 19 meses, furacão e ainda não me recuperei de todo hahhaha Mas sei que sou dessas de 2 filhos "apenas", acho que tb sou chegada ao caos kkkk

    Comentário by Pâmela — setembro 30, 2015 @ 3:27 pm

  7. Caramba!!! Me identifiquem muito!!! E olha que eu só tenho uma! Passei por muitas dessas coisas, essa entrega visceral, cansaço, dizer que nunca mais teria outro filho… Mas agora as coisas estão voltando aos eixos (ela está com 1 ano e 10 meses)… E tá me dando tanta vontade de ter outro… Quando eu penso, acho que não devia que o mundo tá difícil, filho é cato, dá trabalho… Mas a vontade só aumenta! Não é fácil ser mãe, mas é também delicioso!

    Comentário by Cacá — setembro 30, 2015 @ 7:26 pm

  8. Gente,meu comentário foi pro lugar errado, entrou no perfil do face do marido, como apaga???? Kkkkkkk……Deu ruim!!

    Comentário by Juh — setembro 30, 2015 @ 8:51 pm

  9. Sempre soube que não queria ter só um filho, mas ainda não me sinto preparada, quiçá porque minha pequena só tem 1 ano e 2 meses. Esperando chegar perto dos dois anos para que a vontade surja ou até que voltemos a dormir uma noite inteira de novo. O jeito é aguardar. Mas sou como você, adoro família grande e não quero que a minha filha seja "sozinha" no mundo quando for mais velha, porque poder contar com os irmãos é sempre muito bom!

    Comentário by Juliana Bravin — outubro 1, 2015 @ 1:22 pm

  10. Obrigada por esse lindo post!

    Comentário by Paula — outubro 2, 2015 @ 1:03 pm

  11. amo ler tudo
    vc sempre diz tanta coisa boa!
    Pababéns Luiza e Hilan! Deus os abençoe mais a cada dia!!!

    Comentário by Carol Brito — outubro 8, 2015 @ 10:39 am

  12. Adorei o post, mas sabe qual foi a minha frase preferida? "aquela cama cheia de filha, com a mãe no meio". Que delícia. E quando nos juntamos novamente, acontece. Só que agora fica difícil nós 4, sempre tem netinhos junto. Love you, Lu & Hilan + criancinhas lindinhas do meu coração. Bjs, Mamy

    Comentário by daisy — outubro 9, 2015 @ 12:07 am

  13. foi por isso que a cama aumentou: pra comportar a família toda! ehehehhe!
    beijos, mamy!!

    Comentário by luíza diener — outubro 14, 2015 @ 11:07 am

  14. Parabéns. ..e eu aqui no meu quarto baby, que nasce em dezembro!

    Melhor frase: o que é um peido para quem está cagado!

    Boa sorte e muita paz e luz.

    Comentário by rita — outubro 9, 2015 @ 9:09 am

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