19 de dezembro

relato de parto do menino jesus

por luíza diener

relato do parto de jesus

*atenção, essa história, apesar de se embasar em alguns fatos verídicos, é uma obra de ficção, fruto da imaginação da autora. então relaxe e aproveite a leitura*

essa gravidez já começou fora do comum. quando eu conto, quase ninguém acredita: “grávida do espírito santo… aham, sei! confessa logo que você e josé não conseguiram esperar até o casamento, que as pessoas aceitam melhor”. mas gente, eu JURO que não! josé e eu nos guardamos não apenas até o casamento mas depois, até que o menino nascesse.
por sorte, o mesmo anjo que apareceu pra mim, pra anunciar esse grande milagre, também apareceu pro zé e ele acreditou também. por isso ficamos com nossa consciência limpa.

essa gravidez foi marcada por duas viagens simbólicas: uma, quando ainda no começo da gravidez fui visitar minha prima isabel (que estava grávida de joão) e passei uns três meses lá e a outra, quando josé e eu – agora casados – viajamos para belém. essa viagem nos pegou de surpresa, porque eu já estava com um barrigão enorme, pronta pra explodir. mas eu animei porque sabia que era o certo a ser feito. o imperador havia baixado um decreto de que todos deveriam se direcionar à sua cidade natal para fazer a contagem da população. como a família de josé é daquelas bandas há milênios, tivemos que ir.
eu, mãe de primeira viagem que era, não podia imaginar o que me aguardava. juntamos as coisas, catamos o jumento e fomos.

vamos combinar que andar de jumento, égua, cavalo, camelo, já não é uma coisa muito confortável normalmente. agora imagina com uma barriga do tamanho de uma lua, por dias a fio? conforme passávamos pelos vilarejos ou outras famílias que também viajavam para o censo, as pessoas me olhavam pra mim e pra minha barriga de um jeito estranho, quase como se eu estivesse fazendo algo errado. mas eu tinha certeza de que eu tava indo pro lugar certo, na hora certa. a viagem até poderia ser mais rápida, mas sabe como é grávida, né? uma vontade de fazer xixi o tempo inteiro, uma fome que não me largava e o sono.. ah, que sono! de qualquer forma, o que dava pra fazer em cima do bichinho eu fiz: comi lanchinhos, bebi água e até dei umas cochiladinhas. mas o xixi não dava pra segurar. então desce do jumento (de um jeito todo desajeitado, diga-se de passagem), arruma um matinho pra agachar, aproveita pra esticar as pernas, sobe no jumento de novo. chegou uma hora que não aguentávamos mais e precisamos parar para tirar pelo menos umas horinhas de sono. acorda, joga uma água na cara, come uma coisa mais reforçada e pé na estrada de novo.

falando assim parece que o trajeto todo foi horrível mas, apesar do desconforto, eu tava sentindo uma paz, uma tranquilidade e uma alegria muito grande. estávamos indo pra cidade de belém, que era não apenas a terra da família do zé, como também a cidade dos nossos antepassados da tribo de judá: boaz, noemi e até do rei davi. que emoção conhecer o lugar onde aquele pequeno e humilde pastor de ovelhas nasceu e depois se tornou um grande rei!
desde criança ouvia as histórias desse homem, que eram contadas e cantadas de geração em geração. também ouvi a profecia de que o salvador nasceria na cidade de davi. e essa era uma coisa que martelava na minha cabeça em todo o percurso: “será que o meu bebê vai nascer nessa viagem?”.
a própria aparição do anjo gabriel pra mim e pra josé já era prova suficiente pra ter certeza de quem estava ali, dentro de mim. mas isabel também sentiu o bebê joão mexer e se alegrar com ele quando nos encontramos durante nossas gravidezes (e hoje tá lá joão grande, forte, mostrando que mesmo idosa e até então estéril isabel teve aquele menino, porque pra d’us nada é impossível). além de outras pequenas grandes coisas que aconteceram nesses últimos meses. e agora isso… irmos justamente para cidade onde a profecia aponta que nasceria o salvador. meu pai eterno, será que já está chegando a hora? mesmo assim optei guardar essas coisas no meu coração, sem contar nem pro meu marido, nem pra ninguém.

em algum momento eu senti uma forte dor nas costas, mas preferi ficar quieta. afinal, dor nas costas é coisa comum na gravidez e era de se esperar que piorasse andando em cima de um bicho desses pra cima e pra baixo por tanto tempo, né? nem me preocupei porque logo a dor sumiu e ficou um bom tempo sem dar as caras de novo. então veio outra vez. nada de mais. logo me esqueci, porque cochilei e só acordei com um sacolejo repentino enquanto o bichinho subia um morro. foi aí que eu acordei e avistei de longe: a cidade de belém! pensava naquele davi bem pequenininho, aprendendo a andar, com cabelos de fogo e rosto sardento. logo, era inevitável pensar no meu bebê também. o pequeno jesus! que cara será que ele tem? porque, né? não tem como dizer que vai puxar o pai e nem sei se vai puxar a mãe também. mas tentava imaginar seus cabelos macios, ele mamando pela primeira vez, aqueles barulhinhos gostosos que os recém nascidos fazem, aquele corpo quentinho aconchegado contra o meu, o seu cheirinho… ah, o cheirinho! não existe nada melhor que um cheirinho de bebê!
mas, em meio a tantos pensamentos lindos, lembrei que queria fazer xixi com urgência. corri, desci quase rolando do jumento e me acocorei no primeiro mato que encontrei. e daí veio uma dor um pouco mais forte. respirei fundo. passou. preferi ficar ali, agachada, por mais um instante quando de repente mais xixi saiu. eu tentava segurar, mas ele não parava de sair. escorria pelas minhas pernas e tinha um odor diferente de mijo. e aí, de repente, passou. josé, que estava de longe e não percebeu o que acontecia, perguntou se eu precisava de ajuda pra subir no jumento outra vez, mas me deu uma vontade louca de andar. quis saber se faltava muito tempo para chegarmos e ele disse que não. que dali pra frente era bem menos que tudo que já tínhamos percorrido e bem provavelmente chegaríamos antes do pôr do sol. então decidi caminhar.

nossa! como aquela caminhada me fez bem! eu sentia um vigor, uma energia! bebi mais água, comi mais um pouco e comecei a vasculhar as coisas da nossa mala. sei lá, me deu uma vontade de arrumar nossas coisas! separei as roupas por tipo, por cor, por finalidade. arrumei a bolsa das comidas, que estava toda revirada. nossa, que bagunça que josé fez por aqui!
conforme andamos, percebi que as dores já não eram somente nas costas, mas também no pé da barriga. por sorte, entramos na cidade. estava lotada de gente! algumas ruas eram muito estreitas e andar ao lado do animal já não me pareceu tão boa ideia quando quase tive meu pé pisoteado por aqueles cascos duros. zé sugeriu que eu subisse nele e eu topei rapidamente, porque foi me dando um cansaço grande, uma falta de ar, uma claustrofobia no meio daquela multidão. quando fui tentar montar, me toquei que aquela tinha sido – literalmente – uma ideia de jerico. a dor foi tão forte que eu gritei num ímpeto e percebi só depois, quando vi que geral parou para olhar pra mim. àquela altura eu já não ligava se seria ou não pisoteada. só queria chegar logo a algum lugar. a vontade de fazer xixi estava grande. pior, eu queria fazer também o número 2.

insisti em nos hospedarmos no primeiro lugar que encontrássemos, mas josé estava com a ideia fixa de ir a uma pensão de um conhecido da família, porque lá era melhor, porque tinha um quarto com banheiro só para a gente, porque eu não deveria ficar em qualquer espelunca especialmente porque eu estava, literalmente, com o rei na barriga.
aquela viagem de tantos dias não parecia tão longe quanto o tal do lugarzinho que era “logo ali”, como zé insistia em dizer. mas pra mim ele estava mesmo era perdido, porque cada esquina “logo ali” que a gente dobrava parecia ainda mais longe e diferente do local que ele dizia se recordar plenamente. e a cada esquina dobrada eu me dobrava já no chão, acocorada, tentando respirar fundo e não deixar aquela dor tomar conta de mim. eu sentia uma pressão enorme lá embaixo e sentia que realmente precisava ir ao banheiro. 

aí apareceu a pensão. aleluia! josé correu pra se identificar, mas a verdade é que, por mais que o funcionário já tivesse ouvido falar naquele tio distante do meu marido, fez uma cara triste e disse:

– lamento! aqui está cheio. ou melhor, tá lotado! todos vieram em peso pra belém pra se registrar e não temos um cantinho sequer. se vocês tivessem chegado mais cedo, eu ainda conseguia colocar vocês num quarto conjunto, mas até os quartos da nossa própria casa estão abarrotados.
– homem, você não está vendo o estado dessa mulher?! – josé começou a levantar a voz – a viagem foi cansativa pra caramba, tivemos que parar um milhão de vezes porque ela não se aguenta mais de dor… simplesmente não dava pra chegar mais cedo! não tem nenhum outro lugar que você possa arrumar?
– me desculpe, senhor, eu poderia estar indicando um outro lugar para você, senhor, mas todas as pensões, hotéis, pousadas, hospedarias desta cidade já estão lotadas, senhor.

na minha cabeça eu já me imaginava agarrando aquele homem pela gola da túnica e gritando com ele “eu tô aqui, pronta pra parir um bebê e você não consegue levantar esse seu traseiro gordo daí e me arrumar um lugarzinho sequer nessa pocilga??”, mas respirei fundo e não sei de onde tirei forças pra me recompor. “pensa no anjo, maria. pensa no anjo, na isabel, em joão. pensa em davi sardento correndo pelas ruas de belém. pensa no seu bebê. tá chegando a hora. e depois tudo vai passar. força, maria, força!”.

naquela mesma hora pareceu que acendeu uma luz na cabeça do homem e ele disse: 
– por favor, não se ofendam, mas o único lugar vago que me vem à mente é a estrebaria, onde ficam os animais. de verdade, a cidade está muito, muito cheia.
– eu topo! – gritei sem pensar duas vezes. olhei pra zé, que abriu um sorriso largo, cheio de esperança. acenamos com a cabeça ao mesmo tempo – onde fica?

poucos minutos depois entrávamos na estrebaria, com jumento e tudo. o lugar estava repleto de animais de outras pessoas que vieram à cidade. não havia uma janela sequer, era pequeno, abafado e fedia a uma mistura de animal sujo, escremento, feno, frutas e vegetais apodrecidos. estava escuro, pois o dia já havia chegado ao fim e, enquanto josé tentava acender uma candeia, me agachei num canto, na esperança de conseguir evacuar. de repente eu senti uma dor muito forte, parecia que estava queimando tudo lá embaixo. comecei a urrar como uma ursa e josé correu pra me acudir, assustado. ele se abaixou na minha frente e eu me agarrei a ele com tudo. não sei como os bichos não tiveram um ataque  e começaram a berrar junto. talvez tenham feito isso, mas eu tava num mundo à parte e não vi absolutamente nada acontecendo ao meu redor.
dor, dor, anjo, isabel, joão, davi, sardas, bebê, dor, gabriel, isabel, belém, dor, sardas, dor, bebê, dor, anjo, dor… em meio a dores, gritos, sangue, suor e lágrimas, a dor pareceu dar uma trégua. coloquei a mão entre minhas pernas e senti primeiro um cabelinho. então senti sua cabeça. “força, maria, força! tudo isso faz parte de um plano maior! você consegue, maria!”. um último grito, uma força que não cabia em mim e um silêncio repentino. seguido dele, um choro. um choro suave, que mais parecia uma linda canção.

NASCEU! peguei ele no colo e só confirmou aquilo que eu já sabia desde o início: É UM MENINO! É JESUS!”. foi como se a minha vida inteira fizesse sentido naquele momento. foi pra isso que eu fui criada! bem vindo, jesus! bem vindo ao mundo! bendito seja o senhor, nosso d’us poderoso!

uma alegria imensurável tomou conta de mim. uma enorme luz se acendeu naquela escuridão. não havia animais, não havia mau odor, não havia estrebaria. eu sentia aquela luz irradiando e era como se milhões de anjos cantassem e louvassem ao senhor. era como se o próprio d’us estivesse conosco.
com o bebê no colo, corri e enrolei ele em panos. ficamos ali, ele e eu, aninhados. finalmente havia chegado o momento! nos cheirávamos e aquele era definitivamente o melhor cheirinho do universo inteiro! então aproximei ele do meu seio e ele mamou. mamou perfeitamente como se fizesse aquilo a vida inteira. quanto amor, quanta paz, quanta luz, quanta alegria! eu sentia um rio cristalino fluir no meio de nós, nos limpando.
toda a existência parecia fazer sentido ver aqueles olhos brilhantes. eu só conseguia chorar, cantar e agradecer por ter sido agraciada com aquela bênção gigantesca.

não sei dizer quanto tempo se passou até que finalmente ele terminou de mamar. de barriga cheia, tranquilo e aquecido entre os panos, arrumei um lugar para ele deitar que fosse minimamente ok e longe de perigo e sujeira. o melhor que consegui encontrar ali foi uma manjedoura, onde os animais comem. tirei todo o resto de alimento, coloquei mais um pano por cima e o deitei.
quando finalmente josé e eu nos tocamos do que tinha acabado de acontecer, caímos de joelhos, chorando, e não conseguíamos parar de contemplar aquela pequena criatura que havia acabado de chegar. como ele parecia tão sereno em meio àquilo tudo! ele nasceu num lugar tão simples, tão inusitado e parecia não se importar de maneira nenhuma com aquela condição. mesmo sendo deus lá estava ele ali, tão humano, em uma condição tão humilde, sem preocupação alguma. então entendi que deveria fazer o mesmo: não me preocupar com nada. e percebi, desde aquele momento, que aquele bebê teria muito mais para me ensinar que eu a ele.

 

*para conhecer a história original do nascimento de Jesus, leia na Bíblia, nos livros de Mateus (capítulos 1 e 2), Lucas (capítulos 1 e 2) e João (capítulo 1). 

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13 Comments »

  1. Maria foi poupada das dores normais e se manteve virgem durante e após o parto por um mistério de Deus. Preste atenção e não escreva blasfemias sobre a Mae de Jesus, tenho certeza que ela não foi tao boba como você descreveu. Obrigada. Carla

    Comentário by carla — dezembro 22, 2016 @ 3:47 pm

  2. Mana, como que Maria se manteve virgem se a Bíblia relata que Jesus teve irmãos e irmãs?

    Comentário by Ellen — dezembro 23, 2016 @ 6:50 pm

  3. Feliz natal, Carla. Que esse mesmo texto que você consultou para fazer a sua resposta possa te ensinar coisas mais importantes: amor, paz de espírito, tolerância, etc

    Comentário by Bruno — dezembro 24, 2016 @ 7:58 am

  4. muito bem narrada a história do nascimento de Jesus.
    Jesus é a Luz que brilhou no oriente, só podemos ir ao Pai através de Jesus.
    Ele morreu e ressuscitou para trazer salvação para o mundo inteiro.
    A palavra de Deus diz:
    Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por Mim.
    João 14:6
    AMÉM…

    Comentário by Laudenire — dezembro 23, 2016 @ 2:46 pm

  5. Os irmãos e irmãs eram a comunidade. O casamento dela com Jose era casto. Necessário aprender com a Tradição dos apóstolos para entender a Bíblia..Ela não era uma.mulher comum, foi concebida sem pecado pois foi escolhida.
    O Salvador foi formado num "vaso" puro e sem mancha. Como ela, sendo A escolhida, poderia mancha-lo?

    Comentário by carla — dezembro 23, 2016 @ 8:42 pm

  6. Tradição dos Apostolos? Leia os livros dos apostólos e veja quais são os conselhos para os casados. Ali não diz que nao deve existir sexo dentro do casamento.

    Comentário by Márcia — dezembro 26, 2016 @ 9:05 am

  7. Não queria cair em debates religiosos, apenas quis comentar o absurdo deste artigo. Acompanho o blog há muito tempo, também tenho três filhos e gostava de ver as postagens ate o momento em que esta mulher ousa equiparar o nascimento de zJesus com a de mulheres comuns. Acho ate que teve boa intenção, mas minha critica foi para ela repensar nas coisas que escreve. A realidade não é tao engraçadinha.

    Comentário by carla — dezembro 23, 2016 @ 8:46 pm

  8. Humanizar Cristo não é blasfêmia, não fere o texto sagrado, nem diminui a divindade de ninguém. Pelo contrário, nos aproxima ainda mais dá nossa condição humana, real, e nos faz enxergar que o parto, algo tão natural, também é divino. Belo texto!

    Comentário by Bruno — dezembro 24, 2016 @ 7:52 am

  9. Cristo ja é o Deus humanizado, ele elevou o gênero humano quando se fez homem. Dizer sobre Maria agachada sentindo o circulo de fogo em quem notoriamente sabe que se manteve virgem por uma obra esplendida de Deus ê totalmente desnecessário! Sempre acompanhei o blog, bacana, interessante, não precisava disto.

    Comentário by carla — dezembro 24, 2016 @ 11:42 pm

  10. Na biblia não há absolutamente nada falando sobre a virgindade de Maria após o nascimento de Jesus.Ela concebeu pelo Espirito Santo sendo virgem,isso sim.Depois disso mais nada foi dito.

    Comentário by Mariana — dezembro 26, 2016 @ 1:49 pm

  11. Quanto blá-blá-blá nesses comentários aff

    Comentário by Ligia — dezembro 26, 2016 @ 12:14 pm

  12. Linda sua narrativa, Luiza!!!

    Comentário by Talita — janeiro 13, 2017 @ 2:06 pm

  13. Luiza… por que não mudam essa atualização da página??? Não dá pra escrever direito!!!

    Comentário by Talita — janeiro 13, 2017 @ 2:14 pm

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