26 de maio

minha vovozinha

por luíza diener

quando minha irmã mais velha nasceu, minha mãe parou de trabalhar para cuidar dela e assim continuou até que eu completasse sete anos.
no total ela ficou dez anos sem trabalhar por conta de nós três. isso sempre foi um exemplo e tanto para mim, que desde pequena decidi que seguiria os mesmos passos.
graças a deus eu tenho um marido que me apoia nesta decisão, tanto psicológica quanto financeiramente.

mas o assunto não é esse.
o tema é: a dona de casa que sou hoje e as influências que tenho para tomar certas decisões.

sem querer deixar minha mãezinha de lado (que sempre foi e sempre será o maior exemplo que eu tenho), muitas vezes me pego fazendo várias coisas que minha avó fazia.

minha avó era uma figura única.
ela sempre tinha um jeito pra tudo. a rainha do pensamento alternativo.
nada ficava sem solução. ela sempre tinha um jeito maluco de consertar as coisas e dar utilidade praquelas que não tinham mais uso (e de economizar onde não precisava).

para as toalhas não sumirem no banheiro, ela as prendia com alfinete.
para não precisar comprar cotonete, ela enrolava algodão na ponta do grampo.
pra economizar fio dental, ela lavava e reutilizava os mesmos (eco. ela era bem mão de vaca também).
pra economizar água, ela colocava todas as louças ensaboadas em uma bacia com água e vinagre.
ela tinha lavadora de louças, mas não usava.
ela usava a geladeira antiga como armário para panelas.
ela tinha uma secadora de roupas antiga, de prateleiras que, de tanto parecer um guarda roupas, ela usava como um.
ela tinha o jogo completo de louças da marinex e nunca se deu ao trabalho de comprar outro (e o negócio é tão inquebrável que até hoje está lá).
pra lavar a louça com água quente, ela adaptou um chuveiro à boca da torneira da cozinha (hoje existem aquecedores elétricos mais modernos, mas ela inovou).
ela achava a sala muito grande e meu avô (outra figura carimbada) passou a usar a mesa de jantar como escritório. pra separar a bagunça das visitas, ela simplesmente dividiu a sala ao meio com uma veneziana que vai do teto até o chão.

uma pequena com menos de um metro e meio de altura.
um poço de sabedoria mas, ao mesmo tempo, uma avó nada convencional.
não me lembro de um dia ter sentado no colo dela.
quando disse que meu filho se chamaria benjamin, ela torceu o nariz e disse que isso não era nome de homem. que se chamasse pedro.
ela pagava a mim e às minhas irmãs – ainda crianças – para cuidarmos das primas mais novas. assim ela não precisava se preocupar de olhar seis netas ao mesmo tempo.
até ano passado (quando finalmente aprendeu a ser servida), nunca sentou-se à mesa para comer. a impressão é que estava perdendo tempo parando pra comer. comia em pé mesmo, na beira da mesa.
sempre achou um absurdo alguém engravidar e colocar um filho “neste mundo tenebroso”. fez cara feia toda vez que minha mãe contou que estava grávida, o mesmo pra mim e pra minha irmã. mas no fim sempre curtiu a netaiada.

nunca ouvi ela dizer “te amo” a ninguém.
mas também nunca duvidei desse amor.
quando eu era criança e dormia na casa dela, o café da manhã era pão de queijo, o almoço, miojo com nuggets e salsicha e o lanche era basicamente o café da manhã outra vez.
ela tinha uma cama dobrável de metal que era uma sensação. armava na sala e eu assistia cartoon network madrugada adentro.
mas o ápice da diversão era fazer um círculo de arame mergulhado em água com detergente e voilà! bolas de sabão!

hoje vejo-me reproduzindo vários comportamentos dela e percebi que boa parte de quem sou agora deve-se a ela. em partes pelo convívio, em partes porque minha mãe aprendeu assim e acabou me transmitindo isso sem eu perceber.
quando as formigas tentam atacar o mel ou o açúcar, eu já trato de coloca-los em um recipiente com água (formigas não nadam).
sempre uso vinagre no molho pra higienizar vegetais e frutas, ou para cortar o excesso de sabão das coisas.
quando acaba o cotonete, sei que posso recorrer aos grampos.
sei de cor e salteado que “quem vai por atalho nunca sai do trabalho” e toda vez que tento o caminho mais fácil (que é sempre mais complicado) já me culpo: “devia ter ouvido a minha avó”.
toda vez que perco alguma coisa me pego cantando a musiquinha que ela entoava enquanto procurava algo.

além disso, aprendi a ser a rainha do trambique/tranqueira improviso por conta própria e já crio minhas maluquices.

já faz quase um ano que ela se foi, mas nunca a senti tão viva dentro de mim.

meu exemplo eterno!

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categorias: amor

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30 Comments »

  1. Só quando a gente cresce percebe o quanto nossa família influencia na nossa maneira de ser, sentir e agir – isto tanto nas coisas boas como nas negativas. Eu, por exemplo, quando me vejo repetindo algo que minha faz e não gosto, paro, respiro e penso: tenho que ser diferente. Mas nas coisas positivas, temos que mergulhar de cabeça mesmo.
    E tudo isto que vc carrega de sua avó será passado para o Benjamin. Por isto que a vida é linda! A história e costume de nossa família continua passando, de geracao para geração.
    Bjs!

    Comentário by Ana Paula — maio 26, 2011 @ 11:08 am

  2. Eu não tenho esse exemplo de vó e queria muito ter. A minha é um ser independente, é enfermeira como eu (sou enfermeira como ela), divorciada porque cansou do meu avô, criou os dois filhos sozinha. Sempre foi muito prafrentex.
    Minha mãe, embora tenha sempre trabalhado, que me deixa esses exemplos mais caseiros e é assim mesmo, parece um pedacinho dela que está em mim. Às vezes me pego pensando em fazer algo com meu filho que sempre achei chato qdo era ela que fazia rs

    Gostei muito do seu post, tá passando um filme bem familiar na minha cabeça!

    – vou caçar posts sobre enxoval e dicas aqui no seu blog, tô meio perdida e gosto do jeito que vc escreve, tomara que eu encontre rs

    Beijossss

    Comentário by Talita — maio 26, 2011 @ 11:16 am

  3. Poxa vida!
    Minha avó se foi nesse ultimo sábado, dia 21/05…
    Quando li seu texto, o li como se fosse sobre mim e ela…
    Me emocionei.

    Comentário by Silvia Bastos — maio 26, 2011 @ 11:22 am

  4. Ai, que lindo. Minha avós já se foi há oito anos, mas sempre penso nela com muito amor. Elas nos dão exemplos maravilhosos, ainda hoje lembro do cheiro da casa dela, do cheiro das comidas, do gosto e dela chegando lé em casa (ela morava mto longe e andava de ônibus) rapidinho a cada vez que minha mãe dizia que a gente tava doente.

    Comentário by Camila — maio 26, 2011 @ 11:37 am

  5. Que linda declaração de amor!
    Também vejo minha vó e minha mãe em mim muitas vezes, até penso, nossa, fiz igual…
    Agora, imagina que minha vó, não usava nem o algodão na ponta do grampo de cabelo… tinha que economizar mesmo… melhor, ainda tem, por que ela ainda usa o grampo sem algodão! hehe

    Fiquei emocionada e me fez pensar na minha vó, que foi minha segunda mãe, morei tempos com ela!

    Beijos

    Comentário by joci — maio 26, 2011 @ 11:41 am

  6. Eu sempre venho aqui, não lembro de ter comentado antes, mas como vc falou de formiga eu preciso discordar…
    Formigas nadam sim, as de casa nadam, hahaha! Já desistimos de colocar a meleira dentro de um pote com agua, isso pq a gente sempre usa um pote beeeemmmm maior pra não dizer q tava proximo a borda e a formiga conseguiu passar… Fora que elas invadem o sal, a jarra de agua fervida (vai saber oq elas qrem com a agua) e td o mais q tiverem direito. E a gente adota o tal uso alternativo pra driblar as intrometidas, coloca o bolo em cima o varal de chão, pendura o saco de pão no suporte que anter era da floreira…
    Qt aos costumes herdados, eu tb tenho mts costumes da minha avó, apesar dela ter ido embora qd eu ainda era bebe.

    Comentário by Jamila — maio 26, 2011 @ 11:58 am

  7. Lindo!!!! Muitas saudades da minha que se foi, mas me deixou coisas maravilhosas, dentro de mim.

    Bjs.

    Comentário by Tathy — maio 26, 2011 @ 12:21 pm

  8. Eu sou fã de avós como a sua! São pessoas únicas, de sabedoria também única e, certamente, inesquecíveis!
    Um super bjo,
    Camila http://mamaetaocupada.com.br

    Comentário by Camila — maio 26, 2011 @ 1:13 pm

  9. Muito linda Ela, uma figura importante para o mundo. Sorte sua ter esse sangua nas veias…

    Comentário by Melanie — maio 26, 2011 @ 1:52 pm

  10. tive um avô nota mil e avó q ainda esta viva tb. Amo os 2 como meus pais e lamento pela minha filha q so tem dedicaçao pelo materno. Os pais do meu marido sao nota 10 mas veem a menina 1x ao mes.
    Minha mae mora em Sp e eu no Rio, imagine!!!!
    Enquanto minha mae morre de saudades a vovó daqui vai p drenagem………….
    Vó é td d bom

    Comentário by dea — maio 26, 2011 @ 2:51 pm

  11. Linda história, Luíza!!
    Lembrei bastante da minha vó que é super prática também!
    Apertou o coração lembrar ao final do post que o tempo passa… e que um dia ela estará apenas nos nossos corações.
    beijos

    Fabiana http://2-ao-quadrado.blogspot.com

    Comentário by Fabiana — maio 26, 2011 @ 3:12 pm

  12. Sinto tanto por não ter conhecido uma de minhas avós, avó que originou meu nome, a vó Augusta, então um pouco me contento em carrega-la pra cima e pra baixo comigo, por outro lado, minha razão maior é a vó Nini, que sempre morou comigo e até hoje está aqui pertinho pra me ensinar mil coisas, agora, nessa fase da vida então, nem se fale, ela é tão fofa, que me pediu pra ver todos os livros de parto humanizado (e suas fotos), só pra lembrar de seus partos, que foram no sitio, assim, igualzinho do livro, agachada hahaha…as avós e suas histórias…lindolindo.

    Comentário by Augusta — maio 26, 2011 @ 3:36 pm

  13. Lu, querida,
    QUE BELEZA !
    Como sempre comentamos, nunca nos lembramos da querida Lolitinha que não seja para rir, pois suas lembranças são sempre alternativas e divertidas. Essa é uma herança que não tem preço.
    Obrigada pelo seu post. Merecidíssima homenagem.
    Amo vocêzinha.
    Mamy

    Comentário by Daisy — maio 26, 2011 @ 4:33 pm

  14. Vovozinhas são figuras únicas não é mesmo?!!
    A minha então, nem se fala. Você já viu uma vovozinha que não sabe cozinhar, pois é, eu tenho uma.
    E qdo ela perde as coisas (vive perdendo tudo) ela diz: oh minhas 13 almas benditas, mostrai-me. Dito e feito, logo logo acha.
    Tentei umas vezes, mas acho que as 13 almas não me ouviram.

    Abraços Paternos!
    Marcelo Vieira http://mmppv.blogspot.com/

    Comentário by marcelo vieira — maio 26, 2011 @ 4:40 pm

  15. tua avó é daquelas que passou por épocas de guerra, racionar e economizar em tudo! Avós são figuras por natureza! Minha avó era toda extrovertida e minha mãe era toda séria. Ai vovó foi-se e anos depois mamãe ganhou upgrade para vovó. Do dia pra noite mamãe ficou mais extrovertida, muito menos séria e até puxa papo na fila de supermercado(!!!).
    Uma coisa que acho SUPER legal é achar receita escrita pela minha avó. Eh emocionante fazer algo que ela um dia escreveu, meio máquina do tempo. Por isso eu escrevo varias receitas minhas pensando em quem um dia vai faze-las.

    Comentário by Julia Bittencourt — maio 26, 2011 @ 6:44 pm

  16. Ai Lu, tbm fiquei muito emocionada com seu post! Tenho apenas uma avó viva, mas devido a brigas entre ela e minha mãe não tenho mais contato com ela e me sinto muito triste com relação a esse assunto. Fui criada pela minha vó pq minha mãe sempre trabalhou e eu ficava com ela às vezes. Dá mó saudade da comida, das manias, das falas e até das musiquinhas q ela cantava pra mim ou qdo limpava a casa. Tenho a vó do meu namorado com minha vó tbm, e sempre a visito, converso, damos risada, trocamos receitas, mas sabe, no fundo sinto mta saudade da minha vozinha q me criou. Isso dói pra caramba. Mas é fo**, minha mãe não quer q eu tenha contato com minha vó, é complicado. Enfim, adorei ler seu post pq me fez lembrar um pouco mais da minha vó. Bjinhos!!

    Comentário by Prô Erika — maio 26, 2011 @ 11:21 pm

  17. Estou emocionada, eu graças a Deus tenho minhas 2 avós e meus 2 avôs bem pertinho de mim, eu e minha irmã somos netas unicas dos dois lado, e ainda mais, os 4 trabalham ainda loucamente e seguem suas carreiras muito bem sucedidas, me orgulho muito de todos eles, por terem saído de baixo e serem quem são.
    Minha vó é meu exemplo, uma super Bisa pra Manu, direto quando preciso ir ao centro, por ela morar mais perto e minha cidade ser um forno, eu vou correndo deixar a Manu lá, e a Manu AMA! Também até imagino os temperos que ela coloca na papinha dela hahahah ..

    Lindo lindo … Beijos Lu!

    Comentário by Isabella Felicio — maio 27, 2011 @ 1:32 am

  18. Que falta as vozinhas fazem né Luíza?! Chorei lendo seu post e lembrando da minha vó/mãe…ai que saudade de ouvi-la me chamando:”vem cá meu coração…”

    Comentário by Carolina Souza — maio 27, 2011 @ 12:38 pm

  19. Mas que figura sua avó! hahahaha Imagino mesmo quantas coisas deve ter aprendido com ela. É assim mesmo… hoje nos vemos com um reflexo da nossa mãe, avó, tia e como as entendemos (especialmente depois de nos tornarmos mães!).

    Um beijo pra vocês!

    Comentário by Michele — maio 27, 2011 @ 2:18 pm

  20. engraçado que li seu texto ontem e hoje perdi meu vovô.. ele era uma pessoa marcante tambem..

    Comentário by fefe — maio 27, 2011 @ 7:51 pm

  21. ai que dor!
    é uma perda muito ruim, né?
    meus pêsames pelo seu vovô. que vocês possam ter conforto e paz.

    beijos

    Comentário by luíza diener — maio 28, 2011 @ 12:59 am

  22. Olaaa, encontrei seu blog ante ontem por acaso, e me apaixonei começei a ler desde o começo dos arquivos, ja estou em maio de 2010, ja vi que temos muito em comum eu também estou gravida esperando um menino que vai nascer no final de agosto começo de setembro. e é muiiito bom ler suas experiencias tenho aprendido bastante. haa me chamo Poliana e moro em Anapolis Goiás. beijooo

    Comentário by Poliana — maio 28, 2011 @ 11:26 am

  23. Luiza, sua avó deve ter sido uma figura mesmo!
    Esse post me fez lembrar as minhas avós e me deixou até com a consciência pesada por não andar tendo muita paciência com elas, que vão ser bisavós pela primeira vez!

    Comentário by Joana Pacheco — maio 31, 2011 @ 11:00 am

  24. Ah!! Então…. Luiza, vou usar este seu post para desabafar e pedir um conselho. Tenho uma filha de 10 meses e não quero deixa-la para trabalhar, não quero nenhuma babá educando minha filha além de mim e meu marido, gostaria de poder acompanhar seu crescimento e passar os valores que acreditamos…..Porém, sinto uma imensa falta do trabalho, sabe? Ter sua própria grana, não depender do marido para comprar calcinha. Além, de ter outro assunto além de fralda, dente nascendo, papinha….. Como vê estou num dilema. Preciso de alguma sugestão…. help me!!

    Comentário by Nina — maio 31, 2011 @ 9:09 pm

  25. Oi, Nina!
    Me manda um email pro potencialgestante@gmail.com pra gente conversar?

    beijos

    Comentário by luíza diener — maio 31, 2011 @ 9:57 pm

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