orgulho materno

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há quase 4 anos eu escrevi um post chamado competição veladaonde eu falava de certas disputas bestas que rolam no mundo materno e que foram meio chocantes para mim assim que eu tive filho.
na época eu estava sendo perseguida por uma louca que quase todo dia me alugava pra fazer comparações e dar palpites sobre a criação do benjamin. somou-se aquilo a todos os pitacos e conversas que eu ouvia por aí, o copo foi enchendo, enchendo e.. transbordou em forma de post-desabafo.

hoje em dia eu entendo o que me motivou a escrever aquele texto mas, quase quatro anos depois, adquiri uma paciência e experiência que só o tempo poderia me proporcionar.
por algum motivo eu achava que precisava provar que era uma boa mãe. talvez uma das razões seja a minha carinha de criança. hoje em dia eu me gabo de estar beirando os 30 e ter gente achando que tenho 18, mas nem sempre foi assim.
eu cresci meio complexada por ser pequenina e magrela, por ter cara de novinha, por ouvir uns e outros falarem comigo no diminutivo como se eu fosse uma retardada, por ouvir “parece que você vai quebrar” ou “tadinha”. tadinha por quê? passei muito tempo tendo raiva dessa palavra “tadinha”.

casei-me aos 21 anos porque quis, mas tinha que explicar que não, eu não estava grávida e pretendia esperar ainda uns 4 anos para pensar em filhos. na lua de mel eu sentia que tinha que dar explicações para todo mundo que aquele era meu marido, que eu não tinha fugido de casa pra brincar de casamento e depois voltar correndo pra morar com a mamãe. sentia que eu precisava provar que meu casamento era um dos bons e que, contrariando as estatísticas (e alguns comentários que eu cheguei a escutar com meus próprios ouvidos), meu casamento iria – sim – durar bem mais que um ano.

aí veio o primeiro filho. assim que tornei pública a notícia da gravidez, começaram as dicas: “tá tomando ácido fólico?” “olha, não pode carregar peso, cuidado!” “vai continuar fazendo natação? pode ser perigoso para o bebê”. uma conhecida chegou a me telefonar, pedir pra eu pegar papel e caneta e começou com uma lista interminável de dicas sobre gravidez, parto e filhos. deu dica de preparação do seio, creme antiestrias, enxoval do bebê e até congelamento de células tronco do cordão umbilical. e eu mal conhecia ela.

quando benjamin nasceu, veio uma enxurrada de podes-não-podes, tem-ques, comparações mil e coisa e tal que meu orgulho materno se aflorou de um jeito que eu virei um poço de patadas. nossa, nessa época eu fui grossa com muita gente, passando pelos parentes até chegar em completos desconhecidos na rua.
ouvir me chamarem de “mãezinha” ou falarem coisas como “foi mãe tão novinha!” “é seu irmão?” ou “um bebê carregando outro bebê” me deixavam tão irritada que eu vivia com os nervos à flor da pele.

eu sentia que precisava provar pra todo mundo que cara e idade não fazem uma mãe, e sim a informação que ela possui.
hoje em dia paro pra me analisar e chego à conclusão que a maior louca da história era eu mesma.
o orgulho me cegou, me fez me afastar das pessoas. eu queria viver entocada dentro de casa, apenas maternando e lambendo a cria. procurava outras loucas como eu para desabafar e falar mal de quem não me deixava ser mãe em paz, mas não queria crescer ao conversar com quem era diferente de mim, pra não correr o risco de ouvir opiniões diferentes, que eu apenas enxergava como pitacos.
por fim, por mais que estivesse sempre rodeada de gente, passei a me sentir muito solitária, porque poucos eram aqueles que pensavam como eu. e até as semelhantes eram diferentes de mim, veja bem.

é claro que tem gente com intenção maldosa. é claro que tem uns palpites muito absurdos e me aperta o coração saber que pode ter mãe que segue esse tipo de conselho. mas pra mim fica mais claro que a maioria das pessoas tem a melhor das intenções quando vem conversar com você a respeito de bebês e gravidez.

há uma certa magia em tudo que está relacionado a bebês. eles são como um ímã e atraem as atenções, os olhares, os sorrisos. bebês têm o poder de trazer alegria. quer fazer o teste? quantas vezes você não estava de boa na lagoa, distraída na rua, quando se deparou com um bebê num carrinho, uma criancinha correndo ou uma grávida exuberante e sorriu, gratuitamente? eu fiz e faço até hoje. sempre. é irresistível.
daí que muita gente se sente tão atraída que resolve puxar conversa. e isso é lindo! vivemos num mundo cada vez mais egoísta, introspectivo, hedonista. os bebês chegam para quebrar essa letargia. eles enchem o coração de compaixão, te movem a querer fazer o bem. não que todo mundo sinta-se assim em relação aos bebês, mas muitas vezes quem vem com essas conversas malucas só quer trocar uma ideia com você. ela está feliz pelo seu bebê e quer te ajudar de alguma maneira, muito provavelmente porque alguém já fez o mesmo por ela um dia (ou dois, ou mil).
aí eu me toquei: “gente! eu já fiz isso tu-di-nho!” sempre pergunto pra uma grávida com quantos meses/semanas ela está, pergunto quantos meses o bebê tem, o nome, elogio ele por ser fofo, sorridente, grandão ou mesmo miudinho. faço de coração, como um elogio sincero. mas se a ela estiver numa fase como a que eu passei, pode ser que se irrite comigo, talvez porque eu a encontrei uma única vez, mas ela pode já deve ter ouvido essa ladainha de mais outras trocentas pessoas.

graças a deus minha segunda viagem como mãe tem sido bem mais tranquila. claro que eu passei quase que a gravidez inteira me irritando com essa pergunta de “é menino ou menina?” e, depois que ela nasceu, ouvir por nove dias consecutivos: “já escolheu o nome dela?”. me irritei com a cobrança. me irritei quando um ou outro zé mané reclamou do nome dela. mas me irritei porque aquilo era novo e eu não estava preparada para lidar com a situação.
e aí nasceu a lição: eu não preciso provar nada para ninguém.
não por orgulho besta (apesar de reconhecer que eu sou muito mais orgulhosa do que gostaria), mas porque eu não ganho nada sendo assim. pelo contrário, me faz mal, me amargura e me tira a oportunidade de me relacionar de uma forma tranquila com os outros.

sou muito feliz por ser como sou. já tenho auto confiança suficiente para saber que dou o meu melhor como mãe, que dou conta de muita coisa, mas que posso – e devo – pedir ajudas e conselhos aos outros porque isso me enriquece, me torna humilde e ajuda meus filhos a se desenvolverem de forma saudável.
os filhos crescem, mas aqueles que amamos e que amam nossos filhos permanecem. qual tipo de relacionamento eu quero construir com eles? de constante briga e negação ou de amabilidade?

hoje tento apenas enxergar pelos olhos da bondade. respondo cada pergunta como se fosse a primeira vez que a escuto.
quando vem uma senhorinha dizendo que é bom cobrir a orelhinha do bebê, eu vou lá e cubro. se falam que um sapatinho caiu (e eu já vi há muito tempo que isso aconteceu), eu agradeço, tiro o outro e guardo junto com o primeiro. se dizem que tem que dar água, chazinho, chupeta, mamadeira, eu não compro a discussão. apenas entendo como uma preocupação ou mesmo um jeito de puxar assunto e fico repetindo o mantra na minha cabeça “apenas sorria e acene. sorria e acene”.

just-smile-and-wave

orgulho materno

28 pensou em “orgulho materno

  1. Caraca!Como eu devo ser chata…pois eu dou muito pitaco e o pior é que em cima do que leio desde 2012 ,por desejar ser mãe , e não em cima de experiências minhas, o que deve ser ainda mais chato.A intenção é boa, mas vejo que fui chata.rs.

    Ótimo texto!Acho que é um alivio para mamães e um alerta para as pitaqueiras como eu,rs.

  2. Nao, meu comentário nao foi. Vou escrevê-lo de novo. 🙂
    Eu passei os primeiros meses de gravidez na Irlanda e depois me mudei para a Suécia. Eu sempre reparava as grávidas brasileiras reclamando da intromissão de estranhos com dicas e palpites. Eu lia blogs maternos e aos poucos fui percebendo o quao diferente era a gestação escandinava e a brasileira. Naquela época, nos mudamos para uma casa no inverno mais rigoroso dos últimos 60 anos. O caminhão da mudança entalou por causa dos 30 cm de neve e eu tinha medo de sair de casa nos últimos meses, e escorregar na neve. No trem, metrô e ônibus ninguém me dava lugar porque aqui não há lei para isso. Vale o bom-sendo, e assim, eu sempre fiquei sem assento, mesmo com as dores pélvicas que eu tinha. Eu conheço bem o que é estar grávida e ninguém perceber, nem te saldar, nem te notar… e acredito que há quem goste. Porém, eu acho que gostaria de experimentar uma gravidez no Brasil. Amor nunca é demais! Faz tempo que não apareço no seu blog. Parabéns pelas crianças. Um abraço da Cíntia, mae da Beatriz

  3. Qdo li seu primeiro post pensei exatamente isso, que as pessoas mtas vezes estão só querendo ser simpáticas, amorosas… Que bom que seu olhar mudou. Concordo que as vezes é um saco os palpites mas se vierem com boa intenção…

  4. Oi, Luíza!
    Adoro o seu blog! Leio há um tempão (antes de engravidar), mas é a primeira vez que comento.
    Gostei muito desse post… Me identifico com a sua visão. Não porque eu já seja experiente (pelo contrário, é o meu primeiro filho – ou melhor, filha!), mas porque eu já estive do "outro lado". Eu sei como é a expectativa e a alegria das pessoas quando um bebê está chegando. Eu tenho 4 sobrinhos, então eu vivi toda essa alegria, essa expectativa. Eu perguntava, eu comprava presente, eu até tentava dar conselhos, imagina! Claro, nunca era um conselho do tipo “faça isso” (pq nem mãe eu era), mas eram coisas como “ah, uma vez eu li isso, isso, e isso”. Sempre com muito boa vontade, sem a menor intenção de competir ou de ensinar a mãe, mas apenas de participar daquele momento, que também era muito especial pra mim.
    Acho que essa minha experiência foi fundamental. Hoje eu sei que a criança que vai chegar nesse mundo não é apenas minha filha e do meu marido. Ela também é a neta dos meus pais/sogros, é a sobrinha dos meus irmãos/ cunhados/amigos, é a prima dos meus sobrinhos. Ela também vai ser motivo de curiosidade e sorrisos pra desconhecidos na rua e, como vc disse, isso é lindo! Ela vai ser (já é!) importante pra muita gente e eu não posso me isolar no meu mundo. Claro que o momento de intimidade dos pais com o filho deve ser respeitado… assim como eu vou respeitar a opinião alheia, eu espero que respeitem a minha opinião e o meu momento tb.
    Vamos ver como vai ser quando ela nascer… se vou continuar com esse espírito zen budista… hahahahaa… por enquanto, estou tranquila, poucas coisas têm me irritado (pq sempre tem um aquele sem noção, né?). Mas perguntas triviais como ‘qtos meses’, ‘sabe o sexo’, ‘pode comer isso’ tenho tirado de letra!
    Beijos!

    1. "Hoje eu sei que a criança que vai chegar nesse mundo não é apenas minha filha e do meu marido. Ela também é a neta dos meus pais/sogros, é a sobrinha dos meus irmãos/ cunhados/amigos, é a prima dos meus sobrinhos"
      Disse tudo! porque o que eu passei e vejo muitas mães passando é achar que o bebê é única e exclusivamente dela. às vezes esquecem-se, inclusive, que ele é filho do pai, ou neto da sogra.
      difícil demais chegar nesse equilíbrio zen budista. eu luto pra alcançá-lo até hoje.
      mas só de você ter essa mentalidade já mostra que está no caminho certo.

      obrigada pelo comentário!

      saúde a você e ao seu bebê. beijo!

  5. Amei o texto!
    E sim, a frase dos pinguins de Madagascar tb é o meu mantra de VIDA, não só pra maternidade!
    Bjs…