15 de abril

trocador de fraldas em banheiros masculinos é apenas um começo

por hilan diener

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pai de primeira viagem se mete em cada furada… ainda me lembro da primeira vez que levamos o benjamin à pediatra, com poucos dias de vida. luíza e eu não tínhamos a menor noção de quem ela era, mas marcamos um horário por indicação do hospital em que o joca nasceu. relembrar aquela consulta me dá até raiva – a quantidade de bobagens que a médica falou e o número de coisas que eu até acreditei não está no gibi. mas teve uma coisa que realmente me marcou: a médica só se dirigia à luíza. era um tal de “mãezinha, faz isso…” e “aí ~ m.ã.e.z.i.n.ha ~ faz aquilo” enquanto eu fiquei ali apenas como mero expectador. um ser de segunda categoria. um figurante. até tentei chegar mais pra frente na cadeira para ficar no campo de visão dela, mas parecia que eu tinha poderes mutantes de invisibilidade.

saí de lá chateado com a situação, mas isso me fez pensar. a pediatra estava errada, sim, mas de certo modo eu entendo por que ela me tratou daquele jeito. afinal, nós, homens, damos todos os motivos para isso. começou ali, quando eu nasci com um cromossomo y. desde então minha família, meus parentes, depois a escola, a TV, os amigos, ou seja, toda a sociedade, me criou como “menino” e, segundo nossa cultura, meninos não foram criados para exercer cuidados – mas, sim, para trabalhar, lutar e prover.

os meninos são “treinados” para serem bons em tudo o que é divertido, atlético, ágil, matemático, mecânico e viril. não sobra tempo para as ditas “coisas de meninas” (que deveriam ser de meninos também) e quando se tornam pais nada muda: continuamos vivendo – ao menos a maioria – a paternidade da mesma forma divertida, atlética, ágil, matemática, mecânica e viril que levamos a vida inteira.

isso explica muita coisa, mas não justifica. recentemente o ator ashton kutcher se tornou pai e começou a perceber a mesma coisa que notei alguns anos atrás com esse episódio da pediatra: a sociedade é machista e enxerga somente as mulheres como cuidadoras. um exemplo disso é o fato de que em estabelecimentos, em geral, não existem fraldários masculinos. a maior parte dos trocadores (quando existem) está sempre dentro de um banheiro feminino. então se você, pai, quiser trocar a fralda suja da sua criança ou vai ter que se fantasiar de mulher ou vai se aventurar em lugares bizarros, pequenos e sem nenhuma estrutura. Além disso, ainda terá que enfrentar olhares tortos de reprovação/nojo ou de uma estranha admiração pelo simples fato de ser um homem que cuida do filho que você pôs no mundo.

e é sempre bom lembrar que “ajudar” e “cuidar” são coisas bem diferentes. quando alguém diz: “nossa! seu marido ajuda muito com as crianças” a impressão que dá é que o marido está ali apenas fazendo um favor temporário para a família. até a nossa linguagem enxerga o homem como um ajudante descompromissado que, de vez em quando, por sorte da esposa, aparece pra dar uma ajudinha… isso não é cuidar! cuidar é uma responsabilidade conjunta. é assumir os filhos e tudo o que vem junto nesse pacotão e criá-los.

infelizmente, o mundo é machista. e sua mulher vai sofrer por causa disso e vai sobrar pra você também (que quer ser diferente). no final, todo mundo perde. o que fazer então? a minha esperança está na nova geração. existem muitos pais por aí criando filhos aos trancos e barrancos como eu, mas de alguma maneira de uma forma mais inclusiva. rompendo com um modus operandi de séculos a fio, começando a entender e também a exercitar o real significado de cuidar e criar um filho.

eu ainda estou muito longe de entender esse senso de missão e responsabilidade que minha esposa tem. confesso que não é fácil e nem sempre satisfatório. geralmente tenho a impressão de que estou correndo atrás de um prejuízo. não é algo que eu naturalmente queira fazer. é preciso um esforço – quase que um empurrão interno – para ser um pai de verdade. é preciso muita coragem e é preciso ser muito macho. porque esse papel pode ser extremamente frustante, enlouquecedor e cansativo, mas também é incrivelmente transformador, emocionante e libertador.

quem sabe nossos filhos cresçam nesse ambiente melhorado e, quando forem pediatras ou donos de empresas, percebam que homens e mulheres – com todas as suas diferenças e semelhanças – podem, sim, amar e cuidar das suas crias. E, quem sabe (finalmente e de uma vez por todas) instalem logo em todos os lugares possíveis esse bendito fraldário nos banheiros masculinos.

texto publicado originalmente aqui

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categorias: erros comuns, pai feito, pai grávido, para papais

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8 Comments »

  1. Concordo com você Hilan.

    Mas lendo o seu texto, percebi como nós mulheres somos muitas vezes egoístas, pois agora relembrando aqui quando meu filho era bebê, e nos seu primeiro mês apenas o meu marido dava banho nele, mesmo eu achando aquilo o máximo ficava no meu pensamento: será que ele está fazendo certo? será? E claro que estava. Mas fomos criadas pra ser a mulher ideal, a mãe perfeita… mas nem sempre é assim tão fácil! Que mais homens tenham o mesmo pensamento que você, e que nossos filhos possam aprender com nossos exemplos…

    Comentário by Camila — abril 15, 2015 @ 2:05 pm

  2. tem isso também. é dificil para as mulheres confiaram no "jeito" dos homens cuidarem. que não é melhor nem pior é só diferente. 🙂

    Comentário by HilanDiener — abril 16, 2015 @ 11:18 am

  3. Meu marido tambem tem ódio mortal disso. Ele era um ser invisível diante de médicos, professorea e afins. Até que me pediu para ir sozinho às consultas, vacinas e reuniões da escola. Após ele começar a aparecer sozinho com a criança, começaram a respeitá-lo. Hoje, vamos juntos e ele está aos poucos conquistando seu espaço de pai.

    Comentário by Elen Rafael — abril 15, 2015 @ 3:09 pm

  4. Eu super apoio vc Hilan! Acho justo demais o pai ter 50% e a mãe os outros 50% da responsabilidade da criação da criança. Acho super importante ainda mais para criança! Parabéns pelo artigo! Nota 10!

    Comentário by Janice — abril 15, 2015 @ 8:41 pm

  5. Hilan, só pra variar, arrasando nos textos! Sou fã! rs

    Tento aprender, crescer e desconstruir ao máximo o que de machista ainda há em mim (e no marido… mas é mais difícil! rs) pra que minhas futuras crias tenham pouco ou nada disso em si. Quem sabe os netinhos já vivam num mundo mais igual? #Sonhando

    Beijo nessa essa família linda!!! <3

    Comentário by Amanda Barreto — abril 15, 2015 @ 11:32 pm

  6. obrigado!

    Comentário by HilanDiener — abril 16, 2015 @ 11:18 am

  7. Muito bom! Eu sempre falo que meu marido ajuda! Nossa, depois dessas palavras , vou mudar minhas palavras!! Meu marido cuida!! Pq ele cuida mesmoo! Bjs

    Comentário by Juliana — abril 16, 2015 @ 10:36 am

  8. Bom texto para refletir. Sou mãe de meninos e tento mudar esta realidade na educação deles. Menino pode chorar. Menino não precisa ser machão. Menino cuida da casa e das pessoas. Eles são criados assim. E quando eram bem pequenos dei uma boneca de presente. Muitos faltaram enlouquecer. Mas, era uma forma de eles também manifestarem cuidado.
    abs.

    Comentário by rose — maio 2, 2015 @ 8:54 pm

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