21 de julho

puerpério

por luíza diener

mala

puerpério, esse momento estranho da nossa vida. tão arrebatador, tão cheio de amor, de plenitude, de.. caos.

de repente chegou um bebê novo não apenas na sua casa, mas na sua vida.
tudo vai mudar. vai mudar muito. não apenas suas noites de sono, mas seus horários, sua rotina, suas saídas (que saídas?), seu relacionamento com as pessoas, com seu marido, seus hormônios, sua maneira de encarar as coisas. não digo que vai mudar pra pior, apenas que vai mudar.

o puerpério acontece naqueles meses após o nascimento do bebê em que parece que te mandaram pra um país muito distante, com passagem só de ida. de repente você está lá, lidando com pessoas com uma língua totalmente diferente, uma cultura diferente, culinária moeda, clima, vestimentas, tudo diferente.
seu bebê fala outra língua que não a sua. se alimenta de outra maneira, se veste de outra maneira, se comporta totalmente de outra maneira, tem uns horários esquisitíssimos, emite sons e cheiros fora do que você consideraria comum no seu país de origem.

de repente você se vê obrigada a aprender a lidar rapidamente com aquilo tudo por um instinto de sobrevivência.
como sair dali não é uma opção, ou você se adapta, ou surta.
e aí é que vem o difícil: até você se adaptar, pode ser que dê uma, duas, várias surtadas. a maioria das pessoas que estão ao seu redor não entende o seu drama. afinal, elas nunca passaram por aquilo. ou passaram já tem tanto tempo que se esqueceram e hoje comportam-se como verdadeiras nativas.
encontrar outras mulheres que vivam esse mesmo momento pode ajudar bastante, mas nem sempre é daquilo que você precisa. às vezes, só precisa que o tempo acelere e as coisas entrem nos seus novos eixos de uma maneira mais rápida.

meu puerpério com o benjamin foi o mais intenso e eu nem sabia que me encontrava ali. eu achava que tinha mudado apenas minha rotina, mas que eu continuava a ser a mesma de sempre.
como gosto de mudanças, me entreguei àquela nova rotina, àquele cheiro de bebê fresquinho dentro de casa, sem me dar conta de que aquela jovem garotinha estava dando seus últimos suspiros de vida pra dar lugar a uma mulher feita.
ninguém precisa se tornar mãe pra amadurecer. mas é que filhos são um intensivão pra parada toda e você se depara em vários momentos com situações críticas que exigem decisões imediatas e isso acaba te forçando a crescer rapidamente.
eu não sabia que seria tão difícil, por mais que ninguém tenha me dito o contrário. eu achava que sabia de tudo, que estava tirando de letra. senti muita raiva do meu filho porque a privação de sono, de comida, da minha antiga vida me deixavam muito cansada. demorei a perceber que a culpa não era dele: era minha por não aceitar aquilo tudo.

eu nem percebi o puerpério da constança acontecer. estava muito realizada por ter conseguido o parto que tanto sonhava, ao mesmo tempo que me encontrei tão atarefada com o cuidar dos dois, em tentar criar uma relação harmônica entre os irmãos, em não deixar o benjamin sentir tanto a chegada da irmãzinha. por conta disso, quem acabou ficando meio de escanteio foi constança e eu demorei muuuito até conseguir me conectar de fato com ela. não lembro quando foi que caiu a ficha, mas demorou tantos meses que ela já estava comendo na época. provavelmente foi quando benjamin entrou pra escola e eu finalmente pude ter um tempo a sós com a pequena (perto de uns 8 ou 9 meses).

agora, com guadalupe, a parada demorou a fazer efeito, mas bateu. inclusive, no post de 1 mês de vida dela eu cheguei a comentar que não fazia ideia da encrenca em que estava me metendo.
mas com 40 dias de vida dela, eu comecei a ter um vislumbre. marido trabalhando pra caramba, a rotina puxada de cuidar sozinha da casa e fazer o almoço super cedo pra dar tempo de benjamin comer, tomar banho e ir bonitinho pra escola à tarde e, pra completar, lupita não apenas passou a acordar com mais frequência durante o dia como começou a estranhar as pessoas, acordar com qualquer barulho, chorar quando constança se aproxima.
eu comecei a me irritar com tudo, a ficar desgastada, frustrada por não conseguir cuidar da casa e voltei a me incomodar com a bagunça que eu já tinha aprendido a relevar fazia tempo.

um dia lupita surtou e eu não conseguia consolá-la. dormi exausta e no dia seguinte parecia que não cabia mais dentro de mim.
foi aí que que escrevi o texto a seguir, no meu instagram:
“essas últimas semanas têm sido difíceis. ainda não consegui estabelecer uma nova rotina que concilie as coisas de uma maneira que confira uma ordem mínima às nossas vidas.
a casa tá um caos no nível falta de higiene e ontem eu quis chorar quando entrei no banheiro das crianças e havia lodo em todo box do chuveiro, lixo espalhado pelo chão, o cesto de roupas abarrotado e as toalhas deles estavam úmidas e fedendo a macaco estapeado.
pode parecer bobagem, eu sei, mas foi apenas a gota dágua. tenho duas lixeiras abarrotadas de fraldas e o lixo do lado de fora fede à distância. minha cama tá imunda, suja de pezinhos, de leite azedo, de um cocô de neném que vazou. aliás, quanta roupa suja de cocô, jesus! não tem nada no lugar, roupas e lixo espalhados pelo chão imundo da casa inteira. há dias.
pra completar, a máquina de lavar quebrou e durante a semana joca foi pra escola ou de uniforme molhado (torcido na mão e posto pra secar de última hora) ou sem uniforme, porque não consegui lavar.
ontem lupita teve uma crise de choro fenomenal no fim do dia e acho que ela dormiu foi de exaustão, porque nada do que eu fazia parecia adiantar. ela chorou por mim tudo aquilo que eu não consegui. acabei o dia em frangalhos.
mas hoje, 6h da manhã, eu me deparo com esse sorriso doce e tão gostoso, meu coração se derrete e encontra forças pra continuar. eu sei que é só uma fase e eu sei que passa voando. mas, enquanto se passa por ela, é difícil pra caramba.”

encontrei conforto nos mais de 150 comentários de seguidoras queridas. mas percebi que eu estava precisando – acima de tudo – era de falar. de botar pra fora, de fazer minha dor se tornar conhecida.
de fato, pude constatar que lupita decidiu chorar por mim aquilo que eu não conseguia e ela só se acalmou de fato quando eu consegui me acalmar, dias depois.
foram duas semanas intensas, cheias de uma cobrança que ninguém me impôs: eu que coloquei sobre mim. e ela começou a pesar muito, a me desgastar, me fazer brigar com todo mundo, gritar com meus filhos, com o marido, ficar extremamente grossa e antipática com o planeta terra inteiro e mais alguns outros planetas e asteroides aqui perto.

o auge do meu surto não foi um momento épico cheio de gritos escandalosos (isso eu faço normalmente. ahahahha). foi num momento de apatia, seguido de uma raiva e, por fim, melancolia. comecei falando pro marido que nosso casamento estava um lixo (ô coisa esquisita que fica um casamento depois de filhos!), depois senti muita raiva. foi hilan que me ajudou a lembrar que eu fiquei assim depois que sansa nasceu.
gente, eu nem havia percebido! vivi aquele turbilhão quase três anos atrás jurando que era a pessoa mais conectada do universo quando, na verdade, eu estava simplesmente indo com a maré da rotina doida.
e daí eu desabei a chorar. chorei, chorei, me debulhei em lágrimas. falava um A e chorava. falava um B e chorava.
chegou um momento que eu nem sabia mais porque estava fazendo aquilo. eu chorava por estar chorando e estar chorando me fazia chorar mais. lavei a alma, falei falei falei falei falei sem conseguir parar.
naquela noite dormimos tarde pra caramba (nenhuma criança acordou nesse processo) e eu acordei mais serena. consegui passar aquele dia com mais leveza. e o dia após aquele. e mais outro dia.

hoje minha casa está o mesmo chiqueiro que estava naquela época, mas eu tirei essa cobrança de dar conta dela agora.

escrevi esse post quando lupita não tinha nem 2 meses e eu já estava querendo não apenas retomar a vida de antes quanto desejando me adaptar a uma rotina totalmente nova e infalível para nós cinco.
o uniforme vai ter que ficar encardido e alguns dias benjoca vai ter que ir com uma roupa #diferentona pra escola mesmo. haverá almoços simplesinhos, haverá almoços da marmita que veio da rua e haverá não-almoços, como foi um dia desses, que tomamos café da manhã tarde e comemos açaí com granola na hora do almoço.

minha máquina ficou quebrada por mais de um mês e passei um bom tempo lavando umas roupas na casa da minha vizinha e outras na minha mãe enquanto o técnico não vinha consertar a máquina.
ainda hoje, quase 5 meses depois dela nascer, a roupa anda ultra acumulada (eu deveria lavar 3 maquinadas por dia durante umas duas ou três semanas pra conseguir botá-la em dia).
demorei uns três meses pra conseguir chamar uma faxineira. ela deve ter vindo aqui em casa umas 3 ou 4 vezes nos últimos 5 meses. e só.
acima de tudo, sou muito grata ao meu marido e minha família, que têm me dado um bom suporte.

um dia desses pensei na minha gravidez e no tanto que ela passou rápido. foram 9 meses que voaram bem diante dos meus olhos. parece ser uma eternidade enquanto se está vivendo aquilo tudo de maneira tão intensa, mas a verdade é que passa rápido demais. e pensei justamente que, muito em breve, guadalupe estará com seu 9 meses. a essa altura ela provavelmente estará comendo com seus poucos dentinhos, sentando, tentando engatinhar, ficar em pé, apoiando-se nos móveis, tentando subir as escadas de casa e seguindo o irmão e a irmã (até o tov) pra todo lado. ela pode já falar algumas palavrinhas como papai, mamãe.. do que será que ela chamará benjoca e sansa?
vai passar num piscar de olhos, porque é assim que as coisas são.
eu vou voltar pra ler esse texto e provavelmente me emocionar, como foi quando reli esse daqui (um texto do passado que pareceu que escrevi pra luíza do futuro, a de hoje). vou relembrar desses sentimentos quase com um saudosismo, até porque isso é muito pequeno diante dos desafios que ainda me aguardam.

mas não importa o tamanho da dificuldade que se vive. se formos comparar nossos problemas, sempre haverá algo maior, mais dolorido, mais intenso.
mas não devemos diminuir ou ignorar nossas dores. devemos encará-las, falar delas quantas vezes forem necessárias até que sejam externadas, saiam do concreto e tornem-se tão palpáveis a ponto de conseguirmos encará-las e lidar com elas. e bola pra frente, que logo vem mais bolada.

não vou dizer que já me sinto pronta pra novos desafios, mas já me sinto bem mais tranquila diante desse daqui, que já está bem mais leve e fácil de lidar.

mas, como já disse jesus, “não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. basta a cada dia o seu próprio mal” (mateus 6:34)

(post escrito em 29 de abril/2016, antes de guadalupe completar 2 meses e atualizado pra postar hoje, quando ela já está com quase 5 meses)

{photo by ryan mcguire}

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categorias: Tags:, , , guadalupe, mês 0-3, para mães, psicologia autodidata introspectiva, questões

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7 Comments »

  1. Ufa! É bom colocar pra fora, né? É bom de ler também 🙂
    Obrigada por compartilhar!

    Comentário by Talita Rodrigues — julho 21, 2016 @ 2:33 pm

  2. Lu, vc ainda USA fraldas ecologicas nos seus pequenos?

    Comentário by Aurora Galindo — julho 21, 2016 @ 11:04 pm

  3. Caraca Luisa obrigada por escrever esse texto com cada detalhe e com tanto sentimento!
    Você faz com que eu me sinta menos ET aqui na terra das mães!!
    Acho que o principal ai é a gente aceitar que não é e nunca seremos perfeitas, e que não estamos em um comercial de margarina! Aceitando isso conseguiremos lidar com o restante!
    Te admiro de mais, sou sua fã. Moro em Brasília e sou louca pra esbarrar com vc por aqui e te dar um abraço ou pedir autografo… kkkkkkkkkk brincadeiras à parte, mais uma vez Obrigadaaaa!!1 <3

    Comentário by Mayara — julho 22, 2016 @ 2:44 pm

  4. Amei o post, desabafe sempre que precisar.
    Estava com saudades dos seus posts, amo lê-los, quanto maior melhor. Vc não vai mais fazer os posts dos meses da Lupita??
    Parabéns pela sua família e por vc ser quem vc é.

    Comentário by Daniely cardoso — julho 26, 2016 @ 2:46 pm

  5. Luiza, vou te dizer, me senti como a Sansa, quando viu Valente pela primeira vez, representada!!! Valeu por compartilhar, quando estamos meio deste, Deus coloca post como estes a nossa frente pra nós mostrar que não somos únicas…com problemas semelhantes. Bjao

    Comentário by Eliz — julho 29, 2016 @ 12:30 am

  6. Quiz dizer meio dreprê…rsrs.

    Comentário by Eliz — julho 29, 2016 @ 12:31 am

  7. Eu aqui, com uma filhota de 16 dias, também me senti menos et com esse seu texto, te li respirando fundo permitindo que minhas próprias dores fossem sendo vistas também.

    Comentário by ROBERTA — julho 31, 2016 @ 8:51 pm

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