27 de abril

maternidade solitária

por luíza diener

certa vez, antes de ter filhos, ouvi uma conhecida dizer “eu quero ter filhos porque me sinto muito sozinha. um filho é uma companhia pra vida toda”. o tempo passou e isso nunca saiu da minha cabeça. nunca consegui concordar com o que ela disse.

esclareço: meus filhos são – sim – meus companheirinhos, mas são meus companheirinhos crianças. estão sempre comigo (muitas vezes amontoados em cima de mim – tipo enquanto eu escrevo este post – sem dar sossego) e passamos bons bocados juntos também. é muito amor, é muita delícia. mas preciso confessar: eu nunca me senti tão sozinha em toda a minha vida.

não tenho embasamento nenhum para discorrer sobre o assunto, mas posso falar por mim e por muitas conversas que já tive com outras mães: a maternidade pode ser solitária para caramba! 

acredito que tudo começa com um primeiro movimento clássico: já na gravidez algumas amizades mudam. seja porque pessoas ao seu redor não têm filhos, seja porque não concordam com a gravidez de alguma maneira, porque você se sente um peixe fora dágua. ou, de repente, você já entrou tanto nesse mundo que não consegue falar sobre outra coisa. e, depois que o bebê nasce, muitas vezes a limitação (além das citadas acima e tantas outras) é física mesmo. pelo cansaço, pela impossibilidade de levar bebês a certos ambientes e tantos outros fatores. vejo muitos pais e mães que conseguem (aparentemente) casar muito bem a vida social pós-filhos com a existência daquela nova pessoinha que chegou. eu mesma fiz e ainda faço um esforço grande pra que isso aconteça. mas vamos combinar: tudo muda. muda mesmo. e a gente precisa aceitar essa mudança e abraçá-la.

além dos grupos de facebook que faço parte, semanalmente me encontro com um grupo de mães. algumas são mais recentes, outras eu conheço há muitos, muitos anos. nós nos vimos engravidar, ter bebês (ou mesmo perdê-los), vimos eles crescendo e chegando irmãozinhos ou irmãzinhas para fazer companhia a eles. de todos esses grupos e mães que encontro pessoal e virtualmente há tantos anos, vi que existe entre algumas delas um forte senso de empatia, sororidade. vi muitas amizades bonitas desabrocharem. mas também vejo muitas mães que estão ali na tentativa de falarem e serem ouvidas. muita conversa, muita identificação, mas muitas vezes são relações que não passam dali. uma delas sou eu.

às vezes imagino que lugares assim são como um mar lotado de banhistas: famílias felizes se divertindo, jogando bola, crianças gritando, água, sol e sorrisos para todos os lados. meu marido, filhos, todo mundo lá, conversando, brincando. e, de repente, um silêncio. a alegria entre eles continua, mas é como se eu não estivesse ali, como se eu não fizesse parte. como se, de repente, por mais que estejamos todos na mesma água, cada um estivesse boiando por conta própria. pais e filhos se fundem em um só, representando um único núcleo. e as outras realidades não se encontram nem se permeiam. eventualmente alguém espirra água no outro, dá uma risada, curte o que o outro disse ou fez, devolve a bola que caiu ali ou o barquinho de brinquedo que passou navegando. vejo todos na superfície, mas não sei o que acontece ali embaixo. ao decidir mergulhar, vejo apenas pés, mas nenhum rosto familiar. quando acaba o sol, cada um recolhe suas coisas e vai embora pro seu respectivo lar. é a vida que segue e as lembranças daquele gostoso dia ficarão apenas na memória.

reconheço o enorme privilégio de ter um marido amoroso e compreensivo, de ter irmãs que também têm filhos com idades próximas às dos meus e compartilham dos mesmos valores e princípios que eu. sorte de ter uma mãe que mora perto. também tenho meus amigos do coração que, por mais que cada vez menos nos falemos e nos encontremos, sabemos que sempre existirá esse laço de amor. mas, então, por que ainda assim me sinto sozinha tantas vezes? por que eu tenho a absoluta certeza de que outras mães, ao lerem meu post, perceberão que se sentem da mesma maneira? e mais: se tendo todo esse suporte eu ainda me sinto sozinha, como se sentem as outras mães expatriadas, as que criam seus filhos sozinhos, as que foram de alguma maneira abandonadas, as que decidiram levar adiante uma gravidez em que somente elas acreditavam? não consigo parar de pensar nessas mães!

maternidade é amor, é se redescobrir diariamente, é se reinventar pelos filhos. mas também é um peso gigante de uma eterna responsabilidade que parece nunca sair dos nossos ombros (às vezes ela pesa mais, às vezes menos, mas ela tá sempre lá). é aquela sensação de que sempre poderíamos ir além, sempre poderíamos ser melhores pelos nossos filhos.  é aceitar seus próprios defeitos, é se permitir ser imperfeita pra que eles não se cobrem tanto. é voltar a se sentir culpada quando as coisas saem completamente diferente do que imaginamos ou planejamos.

é aí que, nessa contínua tentativa de não deixar a peteca cair, muitas vezes esquecemos do restante que está ao nosso redor: os relacionamentos próximos e – tantas vezes – nós mesmas! quantas mães não conseguem nem ao menos se reconhecer ao se depararem com seu reflexo diante do espelho? quantas mães sentem vergonha de mostrar o lado b da maternidade? de compartilhar suas frustrações, inseguranças e medos? quantas mulheres se deliciam ao compartilhar as conquistas de cada etapa de vida dos pequenos, mas têm receio de ouvir a parte sombria que essa solidão traz consigo? eu mesma já me vi fugindo de pessoas que claramente queriam abrir seu coração porque, lá no fundo, eu pensava “já tenho problemas demais. não quero arrumar mais um pra mim”. shame on me. 

será que não nos permitimos mergulhar por causa do cansaço enorme que dá simplesmente se manter flutuando?

acho que faz mesmo parte da vida adulta amadurecer e abandonar conceitos antigos, como esse de amizade que parece só funcionar no seriado friends. até porque as agendas de um adulto são praticamente impossíveis de sincronizar, especialmente quando se tem filhos. acho que esse é mais um dos fatores que torna a maternidade tão solitária. quase não nos sobra tempo e, quando isso acontece, mal conseguimos cuidar de nós mesmas.

mas eu sinto falta de ter uma dessas amizades onde você já pode chegar na casa da pessoa abrindo a geladeira sem cerimônia, pegar uma água ou mesmo uma cerveja sem ser abusada. de trocar de roupa ou ir ao banheiro na frente dela sem constrangimento, porque aquilo é normal pra vocês. de ter piadas que só vocês conhecem ou de nem precisar terminar uma frase porque ela já entendeu o que você queria dizer. de num simples olhar você saber se aquela amiga ou amigo está bem ou mal. ok, não posso reclamar: tenho isso com o meu marido. mas é diferente. essa amizade conjugal é linda, mas seria assunto pra um post totalmente diferente.

sinto falta da espontaneidade de encontrar quando dá e de demorar a ir embora. de não precisar o tempo inteiro dizer ou ouvir “tá sumida” ou “vamos combinar mesmo” sabendo que vocês continuarão sumidos e sem combinar bulhufas. sinto falta do abraço apertado e do riso frouxo, da cumplicidade que uma amizade sincera tem.

que não pareça reclamação ou ingratidão minha. eu tenho uma família maravilhosa! sou e serei eternamente grata por esses três serezinhos que deus botou na minha vida e por esse marido raro que eu tenho. mas tem dias que bate um banzo mesmo e parece que o coração fica pequenininho.

mas, assim como as longas noite insones e os dias corridos, isso também há de passar. queira deus que passe logo.

 

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categorias: antropologia de esquina, psicologia autodidata introspectiva

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