12 de agosto

pai e pró-feminismo

por hilan diener

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sou homem, branco, heterossexual e pra mim o mundo estava ótimo do jeito que estava. preconceito, violência e misoginia nunca chegaram perto de mim. apesar de eu ver isso acontecendo aqui e ali, egoisticamente nunca dei muita importância para essas coisas. a vida corria do jeito que deveria correr, casei, comprei um cachorro, tive meu primeiro filho (homem) e várias mudanças aconteceram dentro de mim. costumo dizer que quando uma pessoa vira pai ou mãe ela se torna um pouco a polícia do mundo. você começa a perceber que há muita injustiça, má educação e desonestidade no planetinha que você vive. então você quer reparar as injustiças ou gostaria que o mundo fosse melhor para os seus filhos. você pensa no futuro e em que tipo de pessoas vamos formar, na expectativa de que algo seja diferente.

o tempo passou, a vida correu mais um pouco e nasceu meu segundo filho, dessa vez uma menina e… BUM! mais uma vez tudo mudou. comecei a pensar em como o mundo receberia minha filha e confesso que não foi nada animador. não teve como não perceber a problemática que é nascer mulher neste mundão de deus.

é sutil o jeito que as coisas funcionam. meninos e meninas geralmente são criados com estímulos diferentes: meninos são incentivados a jogar bola, brincar com carros e construir coisas enquanto as meninas são estimuladas a viver numa espécie de concurso de beleza misturado com mini donas de casa. por várias vezes vi que as pessoas e eu também elogiávamos a inteligência e a capacidade motora do benjamin e em contrapartida metralhavam a pequena constança de elogios como “sua linda”, “que lindeza”, “bonita”, “bonitinha” e por aí vai… e ainda nos questionamos por que existem tão poucas mulheres engenheiras, cientistas, astronautas ou pilotos de fórmula um, sem perceber que nossa cultura é especialista em limitar as narrativas de nossas garotas deixando-as restringidas a um número pequeno de escolhas para sua vida no futuro.

acha que estou exagerando? você sabia que segundo a organização internacional do trabalho a diferença entre a remuneração das mulheres e dos homens no Brasil é de quase 30%? ou seja, para o mesmo cargo o homem ainda ganha 30% a mais do que a mulher — e a mulher ganha menos pelo simples fato de ser o que é.

por muito tempo acreditei que “o feminismo foi um tiro no pé para as mulheres”. pensava eu que no fim das contas, infelizmente, elas continuaram tendo a “obrigação” de cuidar da casa e tomaram pra si mais uma: de serem bem-sucedidas numa carreira profissional. porém, olhando mais a fundo, entendi que o pessoal da fogueira dos sutiãs lutou e luta até hoje pela liberdade de escolha. se a mulher quer focar na carreira e não se casar e nem ter filhos, ok. ela pode e tem todo direito. se ela não quer mais trabalhar para cuidar dos filhos e do marido, ok também. ela pode! se ela não quer nada disso e viver a deus dará, ok. se ela quer sair com uma roupa assim ou assado ninguém tem nada com isso. é direito dela. parece simples, né? então por que cargas d’água é tão difícil entender isso? o feminismo não é o machismo de saia. o machismo mata, exclui, agride e violenta mulheres todos os dias e o feminismo (mesmo os mais radicais) não.

mas e agora? como mudar isso tudo? parece quase impossível, afinal a nossa cultura nos leva a acreditar que essas situações são naturais e vão continuar assim pra sempre. eu mesmo disse algumas vezes que quando a constança fizesse 12 anos iríamos morar numa ilha deserta, repetindo um discurso machista que nem sei bem onde ouvi. é preciso fazer um esforço contra cultural para quebrar de vez com estes modelos equivocados, informar-se, estar aberto a mudanças no pensamento e no agir. se eu quero uma sociedade mais justa e menos machista, isso precisa começar por mim, na forma como eu vejo minha esposa e minha filha. posso estar engatinhando ainda nesta missão. mas já posso dizer que, sim, sou pai, homem, branco, hetero e pró-feminismo, com muito orgulho!

<bônus> por favor, vejam este vídeo:  

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categorias: erros comuns, para papais

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15 Comments »

  1. É isso, até nós mulheres e mães no fundinho acabamos sendo um pouco machistas por conta do mundo em que vivemos. Refletir….

    Comentário by fabrinadutra — agosto 12, 2014 @ 11:41 am

  2. Não gosto de me classificar como feminista ou como machista, sou uma pessoa que tem consciência dos seus direitos e deveres e quero inspirar isso a meus filhos.É difícil igualar meninos e meninas nos dias de hoje, em pleno século XXI isso ainda é nadar contra a corrente, mas vale a pena o exercício.

    Muito inspirador o post e o bônus.

    Comentário by Julia Gomes — agosto 12, 2014 @ 11:56 am

  3. Ser feminista não é o oposto de ser machista. Um é a luta para sermos tratadas igualmente e ter os mesmos direitos e o outro é um conjunto de atitudes e ideias que coloca o sexo masculino em um patamar elevado na sociedade. http://www.cartacapital.com.br/blogs/feminismo-pr

    Comentário by betarocks — agosto 12, 2014 @ 2:18 pm

  4. Muito bom o post, adorei!
    Nunca parei para pensar tão profundamente a respeito, nem me considero feminista ou machista (tal qual a colega Julia Gomes abaixo). O fato é que meus pais também sempre foram bem tranquilos em relação a essas questões. Meu pai, aliás, eu costumava pensar que ele talvez não soubesse criar menina e desejasse ser pai de menino, porque ele exagerou um pouquinho nessa questão de não me feminizar demasiado. Lembro-me de me incentivar desde pequenina a ouvir as músicas preferidas dele, em geral rock, folk e country americano. Ele gostava de beber seus licores, uísques e conhaques e me dava umas bicadinhas dizendo que era pra quando eu crescesse, saber escolher o que eu quisesse beber numa festa por exemplo, sem ser enganada por ninguém.Mas eu só tinha 6 anos de idade! Hahaha!
    Ele também me ensinou a atirar com sua 765 automática quando eu tinha 10 anos (me levava pro interiorzão numa mata sem ninguém por perto para praticar). Aos 11 anos aprendi a dirigir em seu Monza. Minha mãe achava tudo isso exagerado. Mas ele sempre dizia que não sabia até quando eles viveriam para cuidar de mim (tragédias acontecem, né?) e eu teria que aprender a me cuidar sozinha. Detalhe: eu nasci e cresci em São Paulo – Capital, onde nada disso é comum. Na roça, talvez… mas aqui… Mas meu pai sim nasceu no sertão nordestino, foi criado com muitas dificuldades e aos 8 anos de idade teve que vir embora pra São Paulo e trabalhar para ajudar a avó. Vestia roupas feitas com sacos de pano. Acho que era isso que ele sabia passar.. achou que eu talvez tivesse que enfrentar um mundo tão difícil quanto o que ele enfrentou. Na minha adolescência fez de tudo para que eu seguisse carreira militar. Eu é que desisti após reprovar no vestibular do IME porque nunca fui muito boa em química rsrs. A parte mais "normal" disso tudo foi que ele me incentivou a ter um bom gosto musical, gostar de ciências (desde cedo me explicava tudo sobre astronomia), história, línguas. Para quem teve uma infância e adolescência tão difíceis, ele buscou as próprias oportunidades, é autodidata e me ensinou a fazer o mesmo. E hoje eu sigo quase o mesmo rumo com minha filha de 2 anos e meio e seguirei com a outra filha que já está na barriga 😀
    Tirando a parte de brincar com armas e dirigir pois em nosso tempo isso é crime hehehehe

    Comentário by Miriam Góes — agosto 12, 2014 @ 1:43 pm

  5. seu pai era o máximo! hahaha ok. Tirando a parte de brincar com armas

    Comentário by HilanDiener — agosto 13, 2014 @ 8:20 am

  6. " entendi que o pessoal da fogueira dos sutiãs lutou e luta até hoje pela liberdade de escolha." ahhh como eu queria que muitos homens entendessem isso. Eles adoram dizer 'ué, não pediram direitos iguais, então toma !". Só que esses mesmos homens querem chegar do trabalho e sentar pra ver tv, enquanto a mulher (que também trabalha fora e ganha um salário que entra na renda da familia) chega em casa e começa o 2o turno. Eu costumo dizer que meu marido não me ajuda com as tarefas de casa e criação dos filhos. E as pessoas me olham assustadas. "Como assim não ajuda, a gente vê o que ele faz". Exato. Ele FAZ a parte dele, não é ajuda pra mim.
    Obrigada Hilan por esse texto. Parabéns Luiza pelo marido (bota ele pra lavar louça hein….rs) Bjs na familia.

    Comentário by Luciene Asta — agosto 12, 2014 @ 3:40 pm

  7. http://lugardemulher.com.br/wp/wp-content/uploads
    🙂

    Comentário by Vivian Martins — agosto 12, 2014 @ 11:21 pm

  8. Já havia lido o texto e achei bastante interessante, Hilan. Tanto que até encaminhei para o meu marido que, hoje, é tão feminista quanto você, apesar de ainda não ser pai. Meu pai, particularmente, é extremamente machista. Além dos ensinos da minha avó, uma coisa que eu acredito ter contribuido muito para ele pensar como pensa, foram alguns pensamentos retrógrados que ainda vemos nas igrejas cristãs. Eu sou a primogênita e, quando nasci, meu pai sonhava que seu primeiro filho seria um menino. Na infância brinquei de tudo um pouco, desde as brincadeiras com bolinhas de gude até as bonecas barbie. Mas uma coisa que ele sempre fazia era me colocar ao lado dele ajudando-o quando ele ia consertar o carro, por exemplo. Aprendi o nome de todas as ferramentas e sabia para que cada uma delas servia. Aprendi a trocar pneu de carro, a usar furadeiras, trocar lâmpandas (apesar de ter medo de fazer) e todas essas coisas consideradas "masculinas". Ele nem imagina, nem eu nunca comentei a respeito, mas não sabe o bem que me fez. Algumas pessoas que nos conheciam, criticavam a atitude dele, pois aquilo não era coisa de 'menina' fazer. Mas, de alguma forma, eu encarei isso como sendo um Q feminista que existe guardado nele. hahaha

    Comentário by Suy — agosto 13, 2014 @ 5:56 pm

  9. Ué…homem não pode ser classificado como feminista mas mulher pode ser chamada de machista? eu hein…

    Comentário by Paty — agosto 14, 2014 @ 4:11 pm

  10. na verdade uma mulher não pode ser machista pq não é homem, mas pode sim reproduzir o machismo.

    Comentário by HIlan — agosto 25, 2014 @ 10:36 pm

  11. por um mundo com mais pais que ensinem suas filhas a serem livres e seus filhos a respeitarem toda e qualquer mulher (: parabéns pela visão, hilan.

    Comentário by tiffany — agosto 18, 2014 @ 8:59 am

  12. Paty, a mulher não pode ser chamada de machista, mesmo porque ela apenas reproduz o pensamento machista que a sociedade expressa. O nosso dever é lutar pela conscientização e que cada vez mais mulheres e homens possam tornar-se parte dessa luta contra o machismo e contra a sociedade machista.

    Que lutemos sempre!!!

    Comentário by N. Júnior — agosto 21, 2014 @ 11:13 am

  13. olha, quem escreveu esse texto merece meu respeito… tiro o meu chapéu! fico impressionada com o tanto de machistas nesse mundo, não entendo pq uma mulher não pode ter escolhas sobre seu corpo, seu trabalho, sua vida… “homens podem pq são homens, mulheres têm que ser assim pq são mulheres” comigo isso não cola; faço o que acho certo, dentro do “””aceitável”””, claro. espero que o mundo tenha mais gente como vc, meu caro… espero mesmo!

    Comentário by Gabriella Maués — agosto 25, 2014 @ 7:43 pm

  14. obrigado pelo seu comentário. eu tb espero.

    Comentário by hilan — agosto 25, 2014 @ 10:34 pm

  15. […] escrevi o post pai e pró-feminista, ele tinha outro nome, era “pai e feminista?” com interrogação e tudo. gosto de títulos que […]

    Pingback by potencial gestante – filho, não seja homem, seja você mesmo! — setembro 25, 2014 @ 4:53 am

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