25 de junho

quero colo!

por luíza diener

urso

hoje eu não acordei num dia bom.
mentira, o dia acordou estranho, ficou ótimo e depois desandou novamente.
passei a noite inteira sendo acordada pela pequena que, nesses trezentos e setenta e oito dias de vida extra uterina, nunca jamais cogitou a possibilidade de dormir uma noite inteira sequer. até aí, normal. o marido me agraciou cuidando dos dois agora de manhã enquanto eu tirei mais quase duas horinhas de sono ininterruptos (coisa rara). acordei relativamente descansada e de repente me deparei com a realidade de sempre.
falando assim não parece nada, porque resume o que eu tenho vivido nos últimos quatro anos, que é ter que cuidar da casa, dos filhos (agora no plural), do blog. não aconteceu nada de diferente, nenhuma coisa absurda mas, como acordei mais sensível que o normal, me caiu a ficha do tanto que eu estou exausta.

eu luto muito contra isso. na minha cabeça a maternidade tem que ser sempre algo recompensador.
uma vez estava numa roda com umas quatro mulheres, sendo que três eram mães e uma não. o assunto não poderia ser outro: filhos. naquele momento, falávamos sobre o trabalho que eles dão, as birras, as noites mal dormidas. essa amiga sem filhos falou “gente, vocês falando assim faz parecer que ser mãe é péssimo!”. nós três rimos e sabíamos que não, mas pra quem via de fora, foi o que pareceu.
desde então venho me policiando pra não pintar a caveira da maternidade, porque é assim que quem ainda não é mãe enxerga quando esse tipo de conversa vem à tona.
então quero logo esclarecer a quem ainda não tem filhos: é lindo, é maravilhoso, é sensacional. nada – nunca – vai se sobrepor a isso! mas é cansativo sim! muitas vezes exaustivo mesmo. e não há nada de errado nisso.
muito pior é querer camuflar como se fosse um mar de rosas.
padecemos no paraíso. tem dia que parece que padecemos mais, mas o paraíso continua ali e ele é fantástico!

logo eu, que prego uma maternidade sem maquiagem nem máscaras, me peguei tentando mostrar só o lado lindo disso tudo.
continuo achando lindo, mas sabe quando bate o cansaço? então. multiplica ele, adiciona uma pitadinha de desespero e um nó na garganta. pronto. é assim que eu estou me sentindo hoje.
a cada cinco palavras que eu digito, uma eu apago. me pego me policiando o tempo inteiro pra não parecer um texto meio deprê, sei lá. mas acho ainda mais importante registrar esse momento. mostrar às outras mães que tudo bem se volta e meia elas se sentirem assim também.

eu tô naqueles dias que queria parar o mundo e descer, mas ele insiste em rodar e rodar incessantemente. às vezes parece que mais rápido que o normal. só queria algumas horas de silêncio, dormir tranquila e acordar naturalmente, com o sol já brilhando alto. tomar café da manhã com calma, comer o que eu quiser e na quantidade que quiser, sem hora pra acabar. deixar a louça ali mesmo, sair de casa e quando voltar me deparar com a casa arrumada e com um cheiro misturado de amaciante de roupas, produto de limpeza e almoço recém preparado. depois de comer eu dormiria mais um pouco, acordaria e iria para a rua de novo, pra cuidar de mim e fazer qualquer coisa que me desse na veneta: comer uma bomba de chocolate (porque eu adoro comer sim!), ir ao cinema, a um spa e receber uma hora e meia de massagem, nadar no mar (que mar, gente?), voltar pra casa e encontrar ela ainda arrumada, cheirosa e sem louça do almoço para lavar, tomar um banho demorado e esperar o marido chegar. no trabalho dele teria sido tranquilo e ele voltaria também feliz. ele também tomaria um banho e jantaríamos felizes e despreocupados. depois assistiríamos um filminho debaixo das cobertas (porque de dia faz calor pra eu ir à praia, mas à noite faz frio pra gente ficar juntinho e aquecido) e poderia até rolar mais coisa ali debaixo, sem cansaço, sem choro de criança interrompendo, sem portas fechadas e medo de acordar ninguém.

só por um dia. ou dois. ou dez. mas claro que depois eu encontraria meus filhos, porque já estaria morrendo de saudades dessa casa barulhenta e bagunçada de um jeito que só eles sabem deixar. desse trabalho louco que nunca tem fim.
os filhos vão crescer e confesso que às vezes torço pra que isso aconteça logo, mas também sei que esse tempo nunca mais vai voltar e por isso tento aproveitar com toda a intensidade do meu ser. sim, isso cansa, mas eu não ligo. fiz uma vez, fiz de novo e pretendo fazer mais uma ou duas vezes, se deus permitir.
essa é a vida que escolhi pra mim e quero vivê-la até o fim.

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categorias: amor, erros comuns, filosofia de boteco, mães extraterrestres, para mães

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52 Comments »

  1. Gente ser mae ja é muita coisa. Domestica é essencial. Pra diabos serve meu dinheiro? Prefiro consumir menos em outras coisas e poder ter algum descanso

    Comentário by luana — abril 1, 2016 @ 11:52 am

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