
eu dormia. e sonhava. sonhos malucos, como tive durante toda a gravidez.
mal sabia que este seria o meu último sonho antes do neném chegar.
nele, a ana paula, fotógrafa que faria as fotos do parto, dizia que sentia muitas cólicas quando amamentava o filho mais novo.
quando falava do filho, aparecia na minha cabeça uma imagem com a fotos dos dois filhos: o mais velho, já adolescente, e o mais novo, de dois anos (na vida real ela só tem uma menina). junto com a imagem, doía em mim a cólica que ela dizia sentir.
o sonho continuava e novamente vinha a imagem dos filhos, acompanhada da dor.
acordei.
pus a mão na barriga e fui ver: a cólica era minha.
no mesmo instante eu já soube que aquele era o início de um trabalho de parto.
eram 7h40 da manhã e virei para o lado, ainda sonolenta. fiquei num sono leve, esperando pela próxima. veio. depois de algum tempo, mais uma. e outra.
dezesseis minutos depois, pego o celular e começo a cronometrar. ao que tudo indica, estão vindo entre 4 e 7 minutos..
alegria. vontade de chorar. será que meu bebê chega hoje? quero sair da cama e sassaricar pela casa. mas assim que puser o primeiro pé fora da cama, o joca acorda (ele acordou às 6h da manhã com frio, veio pra nossa cama para dormir com a gente e por aqui continuou).
aguento até onde minha vontade de fazer xixi me permite. com o benjamin já acordando, abro os olhos e vejo hilan despertar também.
digo “prinz, já sei o que te dar de presente de dia dos namorados: um bebê!”.
hoje é 12 de junho.
lembrei de quando dei a notícia da minha gravidez.
havia acordado umas 7h da manhã e também me revirei na cama, morrendo de vontade de fazer xixi, mas sem querer acordar o hilan ao me levantar.
fui ao banheiro, fiz o teste e lá estavam as duas listrinhas.
voltei para a cama e ao deitar novamente, tremendo de emoção, fechei os olhos pra tentar dormir. na mesma hora o hilan abre aquele olho de quem já sabia o que eu tinha ido fazer.
sorri e senti que meus lábios podiam tocar minhas orelhas. fechei os olhos e enchi o travesseiro de lágrimas.
nós dois sabíamos o que aquilo significava.
volto ao tempo presente, levanto, vou ao banheiro e começo a arrumar a casa. hilan segue a onda.
tento esquematizar com o hilan que a prioridade é dar atenção ao benjamin.
entre café da manhã, idas ao banheiro, aspirador de pó e até uma lavadinha na privada, percebo que as contrações vêm de 4 em 4 minutos. melhor ligar pra parteira. e pra fotógrafa. deixo as duas de sobreaviso, para saber que o bebê chegará hoje. fico de avisar quando a frequência for maior.
lá pras 9h30 percebo que as contrações vêm bem compassadas, com intervalo de 2 minutos e 30 segundos, durando entre 30 e 40 segundos.
umas 10h20 começo a ativar todo mundo que já estava combinado de vir para minha casa: minha irmã – para ficar com o benjoca – a fotógrafa, a parteira e sua assistente (também parteira).
enquanto isso a arrumação da casa continua, benjoca brinca, eu fico de olho nos preparativos finais.
11h e já está todo mundo aqui.
minha irmã chegou com flores que perfumam a casa e água de coco para refrescar.

hilan sai pra comprar algumas coisas que estão faltando.
o parto é um semi segredo pra minha família. ou melhor, para os nossos pais (do hilan e os meus).
apesar de desconfiada que alguma coisa está diferente, minha mãe não suspeita que naquele dia sua filha dará a luz. ainda mais em casa (até porque no dia anterior passamos o fim da tarde e parte da noite passeando no shopping).
o dia está lindo, radiante! os dias anteriores foram frios e cinzentos, mas hoje o sol está esplendoroso, o céu azul. a vontade que dá é de ir para uma praia, mas acho que isso vai ter que esperar.
por conta disso, decido que vamos encher a piscina inflável (até então eu estava com uma preguiça monstra de um parto na água, por causa da logística que uma piscina inflável demanda).
aproveito para fazer uma piadinha no facebook. entendedores entenderão.

depois de um tempo, entreguei o celular na mão de uma das parteiras para ela marcar as contrações pra mim.
o trabalho de parto vai evoluindo no seu próprio ritmo.
quando o hilan volta da rua, parece que quer virar faxineiro e arrumar a casa inteira. percebo sua tensão e resolvo fazer uma caipirinha pra ele relaxar um pouco.
a cozinha está uma bagunça (pra variar) e eu tento não me importar com isso. mas ainda me pego pedindo desculpas pra todo mundo.



entre uma contração e outra eu agacho e deixo vir. sinto cada centímetro de dor, ouço o que meu corpo me diz. respiro fundo e sei que logo vai passar. e passa rápido. quando passa, volto às minhas atividades normais.













desapego-me do horário pra entrar no meu próprio planeta parto. tá na hora de desligar e seguir meus instintos.
algumas contrações vêm mais fortes e longas que outras.
a vontade que tenho é de fazer xixi o tempo inteiro. também quero fazer cocô. sei que na verdade é meu corpo pedindo pra mandar alguma coisa pra fora. e sei que não é só xixi e cocô que ele quer expelir.
depois do xixi, percebo um sangue: o tampão saiu! chamo a parteira e mostro pra ela. ambas sabemos o que nos aguarda.
tomo um banho não para aliviar as contrações, mas pra me sentir limpa. chegou a hora de entrar na piscina.
bem antes disso o benjamin já estava fascinado com a piscina. enquanto enchia ele entrou, brincou com seus brinquedos, fez a maior bagunça. depois saiu um pouco e ficou esperando a hora em que a mamãe entraria também.



e lá vamos nós. vem, filho, entra comigo! quem sabe você não me ajuda a receber nosso bebê?

a água está bem quentinha, boa para aliviar as contrações. na verdade, mais quentinha do que eu gostaria que estivesse.
percebo todo o clima de parto que toma conta da sala e da varanda, onde está a piscina.
aquele ambiente de chá das cinco toma cara de algo mais sério, apesar de todas as brincadeiras e diversão do benjoca.
percebo as janelas da varanda fechadas, para o caso do bebê nascer por ali. todo mundo sentado no sofá, como quem espera alguma coisa mas não espera tanto assim.
entre as contrações alterno entre o planeta benjoca e o planeta parto. o hilan entra também. é um momento gostoso que, apesar de terem outras pessoas por perto, é única e completamente nosso.



me oferecem comida e líquidos a todo o tempo. marido pediu almoço, mas não quero sentir cheiro de feijão de jeito nenhum. alguém me dá uma saladinha?
enquanto eu estou na água, minha irmã me serve na boca uma salada deliciosa.
não tem preço receber um cuidado de alguém que te viu nascer, crescer, compartilhou tantos momentos importantes da sua vida e agora está ali, ao seu lado, te dando força.


mas fico com muito calor e sei – sempre soube – que não é na água que esse meu bebê vai chegar.
volto para o banheiro e sinto muita vontade de fazer força. fico fechada lá por um tempo. saio com uma banqueta de parto que tinha usado no chuveiro. eu acho. ou isso foi antes de entrar na banheira?
quando opto pela banquetinha, começam a colocar um monte (eu disse um.mon.te) de tapetinhos daqueles de cachorro fazer xixi no chão da sala. elas tão achando que o tov bebê vai nascer aqui. será? eu ainda não acho.
a parteira pega um espelho e me mostra: tá tudo aberto. vejo a bolsa inteirinha ali.
é um alívio muito grande ter as contrações sentada ali. e eu já faço muita força. mas quando elas passam, me sinto cansada e com a barriga dolorida. vontade de deitar.
tento ficar de quatro, apoiada no sofá. agacho no chão. volto pra banqueta. não consigo encontrar posição.



quero meu quarto. quero minha cama. quero minha almofada de barriga e meus travesseiros.
e dá-lhe tapetinhos de cachorro antes de eu deitar.
ali sou só eu, o bebê e a barriga.
sei que todo mundo está vendo. percebo o hilan ao meu lado. ouço o benjamin e minha irmã ao pé da cama.
sei que as parteiras e a fotógrafa estão em algum lugar, mas não sei onde.
ninguém me incomoda. me sinto rodeada de cuidado e amor.
resolvo olhar no relógio da cozinha: 2:27 (da tarde).
me perguntam se quero que o benjamin saia (ele não para de tagarelar, pra variar). no que vou dizer que não, que quero que ele presencie (se for da vontade dele), ele diz que vai cantar uma música para o bebê chegar:
“que o Senhor te abençoe e guarde a tua vida; resplandeça o seu rosto sobre ti.
o Senhor te abençoe, sobre ti levante o rosto, misericórdia tenha e te dê a paz.”
uma contração atrás da outra. tento ficar de quatro, como um cachorro mas, como quero ficar deitada entre uma contração e outra, perco o ânimo de mudar de posição o tempo inteiro.
deito e ponto.
sinto vontade de dormir.
a vontade passa na mesma hora que a força vem.
parece muito uma dor de barriga bem forte. parece quando a gente quer fazer cocô e o cocô tá entalado, sabe? e a gente fica com medo de fazer força demais, porque senão o cocô pode ficar atravessado, metade pra fora, metade pra dentro.
mas conto pra mim mesma que muito melhor que cocô, o que está saindo ali é um bebê. por um canal diferente. com uma força diferente. que eu não preciso ter medo. que a hora está muito próxima.
consigo visualizar tudo na minha mente: a saída da vagina, o bebê lá dentro. sinto cada milímetro meu.
estou deitadinha de lado, como uma vaquinha que tem seu filhote no meio do pasto.
quando a contração vem, eu só levanto a perna e empurro.
em uma dessas forças intensas, sinto um líquido sair. não sei se é líquido da bolsa ou sangue. esperava que minha bolsa rompesse num estouro.

em algum momento ouvi a parteira falar sobre estar vendo o cabelinho.
aquilo me deu tanta, mas tanta esperança e alegria que eu fiz força. uma força muito grande, muito comprida.
uma força de quem traz o amor ao mundo.
uma força intensa, sobrenatural, que parece não vir de mim.
sinto uma dor na passagem, no períneo, como se quisesse vestir um casaco de gola apertada e não conseguisse.
dói, arde, sinto vontade de gritar.
aperto meus travesseiros, coloco a cara neles e urro como um urso.
um urro de urso que ensinei o benjamin a fazer quando estivesse difícil de sair o cocô.
fiz o urro da ursa mãe.
não sei como, mas tenho a impressão de ter ouvido o benjamin comentar alguma coisa muito vaga sobre esse barulho do urso e alguém explicar pra ele o que está acontecendo.
não sei se isso dura segundos ou minutos.
mas, no meio da dor mais insuportável do mundo, daquele círculo de fogo sem fim, sinto um alívio.
sei que a cabeça saiu. num momento meio contínuo, vem mais uma força e sei que agora está passando o ombro e… pluft! escorregou!
não sei se o resto do líquido só foi sair junto com o bebê, mas pareceu.
sabe toboágua? aqueles super altos, escuros, de túnel, que a gente sobe a escada tremendo, sem saber se é de frio – porque já está molhado da piscina – ou de medo de encarar aquilo tudo? cada degrau que a gente sobe é um frio na barriga que aumenta.
quando a gente chega lá em cima e vê a pessoa na nossa frente descer, sente medo e pensa em desistir mas, num lapso de coragem, entramos assim mesmo.
vem aquele pensamento de “eu devo estar louca. só posso” e mesmo assim a gente vai. no momento em que se entra no túnel do toboágua, não dá mais pra voltar.
a sensação de medo e delícia se misturam. uma adrenalina louca toma conta da gente. tem gente que grita, tem gente que ri, tem gente que faz piada e tem gente que não emite um pio. quando fica tenso e parece que não vai mais acabar, vem a luz. aqueles segundinhos finais são a mistura perfeita do medo com o alívio.
e aí passou. a gente cai na água, deliciado, com vontade de ir de novo.

meu bebê saiu do toboágua. eu experimentei todo o alívio do fim de um parto.
toda a alegria de, na mesma hora, receber meu bebê nos meus braços.
que coisinha mais pequena!
assim que chegou ao meu colo, embrulharam com uns paninhos.
não sei quanto tempo durou aquele momento, mas pareceu eterno.
saiu de mim e volta pra mim.
as lágrimas não vêm. a adrenalina é intensa demais. mas devoro cada instante, transformo o presente em memória, pois não quero nunca na vida esquecer deste momento tão especial.
a grande dor passou. alguma dor permaneceu.
hilan ficou maravilhado. benjamin e tia lalá vieram ver.





o cordão é curtinho e fica bem espichado, impedindo que eu traga meu bebê para perto do meu rosto.
a parteira pergunta se eu sinto que a placenta vai sair. ainda não. opa. pera. agora acho que vai.
digo que vou trazer a placenta. micro forcinha de nada e pluft! saiu.
ela é pequena, como o cordão e o bebê.
fico ali, flutuando naquele tempo maravilhoso que não parece ter fim.
sinto uma ardência. vejo a placenta ir para um potinho ao lado do bebê e ali ficamos.
converso com alguém, olho no relógio, mas não consigo ver direito. aí vejo que são 2:40 e alguma coisa. ainda?
que horas nasceu? 14h35.
tudo isso, toda essa história de vida, aconteceu nessa fração de minutos?
“bem vindo ao mundo, meu bebê! eu sou sua mãe!”
e tento colocar o bebê, que quase não chora, no meu peito.
meu bebezinho fica quietinho, só me cheirando, mas não chega a mamar. tenta abrir os olhos, mas está muito claro.
cubro com os paninhos e deixo ali, num ambiente ainda só dele, pertinho de mim e do meu cheirinho.
lá embaixo ainda arde, eu sinto que ainda tem coisa saindo de dentro de mim. sangue, líquido, sei lá.
no meio disso tudo, conversas e mais conversas.
depois a parteira constatou uma pequena laceração no períneo. tão pequena que quase passou desapercebida. não levei nenhum ponto, graças a deus.
depois de um bom tempo, resolvo ver quem é essa criança que eu trouxe ao mundo.
afasto com cuidado suas perninhas com a certeza de quem vai encontrar um pintinho e um saquinho rosa. mas só vejo algo rosa.
revelo a maior surpresa de todas: é uma menina!


não sei se chorei, mas por dentro meu coração irradia uma felicidade que parece não caber em mim.
é como se, neste instante, algo mudasse minha vida para todo o sempre, sem ao menos saber que ela já estava sendo mudada esse tempo todo.
em algum momento me deixam sozinha com ela. eu, minha filha, minha cama, meus travesseiros e meus lençóis.
olho pra esse ser tão perfeito ali comigo e finalmente choro.
quanto amor! quanto amor! te amei naquele instante, filha, e pra sempre te amarei. no fim dos meus dias, até a minha eternidade.
é um sentimento de plenitude muito grande como se ao mesmo tempo em que estamos só nós duas, uma presença divina se condensasse ali. anjos, arcanjos, querubins, serafins e o próprio deus. como se eu tivesse sido elevada para uma outra atmosfera.
como se uma luz irradiasse de dentro daquele quarto, pra iluminar o mundo inteiro.
mais uma vez, bem vinda!

mais um tempo se passa. na verdade, já são quase 17h e vamos cortar o cordão, que já parou de pulsar e começa a secar.
papai e benjoca se preparam para, juntos, fazerem isso.
empolgado, joca quer colocar luvas e participar de tudo.

cordão cortado, é hora de medir e pesar: 2,95 kg e 47 cm. uma miudeza fofa!



com a ajuda do irmão, ela é limpa e o papai coloca a fraldinha e sua primeira roupa.





ficamos juntos por mais tempo.
me limpam, trocam a roupa de cama e eu ponho uma outra roupa.
minha irmã comprou açaí pra mim, mas só tenho vontade de comer coisa salgada e beber muita água.
telefono para minha mãe e peço pra ela vir me visitar, que quero dar um presente pra ela e que precisa ser hoje.
ela vem, desconfiada.
quando chega, é recebida pelo hilan com a pequena nos braços. surpresa, abraços e uma mãe que não acredita no que vê.
e eu, da minha cama, assisto tudo.






na minha cama, desenhada e feita pelo meu pai.
com a roupa de cama que ganhei da minha mãe de presente de casamento, há mais de 6 anos.
na cama onde minha filha foi concebida, onde dei ao hilan a notícia de que ele seria pai pela segunda vez.
na cama em que amamentei o benjoca por tantas noites e amamentarei nossa filha por mais outras incontáveis.
uma cama que carrega uma história e presenciou a chegada de uma vida.
nesta mesma noite dormiremos juntos na nossa cama bebê, papai e eu, deitada sobre o tapetinho do cachorro (que é pra não perder a piada).

* * *
minha gratidão eterna às parteiras paloma terra e iara silveira, que foram tão amorosas e profissionais quando precisavam ser.
à ana paula batista, que registrou de forma tão incrível e visceral o momento mais marcante da minha vida.
à minha irmã laura, que cuidou de todos nós de uma forma tão incrível e fez o benjoca se sentir tão feliz e seguro nessa hora (e também à minha irmã marta e minha mãe daisy, que sei que estavam com a gente no coração).
ao meu filho benjoca, que nos trouxe – e traz – tanta luz, bênção e alegria. você é um constante instrumento de deus entre a gente.
à minha filha que já nasceu forte e guerreira. uma pequena que já chegou com a força de uma loba gigante.
ao meu marido, companheiro, amigo, parceiro, namorado. meu apoio, meu consolo, minha força e minha fraqueza. meu amor, eterno amor.
e principalmente a deus, o autor da vida. que me trouxe força e coragem, que me guiou em todo instante, acampou seus anjos ao redor e dentro de nossa casa. que trouxe luz e serenidade a essa pequena guerreira e nos enche sempre de amor e paz.
a ele toda honra, glória, reino, poder e força.
porque dele, por ele e para ele são todas as coisas.
hoje ganhamos o presente de dia dos namorados mais lindo de todos: nossa filhinha nasceu!
isso mesmo. uma menina!
após 6 horas de trabalho de parto e menos de 10 minutos de expulsivo, ela nasceu na nossa casa, na nossa cama (a mesma em que foi feita. ahahah!), na companhia do papai, do irmão (um baita irmãozão!) e da maravilhosa equipe que nos acompanhou.
nasceu com 2,95 kg e 47 cm.
e o nariz é mesmo muito diferente do do benjoca!
qualquer coisa desculpem o sumiço. vocês entendem, né?
eheheh.
fotos e um relato mais completo num futuro não muito distante.

quando se está grávida – especialmente do primeiro filho – parece que brotam “necessidades” que nunca antes pensamos que precisaríamos: babá eletrônica, kit de berço, trocador, cômoda… tudo isso é realmente imprescindível?
afinal, do que realmente precisa um bebê?
antes de mais nada, quero dizer aqui que adoro preparar as coisas para a chegada do bebê. idealizar o quartinho, pensar no que combina com o quê.
mas realmente há muita coisa sendo vendida como essencial que não passa de futilidade.
como sou sempre a favor da linha do equilíbrio, recomendo a leitura paralela deste texto, que escrevi há um tempinho.
cada um sabe da sua necessidade e até de seus sonhos de oferecer o melhor para o seu bebê.
por isso, decidi fazer uma lista bastante pessoal com itens necessários ou não no quartinho de um bebê:
- babá eletrônica: dispensável, especialmente se você mora em espaço pequeno.
apesar disso, ela pode ser bastante útil se você, por exemplo, mora em uma casa grande, com muitos cômodos e corre o risco de, por causa da distância, não ouvir o choro do bebê. mas aí também tem que ver, porque se a casa for grande demais, você vai precisar de uma boa babá eletrônica com um alcance sensacional. do contrário ela pode perder o sinal ou, pior, dar interferência e você captar barulhos estranhos de outros lugares (acredite. acontece).
mas se você vai dormir no quarto ao lado e faz uso da babá eletrônica por medo de não conseguir acordar ao bebê chorar, acredite: você vai acordar, mais cedo ou mais tarde. não se preocupe.
a babá eletrônica cumpre sua função, mas dá pra se virar sem. já aquelas com vídeo eu acho completamente dispensáveis.
- guarda roupa: você precisa de um lugar para guardar as roupas do seu bebê. fato. mas acho que muito melhor que um guarda roupas pequeno, pomposo e especializado para bebês é você já ir atrás de um normal, com muitas gavetas e lugares para pendurar as roupinhas, macacões e vestidinhos.
armário é armário. e, já que menino cresce, o ideal é ter um normal mesmo, um pra usar por um bommmm tempo.
- cômoda: é bom ter. não chega a ser indispensável mas, se você tiver espaço no quarto, é bem prática. a vantagem é que gavetas são ótimas para organizar e você também pode usar a parte superior da cômoda como espaço para trocar a fralda do bebê.
a desvantagem é que você tem que ficar agachando para pegar as coisas nas gavetas mais baixas, o que às vezes pode ser cansativo.
para evitar que, ao crescerem um pouco, os bebês abram as gavetas e façam aquela bagunça, você pode retirar os puxadores. funcionou aqui em casa.
minha dica é: se você tem espaço e um bom armário, de repente pode até dispensar a cômoda. já vi, inclusive, projetos onde o trocador fica dentro do guarda roupas. você abre a porta, tem um lugarzinho especial para fazer a troca, e depois fecha a porta, ficando tudo guardadinho ali.
- trocador: é bom ter. se você vai usá-lo em cima da cômoda ou num móvel mais alto. é uma mão na roda, especialmente se você deixar tudo que precisa à mão: fralda, algodão, lencinho, etc. facilita bastante na hora de trocar e você fica com aquele espaço reservado para tal. mas aqui em casa não tivemos e não morremos. trocávamos em cima da cama mesmo.
- kit de higiene: completamente dispensável. claro que você precisa do básico na hora da troca da fralda. mas gastar cem, duzentos ou sei lá quantos mil reais por um kit com cestinho de vime, potinhos temáticos de algodão, cotonete, garrafa térmica… peloamordedeus!
aliás, sejamos práticos: também acho garrafa térmica dispensável. você pode ter uma garrafinha qualquer e colocar água normal para molhar o algodão.
com o calor que se faz aqui no brasil na maior parte do ano, a água nem precisa estar quente para limpar o bebê, a não ser que ele nasça naquele inverno. aí você pode se valer da garrafa térmica, mas com certeza pode encontrar uma que valha menos que cem reais.
montei o kit do benjamin com potinhos de vidro (pote de mel, de geleia, etc): um para algodão, outro para cotonetes e deixava à mão o que mais achasse necessário (fraldas, lencinhos, cotonetes para limpeza do umbigo).
você pode decorar os potinhos com tecidos coloridos, papel contact estampado, adesivos ou o que mais sua imaginação permitir.
se quiser, também pode comprar aqueles kits básicos de banheiro, que vem porta algodões, cotonetes e dispenser de sabão e usar o dispenser para colocar a aguinha. sai bem mais em conta.
- quadrinhos e decorações: para o bebê é inútil, a não ser que você coloque à vista dele. entendo que alguns pais queiram colocar quadrinhos com a marca do pezinho, fotos de gestante, pulseirinha da maternidade, fotos do recém nascido e por aí vai.
lembranças sempre são válidas. mas não esqueça que o quarto é do bebê. o melhor seria deixar para decorar coisas que ele possa ter acesso visual, como quadrinhos seguros e bem fixos próximos ao chão, à altura da vista da criança.
as lembranças que você não quer deixar de ter podem ser espalhadas pela casa, criando uma memória bem mais interessante: no hall, no seu quarto ou até mesmo na sala, para compartilhar com as visitas.
- kit/protetor de berço: além de dispensável, pode ser perigoso para o bebê.
são aquelas almofadinhas que se amarram por dentro, às grades do berço, para que ele não bata na grade enquanto rola. ou, sei lá, pra que não prenda braços e pernas nas grades. nunca entendi direito.
nos estados unidos, há um movimento para que seja proibida a venda dos protetores.
no brasil, a sociedade brasileira de pediatria também desaconselha seu uso.
além de acumular poeira, ácaros, etc – o que pode prejudicar a saúde respiratória do bebê – há também o risco de morte por asfixia. o mesmo serve para travesseiros.
aqui não tivemos e não teremos. economize os 300 ou 500 reais que você gastaria com um desses em algo que valha realmente a pena.
- berço: facilita demais a vida dos pais. mas apesar de ser tido como item básico e primário na lista de enxoval da maiora dos brasileiros, também pode ser dispensado.
aqui em casa o segundinho não terá um berço propriamente dito. mas acho seu uso válido e muito prático.
apenas tome cuidado porque alguns bebês, ao crescer e aprenderem a ficar em pé, tentam pular a grade do berço. mesmo que ele seja regulável e você coloque o estrado lá embaixo, há alguns espertinhos que dão conta de fazer o prison break do mesmo jeito, especialmente se o berço tiver protetor, que acaba virando uma escadinha que ajuda na hora da fuga.
- poltrona de amamentação: no primeiro filho eu achava a coisa mais trambolhenta e inútil da vida. até que depois de um tempo usei uma dessas na casa de alguém, ou em algum fraldário. achei a coisa mais maravilhosa do planeta.
apesar de não ter tido grandes problemas na amamentação em si, minhas costas doíam bastante. e assim prosseguiu até os 2 anos e 3 meses do benjamin, quando ele desmamou.
nesse caso, uma poltrona teria sido bem vinda, principalmente porque logo terei mais um para amamentar e, se deus quiser, um terceiro. ou seja, uma poltrona pra ser usada por, sei lá, mais uns 5 ou 6 anos, vai ser bastante proveitosa.
mas se você pretende amamentar por pouco tempo, nem se dê ao trabalho.
- almofada de amamentação: útil, se você usar a almofada certa. no começo usei uma feita de espuma viscoelástica (essas da nasa) e super curtinha. não curti. na verdade mais atrapalhou que ajudou. depois ganhei uma de uma amiga, de espuma comum, naquele formato mais tradicional, que parece um U. a almofada “abraça” toda a sua cintura e dá apoio aos seus braços e ao bebê. especialmente quando ele é pequenininho e a postura certa influencia muito no modo como será feita a “pega” do bebê no peito.
ma boa postura, inclusive, pode definir a sua relação com a amamentação.
por isso, na minha opinião de defensora do aleitamento materno, vale muito a pena investir em acessórios para amamentação, se isso for te proporcionar conforto neste momento tão especial – principalmente pra quem teve um bebê tele sena como o meu, que mamava de hora em hora e ficava pendurado no peito por um bom tempo.
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benjoca e o seu talento para decorar melodia das músicas.
mas calma! ele não vê game of thrones, tá? ele sabe a musica por que é o toque de celular da luíza. hehe

to sensívi.
to sensivi demais.
fui reler um texto normal que tinha a.ca.ba.do de escrever. reli e chorei. chorei por quê? porque é muito emocionante.
ainda terminei o texto me auto elogiando: você escreve muito bem, luíza.
ué. se eu não me elogio e gosto de mim mesma, quem mais vai fazê-lo?
aí o benjamin perguntou: “papai hilan, você vai trabalhar?” e quando ele respondeu que “agora não”, o menino soltou um longo ebaaaaa! e começou a pular. os olhos meus todos cheios dágua. ai, pera, deve ter sido só um cisco.
na sequência, o tov sentou na minha frente e ficou só me olhando. olhando. olhando. com aqueles olhos esbugalhados dele que não te passam muito sentimento de dó ou piedade. com aquela cara esquisita que ele tem e os olhos cheios de remela de quem acordou há pouco. eu, o quê? me emociono, ué. olha que lindo esse cãozinho! eu tenho um cachorro! que coisa linda!
* * *
emoções à parte, semana passada estava na casa de uma amiga.
aí, claro, fui ao banheiro – meu lugar predileto em todos os lugares que visito ou frequento.
fiz lá meu xixizinho habitual e, quando me direciono à pia para lavar as mãos, uma surpresa ao me olhar no espelho: nossa! como minha blusa está espichada na barriga! como eu estou barriguda! eita! estou grávida!
gente, eu e.s.q.u.e.c.i que estava grávida. simples, ué. o que são 8 meses diante de 28 anos de existência?
primeiro eu estranhei, como quem dormiu por trocentas semanas e acordou em uma realidade de vida nova.
aí eu achei bonito e admirei aquela redondeza toda. por fim lembrei que, de fato, tem um bebê na minha barriga há um bom tempinho, já.
ufa!
* * *
a varanda aqui de casa é cercada com blindex. aquele vidrão que fecha tudo, sabe?
aí o benjamin – que anda fissurado por caminhões de lixo – queria ver um caminhão que passava lá fora.
expliquei que ele poderia ver, mas com a janela fechada, porque amanheceu frio e tava um vento muito forte na cara dele.
fechei o vidro e perguntei: “dá pra ver o caminhão assim?”
fui tentar ver o caminhão e paft! meti a testa com toda vontade no vidro que tinha a.c.a.b.a.d.o de fechar.
quem foi que colocou esse vidro aqui no meio se eu tinha acabado de olhar lá fora e ele não estava aqui?
o benjoca nem percebeu, mas o marido viu de longe e desatou a rir.
agir naturalmente, né? tem outro jeito?
* * *
dedico este post a mim mesma, que completo 38 semanas hoje.
nunca estive tão grávida na minha vida!

a natália nishi, leitora do blog, mandou um e-mail pra gente:
“por favor, preciso de um novo post URGENTE: coisas que não dizem a uma grávida de segundo filho… AAAHHHHH! lú, tem como ficar calma com isso? beijos e parabéns pelo blog.”
seu pedido demorou, mas não falhou. lançamos a pergunta no facebook do blog e tivemos quase 100 comentários.
abaixo segue nossa seleção dos melhores:
1. “tomara que seja uma menina, pra fazer um casal” (no caso de você já ter um menino. e vice-versa) - eu lá quero formar pares pelo mundo?
2.“ai, já vai se preparando porque ele vai regredir em muitas coisas. voltar a fazer xixi na cama, usar chupeta…” um blablablá sem fim
3. “será que dessa vez vai parecer com você?” - com o padeiro é que não pode parecer, né?
4. “outro? já? na sua casa não tem TV, não?” vontade de responder: tem sim! assisto filme pornô o dia inteiro com o marido!
5. “vai ligar?” respondo: “vou, pra avisar que está tudo bem…”
6. “o bom é que já cria os dois juntos, né? …” não, vou criar cada um num canto pra nunca se encontrarem!
7. “já vai ter o segundo? ele nem tem todos os dentes ainda!” alooo e precisa de dentadura agora pra ter irmão ?
8. “já sabe que seu tempo era curto. com dois fica inexistente!”
9. “vai montar um time de futebol?”
10. “ah, outro menino? que bom, vai ganhar um amiguinho” como se fossem ser rivais se tivessem sexo diferente…
11.“que bom! agora você vai ficar com o bebê e deixar o grande só comigo “ JURAAA?!
12. “ai, coitadinho! já vai perder o reinado!”
12.2 (tive que ouvir de uma vizinha): “que bom. você escolheu a hora certa para ter o segundo!” eu, em minha impaciência gravídica, não me aguentei e respondi: e por acaso existe hora errada para ter um segundo filho?
<bônus> para o(a) primogênito(a): “você vai ajudar a sua mãe a cuidar do irmãozinho, né?”
conheça outros posts da série coisas que não se dizem:
e também:

moramos em um apartamento de dois quartos. e como fica isso com a chegada do bebê?
simples. o mais velho e o mais novo irão dividir o mesmo quarto. ué.
a logística é que anda meio complicada, visto que o espaço não é muito grande.
não sei se todos sabem, mas sou adepta de algumas coisas montessorianas, quando o assunto é pedagogia e adaptação da casa para os filhos.
e a pedagogia montessori propõe que tudo seja acessível à criança e ao bebê (dentro, claro, do limite de segurança deles).
inclusive é sugerido que os bebês não fiquem em berços, porque as grades impedem a mobilidade da criança de ir e vir pelo quarto, que é para os pequenos, não para os adultos.
pra mim, tudo isso é muito ótimo, porque sinceramente acho que certos quartinhos chegam a beirar o cafona com tantos quadrinhos, prateleiras e ursinhos pela parede, protetores de berço pomposos.
quarto de criança é quarto de criança e ponto final.
imagine agora você no lugar do bebê. aprendendo a rolar, engatinhar, andar. você acorda e está cercado de grades. acessa um brinquedinho que talvez tenha ficado no seu berço. brinca um pouco, olha as coisas ao seu redor. o que será que tem naqueles quadrinhos tão altos? você não consegue distinguir. e quem são aqueles na foto? tá tão longe.. puxa, tem uns bichinhos de pelúcia que parecem legais, mas o que eles fazem naquelas prateleiras? não seriam para eu brincar?
aí você se cansa. tédio. fazer o quê? chamar a mamãe ou o papai, claro. quem sabe se você der um choradinha eles venham até mais rápido.
ou, segunda situação, você acorda. rola da sua cama e vai para o chão. hummm… que tapete macio e gostoso de passar a mão. acho que vou ficar deitado um pouco nele. opa! o que é aquele negócio? tem outro bebê atrás dele? eita, ele faz tudo o que eu faço. até ri pra mim. mamãe disse que o nome disso é espelho.
engatinha um pouco mais e lá está um brinquedo bom de mastigar. olha! também tem um livrinho. deixa eu ver o que está desenhado nele. esses quadros também parecem interessantes, vamos ver. depois de muito tempo, aparece a mamãe. oi, mamãe! tava me divertindo aqui um pouquinho. não precisava se preocupar comigo não.
pois é. essa segunda situação parece muito mais legal, né?
demorei a começar essa história de colchão no chão com o benjamin por puro medo de dar liberdade demais pra ele mas, quando o fiz, não me arrependi. ele ficou muito mais feliz e independente após isso.
e não apenas nosso quarto, mas a casa toda tem partes acessíveis para o pequeno.
para o segundo será ainda mais legal, porque ele terá isso desde novinho.
acredito que, mais que um lugar para dormir e morar, o quarto e a casa são um espaço para o aprendizado.
o berço que era do benjamin foi, na verdade, herança familiar: era do primo mais velho, passou para o benjoca e agora vai foi para o sobrinho do primo. berço nenhum sobrou para contar história. e como desde muito pequeno sua cama resume-se a um simples colchão, achamos que agora era a hora de dar um upgrade.
como iremos fazer caber dois num quarto de nem 5 m²? com o bom e velho beliche.
claro, adaptado para a realidade de um bebê e um menino de quase 3 anos de idade.
tenho a maravilhosa sorte de ter um pai que faz essas coisas pra mim (ele que fez minha cama, mesa e cadeiras de jantar, criados mudos e mais muitas da coisas da casa). ele é o rei da madeira, então sei que o beliche dos netos estará em boas mãos.
o beliche é uma coisa meio engenhosa, que renderá um post à parte, mas por enquanto já adianto que meus filhos terão onde dormir. e estarão seguros. aguardem.
ok. eu sei que já tá hiper mega em cima da hora pra os meninos ainda estarem assim, meio sem quarto, mas estou relax porque já decidimos que os primeiros meses do bebê serão aqui no nosso quarto mesmo, para facilitar a amamentação, as acordadas noturnas e até pra ajudar o benjamin a se adaptar ao choro do bebê, que provavelmente será constante.
ou seja, será uma adaptação gradual.
e se o benjamin ficar enciumado do irmão/irmã dormir no quarto dos pais e ele não?
aí, gente, eu trago ele pra cá também, nem que a gente coloque o colchãozinho dele no chão do quarto. assim, todo mundo fica feliz. e junto.
mas parte da adaptação já começou: semana passada terminamos de pintar o quarto deles. fizemos uma parede de duas cores, pintamos a porta do quarto com tinta de quadro negro, para o benjoca poder desenhar com giz branco.
ele amou! disse que o quarto dele e do irmão/irmã está bem mais bonito.
um dia desses me falou: “mamãe, eu estou muito feliz com meu quarto novo!” e no outro disse que uma cor da parede era ele e a outra era o bebê.
diz aí se não é um barato?!
nem eu esperava uma reação tão legal da parte dele.
sobre definir qual espaço pertence ao mais velho e qual pertence ao mais novo, estou meio relaxada também. não no sentido relapso da palavra, mas no sentido sossegado mesmo.
li diferentes linhas pedagógicas sobre o quarto dividido entre duas crianças.
uns defendem que o espaço de um e outro deve ser bem nítido, para que a criança não se sinta meio deixada de lado.
eu já sou mais adepta da linha socialista de que aqui em casa tudo é de todo mundo.
benjamin come e bebe com copo e talheres da casa. não tem isso de coisa de plástico, só pra criança. e vou te contar: ele cuida muito melhor da louça do que eu que, grávida, já devo ter quebrado uns 3 copos em menos de 1 mês.
claro que, por ele ser criança e nós, adultos, há muita coisa de adulto que ele não tem tanto acesso, como nossas roupas (óbvio), shampoos, cremes, alguns livros e algumas comidas. mas também não deixamos a casa toda a prova de crianças a ponto dele não poder mexer em nada e ficar meio deslocado dentro do próprio espaço. afinal, a nossa morada é de uso comum.
é assim… o hilan fala que eu sou hippie e nem sei disso.
talvez seja mesmo, a depender do conceito de hippie. mas é que prefiro deixar as coisas acontecerem naturalmente, sem grandes imposições e expectativas, a ficar sempre no “meu, meu, meu”, “compra, compra, compra”. a gente empresta aqui, doa acolá e assim as coisas vão se ajeitando.
claro que o caçula terá suas próprias coisas, como roupas minúsculas, fraldas e outros itens que são reservados unicamente a bebês.
ele terá seus próprios brinquedos, mas nada impedirá que o benjamin também faça uso de alguns deles, desde que com cuidado para não sujar ou estragar.
o contrário também é válido. o bebê poderá brincar com os brinquedos do benjamin, mas se ele se opuser a algum predileto, vamos negociar para que aquele seja o brinquedo só dele, desde que não fique ao alcance do pequeno e ele cuide pessoalmente para que isso aconteça.
o benjoca já está ciente de que o bebê vai usar algumas coisas que eram dele, mas a verdade é que nem todas as coisas do benjamin foram dele de primeira mão. pertenceram a um primo ou prima ou mesmo amigo. a ele foram dadas e agora é hora de passar adiante.
o desapego é constantemente trabalhado aqui em casa. desta vez terá um foco maior, com a chegada do bebezinho.
acho que precisa haver um equilíbrio.
nem o mais velho deve achar que de repente perdeu o espaço para um bebê que tomará toda as suas coisas, atenção, colo e brinquedos e nem ele deve ser super protegido e lotado de coisas para compensar a chegada de um pequeno.
o que tem sido trabalhado aqui em casa é que ele ganhará um companheiro.
assim como a mamãe não dorme sozinha – ela tem o papai – logo ele terá um bebê em seu quarto. mesmo que demore um pouco, depois que esse bebê crescer um tanto, eles poderão brincar e, além de um irmão, benjamin ganhará também um amigo.
claro que, falando em teoria, tudo parece ser muito simples.
claro que eu imagino que tudo pode dar muito errado também.
sei que, como mãe, vou errar bastante. não espero acertar em tudo.
mas decidi ouvir minha consciência materna e o jeitão do benjoca para fazer essas adaptações.
a gente vai dançando conforme a música e, assim, torcemos para que tudo se ajeite no fim das coisas.
é. talvez eu seja mesmo um pouco hippie.

agora sim, um texto decente sobre as últimas semanas da gravidez (o da semana passada foi mais pra mostrar a montagem que o marido fez. eheheh!).
agora, nesta reta final, pude perceber que não teve jeito: eu desenvolvi minha segunda gravidez à sombra da primeira.
ser grávida de segunda viagem me ajudou em muita coisa, mas acabou por atrapalhar em outras.
porque por mais que eu sempre diga que cada gravidez é uma e cada filho é um, esperei que meu corpo reagisse da mesma maneira a situações semelhantes.
exemplo disso foi o que aconteceu quando eu estava com 35 semanas: passei 4 dias tendo algo muito parecido com as cólicas menstruais que costumava ter antes de engravidar do benjamin: dores no baixo ventre que irradiam para a coluna lombar.
senti isso também na gravidez do benjamin, 4 dias consecutivos antes dele nascer. sendo que, no quarto dia, entrei em contato com a médica, que fez o toque e constatou: 3 centímetros de dilatação. 9 horas depois ele nascia.
por isso, quando – 2 semanas atrás – vi que as tais cólicas estavam muito parecidas com aquelas e que aconteciam há 3 dias, já bateu um desespero: e se esse bebê vier antes do tempo?
aí eu me toquei do outro erro: achar que necessariamente, porque o benjamin nasceu de 37 semanas, o segundo também nasceria.
me planejei toda pra isso, como se fosse uma espécie de regra.
passado o susto e depois de conversar com a maravilhosa médica – que me tranquilizou totalmente – coloquei algo na cabeça: este bebê é diferente. esta gravidez é, de fato diferente. eu já venho sentido isso desde o começo.
naquela eu não enjoei. nesta, não tinha vontade de comer nada (até hoje alguns enjoos se manifestam).
naquela meu rosto, colo e costas se encheram de espinhas. nesta, só um pouco.
naquela eu enlouqueci com doces. nesta, metade de um bolo já me deixa estufada (salvo momentos de insanidade).
naquela eu engordei um pouquinho. nesta, estou me sentindo uma magrela.
naquela eu já estava com a cara bem inchada lá pelas 34 semanas. nesta, me sinto com cara de caveira.
naquela eu sentia meu benjoca como um bebê mais agitado. nesta – apesar do bebê mexer bastante – creio que seja uma criança mais tranquila.
naquela, com 37 semanas, eu me sentia como uma velhinha bravia e enclausurada. nesta, quero amar e abraçar o mundo (apesar de também ter meus ataques antissociais, mas que passam). quero botar o pé na rua, fazer mil coisas ao mesmo tempo.
e tantas, tantas coisas que se distinguem uma da outra!
aí encontrei uma citação que anotei na minha gravidez anterior e transcrevo aqui agora:
“a placenta, que não deixa passar as bactérias, deixa passar a adrenalina. essa substância, que se espalha no sangue sob o golpe da emoção boa ou má, atravessa com facilidade a placenta. nos dois sentidos. desse modo, o bebê e a mãe estão continuamente imersos no mesmo sumo emocional. qual dos dois começou? nada prova que o feto não seja capaz de comunicar ele mesmo suas emoções à mãe e indicar-lhe quais são seus desejos e preferências, influenciar de dentro os gostos e comportamentos maternos durante a gestação.” (thérèse bertherat. do livro quando o corpo consente).
lembro que quando li este trecho pensei: é isso! alguém falou o que lá no fundo eu já acreditava. e me apeguei a esta teoria, acreditando que não apenas nós gestamos o bebê mas ele, de certa forma, nos gesta como mãe.
e aceitei, abracei e relaxei.
deixei este bebê desde já me ensinar a ser mãe outra vez.
e quer saber? sosseguei e agora acho que ele ainda vai ficar mais um pouquinho na minha barriga.
e estou aqui, feliz da vida.