31 de janeiro

por uma maternidade mais leve

por luíza diener

um desavisado que lê meus textos e vídeos mais de boa pode pensar que eu sou a pessoa mais relax que existe. que sou assim, sempre paciente, tranquila, riponga.
quero te situar e dizer que não. o estilo de vida que eu levo – que nós levamos – é uma escolha. uma decisão diária. um processo constante de autoconhecimento e revisão de prioridades nessa vida boa que deus nos concedeu.

não gosto de determinismos ou, do que minha mãe chamaria de síndrome de gabriela: “eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim, vou ser sempre assim”. a gente nasce de um jeito, cresce, amadurece, aprende, apanha, se reinventa.
eu poderia me basear em qualquer coisa rasa para justificar meus comportamentos falhos: “é que eu sou mulher. mulher é assim mesmo”; “é que eu sou a filha caçula. sabe como são os caçulas, né?” ou “ah… esse é meu jeitinho! sou satanáries: sol em áries, mercúrio em áries, vênus em áries, ascendente em leão e um pezinho em escorpião. não dava pra ser diferente, né?!”.
SEMPRE DÁ.
tá aí a maternidade que não me deixa mentir. que me revirou de ponta cabeça e quase me obrigou a me refazer.

eu idealizei uma maternidade maravilhosa e me senti a rainha da cocada preta quando consegui botar em prática tudo que eu tinha idealizado com meu primeiro filho. daí veio constança e eu continuei fazendo todo esforço do mundo pra não deixar a peteca cair. e, cara, que preço alto pra manter essa peteca no ar!! mas eu não percebia o esforço gigantesco que eu fazia pra manter aquilo. esse foi um período constantemente marcado por brigas: brigas com a família, brigas na escola, brigas com o marido. tudo em prol de fazer com que entendessem meu ponto de vista e como era importante que mantivéssemos um mínimo de controle sobre absolutamente todas as coisas: a casa arrumada, as crianças com uma alimentação saudável, os mininu tudo educadinho e agradando a sociedade, a escola ensinando tudo que eu achava maravilhoso pro meu filho sem tirar ele daquela bolha maravilhosa que eu o criei.

daí, anos atrás, uma amiga maravilhosa disse, como quem nada quer, que precisamos escolher nossas batalhasmeu deus! como aquilo me transformou!

eu já tenho vivido a arte de simplificar há alguns anos, mas nada mais intenso que a experiência do último ano: três crianças pequenas para cuidar e criar, uma casa, um cachorro, um quintal enorme, muita roupa para lavar, almoço para fazer e um marido que parava em casa por 20 minutos só pra almoçar e levar o mais velho na escola (que sempre chegava atrasado) enquanto eu ficava sozinha com a filha do meio e uma bebezinha de colo. sem empregada, faxineira, cozinheira ou babá. sem parentes dando aquela força no dia a dia. não sei dizer ao certo se tive ou não depressão pós parto, se era um cansaço nervoso extremo ou o que. mas sei que uma melancolia enorme tentava me arrastar pra baixo toda vez que eu tinha um tempinho sozinha para respirar. algo perto de meia noite ou uma da manhã, entre uma mamada noturna e outra, enquanto todos dormiam. foram – ainda são – longos banhos quentes de chuveiro para pensar e tentar processar tudo aquilo que vinha – ainda vem – acontecendo comigo.

então simplificar virou meu modo de sobrevivência: ou você simplifica, luíza, ou você pira.
reserve o dia para as crianças e a noite para os adultos.
deixe de lado aquela louça que está criando vida na pia.
finja que os brinquedos espalhados pelo chão da casa inteira são flores que brotaram no seu jardim e a montanha de roupa suja que cresce a cada dia são montes glaciais do reino de arendelle.
faça piada se é a terceira vez nesta semana que o almoço é macarrão com atum ou marmita.
aliás, faça muitas piadas. rir é o melhor remédio.
ao invés de pirar, se entregue.
esqueça seu celular num canto.
sente mais no chão com seus filhos.
invente com eles.
criem músicas e danças sem pé nem cabeça, de preferência que falem sobre pum, cocô e bunda.
fale menos e escute mais: seus filhos, seu parceiro, os estranhos na rua.
afinal, na multidão de conselheiros há sabedoria.
implique menos.
engate menos.
se coloque mais de lado.
se coloque mais no lugar deles.
se entregue mais.
caso esteja difícil de aguentar, saia para respirar e volte quando estiver calma.
se não der para sair, respire ali mesmo. fechar os olhos por 10 segundos não vai matar você.
lembre-se: eles que são as crianças. você que é a adulta.
aprenda a perder o controle da situação, não da sua emoção.
repita até que isso vire verdade na sua vida.

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categorias: mães extraterrestres, psicologia autodidata introspectiva

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12 Comments »

  1. Oi Luiza!

    Passando atualmente por uma depressão pós parto, te digo provavelmente o que você teve não foi DPP.
    A Depressão é uma doença que eu não conhecia. Sabia da tristeza forte e pesada, falta de vontade de levantar, etc, mas não conseguia conceber.
    Te digo então, que só passando por ela para entender. A força que te puxa pra baixo é surreal. Os pensamentos são de jogar a toalha, morrer, causar acidentes, a vida não vale a pena, sem motivos para me levantar. E é uma bola de neve, você acorda cansada, sem fome, não come, não levanta e fica mais cansada… A espiral para baixo é infinita.
    Acordar todo dia assim é desanimador. E sair da doença sem remédio me parece algo meio… Impossível.
    Usei o espaço pra desabafar né.
    Beijos.

    Comentário by Clara — 31 de janeiro de 2017 @ 6:57 pm

  2. pode usar o espaço pra desabafar quando quiser!
    esse é um assunto que precisa ser falado!
    de fato, passei por algumas dessas coisas, mas não com toda essa intensidade. deve ter sido um baby blues estendido, acompanhado desse estresse e cansaço extremos da vida a 5 😉 :*

    Comentário by luíza diener — 31 de janeiro de 2017 @ 9:35 pm

  3. Vc me ajuda muito!😍Grande bj

    Comentário by Monique Alves — 1 de fevereiro de 2017 @ 8:17 am

  4. Te amo!!!! Vou escrever e colocar no meu espelho!

    Comentário by bebeporacaso — 1 de fevereiro de 2017 @ 9:24 am

  5. Parabéns, você me ajudou, estou passando por isso, tenho dois bebês um de 1 ano e 8 meses e o outro com 8 meses, adorei.

    Comentário by Verônica Alves — 1 de fevereiro de 2017 @ 3:42 pm

  6. e de vez em quando bota um bode na sala

    Comentário by graco — 1 de fevereiro de 2017 @ 8:34 pm

  7. Escolhendo minhas batalhas 💪👊

    Comentário by Giselle — 2 de fevereiro de 2017 @ 8:09 am

  8. Eu faço muitas dessas coisas e acho que tudo tem que ser dosado. Tenho dois e amo, brinco sentada no chão, me deixo de lado, mas o que me aconteceu é que eu me deixei tão de lado, mas tão de lado, que hoje eu vivo em um estado estranho de não gostar de mim e me sentir obrigada a fazer muitas coisas que não quero e não gosto, deixar de fazer meu trabalho, de estudar, deixar de defender o que acredito de medo de algo que não sei o que é. Eu vivo tão só que dá medo de perder o pouco que tenho de mim, acho. Aí tem dias que eu grito o dia todo. E eu odeio gritar. Não sei bem do que estou falando, mas acho que eu quero dizer que não estou conseguindo a leveza que você tem, e que eu queria, e estou presa em uma rede invisível que não me deixa mudar.

    Comentário by Thiciana — 4 de fevereiro de 2017 @ 12:04 pm

  9. Minha terceira acaba de nascer e entendo perfeitamente essa reviravolta q vc diz! Tá tudo lindo, mas vejo q precisarei me reinventar pra sobreviver! Otimo poder ter sua companhia pelos posts!!! Boa sorte pra todas nós e pros nossos filhotes!

    Comentário by Nina — 11 de fevereiro de 2017 @ 8:14 am

  10. Que texto.!

    Comentário by Fabrina Dutra — 13 de fevereiro de 2017 @ 7:00 pm

  11. Lindo texto. Profundo.

    Comentário by Daniely Cardoso — 24 de fevereiro de 2017 @ 3:21 pm

  12. Nossa chorei!!! sou mãe de 3 uma menina de 6 e um menino de 4 e agora estou gravidissima de 2 meses trabalho como autônoma demonstrando produtos de cosméticos porta a porta não do conta de nada ta tudo sempre interminável estou sempre perdida e agora com 3 o que vai ser? Peço incarecidamente que continue postando e se tiver algumas dicas especificas para mim ficaria muito agradecida Parabéns por seu site bjss

    Comentário by Eliane — 2 de outubro de 2017 @ 2:42 pm

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