17 de março

o tanto de coisas que guardamos sem precisar

por luíza diener

esta semana decidi fazer um limpa nas minhas roupas. nada exorbitante, nada de deixar as gavetas lindas, arrumadas, com as roupas separadas por cores e tipos, dobradas minunciosamente ou penduradas em cabides carérrimos. apenas decidi administrar minhas roupas de uma forma mais… digamos… inteligente.

sabe quando você vai sair, abre o guarda-roupa e diz “eu não tenho nada pra vestir!” e tá lá seu armário e gavetas abarrotados? alguém que vê de fora de pronto responde “como não? e esse tanto de coisa?” e a resposta muitas vezes é “mas essa roupa não me cabe” ou “eu não gosto muito dessa roupa” ou mesmo”eu até gosto, mas não combina comigo” ou ainda “ganhei de presente e não tenho coragem de me livrar dela”. são por essas e outras razões que a célebre frase “eu não tenho roupa” costuma sair da boca de muita gente. sabendo que se dissesse isso eu soaria um tanto quanto ingrata, há muito tempo decidi parar de falar que não tinha nada para vestir. então, muitas vezes eu acabava usando roupas que não gostava apenas para não reclamar. me olhava no espelho só de relance pra não ver demais. ou nem olhava, pra não acabar frustrada.

uns tempos atrás comecei a ler um livro meio exagerado, chamado a mágica da arrumaçãoguardadas algumas maluquices da autora, decidi colocar em prática a parte que dizia que, pra organizar de verdade, você deveria catar todas as coisas do mesmo tipo casa afora e só então decidir o que fazer com elas. saí que nem uma doida pegando absolutamente todas as minhas roupas nos lugares mais inusitados: armário das crianças, área de serviço, escritório e (além do óbvio: meu guarda-roupa), nos cestos de roupa suja da casa. juntei tudo ali mesmo, no banheiro, ao lado dos cestos. o resultado foi assustador!

aí em cima são absolutamente todas as minhas roupas encontradas (e, se tiver sobrado alguma, vai direto pra doação).

comecei o desapego pelas roupas limpas. boa parte das que eu não usava já se encontrava em sacolas (provavelmente pra doar, mas eu nunca passei adiante). havia roupas que eu tinha parado de usar bem antes de engravidar da lupita (ou seja, estavam encostadas há mais de 2 anos) e também aquelas que estavam dentro do cesto de roupa suja há bem mais de um ano.

comecei a separar. primeiro o óbvio: as roupas de grávida. eu não quero engravidar nunca mais. sério. todas as gravidezes foram muito cansativas pra mim. olhar praquelas roupas não me dava nem aquele pensamento de “ai, que saudade da barriga!”, mas um sentimento de “deus me livre! tira isso da minha frente!”. como ainda tenho uma irmã que pretende ter mais um filho futuramente, pensei em guardar pra ela. mas lembrei de uma amiga grávida que estava atrás de umas roupas e já decidi: “vou separar pra ela. quando o bebê dela nascer, vai direto pra minha irmã e não volta pra minha casa nunca mais”. já com o resto das roupas, não quis pensar em ninguém. apenas lembrei de um lugar que conheço que aceita doações e logo separei uma caixa enorme pra destinar tudo pra lá. daí começou a bagaceira.

o critério da autora do livro para descarte é totalmente classe-média-sofre, onde você pega a coisa a ser descartada e se pergunta “isso me faz feliz?”. minha resposta padrão seria “não tem que me fazer feliz, tem que evitar que eu saia pelada na rua”. mas, como vi que eu tinha roupa o suficiente para não precisar sair nua por aí, me dei ao luxo de guardar apenas aquilo que gosto mesmo. foi surpreendente ver o tanto de roupas que eu guardava sem gostar, sem combinar comigo, sem me caber, naquela ideia de “depois que eu emagrecer mais um pouco, vou precisar de roupas e nada vai me servir”. não conte com isso, luíza. sua bebê já nasceu tem mais de 1 ano. lide com quem você é hoje (até porque não tenho nenhum plano de entrar pra academia ou começar uma dieta).

fui vendo que, além de ter roupas que não me faziam feliz, eu tinha roupas que me davam raiva. foi um processo bem estranho pensar no que um pedaço de pano pode me fazer sentir e descobrir que – sim! – um objeto inanimado pode evocar vários sentimentos distintos. eu olhava pra algumas poucas, abraçava e dizia “eu a-mo essa roupa! é confortável, dá pra amamentar, é bonita. quero usar ela todos os dias!” de resto, me livrei da maioria das coisas com muito prazer. não quis nem experimentar pra ver se dava pra usar mais um pouco, porque eu olhava pra ela e pensava blé! uma ou outra peça eu queria guardar como roupa-para-ficar-em-casa e me venci, porque vamos combinar: roupa pra ficar em casa nada mais é do que aquele trapo que você não tem nem coragem ir nem à padaria com ele. então elevei meu conceito de roupa-pra-ficar-em-casa para roupa confortável mas que te permite receber uma visita ou ir ali na rua sem parecer um pano de chão ambulante. no fim, as minhas roupas pra ficar em casa viraram aquelas surradinhas mas que eu amo sair com elas, independente do que vão falar ao meu respeito.

a esmagadora maioria das roupas destinadas à caixa de doação eu havia ganhado de pessoas próximas que um dia fizeram um limpa nos seus armários também, mas não tiveram coragem de se livrar completamente de seus itens, por isso me deram (assim, elas revisitam a roupa toda vez que me encontram com ela). e outra parte se resumia a roupas que um dia até tiveram a ver comigo, mas hoje não têm mais. como uma blusa que já era velha quando eu comecei a namorar com hilan. sem sacanagem, a bichinha já tinha uns 15 anos, já tava andando sozinha, toda adolescente, saindo com as amigas e indo pra balada pra voltar depois de meia noite. essa foi direto para o lixo.

ao me livrar de tantas roupas que não tinham absolutamente nada a ver comigo, senti um resgate de quem eu era. ou melhor, uma reconstrução de quem eu me sinto hoje. claro, com toda a gratidão por aquilo que elas um dia significaram pra mim, agradecida pelas pessoas que pensaram em mim quando quiseram passar suas coisas adiante, mas sabendo que, daqui pra frente, quero ficar apenas com aquilo que represente eu na minha essência.

no fim, eu só devo ter ficado com 1/3 do que eu possuía. um terço! 33,33%! mais da metade do meu cabideiro estava abarrotada de casacos e vestidos que eu nunca usei (incluindo um sobretudo de lã quentíssimo que nunca – jamais – será usável nessa cidade fervente que se chama brasília). mais da metade do meu cesto de roupas sujas (que está sempre transbordando) encontrava-se repleto de roupas que poderiam vestir outras pessoas que realmente necessitam!

{detalhe pro tantinho de roupa suja}

o resultado foi um cesto transbordando apenas um pouquinho (as roupas sujas continua acumuladas assim mesmo) e:

  • 5 sutiãs (sendo 4 de amamentação e 1 pra usar sabe lá deus quando)
  • 5 pares de meias comuns + 1 meia calça
  • 3 pares de meia com sola emborrachada pra ficar em casa (amo!)
  • 8 calcinhas (todas estão velhas e mereciam ir para o lixo, mas eu preciso de novas primeiro).
  • 12 blusas de sair (2 são de manga comprida)
  • 8 blusas de ficar em casa, quer dizer, ir na padaria (1 é de manga comprida)
  • 1 camisa
  • 1 jaqueta
  • 2 vestidos
  • 2 macacões
  • 1 macaquinho (que poderia ser meu uniforme pra vida)
  • 5 casacos (uso tanto pra sair quanto em casa, sem distinção)
  • 1 casaco de tricô pra sair (meu amor por tricô é irracional)
  • 4 calças
  • 1 saia
  • 1 short
  • 2 shorts de ficar em casa
  • 1 legging para casa/padaria/mercado/buscar filho na escola
  • 1 pijama de calor
  • 1 pijama de frio

e fim. observando as roupas que ficaram, percebi que a cartela de cores se resume – em ordem prioritária de ocorrência – às cores preto (esmagadora maioria), cinza, azul marinho, jeans e branco (2 ou 3 coisas, no máximo). isso na parte da cintura pra cima. da cintura pra baixo existe uma única peça rosa metálica e uma única peça verde musgo de veludo molhado. contando, parece pouca coisa. olhando, ainda é coisa pra xuxu, a ponto de me fazer rever se eu preciso mesmo desse tanto de coisa de casa (ainda estou ponderando, visto que ultimamente passo muito mais tempo dentro de casa que fora dela).

ainda vou chegar nos acessórios, bolsas e sapatos. essa parte vai ser bem mais fácil, porque se resumem a um porta joias pequeno, aproximadamente 10 pares de sapato (incluindo chinelos) e um monte de bolsas que não uso (em suma, tenho uma bolsa de sair sem filhos e uma mochila de sair com filhos).

tudo isso tem me deixado extremamente reflexiva sobre a real importância das coisas, sobre consumismo, lixo, descarte, reutilização, sobre o tanto que parece que estamos sempre insatisfeitos com aquilo que nós somos e temos. mas também me fez pensar o que me levou chegar a esse ponto de ter tantas incontáveis peças de roupas com pouco ou nenhum uso (por volta de 200, sem brincadeira). por que eu deixei acumular e o que mais tenho acumulado nessa vida? com essa correria do dia a dia de mãe de três filhos pequenos, eu adotei o modo de sobrevivência diário. basta chegar ao fim do dia com todo mundo vivo e minimamente alimentado e o resto é supérfluo. justamente nesse momento onde eu precisava que tudo fosse mais prático e descomplicado foi quando eu mais deixei acumular coisas. claro. se estamos todos almoçando mas de repente dá a hora do benjamin ir para a escola no mesmo momento em que constança quer fazer cocô e guadalupe começa a chorar de sono, a última coisa que me sobra é tempo para voltar e recolher os restos do almoço. chega a próxima refeição e ainda tem prato com feijão, macarrão e muitas formigas em cima da mesa. que dirá tempo pra rever as roupas sujas no fundo do cesto. mais fácil é deixá-las num lugar onde eu não as vejo, mas continuam fazendo um volume absurdo e atrapalhando meu dia a dia.

essa curiosa bola de neve, esse ciclo vicioso de acontecimentos, muitas vezes vão deixando tanta coisa acumular que, só de tirar uma tralhazinha que seja do lugar, só de liberar um espaço na gaveta já traz um alívio e um respiro tanto no físico quanto na alma. é o tal do liberar as energias, botar as coisas para andar. todo mundo que é mãe e pai deveria experimentar essa sensação. tirar um dia durante o sábado, um pedaço da noite (adentro. entre choros e mamadas). fazer uma varredura na casa e ver o que você realmente precisa e o que pode ser passado adiante. revisar a alma e se libertar de emoções estagnadas que te impedem de ter somente aquilo que realmente importa. que te faça feliz.

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categorias: desperate housewife, erros comuns, filosofia de boteco, mães extraterrestres, psicologia autodidata introspectiva, quer uma dica?

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7 Comments »

  1. Poxa Luiza! Tive a mesmíssima sensação quando li o livro! Ainda não consegui pôr em prática na casa toda, mas eu chego lá, e mesmo só tendo dois minha sensação de conseguir chegar ao fim do dia é a mesma que a sua… Um dia eles crescem e passou, então tento aproveitar quando não estou surtando, um beijo!

    Comentário by Barbara Janaína — 17 de março de 2017 @ 4:50 pm

  2. Ótimo post!!!! Me senti inspirada a fazer o mesmo.

    Comentário by Thalita — 17 de março de 2017 @ 5:05 pm

  3. Essa semana meu marido fez uma limpa nas gavetas das "tranqueiras". Que alívio ver tanta coisa acumulada tomando seu rumo. Adorei a ideia, vou tbm reorganizar meu roupeiro, tenho roupas anteriores a gravidez (de uns 4 ou 5 anos atrás!!!!!) que talvez eu nunca mais chegue naquele peso. Então pra quê guardar? Melhor se contentar com as novas formas e ser feliz assim.

    Comentário by Rubia — 17 de março de 2017 @ 5:13 pm

  4. Toda semana eu tiro uma sacola de coisas pra doar, principalmente roupas, mas também livros e brinquedos. Mas estou também precisando fazer uma radical como vc.

    Comentário by lia — 19 de março de 2017 @ 8:15 pm

  5. pois é. eu sempre estou doando coisas também: brinquedos, sapatos, roupas minhas, inclusive. mas às vezes é preciso parar, juntar tudo que se tem igual na casa toda (como eu fiz com as roupas) e dar um rumo definitivo a elas. faz muita diferença 😉

    Comentário by luiza diener — 22 de março de 2017 @ 3:44 pm

  6. Eu tb estou precisando fazer isso…com roupas e com brinquedos. Pra varias as roupas da minha filha estão (praticamente ) em dia, ou seja, só tem na gaveta o que ela realmente usa…o resto já dei pra alguem. As minhas estão entulhadas entre coisas q não uso pq nao gosto e não uso pq nao servem e tenho esperança de servirem hahaha

    Comentário by Val — 20 de março de 2017 @ 10:45 am

  7. Minha ídola, seus textos são os melhores ♡

    Comentário by Fabrina Dutra — 6 de abril de 2017 @ 7:12 pm

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