02 de dezembro

será alergia?

por luíza diener

tudo começou com apenas 6 meses.

eu ofereci cenoura ao benjamin logo nas primeiras papinhas e observei. 2 dias depois ele apareceu cheio de pontinhos vermelhos ao redor do pescoço e na área genital. suspendi por uns dias. voltei a oferecer e as bolinhas apareceram outra vez.

depois foi a vez da beterraba. a mesma coisa, um pouquinho mais forte.

com 8 meses eu dei os dois novamente. meu erro foi dar um seguido do outro, com diferença de apenas 1 dia. mas não percebi e não observei.
poucos dias depois ele apareceu com os tais pontinhos na virilha. pensei que estivesse assado ou com alergia à fralda, mas percebi que ele não estava com as bolinhas só no bumbum, mas também na cintura. depois acabou irradiando por todo o tronco, barriga, pescoço, nas costas inteiras. até o sinalzinho da vacina, no braço, ficou bem vermelho, cheio de bolinhas e
inchado. embaixo da boca também ficou vermelho e áspero. no dia seguinte a alergia subiu pelas bochechas e dentro das orelhas e, por fim, atingiu as coxas e a sola dos pés.
suspeitaram de roséola, mas ele não teve febre (e veio a ter roséola de fato 1 mês depois). realmente, era bem parecido.
observei outros fatores e concluí que somente a beterraba poderia ter causado tamanho estrago.
suspendi ela de vez.
conversei com a pediatra dele, que me apoiou.

perto de completar 1 ano foi a vez do glúten.
eu já havia dado pão francês para ele, mas era sempre pouco, menos da metade. eu notava umas poucas bolinhas ao redor do pescoço, mas pareciam inofensivas, por isso continuei.
aí fomos a um chá de bebê. ele já havia comido meio pão pela parte da manhã.
o chá de bebê foi à noite. ele foi de colo em colo e, como ainda tinha uma alimentação restrita, liberei que dessem torradinhas a ele. acontece que toda hora que eu o via, estava com uma torrada na mão e a boca cheia. perdemos as contas de quanto ele comeu.
a reação foi rápida: no dia seguinte ele estava com um colar de alergia. totalmente vermelho e pipocado ao redor de todo o pescoço. subiu um pouco para o rosto e dentro das orelhas.
no bumbum, assou e pipocou exatamente onde ficava o cocô e embaixo do saco. passou quase uma semana assim.
conversei com a pediatra na consulta seguinte e ela disse que poderia ser glúten. até então eu achava que era somente a farinha de trigo, mas aconteceu dele comer outros alimentos com glúten e sem trigo e a reação foi semelhante, mas menos intensa (devido à quantidade).
e lá se foi um item importante na alimentação do pequeno.

nesse meio do caminho ele também reagiu ao tomate e à berinjela. a berinjela foi bem pior, mas os dois atacaram tanto quanto (ou até mais que) a cenoura.

e finalmente foi a vez do leite de vaca.
ah, e esse é o mais chato, com certeza.
era uma coisa que eu já desconfiava há tempos. mas como ele nunca tomou leite diretamente (apenas através do leite materno), eu teria que cortar somente da minha dieta. e tudo que fosse derivado lácteo. e como isso sempre foi muito difícil pra mim (viciada assumida), nunca consegui completamente.
a pediatra não tinha liberado o leite de vaca na alimentação dele justamente por já ter manifestado outras alergias.
até que um dia, por algum motivo que eu não me lembro, resolvi tomar coragem e fazer isso pelo meu filho. ele estava com 1 ano e 1 mês.

eis minha retrospectiva:
os primeiros 3 meses de vida do benjamin foram de cólicas intensas. tentei tirar leites e derivados pra ver se alterava alguma coisa, mas as cólicas continuaram. nisso a pediatra descartou intolerância à lactose (que é diferente de alergia à proteína do leite da vaca) e liberou o leite gradualmente (só depois eu percebi que cortei apenas os leites e derivados e não observei o rótulo de nada).

com 4 meses ele teve uma assadura felomelal, que durou quase 1 mês. eu tentei pomadas diferentes e só a bepantol deu jeito. mas era só ficar sem pomada que voltava. depois de um tempo nem a bepantol resolvia mais.
por sorte ele passou a usar fraldas de pano e as assaduras melhoraram bastante, até sarar.
volta e meia ele tinha recaídas e eu precisava voltar pra bepantol.

ele também sempre regurgitava/golfava bastante, mas foi diagnosticado refluxo fisiológico. nada para se preocupar, visto que aquilo não parecia doer e ele continuava a ganhar peso e desenvolver-se normalmente.
todo mudo dizia que quando ele começasse a comer melhoraria. é fato que deu uma diminuída, mas as golfadas continuaram.
na consulta de 1 ano eu perguntei à médica se era normal ele golfar até essa idade e ela disse que não tinha problema.
mas aquilo começou a me incomodar, até mesmo a me irritar (toda vez que mamava, ele golfava. e ficava tudo sujo e com um fedorzão azedo).

além do cocô sempre mole. raras foram as vezes que ele fez um cocozinho normal, daqueles soltinhos na fralda. era aquela coisa pastosa, fedorenta, que sempre grudava tanto na fralda quanto no bumbum dele.

ele passou três meses com uma alergia respiratória sem fim: nariz escorrendo, tosse, pulmão com catarro. na verdade, era catarro pra todo lado. parecia mesmo uma bronquite alérgica. ele passou a tomar remédios pra alergia e até uma bombinha pra asma.

resolvi testar sozinha. suspendi todo e qualquer leite e derivados. qualquer coisa que pudesse ter não somente traços de lactose, mas também de proteína do leite da vaca (essa tabela me ajudou um bocado).

e ele melhorou. gradualmente parou de golfar, o cocô ficou mais firme (e até em bolinhas, gente!) e a pele voltou ao normal.
catarro? que catarro? remédio pra asma? guardei aonde?

o problema é que volta e meia eu como alguma coisa que contém qualquer porcaria com a proteína do leite sem me tocar e só vou perceber dois dias depois, que é quando ele costuma reagir. a primeira coisa que eu percebo é uma mudança na consistência do cocô. em seguida ele assa justamente onde o cocô encosta. depois ele passa a regurgitar, geralmente após as mamadas.

na última consulta à pediatra contei todo o caso e ficou bastante claro que o que ele tem é alergia à proteína do leite da vaca (APLV), que é diferente de intolerância à lactose.

nisso, muita coisa mudou na minha alimentação desde que foi constatada a tal alergia (conversamos com a pediatra e ela instruiu pra que eu continuasse a minha dieta restritiva):

  • o leite de vaca foi substituído por leite de grãos: leite de arroz, de aveia, de soja, de castanha, amêndoas, etc. não posso consumir nenhum outro leite de origem animal como de cabra, ovelha, de burra. até os leites com baixo teor de lactose estão proibidos;
  • pão francês virou meu aliado nº 1. mas há vários pães industrializados que não contém nada de leite e são encontrados em supermercados comuns;
  • aprendi na prática que porque “não contém lactose”, como a embalagem diz, não quer dizer que não vá conter traços de leite. por conta disso eu preciso ler e reler os rótulos. e pra isso eu preciso ter um conhecimento prévio. por exemplo, você sabia que a caseína vem do leite, contém a tal proteína e, portanto, pode causar alergia?;
  • comecei a me tapear procurando algumas alternativas. além do leite que não é leite, tem o pão de queijo sem queijo, o cream cheese de soja, o requeijão de banana e mais outras invencionices humanas. mas toda vez que eu como só consigo pensar: “a quem eu quero enganar?”;
  • minhas melhores amigas viraram a culinária vegana e a kosher parve.  a vegana não utiliza nada de origem animal e a kosher parve (mas tem que ser parve, ok?) não leva nada que contenha carne ou leite, mas pode conter ovo. ambos possuem selos que vão em algumas embalagens de produtos industrializados. tenho achado com mais facilidade o selo kosher parve (quando tiver a oportunidade, procure numa embalagem do sucrilhos kellogg’s, por exemplo, que vai saber do que eu falo).
    e daí que se me disserem “ah, tal restaurante é vegano” eu sei que posso comer de olhos fechados. uma pena que não exista nenhum estabelecimento kosher por aqui (não que eu saiba), porque eu iria deitar e rolar;
  • precisei riscar da minha lista muitos restaurantes e deliveries. isso porque grande parte dos funcionários não sabe dizer se os alimentos levaram leite e derivados no seu preparo ou não. várias vezes já perguntei: “isso leva algum derivado de leite?” e o funcionário disse algo do tipo “não, foi feito com manteiga (ou margarina)”. ou então “ah, qual salgado você tem que não leva leite?” e então ouço a clássica resposta “pão de queijo”. como confiar?
    até mesmo alguns alimentos que erguem a placa “sem lactose” podem levar algum substituto que contenha caseína, soro de leite, leite em pó e por aí vai;
  • o jeito é comer em casa mesmo e fazer a maior parte das coisas por conta própria;
  • e claro que precisei correr pra uma nutricionista, pra garantir que eu não suma minha alimentação continue ok mesmo com isso tudo.

e aí você pode perguntar: “luíza, não é mais fácil você suspender a amamentação dele?” não!
quer dizer, pode ser bem mais fácil pra mim, mas pra ele é muito pior, visto que ele tem todas essas outras restrições alimentares e que muitas coisas que eu uso pra complementar minha alimentação não poderiam ser incluídas na dele, como amendoim, castanha, aveia, soja e outros alimentos com forte potencial alergênico.
ele precisaria entrar com algum leite especial caríssimo pra suprir a falta de leite e mais outros complementos alimentares e vitamínicos, visto que nem só de gordura e cálcio é feito um leite materno.

ou seja, eu faço o esforço por ele.

na verdade, falar sobre alergias é sempre um assunto bastante extenso e eu diria até polêmico.
por exemplo, quando eu falo da aplv, muita gente ouve só o “leite de vaca” e imediatamente confunde com intolerância à lactose. mas são duas coisas distintas e eu faço questão de ressaltar.
(quem quiser mais informações é só clicar aqui)
isso porque já vieram me dizer “ah, meu filho também tem isso! pode dar iogurte pra ele” ou “ah, becel não tem lactose! pode comer tranquila”. se eu não tivesse me informado antes, teria dado o iogurte pro benjamin e lascar-se-ia tudo.
e como de qualquer maneira eu não daria creme vegetal ao meu filho, ele não comeu a tal becel. mas eu comi de olhos fechados e ele passou uma semana inteira golfando, com diarreia, com feridas na pele e eu que nem uma boba sem nem imaginar o porquê. só depois que me toquei a causa: continha aroma de manteiga. apesar de ser aroma artificial, tenho certeza que alguma coisa ocasionou. suspendi e melhorou.

também já me perguntaram se eu fiz algum teste pra diagnosticar a aplv.
sim. fiz o teste de desencadeamento, que consiste na observação da reação do paciente à retirada do leite de vaca e derivados com posterior reintrodução desses alimentos.
e só.
fez exame de sangue? não. fez algum teste na pele? também não.
na idade do benjamin – com 1 ano e 3 meses – e com o tipo de alergia que ele tem, esses testes não são tão precisos. eles podem dar um falso negativo. além disso, são todos muito estressantes pro bichinho, que já é traumatizado com agulhas e coisas do gênero.
e se desse negativo, iria mudar o fato de que a ingestão de leite faz mal pra ele? não.
então continuaremos assim.

a minha esperança é que melhore com o tempo. li que em 90% dos casos, a aplv – bem como outras alergias alimentares – some antes que a criança complete 3 anos.

e enquanto isso nos viramos como podemos.

para maiores informações, não deixe de ler:

www.alergiaaoleitedevaca.com.br
http://www.semlactose.com/

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