o ciclo do julgamento

dia das mães chegando e eu só consigo pensar em uma coisa: a gente ainda tá muito longe de ser uma mãe bacana. com os nossos filhos? não, nem quero entrar nesse assunto. é com as outras mães que precisamos ser melhores.

a gente já se cobra tanto, já se esforça tanto para ser o melhor que dá para nossos filhos.. e aí vem o martelo esmagador de fora chamado jul-ga-men-to. ele pode vir disfarçado de uma dica ou conselho, de um comentário fofo na internet ou até mesmo através de um elogio.

quer ver um dos elogios mais esquisitos que eu recebo com uma frequência enorme e me deixa sempre extremamente incomodada? o tal “gosto que você é mãe real, não igual a essas outras mães que fazem tudo parecer perfeito”.

calma, pera! primeiro, que eu não sou mãe real. só de eu estar aqui na internet, usando facebook, instagram, celular, ipad já mostra o tanto que sou fora da realidade da maioria dos brasileiros, que não têm sequer acesso a internet. sou casada, todos os filhos dos mesmo pai, pertenço à classe média, tenho pele clara, olhos claros, cabelos claros e lisos. tenho o privilégio gigantesco de ter um trabalho flexível e acompanhar de perto o crescimento e desenvolvimento dos pequenos. tenho carro, moro numa casa linda e com quintal. gente, desculpa, mas eu tô beeem longe de retratar a realidade das mães brasileiras e reconheço isso tudo como um privilégio gigantesco, não como uma representativdade da realidade.

segundo, é verdade que eu não tento parecer uma mãe perfeita. mas qual é o problema da mãe que parece perfeita? é verdade, pode gerar uma cobrança enorme e isso incomoda muita gente. mas o que há por trás dessa mãe “perfeita”? uma mulher, uma mãe, como eu e (provavelmente) você. “mas as fotos delas são lindas”. que mais? a casa, o carro, o cabelo, a pele? ela faz viagens incríveis, programas incríveis e tem filhos incríveis? e daí? gente, qual é o problema em ficar feliz com isso? quisera eu poder ter isso também. mas não vou sentar aqui na frente da tela e ficar morrendo de inveja da vida alheia. eu faço é ficar feliz mesmo. e se ela estiver mostrando somente uma parte da vida dela, meu povo, qual é o problema nisso?

nem eu – que encaro meu canal como uma missão de mostrar minha vida com sinceridade, sem filtros nem máscaras – mostro 100% da minha vida. isso é apenas um recorte dela: seja para me preservar, seja porque não dá tempo mesmo de mostrar tudo. hoje mesmo chamei meu filho de “porco imundo” depois dele passar batom no espelho inteiro e dar para a irmã do meio passar na cara toda dela. claro que pedi perdão depois, mas meu rompante de impaciência na verdade foi o grito de uma mãe exausta que não aguenta mais limpar, limpar, arrumar, arrumar e sempre parecer que mora em um chiqueiro.

sabe o que gera muito mais cobrança na maioria das mães? as próprias mães. não falo da avó, da sogra, daquela tia, da dona do salão ou da padaria que você frequenta. falo da amiga que te segue no facebook e curte suas fotos com coraçãozinho, das mulheres do seu grupo de mães, das mães dos coleguinhas da escola ou da creche. esse julgamento e cobrança não são intencionais, mas a repetição de um ciclo que parece ser interminável.

funciona mais ou menos assim: você se sente julgada e cobrada quando alguém mostra ou diz que dá conta de algo que você não consegue. ou quando alguém te critica por algo que você aparentemente fez de errado. daí você fica na defensiva (mesmo que só por dentro), tentando justificar por que você fez ou deixou de fazer aquilo. daí começa a ver tudo que você faz de bom e provar a si mesma que você não é tão ruim assim. até que aparece alguma outra mãe que vacilou em algo que você faz bem. pronto! a oportunidade perfeita para julgar e criticar a outra mãe (mesmo que só por dentro). e ela, por sua vez, ao se sentir julgada, vai fazer isso com outra mulher, ad infinitum.

só pra avisar: ninguém, nunca, é perfeito em tudo! meu padrasto gosta de falar que o macaco senta em cima do rabo dele pra falar mal do rabo do outro macaco. é muito fácil a gente esconder nossos defeitos e olhar somente para nossos acertos pra apontar e criticar a outra mãe.

já pensou que lindo seria se a gente usasse a mesma medida para as outras mulheres?

se, ao ver uma mãe exausta, brigando com o filho na rua, pensasse em como ela está se sentindo? um milhão de coisas podem acontecer, como noites em claro, filhos doentes, problemas no trabalho ou num relacionamento, ou mesmo porque essa foi a criação que ela recebeu e nunca parou para refletir em como fazer diferente. essa mesma justificativa que usamos para nossos erros – ou o esforço enorme que fazemos para ver nossos acertos – também deveria ser usada para vermos o que há de bom naquela outra pessoa.

eu passei muitos anos extremamente incomodada com mães que sabiam equilibrar o tempo que dedicavam aos filhos e o tempo que dedicavam a elas mesmas. como assim eu to aqui, acabada, ralando pra fazer o meu melhor, me entregando de corpo e alma ao meus filhos e essa mãe tá aí, viajando sem as crianças? como assim, voltar a trabalhar e deixar o bebê em uma creche ou com a babá? como assim, deixar a criança à noite com um adulto responsável enquanto ela sai para se divertir?

como se a gente não tivesse direito a isso, sabe?

se a gente aprender a olhar para as outras mães e mulheres do mesmo jeito que gostaríamos que olhassem para a gente, de repente conseguiríamos romper com esse ciclo de julgamentos e iniciar um ciclo de empatia. se enxergarmos sempre o melhor nos outros, provavelmente os outros passarão a enxergar o nosso melhor também.

e daí poderemos viver uma maternidade mais leve, com menos julgamento e mais acolhimento.

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4 comments

  1. Seria bem interessante se houvesse menos julgamento na maternidade. Cada uma vive a realidade que pode! E dentro dessa realidade, precisamos nos dar a mão, nos apoiar, independentemente, de que se eu acho certo ou errado o que a outra mãe faz… é apenas a maneira que ela encontrou para ser a melhor mae que ela pode ser.

    Belo texto.. obrigada pela reflexão.

    Beijos
    Karin

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