31 de janeiro

sexualidade no pós parto

por luíza diener

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por laura gutman

“as mulheres ativas têm interesses pessoais e um forte senso de seu lugar no mundo, pois aprenderam a se acomodar dentro do universo masculino. a ação, o sucesso, a razão, a inteligência cerebral, o dinheiro e aquilo que é material têm excelente reputação, por isso são obrigadas a funcionar de modo concreto para desenvolver uma vocação, um trabalho ou uma identidade social por meio de sua atividade.

o aprendizado e o desenvolvimento das práticas sexuais não representam uma exceção à regra: pelo contrário, acontecem dentro da cultura varonil, que é um parâmetro generalizado e conhecido, por isso os realizamos com uma atitude preponderantemente masculina: ativa, agressiva, penetrante, combativa, de tempos curtos, objetivos claros e resultados palpáveis. naturalmente também gostamos disso: oferecemos e obtemos prazer, gozamos e nos deleitamos com o outro.

nosso acesso à busca da liberdade interior é muito recente em termos históricos, portanto é logico acreditar que temos muito a aprender com a feminilidade oculta: como gênero, contamos com muito pouca experiência, embora tenhamos a sensação de “haver superado todos os obstáculos” ou até mesmo a de nos sentir verdadeiras deusas quando fazemos amor. assim transcorre nossa sexualidade: felizmente ativa e sedutora, independentemente dos acordos de intercâmbio que conseguimos estabelecer com o companheiro.

um belo dia nasce o primeiro bebê. sabemos que é difícil criar filhos – dão muito trabalho, que o corpo leva algum tempo para se reacomodar depois da gravidez e do parto… mas supomos que logo tudo voltará a “ser como antes”. a maior surpresa se dá quando o desejo sexual não irrompe como estávamos acostumadas. sentimo-nos culpadas, sobretudo quando o obstetra nos dá permissão para retomar as relações sexuais, para a alegria do homem que, com cara de satisfação, pisca o olho sussurrando em nosso ouvido: “você não tem mais desculpas”.

mas o corpo não responde. a libido foi transferida para os seios, onde se desenvolve uma atividade sexual permanente, tanto de dia quanto de noite. o esgotamento é total. as sensações afetivas e corporais se tornam muito sensíveis e a pele parece um fino cristal que precisa ser tocado com extrema delicadeza. o tempo se prolonga, qualquer ruído causa extrema agonia e nos fundimos com as sensações do bebê, ou seja, com a experiência de nadar em um oceano imenso e desconhecido.

é nossa a decisão intelectual de responder às demandas lógicas do homem, de satisfazê-lo e de reencontrá-lo. mas não funciona, a menos que nos desconectemos das sensações íntimas e verdadeiras (para o que muitas de nós fomos bem treinadas). estamos, normalmente, tão pouco conectadas com nossa sexualidade profunda e feminina que navegamos com facilidade no desejo do outro, parte pelo afã de comprazer, parte para ser amadas. assim, afastamo-nos de nossa essência e nos acostumamos a sentir de acordo com os parâmetros de outro corpo, de outro gênero. ficamos desorientadas diante do desconhecimento de nossa próprias regras, regidas por uma feminilidade que passa despercebida à profundidade de nosso ser essencial. é essa essência da alma feminina que explode com a aparição do filho e, sobretudo, com o vínculo fusional que se estabelece entre o bebê e a mulher florescida.

a que nos obriga a indubitável presença da criança? a que ambos, homem e mulher, nos conectemos com a parte feminina de nossa essência e de nossa sexualidade, que é sutil, lenta, sensível, feita de carícias e abraços. é uma sexualidade que não precisa de penetração nem de esforço corporal. pelo contrário, prefere o tato, o ouvido, o olfato, o tempo, as palavras doces, o encontro, a música, o riso, as massagens e o beijo.

nessa tonalidade não há rsico, porque ela não machuca a alma feminina fusionada (com o bebê). não há objetivos, às vezes não há nem orgasmos, pois o que importa é o encontro amoroso e humano. há compreensão e acompanhamento da realidade física e emocional atravessada pela mulher que tem uma criança nos braços. nesse sentido é importante perceber que a criança está sempre nos braços da mãe, ainda que materialmente esteja dormindo em seu berço, ou seja, ela participa emocionalmente da relação amorosa de seus pais. por isso é indispensável que esta seja suave, sussurrante e acolhedora.

a aparição do filho nos dá a opotunidade de registrar e desenvolver pela primeira vez as práticas femininas que tanto homens como mulheres conservamos como parte de nossos funcionamentos sociais, afetivos e, naturalmente, sexuais. dito de outro modo: sem objetivos, sem a obrigação de chegar ao orgasmo, sem demonstração de destrezas físicas… podemos, simplesmente, descobrir essas outras maneiras femininas que enriquecerão nossa vida sexual futura, porque promovemos a integração de aspectos de nós mesmos que desconhecíamos.

todas as mulheres desejam abraços prolongados, beijos apaixonados, massagens nas costas, conversas, olhares, calor e um homem disponível. mas o mal entendido gerado por qualquer aproximação física que possa ser interpretada como convite sexual com penetração obrigatória induz a mulher a se distanciar de antemão para se proteger, e a rejeitar qualquer gesto carinhoso, aprofundando o desconforto do homem ante o aparente desamor.

por isso, é imprescindível que homens e mulheres feminizemos a sexualidade no período da fusão emocional entre mãe e criança, ou seja, ao redor dos dois primeiros anos. isto nos permite gozar e, ao mesmo tempo, explorar nossa capacidade de comunicar e dar afeto que, em outras circunstâncias, não teríamos desenvolvido. o sexo pode ser muito mais pleno, mas terno e completo se nos dermos conta de que chegou a hora de descobrir o universo feminino, as formas redondas do corpo e a sensibilidade pura.

troquemos carícias até morrer! permitamos que os coitos sejam muitíssimo mais elevados do que as meras penetrações vaginais que obtêm o título de “relações sexuais completas”, como se o gozo se limitasse a práticas tão esquemáticas.

creio que há uma luta cultural entre o que todos acham que é correto e o que acontece conosco. com as mulheres acontece que não podem fazer amor como antes e com os homens acontece que se irritam, ficam angustiados e se distanciam.

(…)

para os homens isso é um verdadeiro desafio. ingressar no universo feminino é bastante estranho, pois a cultura é masculina e pensamos e sentimos com esse sistema incorporado. da mesma maneira, a sexualidade foi pautada a partir da atividade e da ejaculação como sinônimos de êxito e poder desde as gerações remotas. por que haveríamos de investir tantos esforços para fazer amor com a mulher que amamos se antes funcionávamos tão bem?

creio que o homem tem, ali, a opção de aprender com os próprios aspectos femininos (os que vivem dentro dele), por meio de uma aproximação sincera da realidade emocional da mulher que se transformou, indubitavelmente, desde o nascimento da criança. a intensidade com a qual decidir se comprometer e se vincular para sustentar a díade mãe-bebê lhe permitirá se acomodar, integrando a todos. não a partir das queixas, mas do apoio e da observação do que ocorre, em vez de pretender que “as coisas aconteçam como eu gostaria”. é também uma maneira possível de se transformar em adulto, de construir um ninho e de unir os talentos em benefício da família. quero dizer que os homens podem vir a descobrir que há outros modos de gozar como deuses, e que a penetração e a ejaculação são algumas entre tantas maneiras possíveis, mas não necessariamente as melhores. sobretudo se a época é de amamentação, de noites sem dormir e de costas doídas.

por outro lado, talvez algumas mulheres reconheçam pela primeira vez o calor da sexualidade feminina, que, além da excitação corporal, inclui uma intensa consciência sensorial. às vezes desconhecemos os ritmos naturalmente femininos e nos esforçamos para pertencer a uma modernidade na qual não se presta atenção às sensações mais íntimas.

(…) assim, o sexo é sagrado porque é curativo, como o riso e os sentimentos livres. é sagrado porque repara o coração. a sexualidade vivida em sua plenitude integrando o feminino e o masculino, o yin e o yang: é um remédio para o espírito, um remédio para a alma”

(“Feminilizar a sexualidade após o parto”, trecho extraído do livro A maternidade e o encontro com a própria sombrade Laura Gutman)

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categorias: para mães, para papais, sexualidade

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6 Comments »

  1. Tenho este livro na cabeceira, acho o fantástico! Concordo plenamente com a autora e estou vivendo este momento ao ter a minha primeira filha de 6 meses.
    Adorei o post e acho fantástico este blog, parabéns sempre, as vezes não consigo comentar, mas o acompanho direto e venho tirar algumas dúvidas aqui.
    Beijo,
    Marília

    Comentário by Marília Peixoto — fevereiro 2, 2014 @ 8:04 am

  2. num entendi bulhufas de nada desse texto, fiquei até curiosa em conhecer o livro, mais se um textinho desse num entendi,imagina o livro inteiro, hahahhaha

    Comentário by Ana Mary — fevereiro 4, 2014 @ 12:03 pm

  3. Oi casal!
    Estou grávida de 6 meses e meio do Gabriel.
    Trabalho o dia todo sentada e nestes últimos dias está ficando insuportável arrumar jeito de parar, viro prum lado, viro pra outro… as 9 da manhã já estou pirando querendo ir embora mas…
    Tenho lido o blog diariamente, o dia todinho e isso me faz esquecer das dores na bunda e costas rsrsrs, faz o dia passar mais rápido.
    Ainda bem que estou gripada então qndo choro lendo as postagens, o pessoal acha q estou lacrimejando de gripe rsrsrs
    Td que acho super, colo na hora pro meu marido ler tbm.
    Até criei um blog pra guardar as lembranças dessa fase, mas não atualizo muito.
    Nós adoramos vcs e suas histórias, nos identificamos e estamos certos de que passaremos por muitas situações parecidas. (Bah vou chorar de novo aff)
    Enfim, parabéns pela linda família e continuaremos por aqui lendo, relendo e nos emocionando.
    Bjs, Mah.

    Comentário by Mah — fevereiro 4, 2014 @ 3:35 pm

  4. Livro de cabeceira, sempre, juntamente com "o poder do discurso materno"…ambos maravilhosos e reveladores!

    Comentário by Myriam — fevereiro 5, 2014 @ 3:23 pm

  5. Mas não tinha melhor hora para você postar esse texto. 100% de identificação.
    Estava até pensando em fazer um texto no meu blog a respeito do sexo após a maternidade,
    mas me sentia sozinha, pois várias meninas com bebês da mesma idade da minha já estavam "subindo
    pelas paredes" enquanto eu corria/corro de qualquer oportunidade para sexo.
    Ao ler cada linha da sua postagem, me senti acolhida. Obrigada por compartilhar.

    Comentário by Carol Marques — fevereiro 7, 2014 @ 10:08 am

  6. Que artigo bom. Parabéns

    Comentário by ketina — setembro 19, 2014 @ 12:58 pm

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