28 de julho

terceiro filho não nasce criado

por luíza diener

tem um texto que circula há uns bons anos na internet que compara a diferença entre o primeiro, segundo e terceiro filho. diz que o primeiro é de vidro, o segundo é de borracha e o terceiro é de aço. piadinhas à parte (e o texto tem umas sacadas bem engraçadas mesmo), o senso comum costuma propagar o mito de que é mais fácil criar o terceiro filho que o primeiro.

então senta, que esse é um daqueles textões, pra quem anda com saudades deles.

vamos por partes: eu não sou muito chegada em estereótipos. ouço muita gente falando “ah, caçula é assim mesmo” ou “filho do meio sempre é mais _[insira_um_clichê_aqui]_” e mesmo qualquer outro comentário sobre os primogênitos. existem, sim, alguns fatores que colaboram para que as crianças desenvolvam alguns comportamentos típicos de acordo com a ordem em que nasceram mas, se pararmos pra observar com mais cautela, vamos perceber que muitas vezes acabamos propagando alguns rótulos por puro hábito.

benjamin foi o que mais recebeu atenção nos primeiros quase 3 anos de vida, sem sombra de dúvidas. eu lia muito mais com ele, a rotina era bem mais regrada, ele era muito mais estimulado e havia uma enorme preocupação com a sua alimentação: ele comeu seu primeiro bolo de chocolate somente no aniversário de 4 anos. constança – a segundinha – comeu lá pelos 2 anos e guadalupe atacou um brigadeiro de leite ninho recheado com nutella aos 9 meses de idade, quando dei uma mini vacilada em uma festinha de aniversário.

é fato que, com a chegada de mais um filho, nós – mães e pais – acabamos relaxando mais e dando menos importância para algumas coisas triviais. talvez porque ficamos mais sossegados e aprendemos a escolher nossas batalhas, talvez porque estejamos tão ocupados cuidando de tantas crianças e afazeres ao mesmo tempo que muita coisa acaba passando batida. ou pode ser porque a experiência nos diga que algumas coisas passam, que são apenas fases, ou viroses, ou comportamentos típicos de crianças.

nós, que somos adultos, crescemos e amadurecemos, mas aquele bebezinho que acabou de nascer é único e novinho em folha. a sua saúde é frágil, seu corpinho é sensível e ele é totalmente novo nesse mundão velho sem porteira. junto com sua autenticidade vem também sua personalidade e isso vai determinar muita coisa sobre seu modo de encarar a vida.

ter irmãos muda, sim, a forma das crianças se relacionarem entre si e até com os adultos. mas essa história de que filho único não sabe dividir e irmãos são mais generosos porque já estão ali, no meio da bagaceira o dia inteiro, é mito. passa uma tardezinha que seja aqui em casa pra você ver que, mais cedo ou mais tarde, vai ter alguém se esgoelando por causa de um adesivo sem cola, uma tampinha de garrafa, um assento específico na mesa de jantar que o outro não quer ceder.

em contrapartida, nunca existe tédio numa casa com três crianças pequenas. elas estão sempre inventando ou aprontando alguma coisa e é aí que a caçula se beneficia. quando eu tinha um só, precisava inventar programações voltadas pra o benjoca: sair para um parquinho, fazer um passeio no jardim do prédio, atividades lúdicas dentro de casa. já a caçula, quando está de bom humor, simplesmente vai no embalo dos irmãos: cata o lápis de cor que está jogado no chão da sala pra desenhar (no próprio chão, claro), pega uma boneca ou bola dos irmãos que estão ali, dando bobeira. mas isso só acontece quando ela está de bem com a vida, porque na outra metade do tempo ela só quer ficar grudada em mim.

lembrando dos meus três quando eram bebês, vejo que alguns padrões se repetem por aqui: os três eram grudadinhos na mamãe. quando os três acordavam à noite, só servia se fosse eu. os três não podiam sentir um cheirinho de mamá que já ficavam agoniados e só sossegavam acoplados ao peito.

só meu mais velho teve o privilégio de passar quase o primeiro ano inteiro sem adoecer. as meninas já ficaram doentinhas com poucos meses de vida, seja porque um mais velho trouxe um vírus da rua, seja porque os mais novos não ficam tão entocados em casa o dia inteiro e acabam frequentando mais cedo festas de aniversário ou da escola, shoppings, mercados, parquinhos, etc.

meu coração se parte quando qualquer um deles demanda uma atenção mais específica (porque machucou, porque está doente, porque está mais carente) e eu não posso me dividir em três para acudir todos na mesma hora. pelo contrário, sempre vai ter alguém que também precisa da mãe, mas precisou esperar um pouco até que o outro, mas necessitado, fosse atendido. lupita se beneficia mais que joca e sansa porque ainda é bebê, ainda mama, ainda precisa que eu a bote para dormir e vive intensamente aqueles momentos em que só serve se for eu e mais ninguém.

eu tive a ilusão de que seria mais fácil criar o terceiro filho porque ela já estava no embalo da casa. alimentei a esperança de que ela dormiria em qualquer lugar e de qualquer jeito, de que a barulheira não incomodaria tanto porque ela já estaria acostumada, de que não teria tantas cólicas porque estava sempre no meu colinho e (contraditoriamente) achava que ela ficaria mais tranquila sozinha numa cadeirinha de balanço, bebê conforto ou carrinho, que chuparia o dedo ou mesmo uma chupeta e isso a ajudaria a se virar com seus próprios conflitos. mas ela saiu igualzinha a qualquer bebê que eu conheço (não sei por quê. ahahaha!).

existe o mito do bebê bonzinho, que é aquele que “quase não dá trabalho”, que não fica chorando por qualquer coisa, que dorme de qualquer jeito e em qualquer lugar, que não briga com outros bebês, que vai no colo de todo mundo. e eu imaginava que um terceiro filho seria mais ou menos assim. mas, pensando melhor, ser desse jeito é bom pra quem? pros adultos, claro! porque o bom e velho ditado já avisa que quem não chora, não mama. bebês são bebês e eles choram mesmo, se assustam, sentem fome, querem colo. não há nada de errado nisso. a gente precisa cuidar deles constantemente e, conforme crescerem, educá-los de acordo com nossos princípios, adequá-los à sociedade, ensiná-los a amar, a conviver, a respeitar os outros.

pensando bem, filho nenhum nasce criado, quer seja o primeiro, o terceiro, o vigésimo. no fim, são as mães e pais que acabam manjando mais dos paranauê e os pequenos se beneficiam disso. até que apareça mais um pra esbagaçar tudo de vez.

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categorias: erros comuns, erros comuns, para mães, para papais, psicologia autodidata introspectiva

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2 Comments »

  1. Eu faria uma enquete: o do meio é o mais fácil? Desconfio que, em geral, sim.

    Comentário by Lia — agosto 6, 2017 @ 10:32 am

  2. Lindo texto! estava com saudades desses posts grandões!

    Comentário by Giovanna — agosto 17, 2017 @ 9:56 am

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